Autor: Eduardo Quive

  • A estranha voz que fala no barulho do mundo

    “Voz, já te oiço”, revela Suzy Bila, na exposição que inaugurou no sábado, 11 de Maio, na Galeria Arte de Gema em Maputo. Uma afirmação corajosa que só pode vir de quem caminhou sobre pedras até encontrar esse lugar que de tão remoto, várias são às vezes que não se chega ou tarda-se a chegar. Mas onde será e o que caracteriza esse lugar? Que voz é essa que finalmente se fez ouvir?

    Desde logo, uma confissão, uma constatação perante a “Voz” que Suzy Bila faz para chamar a nossa atenção. Uma proposta para a pausa no caos, possível apenas se aos olhos emprestarmos o discernimento. Mas também, essa forma vocativa, é a chegada a um destino, como quem enxerga a luz no fundo do túnel, após caminhadas longas na penumbra.

    Para ouvir é preciso o silêncio. Há muito por se dizer e escrever sobre esse silêncio necessário para entrar nas profundezas da alma, na imersão pelo território remoto do corpo que, de natureza, está ligado ao exterior. Talvez, por isso, a vida nos passa despercebida, efémera. Somos uma espécie que se move pelo ruído. Pressionados a ignorar os sinais do interior, quando nos chama para o invisível, o abstrato. Num contexto social de disputa pelos espaços e protagonismo, falamos ao mesmo tempo, em línguas diferentes, em palavras divergentes, não há espaço para a escuta; tentados a se sobrepor ao outro ainda gritamos, nos exaltamos e, mesmo assim, custa escutar essa voz serena, prudente, brisa, calmaria e constatação, o lugar de chegada, por isso, próprio para a contemplação, compreensão.

    Exposição patente na Galeria Arte d´´´Gema, com a curadoria de Élia Gemusse, até dia 30 de Junho.

    Exemplo desse lugar encontra-se nas telas que expressam, de novo a inocência, caminhos feitos sem pretensões, nem ideias preconcebidas, a negação ou os sortilégios da sorte ou azar.

    Quando se observa o conjunto de obras em exposição, não se pode ignorar o trabalho que Suzy Bila desenvolve na área da arte-educação, que se foca nas crianças e jovens “problemáticos”, regenerando as suas vindas, ajudando-os a encontrar um caminho através de um espaço que é por excelência, de liberdade, questionamento e humanização, que é a arte. Esses jovens tidos na sociedade como indisciplinados, rebeldes, sem interesse nem “cabeça” para os estudos, encontram na arte as suas “vozes” e os seus “eus” que os sistemas formais sequer se deram a paciência de achar. Esse tem sido seu foco, quer na formação académica – doutoranda em Educação Artística – ou profissionalmente – trabalha como Educadora de Infância numa Equipa de Intervenção e Capacitação Familiar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

    Por tudo isso, a artista dedica tempo e suor a compreender o outro. E esse trabalho em muito implica a ouvir as histórias de vida e compreender a complexidade de quem as conta.

    Espectadora contemplando a obra “Criança que mora em mim” | Técnica: acrílico e tinta da china sobre papel.

    A forma como concebe as suas obras já denuncia uma alma comprometida em compreender a essência da condição humana e toda a sua complexidade. Esse processo é também sobre si. Quando a artista lança a tinta sobre tela já aí se estabeleceu um processo endógeno de busca, encontros e reencontros. A forma como compõe as telas vai carregar esse desejo de encontrar outros caminhos, finalmente, o outro, respeitando o processo e o tempo. Por isso, deitar os olhos sobre a pintura de Suzy Bila é um processo de autorreconhecimento. Porque a artista não se distancia da obra, pelo contrário.

    Suzy é introspectiva. A sua vocação sempre foi para o interior, para o âmago, para os lugares obscuros e inacessíveis para os que temem a realidade do corpo. Que é líquido, frágil e matéria-prima de um plano maior do que está ao alcance dos olhos desprovidos de coragem. Olhar para dentro requer coragem, mas antes de tudo, requer disponibilidade e consciência para os ciclos. Corremos em direcção ao nada, ao vazio. Não se trata de um abismo iminente, não; no lugar de uma infinita escuridão, há o vazio, o silêncio, a recolha. Estacionados nesse lugar de dentro onde somos “nus”, um outro portal se abre. É aí onde habita a voz. A voz que já podemos ouvir com todos os seus ecos, com a simplicidade que não se lhe compara a nada, com a verdade imaterial e inconclusa. Sem amarras, senão com nós mesmos.

    Nos tempos que correm a escuta é um elemento precioso e raro. O tempo de escuta, esse que ainda não está à venda no bazar da ambição e da ganância, esse que não exige nada para além da nossa total e completa disponibilidade, é uma raridade que anda à nossa volta, vai dando sinais ao corpo e à mente de quando em vez, mas quem se dará ao tempo?

    Suzy Bila ao lado do seu mestre Noel Langa, na inauguração da exposição

    Num mundo em frenesim constante, pressionados a realizações com a agilidade dos mágicos, haverá espaço para a mera contemplação? Haverá sequer, espaço para estar e ser com os outros? Não será a falta de tempo em si, uma perca de tempo para o que realmente importa, o que não se exalta e nem pode disputar o protagonismo com o material da nossa loucura colectiva? Não é o outro esse espelho indiscreto, do que somos, mas sequer nos reconhecemos, na cegueira do ego? Esses são alguns dos questionamentos dessa afirmação: “Voz, já te oiço”.

    Texto e fotos: Eduardo Quive

    Maputo, 14/05/2024

  • Mário Macilau revela a alma dos explorados

    Na nova exposição intitulada “imediatismo”, o fotógrafo Mário Macilau, coloca nos seus retratos à preto e branco, a alma dos ignorados na exploração desenfreada dos recursos.

    Os rostos e os corpos “gastos”, pálidos, mostram na perfeição das rugas de quem vêem a idade e a vida a avançar, tudo à sua volta a transformar-se em pó e num abismo onde cabem todas as ambições e a ganância do Homem. A olhar pelos rostos que nos são apresentados, constata-se a pobreza das gentes dos lugares ricos em recursos minerais, por exemplo. Lugares em que a riqueza se expõe no meio de uma pobreza estrema. E o lixo dos ricos é o luxo dos pobres, como pode-se perceber pelas imagens extraídas da maior lixeira da capital moçambicana, em Hulene.

    No olhar, nas feições simples, inocentes até, das crianças e dos idosos, nota-se toda uma cadeia de desesperanças no trabalho que Macilau apresenta. São os corpos que sobram e resistem da degradação. O fotógrafo procura expor mais do que as evidências de que esses corpos se recompõem todos os dias à margem. Leva-nos para dentro da alma das personagens, instigando o espetador a uma leitura da narrativa das vidas representadas, “preto no branco”. Ele que já explicou a escolha desse caminho à duas cores, “o preto e branco proporcionam uma conexão mais forte(…). Torna uma imagem atemporal, quase como uma memória.

    O conjunto de fotografias percorre ao consumismo e as vítimas de um sistema que já vem a controlar os estilos de vida e as sociedades há anos. Os rostos de gentes carregadas e revestidas de silêncios e o que representa a força bruta de trabalho, não são propriamente de denúncia, são sobretudo o escancarar da dura realidade que se sobrepõe toda voracidade do capitalismo que avança e arrasta consigo as pessoas, os lugares, a qualidade de vida, as expectativas e o futuro, uma vez afectar a abundância doutros recursos vitais, como a água, a qualidade dos solos para agricultura e o ar.

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    Macilau tornou-se numa referência enquanto fotógrafo que vai ao encontro dos “invisíveis”. Os homens, as mulheres e as crianças das periferias do mundo, marginalizados e vendidos ao preço da ilusão, procura mais uma vez fazer uma abordagem provocadora, instigante. Em “imediatismo” talvez se volte à questão ambiental, mais no modo reconfigurado, como as pessoas nos lugares de abundância de recursos são insignificantes e invisíveis diante do carvão, do gás, do petróleo ou outros minérios que realmente importam para a sociedade de consumo e grandes corporações. Nesse sentido, o que se expõe é também a outra face dos negócios dos recursos e os contratos que desvalorizam as populações. O próprio fotógrafo já assumiu usar a lente como “ferramenta de intervenção social”.

    Embora fotografe esses marginalizados, mas também de condição de vida precária, Macilau procura dar-lhes dignidade, personalidade e carácter. Vai ser por isso, que algumas dessas personagens, se nos apresenta com os seus utensílios, outros estilosos, com adereços e acessórios de estilo. Mesmo os rostos mais enrugados, não são de grito nem desespero, são sobretudo almas vivas, pertencentes a um lugar e que assistem às mudanças, em meio a promessas e expectativas de um melhor futuro, que contrasta com o que vislumbram.

    A exposição esteve patente de 10 de abril a 10 de maio, no Centro Cultural Franco Moçambicano, em Maputo. Texto originalmente publicador no RADAR – MAPUTO FAST FORWARD

  • “Mutiladas”: novo livro de contos de Eduardo Quive

    Desta vez Eduardo Quive apresenta-nos um livro de contos escritos em vários cenários e ambientes, mas muito virados ao existêncialismo, a degradação, a violência e os pequenos gestos de amor.

    O autor leva-nos a estórias de mulheres, as periferias e o exercício de memórias, numa escrita breve, intensa e provocadora. O destino das personagens reflecte uma sociedade de tragédias diárias, onde a violência e a indiferença se transformaram num manifesto de desumanidade.

    Em Mutiladas, a vida é líquida e se dilui sem que os protagonistas se dêem conta. 

    JÁ À VENDA NAS LIVRARIAS EM MAPUTO

    Livraria Mabuku – av. Julius Nyerere, Maputo | Matola – Novare

    Livraria Sequoia – Rua da Azurara N45, Maputo (Sommershield)

    Livraria Ethale Publishing – R. Bento Mukhesswane Nr 98 R/C (Cruzamento com Rua da Resistência, Maputo)

    Pode entrar em contacto com a editora Catalogus através do e-mail: info@catalogus.co.mz | www.catalogus.co.mz

    Trailer

  • Evento de lançamento do livro “Para onde foram os vivos” de Eduardo Quive

    Foi um momento de festa, encontros, reencontros, abraços e afectos, para receber o mais recente livro, “Para onde foram os vivos” do escritor e jornalista @eduardoquive.

    O evento que teve lugar no Camões – Centro Cultural Português em Maputo contou com a apresentação do livro pela professora doutora Teresa Manjate, que afirmou, em análise à obra, que tal como não se pode julgar o livro pela capa, não se pode julgar este “Para onde foram os vivos” pelo volume. “É um livro com poucas páginas, mas muito denso e profundo”.

    Mais do que palavras, deixamos aqui o registo fotográfico feito por Adelium Castelo.

    Pode adquirir quantos exemplares quiser do livro entrando em contacto: +258 270 6548 ou pelo e-mail: viceversaideias@gmail.com

  • Para Onde Foram os Vivos

    Neste livro, Eduardo Quive explora as cidades físicas e imaginárias, através da prosa poética.

    Ana Mafalda Leite, prefaciadora do livro,  “Para onde foram os vivos”,  é um livro que partilha vários tipos de registo discursivo, lírico e confessional, bem como faz o uso da linguagem do diário ou da notação jornalística e uma ténue linha narrativa, por vezes criando cenários de ambiente cinematográfico ou fotográfico. 

    “É o retrato do mundo em decadência, estilhaçado, as cidades em ruínas com o silêncio ensurdecedor das almas que ainda habitam o lugar com a esperança no exercício do amor. A quem amamos quando estamos sós, isolados num lugar de silêncios e ausências, retratos de egoísmo, violência e tensões que levam que o mundo como o conhecemos se desfaça sob o nosso olhar indiferente? Uma outra imagem das grandes cidades repletas de gente, ostentando o seu mais elevado amor material, mas ausentes em afetos. Nesta obra, a cidade e o corpo se confundem. Assim como o amor e o ódio se fundem para gerar tensões e violências”.

    O livro editado pela Alcance Editores, encontra-se dividido em duas partes, nomeadamente, “Cidades” e “Corpos”. Em “Cidades” o autor apresenta 24 fragmentos onde expõe as cidades físicas e imaginárias por si percorridas. E em “Corpos”, Eduardo Quive  reúne 19 textos em prosa poética.

    Livro disponível à venda em todas as livrarias em Moçambique

  • Zena, ternura num mundo em rebuliço

    Zena,

    Como falar-te dos sinos, do eco, intenso, mas suave, presente, mas distante, o vibrar e o estrondo, o susto e o suspiro, o alívio a subir lento a escala do sossego, porque é o despertar de um sono tranquilo, ténue e, por isso, assustador, nos dias agitados da sociedade das almas insatisfeitas. 

    O estremecer das veias transportando o som até as artérias do coração que só aí se decifram as palavras que nos cantadas na língua da poesia. Tu, Zena, cantas na língua da música, na língua do amor intangível e utópico. Teu ritmo, na língua que cantas, é o corpo a mergulhar entre ondas de um vasto oceano, aparente tranquilidade, que nos é capaz de dizer as marés que se aproximam e as tempestades que nos esperam. 

    Na língua e no ritmo que cantas dançam as folhas das palmeiras, tocando-se umas às outras, simulando refrões. Na língua que cantas sopram sobre as casuarinas os ventos leves do Índico. Deve compreender-te todo Oriente até ao Sul onde te fizeste chegar, para o nosso delírio incompreendido. 

    Feliz és, por seres amada e dançada em toda essa incompreensão. E, por isso, a língua na tua boca é a música, o corpo de todos os nomes e linguagens. 

    Cantas-nos as andorinhas, o assobio alto que se dissipa nos céus azuis enquanto fazem o voo em que o destino é onde a alma pode sossegar, no barulho sagrado da ausência. Eu choro contigo toda a saudade que cantas, porque é ainda crua a minha fé, ao ouvir-te recitar os versos como a chamada para a oração do azan ao romper da aurora. 

    Todo o amor na tua voz é retrato e imaginação. Essa miséria sem que a vida seja menos que desgraça. Lamento contigo todas as angústias e sinto mais do que podem dizer-me as palavras da minha língua, as nuances e os batuques que te acompanham nesse teu canto quente e trêmulo. Vem do interior da terra todo o amálgama que te sai nas cordas vocais, és os sinos sobre os ouvidos incautos do mundo.

    Lembro-te sentada, em palco, caindo-te as lágrimas de vidas passadas e futuras, para cantar-nos as tuas dores, a alegria melancólica e incompreendida, alegria líquida e volátil, que te escorria-te o rosto todo de suor, até às capulanas garidas, o corpo encurvado e os pés envelhecidos, descalços, para não deixar de sentir a terra toda a venerar-te. 

    Lembro-me dos teus dias como um rio de tormentos que procuraste navegar na possível utopia. A amar como tu amavas, a viajar assim, nas estradas das nossas almas como tu viajas, não te podíamos nem em mínimas medidas, dar-te na recíproca retribuição a magia que precisavas para dias melhores. Na verdade somos angustiados a tentar não nos morrermos de dor que desconhecemos o remédio. 

    Tua música, teu gingar, teu estremecer nas terminações, teu grito ligeiro e potente, a letra a sair-te lenta, os silêncios podem ouvir e dançar.  Eras o tédio necessário para as nossas marés agitadas, vidas presentes sem emoções, ilusões e loucuras. A loucura, Zena, o que é deste mundo sem ela? Os dias tranquilos e de preguiça são as razões pelas quais o povo caminha errante todos os dias. E tu davas-nos sem por isso darmos o devido valor. Estes nossos ouvidos, Zena, só sabem sorver o instante previsível das montras de luxo material onde se deposita a soberba. Ter-te, porém foi um luxo acima do que podíamos usufruir. A honestidade artística tem o seu preço, tu pagaste. 

    Ainda hoje, Zena, te encontro sem coincidências. Sem que te procure. Porque és presença e permanência. Ouvir-te, nessa língua do corpo, do vento, das nuvens e do orvalho, chama-me para a vida. Queimo-me sobre o fogo da tua erupção, piso a terra descalço, enquanto corre-me apressada a vida.

    Por tudo isso, Zena Bacar, cantam os sinos ou os altifalantes do nascer do sol, com as orações em jeito de música. Teu canto é sagrado, até que se compreenda porque existe o silêncio e a ternura num mundo em rebuliço.

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  • Zaida, o princípio

    Zaida, não quero escrever-te no teu aniversário, nem do nascimento nem da morte. Não podia cair na razão do poeta que vaticinou: Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:/ Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;/ Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada. Não, não tem razão o Álvaro Campos. Escrevo-te numa segunda-feira, para que sejas o princípio de tudo, da liberdade, da ousadia, da performance, da desregra, do eco, da extravagância única e exclusiva tua. 

    Anos se passaram desde que te foste para te deitares ao sol e celebrar em Pasárgada, para onde vai a estrita e iluminada legião de estrelas. 



    Tu Zaida, que viveste esses tempos em que podias fazer a sociedade espelhar-se na arte, sem querer impor preconceitos, modismos e tendências. Eras a tua própria voz, sem gritar nem a sossurar. Eras a voz na dose que te convinha. Eras, à semelhança dos sindicalistas e nacionalistas de toda a parte, uma activista de uma causa sem códigos de conduta, ainda difícil de compreender nesses tempos. Por outro lado a Winnie Mandela, a Makeba, a Nina Simone, e cá estavas tu, sem representações, mas exercendo a tua presença. 

    Tu, Zaida, antes que houvessem as “marandzas”, já alertavas para a vergonha alheia e gratuita, das relações por interesses que se sobrepõem ao genuíno amor. O que dirias, hoje, Zaida?

    A violência doméstica baseada nos valores tradicionais, antes a do género, já havias denunciado, alertando para o negócio do lobolo.

  • “Há bondade no meio do caos” – Eduardo Quive ao fala ao “Domingo” sobre a sua nova aventura literária “Para onde foram os vivos”

    Onze anos depois o escritor Eduardo Quive embarca na sua segunda aventura literária intitulada “Para onde foram os vivos”, o livro, que chega ao p+ublico no dia 04 de Abril sob a chancela da Alcance Editores. Desconfiado, perfeccionista, dedicado e delicado, no poema, Quive, mergulhou nos aspectos mais sensíveis da humanidade, através da noite olhou para os movimentos das cidades e das suas gentes vazias e chegou a conclusão que a vida tende a ser caótica enquanto os seres homanos negligenciarem as relações afectivas para se dedicarem aos bens materiais. Domingo entrevistou o autor. Haja fólego para as próximas linhas.

  • Para ti, Isabel, esta carta que queria cantar-te

    Isabel, deixares assim que na tua voz nasça a flor enquanto os instrumentos fazem-nos viver a alegria do mistério é de uma maldade que só tu podes fazer com elegância. Podem ouvir-te pessoas várias, nações dispersas, tirando cada um para hidratar o corpo e alimentar a alma, com o néctar do teu ritmo. 

    Foto de Ouri Pota

    Isabel, 

    escrevo-te estas palavras que não saberia dizê-las, na minha indesejada timidez, olhando-te nos olhos. Ainda bem que me posso revelar pela escrita.

    Hoje, Isabel, tu vieste-me, sentado na segunda carruagem do comboio das 17h45. Ia de Maputo para os confins da terra, lá onde as pessoas andam apressadas, descem do alto degrau do comboio como se atiram dos saltos para voltar a usar as botas ou chinelos que levam ao sair de casa pela virgem manhã, a caminho do trabalho. Sabes onde é, é outro lado da Matola onde tu pertences. Lá onde quando o nome do bairro, causo susto e espanto, ao mesmo tempo pesar e compaixão, dos que mesmo sem saber onde, compreendem a distância e sobretudo, o estar além.

    Hoje, Isabel, voltaste a adentrar para lugares irreconhecíveis do meu corpo, e a fazer-me festinhas neste meu coração que tu conheces como pouquíssimos, os seus dilemas para palpitar com a força da vida. Tu, Isabel, apenas tu e mais somente alguns, sabes a sinuosa rotação das válvulas deste meu coração, pois estiveste comigo nesses tempos outros, logo depois que a Francine se ia… 

    Escutei-te, novamente hoje, enquanto viajava entre carris e o baloiço da locomotiva. Eras tu, por completo, e as tuas Metamorfoses. Ouvi-te a cantar, a contar segredos, para bem dizer, a sussurrar nos meus ouvidos, a fazer-me sentir a ternura que me acompanhou nos dias que tu conheces, no lar dos enfermos. Nesse tempo, para lá de homens e mulheres que conhecem a anatomia dos corpos a esvair-se de dores, de almas em desesperos e angústias, de corações dilacerados e dilatados como o meu, tu eras o meu alento. Tu e as outras vozes que ousarei dizer-lhes também a verdade, neste meu sentimentalismo exacerbado e ridículo, como estas palavras que te escrevo diante de vários olhares.

    Comecemos pela Oração. Talvez porque nunca rezei na vida a não ser diante da vida e da morte, os sinos tocaram quando ouvi-te a cantar naquela língua que não sei dizer. Os batuques especiais, habituados a ouvi-los no nosso tufo insular, a mística das vozes, o rítmo que pareciam-me a tua mão a bater-me suavemente nas costas, a tua voz a chamar-me para ver o pôr do sol na Ilha de Moçambique, e a fazer-me querer ver o mundo pela “Janela do Oriente”, como ousou escrever o poeta maldito, Eduardo White, quem ainda dedico memórias. Ouvir-te é provar as especiarias únicas e os cheiros a mar, naquelas casas gigantes, onde as janelas são vias abertas para contemplar todo o mundo.

    Fico a pensar, Isabel, como nos dias em que enfermo e incrédulo escutei-te, como és capaz de mandar-me aliviar o coração para que esse ser que tu evocas, entre meu corpo e dê-me sossego, quando é a tua voz a fazer-me navegar lento pelos caminhos da esperança.  

    Isabel, escuto-te  a falar da paz, do olhar que te faz feliz, do sorriso, como se desenhasses um retrato com a tua voz, na lírica do amor, como quem fala de um acto completo, puro e simples. É a tua alma a deixar que a voz percorra os caminhos sempre subjectivos do silêncio, essa insustentável leveza do ser, como tão belo escreveu Milan Kundera. Fico a pensar em cada palavra tua, como se procurasse razões para ouvir-te na próxima música. E como te oiço aleatoriamente, sem pré requisitos, és como o pássaro a assobiar para a certeza do Amanhecer, como também cantaste lá naquele primeiro álbum. 

    Então procuro seguir a leve e suave viagem da playlist. E levas-me para mais um lugar que me é difícil de revisitar, poupando palavras para uma mística do afecto em For My Father. Isabel, deixares assim que na tua voz nasça a flor enquanto os instrumentos fazem-nos viver a alegria do mistério é de uma maldade que só tu podes fazer com elegância.

    Mesmo quando não falas de amor e dos afectos do teu íntimo, consegues surpreender na forma como dizes certas coisas. Como quando afirmas I’m not a colour, i’m not a religion, im just you like you are e ainda dizes let ‘s stop the hate, como se soubesses o valor das palavras determinadas, é tudo à tua medida, como disse-te noutras linhas. Ou ainda quando unes a tua voz a outras, para o “We Shall Sing” e ainda afirmam nesse som, we shall fight for the freedom, sinceramente, foquei a lembrar, assim, inusitadamente, o som que me ficou do que vi do “Hotel Ruanda”, que só mais tarde soube que é um som feito por Andrea Guerra. Sobre a liberdade de cantar já nos havias “cantado” em Unanga lá do teu primeiro álbum, sobre a universalidade da música, sobre a alegria que também sente-se quando te agarras ao microfone para deixar voar as borboletas dentro do teu corpo. Fazes isso, Isabel, como se nada fosse, transformas o difícil e o complexo numa rotina. 

    Gosto, Isabel, da liberdade de te cantares usando só a tua voz, como ví-te a fazer naquele espectáculo nos tempos do fica em casa. Se poeta como White eu fosse, dedicava-te este verso, o peso da vida gostaria de senti-lo à tua medida. Assim, ia-me leve a alma deambular no universo das jornadas mundanas.     

    E como se a música fosse uma missão que não se pode viver a sós, ainda consegues levar-me para coros que me fazem viver dias e tempos que não me vem à memória. Fazes-me viver lugares que não conheci, fazes-me ter a fé que sempre me foi escassa, justamente eu que era ateu e vi milagres, como vaticinou Caetano das terras do Quincas Berro d’Água. Eu sei que há muito de ritos tradicionais que te movem. Eu sei que bebes da fonte dos teus, há toda uma espiritualidade no que cantas, há uma tradição de coros das nossas canções dos rituais que te movem, coisas que não se podem dizer, que dão-nos vontade de ser grandes, de levitar e caminhar de passos firmes, batendo o chão como no nosso makwayela. És, Isabel, como só um poeta como Craveirinha podia inventar, uma moçambicaníssima voz aberta ao mundo. Podem ouvir-te pessoas várias, nações dispersas, tirando cada um para hidratar o corpo e alimentar a alma, com o néctar do teu ritmo. 

    Tu sabes, Isabel, como pouquíssimos, que foi no teu ritmo que dei os primeiros passos quando precisava me levantar no leito do da restauração.

    E voltas a visitar-me hoje, assim, sem que te esperasse e me afazeres reviver a minha intimidade mais submersa, aquela que não queria revelar a ninguém. 

    E fazes-me querer dizer-te aos outros, querer questionar a tua ausência entre outros ouvidos, como se toda a beleza da tua música, sem mais adjectivos possíveis, fosse a música absoluta, no meio de tanto caos e ruído. Este teu Metamorfoses é capaz de vaguear no nosso interior, de arrumar a desordem das almas que correm apressadas nos caminhos da vida, vivendo apenas mais um dia depois do dia anterior que será como o dia seguinte. 

    Fico apensar por tua causa, Isabel, na beleza das coisas insignificantes, as nuvens cinzentas a se desenharem no céu onde o sol persiste em sobressar, na saudade discreta dos nossos amores, no beijo suave no rosto ou no abraço desinteressado das pessoas que parecem comuns no nosso dia-a-dia, mas que de repente, ganham a dimensão de deuses quando se vão ou quando estão distantes de nós. 

    Ai se pudessem as gentes apressadas pararem para ouvir-te no meio de tanto barulho. Se pudessem sentir a voz como a mão passar nos ombros, como eu senti, se pudessem dançar ao teu ritmo, tudo era mais leve e possível.

    Agora que me vou terminar, digo-te para que não seja memória, deves ser da tua geração, Isabel, das vozes mais afinadas, das pouquíssimas, incapaz de dizer uma palavra que não carregue sentimento. Há um certo encanto, em andar devagar e nos detalhes que se perdem na retina das coisas dolorosas da vida.

    Agora, Isabel Novella, despeço-me. Ou como ainda diria aquele que venho chamando em meu auxílio nesta carta que te escrevo, até amanhã, coração.

  • Ou então amaremos a chuva

    Sempre que chove o passado visita-me. Delírios e traumas. A êxtase e a angústia. O sonho e a insónia. Infelizmente, em todos os casos, quando é de noite a chover, não consigo dormir. 

    Vêem-me as ruas de onde nasci e cresci. As poças de água que ficaram nossas praias, como a praia Landinha, por exemplo, ali nas zonas baixas entre Patrice e T3, onde também íamos pescar para depois chegarmos em casa, passados dias, vermos o que pareciam peixinhos a se transformar em bichos estranhos que nos atormentavam por longos dias de pesadelos e gozação dos mais velhos.

    Frequentei aquelas zonas baixas quase toda a adolescência, muitas vezes sem que os meus pais e meus irmãos soubessem, porque as consequências seriam dolorosas. Quando chegou a vez de ir ao pré-universitário na Zona Verde, entre colegas e amigos, cruzamos aquelas zonas todos os dias com os pés trocando os passos de cansaço e desespero, fome disfarçada enquanto ou íamos para a escola ou íamos passando em busca de histórias para reportar, quando já marcava passos para o jornalismo. Eram passos largos e cheios de certeza, sol a sal, como diria o poeta Léo Cote.



    Mas quando chovia ainda mais novo,  a vida se dividia. Em casa, anunciava-se a chuva e já apontávamos as tigelas,  baldes e bacias entre buracos das velhas chapas de zinco que faziam o teto. As camas, as poucas camas que tínhamos, eram encostadas nas esquinas onde provavelmente não caíssem as gotas de chuva. Ainda tínhamos algumas roupas velhas para sugar as águas que escorressem as paredes. Chagava a hora em que vamos dormir. Chovia. Chovia torrencialmente. Na cama ou na esteira onde muitas vezes foi onde pousei o meu corpo ossudo, vinham as gotas e depois se transformavam em torneiras descontroladas. Nos levantávamos para reposicionar as camas, as esteiras facilmente ficavam molhadas, então se tornavam inúteis. As tigelas enchiam logo, os baldes e bacias não cabiam para os buracos que pareciam aumentar de tamanho. 

    Nesse momento me recordava da frase motivacional dos velhinhos da zona, “aku neliwa niku pfuteliwa aswi fani”. Essa língua que pela infância afora falei só palavras algumas, percebia que o que diziam era, “vale a pena um teto a gotejar que estar sem teto” ou, por outra, “molhar na chuva ao relento não é o mesmo que por debaixo de um teto com buracos”. Na verdade, passei a vida sem compreender o sentido da expressão, fui compreendendo, porém,  que a chuva era um karma. Dentro da casa, angústia e desespero, lá fora, nas águas que se juntavam nos buracos e valetas, era uma festa. Nós que nunca ou raramente íamos à praia, tínhamos ali a nossa praia. Nós que nunca vimos um rio, para além do que mostravam os livros, tínhamos os rios, fartos de água a correr pelas extensas ruas até invadir as casas ou ir desaguar na zona baixa onde os campos agrícolas transformavam-se num mar cinzento com coisas a flutuar, as couves e alfaces arrancadas da terra, garrafas  e sacos plásticas, eram das coisas mais visíveis.

    Um dia a chover, como hoje, foi uma fotografia a decompor-se, enquanto andava pelo comboio em direção à Estação Central de Maputo. Fui vendo homens, mulheres e crianças mergulhando indiferentes nas águas.  Há semanas ainda andavam aos saltitos. Agora mergulham, passeiam e até se sentam e se deitam nas águas, procurando não deixar que a vida se turve no dilúvio. Sobretudo as mulheres, nota-se o seu ar de cansaço, certamente de dias de insónia e trabalhos de limpeza. Olhava tudo enquanto o comboio deixava fazíamos seguir em frente, como se abandonasse o passado. Porém as imagens se repetiam em câmara lenta. 

    Nesse retorno ao passado, veio-me à lembrança, o dia em que conheci o poeta Lopito Feijó. Era dia de quase chuva em Maputo, ano de 2011. Estávamos algures na baixa da cidade e o levamos até ao Jardim Tunduru onde fazíamos a exposição de poemas que chamamos “Poesia nas Acácias”. O poeta perguntou-nos, ao ver que os poemas estavam impressos em cartolina simples: e se chover, isto não molha? Respondi-lhe que contávamos com a sorte. E ele respondeu, ou então amarrem a chuva. Para o meu espanto, apesar de estar familiarizado com isso, justamente eu que apenas tenho diferença de um ano e cerca de três meses com a filha mais nova dos meus pais, fiquei apenas a contar as árvores e a mirar o céu que estava cada vez cinzento. Hoje penso mesmo, alguém terá de mudar o ditado dos velhinhos do bairro ou, então, amaremos a chuva.

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