O escritor e jornalista moçambicano Eduardo Quive publica em Portugal o seu romance A cor da tua sombra, sob a chancela da Desmuro editora.
A narrativa que se ambienta num Moçambique contemporâneo cruzando os dilemas identitários, as memórias fragmentadas, desafios sociais no meio urbano o que torna ainda mais complexas as relações humanas. A história é contada sob o ponto de vista de uma família desestruturada por várias tragédias desde a Zambézia e a capital Maputo.
Com uma escrita sensível e incisiva, Eduardo Quive constrói uma narrativa que atravessa dimensões íntimas e sociais, explorando as tensões entre o passado e o presente, o indivíduo e a coletividade. A cor da tua sombra propõe ao leitor uma viagem literária marcada por personagens densas, conflitos morais e uma atmosfera que dialoga com os desafios sociais e políticos destes tempos num país em que o futuro é uma eterna promessa.
“Neste livro de estreia em prosa Eduardo Quive conseguiu aquilo que muitos prosadores procuram durante a vida inteira: uma escrita ao mesmo tempo sensível e acutilante, encantada sem nunca se desamarrar de um quotidiano que exclui e anula a nossa partilhada humanidade.” – Mia Couto
A narrativa, marcada por um lirismo sombrio e fragmentado, ecoa as memórias estilhaçadas de seus protagonistas, expondo sem filtros a fragilidade humana e os traumas que moldam identidades. Eduardo Quive escreve com o pulso de um poeta atento às tensões entre o íntimo e o coletivo, construindo um romance que revela a perseguição aos albinos, a desintegração familiar e o espetáculo da dor no espaço público das redes sociais.
A cor da tua sombra é uma obra que confronta os silêncios herdados e denuncia as crenças violentas que ainda moldam tantas infâncias.
Para o lançamento do livro o escritor moçambicano participará em eventos no Porto e em Lisboa, de 18 a 25 de Abril.
O primeiro evento será no festival LEV – Literatura em Viagem, em Matosinhos, onde estará à conversa com Dino d’Santiago e Mia Couto.
No dia 20 estará na Livraria Flâneur, no Porto para conversa e apresentação do livro A cor da tua sombra com o escritor João Zamith.
Dia 23 de Abril às 18h30 será a vez da apresentação em Lisboa, na livraria Snob, numa conversa com Ana Bárbara Pedrosa e Mia Couto.
Eduardo Quive é escritor e jornalista moçambicano. Com um percurso marcado pelo envolvimento em projectos culturais e literários, tem vindo a afirmar-se como uma voz emergente na literatura moçambicana, apostando em obras que cruzam ficção e reflexão social. A cor da tua sombra é o seu quarto livro, o primeiro editado em Portugal, uma estreia no romance, depois de ter publicado entre outros, «Para onde foram os vivos» (Poesia, 2022), finalista do Prémio Literário Mia Couto para melhor livro do ano em Moçambique, e «Mutiladas» (contos, 2024), indicado para leitura no ensino secundário nos países da CPLP pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa – IILP.
Na exposição “Filhos do Oceano” a artista Ruth Bañón devolve-nos os despojos dos antepassados africanos levados para terras distantes como escravos. Voltam-nos essas pessoas como personagens de uma história que não escolheram fazer parte do enredo, mas voltam com os semblantes e aparências menos tristes e sombrias como os imaginamos descontentes por estarem longe de casa e das suas gentes. Menos tristes e sombrios é o que nos salta a vista no meio daqueles trages elegantes, mas as fotografias dizem mais do que o momento captado.
EN LO PROFUNDO ME PERDI | Ruth Bañón, 2024 Tamanho: 40 cm x 50 cm Técnica: Colagem, fotografia e ilustração
Ruth Bañón, esteve de regresso a Moçambique onde chegou a residir para trazer-nos uma mostra de arte digital, em exposição patente no mês de Junho na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto.
Trabalhando retratos e imagens de um tempo em que não vivemos, coloca-nos o desafio de visualizar as pessoas e através delas as sociedades, os sentimentos e uma ideia sobre estilos de vida. Ao olharmos para as imagens, muitas são as perguntas que nos podem surgir: Quem são essas pessoas? Que nomes elas carregam? Qual é a história por detrás delas? Porque é que elas, sobretudo elas, despertaram o interesse da artista? Será por isso que Ruth decidiu que os Filhos de Oceano chegassem até nós?
Na verdade Ruth Bañón tem o destino ligado entre vários mundos, das realidades passadas e futuras, do real ao surreal, essa última que vai para além do irreal, pois ela recria e até subverte o estabelecido. Antropóloga, escritora, artista plástica, ilustradora, sempre atraída pelo colectivismo, pelas actividades que envolvem o outro. A sua arte é também resultado desse seu estilo de vida e dos caminhos que escolheu seguir profissionalmente. Correr atrás da vida antiga, como se as vidas presentes não bastassem para perspectivar o futuro.
Ir ao passado é a forma que a artista encontrou de combater os esquecimentos, mas sobretudo de conferir história e voz a homens e mulheres africanos levados do continente como escravos.
São exemplo disso, retratos que a artista foi achando em espaços improváveis. Africanos anónimos que moldaram as culturas dos lugares onde foram parar, na tentativa de se manterem ligados aos seus ancestrais, hábitos e costumes das suas tradições.
É essa a ideia que originou este projecto: “questionar, investigar e tornar visível através da arte a vida destas pessoas anónimas que deixaram para trás uma terra natal e que se tornaram seres despojados das suas raízes para sobreviverem à força (aqueles que o conseguiram fazer) a essa traumática viagem de ida, é a forma em que me imergi para tornar visível e (re)criar a sua ancestralidade,” justifica Ruth Beñón.
Hoje, com esta mostra, reconectamo-nos aos nossos, procurando nos seus traços familiares, reinventar-lhes vidas possíveis. É como se dos escombros, dos prováveis esquecimentos, as pessoas regressassem com o mesmo à vontade que sentiram ao posar para as fotografias.
LA LATITUD DE LA TARDE | Ruth Bañón, 2024 Tamanho: 40 cm x 50 cm Técnica: Colagem, fotografia e ilustração
Essas pessoas, que são do tempo em que a captura de um retrato equiparava-se a um ritual, com planificação, com orçamentação e, de certa forma, representava um status quo, a não ser que, um acontecimento, colocasse as pessoas simples no centro das atenções, como estar no palco. Tirar uma fotografia era um gesto para o qual as pessoas se entregavam para pausar o tempo, fixar memórias.
Nos quadros, as imagens revelam-nos autênticas personagens, se pensarmos sob o ponto de vista de história (estórias, talvez), ou ainda no campo da moda e estilos de vida, diríamos modelos.
As colagens das fotografias nas ilustrações são ambientadas por paisagens naturais que nos dizem um pouco da atmosfera do lugar e das suas geografias e com isso, o estado da alma das pessoas, esse que já sofre a influência da paisagem em que estão envolvidas.
Chamará atenção a postura diferente entre homens e mulheres. Todos belíssimos à sua maneira, os homens mais altivos, com a pose de determinação e um certo poder; as mulheres, com os semblantes ténues, as roupas que lhes cobria praticamente o corpo todo, mas sempre com elegância e estilo.
Tudo isso faz destes Filhos do Oceano gentes misteriosas, norteadas de desejos e ambições que se definem pelo nível das águas e o tamanho da imaginação sobre o horizonte de possibilidades. A natureza acolhe-os na sua plenitude enquanto nós os contemplamos ainda cheios de perguntas, mas com uma certa sensação de saber quem são e que notícias nos trazem ou, talvez ainda, se a arte pode nos ensinar a redefinir o tempo e a recriar memórias.
Fotografias originais utilizadas para criação de obras, achada durante as pesquisas de Ruth Bañón
Eis a arte que esboça uma narrativa diferente e desafia os ciclos existenciais ao mesmo tempo que confronta o utilitarismo humano. Eis que da extinção, ressurgem os bichos e do descarte, os materiais que lhes dão vida. Tchalata recusa-se a aceitar os finais trágicos, conduz-nos para a metáfora do belo. Tudo que nos mostra vem da angústia, da desolação e das marcas dos actos humanos. Quem contemplar esta arte, terá de se confrontar com as várias possibilidades a que os materiais teriam sido votados, se não fosse o talento de um artista, de dar sentido às coisas, conferir estética ao acaso e a sua tentativa, por mais ínfima que seja num oceano em devastação, de fazer com que a nossa acção cause males menores.
Eis aos nossos olhos a arte de Tchalata, que transforma o feio em belo, o sujo em limpo, o trágico em renascença. Há quem chame de materiais, as “coisas” que tornam possível estas obras de arte. Mas são, em princípio, a pegada negativa do Homem na natureza. Contra si mesmo, é verdade, pois embora se equivoque e até se esqueça por vezes, as pessoas fazem parte do ecossistema. Afinal, o meio ambiente é formado por elementos, como a água, o ar, o solo, a energia, a flora, a fauna e pela cultura humana, seus valores sociais, políticos, econômicos, científicos, morais, religiosos e outros. Esta exposição, em última instância ou por consequência, lembra-nos isso. A extinção de um, é um alerta sobre a qualidade de vida do outro.
Vistas assim as coisas, não se pode ignorar o meio onde o artista vive e concebe as suas obras, Katembe, esse lugar onde o mar molda e define a vida dos habitantes. O artista sentirá mais próximo de si, tudo o que os cientistas, ambientalistas e as pessoas mais sensíveis, alertam sobre o meio ambiente e a acção humana. Movido por uma espécie de indignação e fascínio, talvez, o artista restaura o que foi decomposto e destruído, recriando os animais, devolvendo-os, ainda que de forma imaginária, para o seu habitat; porque essa restauração e recriação é possível a partir dos materiais produzidos pelo Homem, descartados sem o cuidado de evitar que sejam nocivos aos outros seres. Ao levá-los de volta ao mar, à floresta, ambientes e paisagens que se criam nas suas assemblages, a colagem e a pintura, é como se tivesse acontecido a reconciliação. A tartaruga feita de chinelos, cordas, tecidos e conchas; o peixe também feito de chinelos, tecidos e plástico, ganham uma nova vida, ainda que a partir daquilo que lhes tirou a outra vida. Esse é o fascínio do artista, inventar outros caminhos, outras possibilidades.
Tudo é matéria para arte, em Tchalata. As folhas, pedaços de madeira, redes de pesca, as cordas, os tecidos, os chinelos, os arames, o papel, e outras coisas. Da fauna aos habitantes do mar, do pássaro ao xibedjana, o rinoceronte vítima de morte brutal com as armas da ambição dos homens. Apesar da angústia da destruição, o belo é que nos salta aos olhos, talvez para recordar-nos que novas histórias, uma nova relação, pode se iniciar a qualquer momento para uma coabitação menos hostil. O artista utiliza a arte para educar, para dar um outro sentido à vida na natureza e, por fim, chamar atenção para os desequilíbrios que a ausência de diversidade, da biodiversidade, causa. Tudo o que se mostra nesta exposição “Guardião da Natureza – educar para ser” é o talento, a criatividade e a sensibilidade ao serviço do colectivo, da qualidade de vida e de um planeta A, porque até que se prove, não existe um planeta B.
Exposição “Guardião da Natureza”, de assemblagem, com obras do artista plástico moçambicano Tchalata, na Fundação Fernando Leite Couto durante o mês de Junho de 2025
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO – divulgou na quarta-feira, 18 de Junho, uma publicação intitulada “A indústria editorial africana: tendências, desafios e oportunidades de crescimento”. Um documento que se mostra importante para percebermos como vai a vida literária nos 54 países do continente. Uma leitura genérica ao documento e a olhar para Moçambique, faz soar o alerta sobre o que está por ser feito e sobre o “estranho” rumo que a produção de livros que o meu país tomou”.
A começar, o relatório fala da indústria editorial no seu todo, do livro escolar à ficção, leis e políticas culturais para a área do livro, iniciativas de promoção e estímulo ao mercado editorial. A informação foi obtida a partir de fontes governamentais do sector, organizações e através de entrevistas aos que estão envolvidos na indústria. Em Moçambique, não podemos deixar de assinalar a busca de informação que se fez na plataforma cultural independente Catalogus, que tem se dedicado a divulgação de conteúdos sobre eventos e iniciativas literárias em Moçambique.
Segundo os dados recolhidos pela UNESCO, em 2023 Moçambique contava com 61 editoras registadas, com 300 títulos publicados, 14 livrarias em funcionamento, 37 bibliotecas públicas e 1.600 empregos gerados pelo sector editorial. Segundo a publicação, há uma livraria por cerca de 900 mil habitantes, numa população total de cerca de 33 milhões.
O relatório alerta para a ausência de políticas públicas que estimulem o crescimento da indústria editorial. No caso de Moçambique, menciona a Política Cultural e a sua Estratégia de Implementação aprovada em 1997, que estabelece os procedimentos básicos para a produção e comercialização de livros em Moçambique. Este instrumento apela à comercialização de livros a preços reduzidos, a fim de permitir um leque mais alargado de leitores e estimular o interesse pela leitura e pela literatura.
Sai mais barato imprimir livros fora do país que dentro e é ainda possível imprimir pequenas quantidades, com qualidade gráfica e rapidez. E os dados não enganam. A pesquisa da UNESCO indica que em 2023, o valor total das importações no sector editorial, abrangendo livros impressos, brochuras, folhetos e materiais impressos semelhantes, atingiu aproximadamente US$ 31 milhões, dinheiro canalizado para as gráficas de África do Sul, Índia, Portugal, seguidos pela China e Hong Kong.
Refere-se igualmente à Lei do Mecenato, de 1999 que estabelece os princípios básicos que permitem às pessoas singulares ou coletivas, públicas ou privadas, desenvolver atividades ou apoiar financeira e materialmente atividades no domínio das artes, da literatura, da ciência, da cultura e da ação social.
Importa referir que estes instrumentos, a Política Cultural, a Lei do Mecenato e ainda a Política Nacional do Livro, esta última aprovada em 2011, não surtem o devido efeito para contribuir para mudança do cenário cultural moçambicano, pois, pese embora a idade da sua aprovação, não estão regulamentos, por forma que o seu peso se consubstancie na prática.
Adicionalmente, os dois primeiros instrumentos genéricos, referem-se ao sector cultural no seu todo, ignorando as especificidades que o sector do livro tem. O mais próximo que se tem de específico para o livro é a Lei n.º 32/2007 (de 2007) que isenta o pagamento de imposto sobre o valor acrescentado (IVA) à importação e exportação de livros. Na verdade, tem sido muito devido a essa lei que se tem observado a uma dinâmica acelerada de edição e publicação de livros em Moçambique, incluindo o surgimento e sobrevivência de pequenas editoras, que têm sido responsáveis por trazer ao mercado grande parte de obras que hoje circulam no país. É que os custos de impressão de livros em Moçambique são demasiado elevados e levaria a que o “apelo” feito pelo governo através da política cultural de 1997, não fosse tido em conta. Outra verdade é que sequer ocorre às editoras essa lei, já que ela não é seguida de acções concretas que influenciem maior produtividade e baixo custo, seja na produção e também na venda.
Resumindo, sai mais barato imprimir livros fora do país que dentro e é ainda possível imprimir pequenas quantidades, com qualidade gráfica e rapidez. E os dados não enganam. A pesquisa da UNESCO que provoca esta reflexão indica que em 2023, o valor total das importações no sector editorial, abrangendo livros impressos, brochuras, folhetos e materiais impressos semelhantes, atingiu aproximadamente US$ 31 milhões, dinheiro canalizado para as gráficas de África do Sul, Índia, Portugal, seguidos pela China e Hong Kong.
Se aos escritores, poetas e editores a preocupação centra-se nas questões relativos à publicação e venda de livros, aos leitores o custo e a qualidade, há actores que podem ver nisto outro um sinal de alerta, como fazer com que tanto dinheiro que provém da produção de livros seja canalizado à indústria gráfica nacional?
Outro dado que não deixa de ser intrigante é o facto de o financiamento para a edição de livros, segundo o relatório, vir apenas do Fundo Nacional de Investigação (FNI), com um orçamento estimado em dois milhões de meticais. Ou seja, esses recursos vão para obras científicas. A ficção essa muitas vezes fica por ser patrocinada por empresas, sendo de destacar, a banca. Do Estado, distante está o tempo do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural a quem se deve a publicação de vários autores que são referência na literatura moçambicana. Mas hoje pouco se sabe sobre o papel desta instituição, se tem dinheiro e a quem se destina esse dinheiro. Aliás, o relatório sequer menciona o FUNDAC quando se refere ao dinheiro que financia a actividade editorial.
Podemos ir mais longe, a partir do momento que foi extinto o Instituto Nacional do Livro e do Disco (INLD) deixou de haver uma instituição pública dedicada exclusivamente ao livro, pois as atribuições do Instituto Nacional das Indústrias Culturais (INICC) são generalistas. Por um lado, a tutela ao livro escolar está com o Ministério da Educação (que tem de lidar sempre com as indefinições identitárias, de Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano à altura do relatório, 2023, para Ministério da Educação e Cultura, em 2025), os livros doutras categorias, nomeadamente a ficção, estão incluídos num pacote que se resume só ao registo pela instituição tutelada pelo Ministério da Cultura (outra instituição que varia de tempos em tempos, de Ministério da Cultura e Turismo, em 2023, para Ministério da Educação e Cultura em 2025), através do INICC. Esta instituição pelas suas atribuições e competências, devia ser o braço público que atribui recursos para impulsionar o sector editorial, incluindo o financiamento, como aliás faz com o cinema. O INICC devia ser mais actuante nas propostas de leis de incentivo, bem como captação de recursos para iniciativas de promoção e divulgação da literatura nacional, que neste momento, a acontecer, é de visibilidade nula, até para os que actuam activamente no sector.
Seguindo ainda a linha de instituições que poderiam ser relevantes no sector editorial, está uma AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos) que embora seja mencionada como promotora de eventos (debates, prémios, etc), quanto à advocacia ou mesmo iniciativas para a melhoria do campo de produção literária não se faz sentir. Mais concretamente, a “pressão” junto do Governo para que a Política Nacional do Livro e outras leis, sejam implementados, a busca de recursos e meios para financiar a actividade literária, seja na componente de escrita ou na publicação, são alguns exemplos. Tudo isto é sobre o trabalho do escritor, que pela sua natureza seria membro da AEMO.
No meio disto tudo, é de notar o trabalho que grupos e instituições independentes tem desenvolvido e que dinamizam a indústria editorial no país. O relatório, no capítulo dedicado as instituições, menciona a Fundação Fernando Leite Couto, a Associação Moçambicana de Autores (SOMAS), a Federação Moçambicana das Indústrias Culturais e Criativas e a Associação Moçambicana de Médicos, Escritores e Artistas, como organizações que promovem o livro e protegem os direitos do autor.
Mas maior mérito do cenário dinâmico, ainda que pouco sustentável, que o país vive, está para as pequenas editoras que não sendo capaz de mencionar todas, facilmente se destacam, Fundza, Ethale Publishing, Trinta Zero Nove, Gala-Gala Edições, Kulera, a editora da Fundação Fernando Leite Couto (que promove um prémio literário para novos autores), a Associação Kulemba (que promove feiras de livros e dois prémios literários importantes, um para livros infanto-juvenis e outro para os melhores livros do ano), a Xitende (que promove festivais literários), a Fundação Carlos Morgado (que através de um prémio literário publica novos autores) e a Catalogus, que além de plataforma de informação, também edita. Escusado será afirmar o papel importante da Alcance Editores que publica grandes nomes da literatura moçambicana e outras entidades que, não sendo moçambicanas têm contribuído para a literatura nacional, a Escola Portuguesa (com vários títulos de infanto-juvenis) e o Camões – Centro Cultural Português em Maputo (com residências literárias para escritores moçambicanos).
Após a leitura deste relatório fica patente o desafio que os actores do sector livreiros estão sujeitos em Mocambique, o mesmo país que nos anos 80 publicava livros com tiragens acima de 3000 exemplares (actualmente a média é de 500) e, passados mais de 40 anos, num contexto aparentemente favorável, o Estado demitiu-se das suas funções, citando o escritor Rogério Manjate, qual “Coelho que fugiu da história”.
Em meio a ebulição social veio a música, regressaram ao recreio os rapazes sem se deixar enganar pelo tempo e os contextos. A banda 340 mil subiu ao palco do Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), em Maputo, para encontrar um público que desesperava, embora em êxtase, pela música que apela à uma estranha tranquilidade, a metáfora dos sentidos e vibração. E eles vieram só um pouco depois das 20 horas, hora marcada para o concerto, que antecipava o verdadeiro “show ao vivo”, que causou “amor e espanto” e uma correria desenfreada para a compra dos bilhetes, tendo esgotado em cerca de cinco dias. Bom para nós os que fomos por últimos.
Foi Rui Soeiro o primeiro a entrar no palco e pegou na sua guitarra-baixo. Seguiu-se Paulo Chibanga, o baterista que virou uma das pessoas mais influente da cena artista moçambicana, conectando artistas de Moçambique para o mundo e do mundo para Moçambique; depois entrou Tiago Correia-Paulo, o criativo da guitarra solo, acenando para a plateia, como quem vem encontrar-se com a ‘malta’. Os três prepararam o enredo para chegar Pedro da Silva Pinto, aquele que parece nada querer, para dar voz e sonoridades líricas. Era o começo do fim da secura.
Paulo era o que emitia os sinais do fim da angústia. A alegria de estar no seu lugar. Qual maestro de uma orquestra, “gesticulava” para que todos se levantassem, para que a alegria de viver aquele momento não fosse contida, para que não se reprimisse a vontade de acenar, nem que seja com o abanar sereno do corpo, da cabeça, ao bom estilo dub. Rui dava o toque agudo necessário para o balanço. Tiago dava asas, o apelo aos sentidos e lá estava Pedro, a atribuir palavras a tudo o que se passava, a toda aquela vibração, a toda aquela apoteótica recepção.
“You knock me over with your kung fu smile”, cantaram, enquanto o público de várias gerações e origens, é que deixava-se, na verdade, derrubar-se com aquele modo ‘kung fu’ de fazer música, tal mestres, a deixar o ritmo ‘bater’.
Foto cedida por Pedro da Silva
Tiago ia dedilhando a guitarra quando parou e atirou “vou ter que repetir isto, perdoem, já estou cota”. O público pareceu recusar-se a admiti-lo. Foi em razão de ser, a energia transmitida ia para além das idades. Os diálogos entre os três, Tiago, Paulo e Pedro – com os nomes a remeter-nos para um cenário bíblico – conferiram uma atmosfera intimista, humana e humanizada. Envolver o público no acto de criar e fazer a música. Mostrar a fragilidade, a temporalidade e essa coisa estranha que estar no palo, enquanto os outros olham com os olhos esbugalhados, cheios de magia e aquela saudade que ainda desvanece, na realidade instalada: são mesmo os 340ml ao vivo. Muitos, como eu, não se lembrarão de os ter visto em palco.
E a noite era de recreio. A sala grande do CCFM reduzia-se no calor humano e na alegria infantil daquele jeito de actuar dos já “cotas”. Paulo recordava-nos, incansavelmente, dos cerca de 15 anos de paragem e os desafios do restart, de tocar com o mistério dos anos 2000 naquela nada serena cidade sul-africana de Joanesburgo. Mas os quatro estavam para “as curvas”. E ninguém parou de cantar, com os coros a serem atribuídos a uma plateia que deixou de ser plateia, era uma companhia para Pedro, que se deliciava a dar voz à letra e nas folgas fazia o serviço extra, nas melodias, orada batendo nos teclados, ora soprando.
Quando tocaram o sucesso “Midnight” a temperatura já estava óptima e gritar fez bem, como aliás, cantam: “Stars are out, the temperature is right / Hold my hand, it’s ok if you scream”. E ficamos todos a sorrir. E depois ficamos todos a pedir mais e mais, eles foram e voltaram. E depois foram e voltaram mais uma vez. E depois o Paulo veio buscar o que deixara atrás, sem sentar-se na bateria. Aí percebemos que sim, tínhamos de despertar do sono, e lembramos que eles pediram, “Sorry for the delay”, então fica a resposta, We apologise for the delay.
Podemos deitar os outros sobre as obras e ver as estruturas frágeis em que se constroem os retratos. Enquanto vamos nos envolvendo os cenários se multiplicam sobre os olhos e vão se construindo narrativas, com personagens a discursar, seus sentimentos, suas intenções, do que se pode ver e do que se pode sentir. Eis a sensação ao entrar no universo de Nelsa Guambe na exposição “Memórias daqui”, patente na Fundação Fernando Leite Couto. Encontramos um conjunto de obras da mais recente criação de Nelsa Guambe, (2023 e 2024), utilizando na maioria das obras a técnica de carvão e pastel de óleo sobre papel e com dois trabalhos em acrílico sobre vela.
O estilo de Nelsa Guambe faz pensar na vida dos artistas. Embora tenham, estes, razões subjectivas, que passam sobretudo pelo seu interior, suas experiências associadas na concepção da obra, não se pode olhar para o trabalho artístico e isolá-lo das circunstâncias e contextos em que ele é feito. Não se pode olhar para estes corpos, estes rostos cujos tecidos se expõem para além da carne, não se-lhes procurar atribuir vidas, parecenças e um certo sentido de reconhecimento. Pode ser injusto para o artista, mas essa é a natureza humana. Buscar sempre referências do que vemos: o que lembra? Serão cheiros? Serão lugares? Um acontecimento? Uma pessoa? Um sabor? Qual é o estado de espírito das imagens que se nos apresentam? São várias as perguntas que a natureza humana impele-se a si mesma.
Por isso a importância da abstração. A importância do tempo. A importância do exercício incansável e acutilante da observação. Olhar várias vezes. Repetir e repetir quantas vezes for preciso, até que tudo faça sentido, ou não. Às vezes, não compreender é compreender. Esta última condição dificilmente se aplica em Nelsa Guambe. Da sua técnica, dos seus materiais, das suas representações e criações, alguma coisa, no meio de várias interpretações, se compreende. O corpo, o exótico, a fragilidade e a memória. Podemos construir uma narrativa.
Quando criança, os dias eram normais até que chegasse o tio Horácio. O fotógrafo andarilho com a sua lente Nikon analógica pendurada ao pescoço, e uma pasta no ombro direito. Tio eram todos nesse tempo, mas o Tio Horácio devia ser o mais famoso. Assim que se pressentia a sua chegada na rua, nós do 904 ainda tínhamos o privilégio do banho militar, e depois vestíamos as melhores roupas das nossas vidas; os de 49, as primeiras casas, iam directo à vaselina que os deixava a brilhar mais que o sol, pois era dali que entrava o fotógrafo sorridente. Um sorriso que era base das poses, com os dentes brancos a conflituar com as caras pretas, lisas e com um certo ar de bondade, com algumas gotas de suor de alegria. Chegado à nossa frente, posicionados no jardim, descalços porque não havia nem fotografia que nos convencesse de calçar, estávamos em grupo posicionados para a foto que só era captada num único clique. Quando olho para esses retratos hoje, todas as sensações retornam com as vozes, os sorrisos, a espontaneidade e a revolta dos que ficaram por fora, zangados por terem sidos excluídos da história.
Esta história não é sobre o tio Horácio nem sobre a fotografia, tampouco a rua “O”. É sobre a força de um retrato. É sobre a nostalgia que aqueles rostos, embora abstratos e numa tentativa estranha de irrelevância, mas próximos, familiares e sedentos de querer dizer coisas. Dizer-nos do seu passado, da relação desse tempo connosco, de como a memória é feita de matéria sensível, aos bocados de carvão que se podem apagar ou desanuviar num pequeno lapso.
É fácil ficarmos pelas mulheres como o centro destas “memórias daqui”. Mas pensemos na natureza no seu todo. Vamos reparar que nas minas de carvão, no abate das árvores, no garimpo, nos matadouros, são os homens a força bruta. Eles é que estão na linha da frente para matar, abater, cortar, queimar, transformar. Hoje as consequências sentimos todos. Este carvão, também matéria para construir estes corpos apresentados por Nelsa Guambe, são produto da combustão, também nós somos feitos de processos de transformação até que voltemos ao pó. A partir daí, podemos reparar de novo nesses retratos que convocam uma certa consciência do clima, da natureza e dos ciclos da vida.
Reparem nas flores que estas mulheres trazem, esse gesto de ternura, de tréguas, que representa a sensibilidade, mas também a sedução, a paixão até que voltemos aos ciclos existenciais. É nesse contraste que se faz a vida, da flor que nos acompanha em todos os ciclos da vida, do nascimento até à morte, do amor aos desamores, dos presságios e vaticínios.
Reparem nos olhos dessas mulheres, como estão embaciados, envergonhados, distantes e até numa nostalgia do tempo.
E, de repente, como chamados para a dura realidade, somos lembrados da fragilidade do corpo. E não é da mulher o corpo frágil. É de todos nós. É o corpo planeta, é o corpo social. Como sociedade estamos doentes e precisando de cura urgente. Mas não com a pressão avassaladora que arrasta tudo consigo, antes com a subtileza dos sábios, ver, ouvir, meditar, reflectir, dormir, sonhar, respirar e só depois, mas em última instância mesmo, as palavras.
No dia 13 de fevereiro fomos chamados a reflectir sobre o incentivo à leitura e promoção do acesso ao livro. Comigo estavam Ana Albasini, coordenadora do projecto Mabuku Ya Hina, implementado pela Escola Portuguesa de Moçambique, Constante Michel, coordenadora da Associação Chapateca e Susana Damasceno presidente de direcção de AIDGLOBAL. Já no dia anterior tinha sido debatido o mercado editorial e a distribuição do livro, dois assuntos muito bem abordados em grande reportagem no jornal Notícias do dia 19 de Fevereiro. Mas lá foi incisivamente levantado o Plano Nacional de Leitura, tal instrumento que sucumbe nas gavetas dos ministérios. A missão ficará agora para este ciclo de governação que iniciou, se for de interesse. O plano pode ser um bom impulso para a venda de livros e ajudar na sustentabilidade das editoras, uma vez que, pressupõe a compra de livros de ficção pelo Estado para distribuição nas escolas. Mas também seria importante para o incentivo à leitura, uma vez que, em princípio, os alunos do Sistema Nacional do Ensino teriam como recomendação curricular (quase obrigatório) a leitura de ficção. Mais ainda, o plano é fazer chegar do Rovuma ao Maputo a literatura nacional, por tanto, um bom princípio de distribuição. Um instrumento e todas as “aldeias” curadas dos seus males. No final, haveria mais leitores.
A partir do trabalho desenvolvido por Mabuku Ya Hina, Chapateca e AIDGLOBAL olhamos para as soluções possíveis a partir de uma abordagem diversificada, que se estende por diferentes espaços nacionais, mas que o fim é o mesmo: pôr as pessoas a ler, como uma experiência de lazer, aprendizagem e desenvolvimento cognitivo. Não se trata de combater o analfabetismo, de dar acesso à escola, é dar instrumentos para o desenvolvimento humano, treinar o pensamento, a imaginação, a criatividade, a retenção do conhecimento e até contribuir para o exercício de cidadania. Isto é, conferir criatividade, imaginação e liberdade à instrução escolar. Ditas assim as coisas, parecem apenas palavras bonitas, até porque os impactos destes projectos, caminham com a vida das pessoas. A capacidade de ler e compreender, reflectir sobre os processos, a interpretação, a formação do discurso por meio das palavras, as relações humanas, o saber dar importância o que está para além do tangível, através da leitura de ficção, demanda tempo.
Perceberam-se as complexidades do problema que a falta de leitura e o que causa a falta de livros no espaço público. Mas foram os pequenos gestos que ampliaram o horizonte sobre o que ainda se pode fazer:
A multiplicação e criação de mais iniciativas de promoção de leitura na primeira infância por todo o país.
Aposta na formação dos professores para o fomento de hábitos de leitura.
Mais publicação de obras para a infância por autores moçambicanos, incluindo, claro está, o respectivo apoio às editoras para a sua edição.
A necessária criação de instrumentos e sua implementação pelo Governo para programas de incentivo à leitura.
Mais parcerias para que estas iniciativas cheguem a mais províncias de Moçambique.
É preciso acções que incluam os jovens nos programas de incentivo e promoção da leitura. Escusado será dizer que para tudo isto é preciso financiamento, esse que se estende desde aos programas de criação literária (para que os escritores tenham condições para escrever), produção de livros, circulação e programas de incentivo à leitura.
Quando entramos na galeria Addis Fine Art, situada no coração da capital da Etiópia, chama-nos a atenção a tranquilidade do espaço e o impacto visual causado pelas cores fortes e nas figuras que preenchem os quadros. As personagens parecem indiferentes a tudo e a todos, apenas entregues a si, numa interdependência e leveza que contrasta com a luz das cores. Ocorre-nos o silêncio e a quietude, em primeira instância, de seguida despertamos nos detemos na forma como se preenchem os vazios.
A artista é Tizta Berhanu (n.1991) e os quadros monocromáticos vão contra o frenesim destes tempos. Desafia-nos a esquecer os ponteiros do tempo, a abstração das coisas ao redor e dedicar toda a atenção às pessoas, assumir o amor como um ofício em que temos de nos esmerar, deixar que ele seja a casa (revisitando as palavras de Eduardo White),onde as almas se multiplicam na generosidade do gesto, dos sentimentos, na poesia do afeto.
Nos dias em que temos os olhos voltados para os outros, como se disso dependesse o rumo das nossas vidas, a pintura de Tizta traz figuras que estão voltadas para si ao mesmo tempo em que se abraçam e formam uma comunidade dos afectos. As obras sugerem a unicidade da alma, os corpos, esses, são de propriedade indivudal, mas eles vivem entrelaçados uns nos outros. Por causa dessa necessidade que se tem pelo outro, no sentido do “nós” a que nos desafia o amor, não se distingue as divisões, os limites, onde começa o corpo de uma mulher e começa de um homem, onde habita a criança e até onde vão as mãos que a acolhem. É cada um é mim, como bem o disse o poeta Nelson Lineu. Esse olhar para o outro como a si mesmo. O amor é sobretudo dar-se antes de receber. Não é uma troca, não é uma transação, com impostos, juros ou bónus. É a natureza humana no seu ponto mais alto, quando olhar para nós significa pouco. É estranho como uma certa angústia se nos vem daquela ternura, a melancolia e a serenidade que provém da segurança em estarmos tão juntos que não se conhecem os limites. Em tempos de “likes” e “shares” e “hashtags” que nos simulam estarmos em vida comunitária, em vidas partilhadas.
Ao intitular “Agape” à exposição, como rebuscado da palavra grega antiga que designa a forma mais elevada de amor, um amor divino que transcende e resiste a todos os obstáculos, Tizta mostra o que lhe interessa na complexidade humana. Os sentimentos que não se assentam nas coisas, mas no calor que o outro transmite, na confiança que nos põe a dormir no côlo do outro, nesse gesto genuíno de experimentar o sossego e a confiança.
Addis Abeba que está a transformar a olhos vistos, bem distante daquela que conheci em 2019, que parecia morfar, podre, sem sinais de alegria e aquela frustração de se estar na capital da diplomacia africana, na altura praticamente apenas a sede da União Africana a ser um dos edifícios mais vistosos. A actual cidade tem um certo brilho, edifícios novos, estradas, jardins e as pessoas num baile de um “à vontade”. A cidade está numa transformação na arquitectura, nos estilos de vida e na organização social.
As artes plásticas na Etiópia tem revelado artistas que facilmente conquistam o circuito artístico internacional. Para isso também contribuem galerias como a Addis Fine Art, fundada em 2016 por Rakeb Sile e Mesai Haileleul, com foco em artistas etíopes, do Corno de África e das suas diásporas e que funciona como uma importante ponte para o alcance aos mercados internacionais. O caso de Tizta Berhanu é um exemplo, tendo exibido o seu trabalho em outros países africanos e na Europa, por exemplo.
De volta à exposição “Agape”, a aposta nas cores que se associam à natureza, castanho e cinzento de terra, o preto, o marrom, o azul e o amarelo, não terão sido escolhidos por acaso. O amor que se experimenta no corpo, passa para a natureza, a água, a terra, as plantas, mas também o sonho. É como se a artista nos desafiasse a partilhar a intimidade com o que nos mantém vivos, o vento, o sol, a chuva, a areia e o intangível sentimento que é, afinal, a força do individual e do colectivo.
Em algumas obras é como se a artista quisesse que o espectador experimentasse a atração física, assim como o confronto, a verdade, a empatia e a honestidade. Parece controverso, mas não é assim, às vezes, o campo dos sentidos? Os olhos não tem segredos, nem enganações.
A própria artista tem uma percepção que vai para além do tato, do tangível ou do mensurável. Não se trata apenas de uma abstração flutuante, mas de algo real e vivido. Não está longe, mas perto, por vezes à distância de um braço. Além disso, se olharmos para ele de um ponto de vista teórico, é suposto ser o todo final; um concreto onde todos os pequenos detalhes se juntam num grande todo; como o conceito de Deus, por exemplo. Por isso, não o posso evitar, mesmo que o tente fazer intencionalmente. explica Tizta Berhanu.
Se a temática do amor já foi explorada até a exaustão, ao decidir abordá-lo, o artista tem de estar muito certo do que faz. E isso Tizta conseguiu, desde o conceito, a técnica e a empatia que transmite, fazendo com que o espectador seja parte do conjunto da obra. A forma como aplica a tinta sobre tela, preenchendo os espaços deixando os vazios necessários, colocando cada elemento no seu devido lugar onde a preocupação não é no valor utilitário, é sobretudo a humildade de deixar um lugar para os outros enxergar com os sentidos o que pretende transmitir. Ou seja, cada observador terá de intervir para a constituição do cosmos e dessa energia infinita da empatia.
Tizta Berhanu nasceu em Addis Ababa, Etiópia, onde vive e trabalha. Licenciou-se em 2013 na Universidade de Adis Abeba, em Belas Artes e Design. Aos 34 anos tem todo um caminho a percorrer, experimentando, confrontando, mas não há dúvidas sobre o seu instinto e técnicas apuradas.
E porque a sorte anda com os peregrinos, enquanto fazia a visita à Addis Fine Arte, Mesai Haleileleul, o fundador da galeria, falou sobre a plataforma que tem a ambição de revelar artistas emergentes, ao mesmo tempo que procura projectar o melhor das artes plásticas etíopes pelo mundo. A ideia também, segundo Mesai, em conversa informal e que por isso não cito na primeira pessoa, a ideia é criar condições para que a arte possa ter o seu próprio tempo, que o caminho seja feito em harmonia com a natureza e com os princípios que cada artista persegue. Enquanto isso, ser um centro onde a arte africana possa se afirmar.
A exposição “Agape”, foi inaugurada a 6 de Janeiro e pode ser vista até 8 de Março na Addis Fine Art, na capital etíope.
Enquanto Índia celebra o Dia da República uma exposição no Museu de Arte e Fotografia (MAP) guia-nos para as dimensões e compreensões da feminilidade e do género, com um discurso que se transforma no tempo, enquanto o país também assiste a mudanças.
Percorrer as cerca de 130 obras de arte expostas na galeria do quarto andar, pode revelar o que está no consciente e subconsciente, nas montras sociais, por dentro e fora das famílias na Índia, desde o século X à actualidade, através de esculturas, tecidos, pôsteres, pinturas e fotografias do acervo do MAP que foi inaugurado em 2023, em pleno centro da cidade de Bangalore (Bengaluru), na província de Karnataka, região sul.
MAP – Museum of Art and Photography, Bengaluru, Índia
Ter ido visitar a mostra horas antes da celebração do Republic Day foi mera coincidência — pertinente coincidência —, uma vez que a exposição Visível/Invisível: Representação da Mulher na Arte através da Colecção MAP, está patente desde Fevereiro de 2023 e vai até 1 de Dezembro de 2025. Isso permitiu fazer uma leitura, ainda que sempre relativa, da nação, através da arte e da abordagem feita à vida das mulheres. A maioria das obras pertence a artistas masculinos e desde logo vai saltar à vista a mulher enquanto sexo oposto (ao homem), que significa, primeiro, de presença, porque ela existe é a musa, e suscita o interesse por parte de quem a vê, e também está sob o domínio desse outro (homem); em segundo, própria representação nas artes, como ela é relegada ao anonimato por várias razões, sobretudo as culturais (sempre muito complexas, entre grupos sociais, castas, religiões, etc).
A exposição enquadra perfeitamente toda a complexidade do país, ao subdividir-se entre temas baseados em narrativas e contra-narrativas: Deusa e Mortal, Sexualidade e Desejo, Poder e Violência, Luta e Resistência.
“Naag” (1986), obra de Mrinalini Mukherjee
A arte permite-nos conhecer o outro, perceber as complexidades humanas e o meio; a arte é humana ao mesmo tempo que política, religiosa, além do interesse de reflectir a própria arte. Contra a ideia da nação conservadora, ficou-me a secção Sexualidade e Desejo e Luta e Resistência. Além da própria feminilidade, a mulher na sociedade ou o discurso político de género, questiona-se a história, as crenças, as tradições, de forma provocadora ao mesmo tempo que sensual. As obras contemporâneas reflectem as crises identitárias, levantam uma outra narrativa sobre a mistificação e sacralização do corpo feminino como forma de controlar as mulheres ou relegá-las a um utilitarismo. Isso inclui a sua própria sexualidade, os direitos e as liberdades.
Nessa linha de pensamento, a obra de Mrinalini Mukherjee (1949–2015) intitulada “Naag”, de 1986, feita de fibras entrelaçadas, plissadas e pregadas com alfinetes, tingidas de roxo e marrom, com dimensões humanas, chama atenção. Numa ligação título-obra, desvenda-se a ideia da artista, ao fazer uma invocação ao sagrado, às crenças religiosas, aos deuses e às figuras patentes nos templos hindus. Ao levar-nos a uma dimensão em que o objecto (obra) confronta-nos com o seu tamanho e forma, facilmente procuramos associá-la ao corpo ou as partes dele. Ao retirar do campo espiritual (deuses) a mulher, e expô-la na sua sexualidade, formula um discurso poderoso sobre o corpo, associado a sentimentos e defeitos. Tornar a mulher “santa” para controlar o seu pensamento e atitudes. “Nagg” (acredita-se ser uma raça divina, ou semi-divina, de seres meio-humanos, meio-cobra), é uma outra narrativa sobre a intimidade feminina colocada à nu e em dimensões que não pode ser ignorada ou passar despercebida.
Como se dialogasse com as ideias de Mrinalini está o quadro de Mithu Sen (n. 1971), em aguarela sobre papel artesanal. A obra apresenta um ser em forma de serpente que também remete aos intestinos, com uma imagem minúscula de um tigre colado, uma cabeça de mulher com uma língua comprida e uma flor cor-de-rosa. Continua assim o pensamento crítico sobre a imagem feminina, num discurso que roça o grotesco e o sensual. O rosa sobre branco acende sobre os olhos, revela essa suave rebeldia, o perigoso desejo. As narrativas sobre o mal e as origens da humanidade pintam uma cor cinzenta sobre a mulher, conforme convém aos narradores, sendo que só se recorre a ela — já num olhar aos hábitos e costumes locais — para fins de procriação, por exemplo. Portanto, ela por si, é a encarnação do pecado, mas associando-se o desejo do homem e as suas necessidades de “consumo”, torna-se essa luz, uma flor.
Na abordagem à luta e resistência na história da Índia, uma crítica à organização social, aos sistemas de castas, está a instalação “Tríptico Mukta Salve” de Rahee Punyashloka (n.1993) com o contundente manifesto da jovem estudante Mukta Salve baseado no texto “About the grief of the mangs and the mahars” (Sobre o luto dos Mangs e Mahars), considerado uma das primeiras obras de literatura feminista dalit. Aqui se concretiza a ideia da sociedade complexa indiana que referi-me na introdução deste artigo. É a literatura a ser chamada para o campo visual, em jeito de homenagem a uma figura que abordou num contexto delicado a vida da classe dos renegados do sistema de castas. A instalação contempla um retrato da página original da publicação denominada Dnyanodaya de 15 de Fevereiro de 1855, onde foi publicado pela primeira vez o manifesto com o título “Condição dos Mangs e Mahars – Ensaio de uma rapariga Mang em Poona”, publicada em inglês, hindi e marathi.
“Tríptico Mukta Salve” de Rahee Punyashloka
A fechar deixo um excerto do manifesto de Mukta Salve que pode ser lido na íntegra aqui.
Ó sábios eruditos, dobrem seu sacerdócio egoísta e parem com a tagarelice de sua sabedoria vazia e ouçam o que tenho a dizer. Quando nossas mulheres dão à luz bebês, elas não têm nem mesmo um teto sobre suas cabeças. Como elas sofrem na chuva e no frio! Por favor, tente entender isso por experiência própria. Se elas pegarem alguma doença durante o parto, onde elas vão conseguir dinheiro para médicos ou remédios? Já houve algum médico entre vocês que fosse humano o suficiente para tratar essas pessoas de graça?
Guarda este momento. Vais te lembrar dele quando já nada houver para lembrar. Do materialismo ou da pressa para a afirmação, quando correr atrás não for mais do que uma metáfora para te manteres vivo, precisarás das coisas que se sustém no tempo, intemporais. Não creio que isso vá te acontecer tão depressa, pois és jovem, mas um dia sempre acontece. Não será na velhice, que a velhice é coisa preciosa para desperdiçar com memórias iguais a estas. Mas guarde. Guarde porque a tua mente precisa preencher-se de vazios, também. Não se pode passar os dias apenas com contas de somar na cabeça. E nem a vida pode passar, sem que se guardem momentos como estes, por mais vazios ou desprovidos de substância que se pareçam.
Caro senhor R.K. Narayan, fomos a sua casa e não estava. Pior do que isso, a casa estava encerrada. Passava das cinco da tarde, mas essa não foi a principal razão para termos ficado à porta. Era terça-feira.
Já que não o conheço, não vou meter-me em enganações. Só ouvi falar de si quando chegamos a Mysuru — aprendi a dizê-lo como os próprios indianos, desapeguei-me do inglês Mysore —, por volta das 12h40. Fomos ali ao Bean Stop Café. O aspecto intimista e o design minimalista são incríveis, mas o preço dos chás e cafés foi a martelada da decisão que nos fez entrar. Olhei para as paredes e estavam lá as marcas de pincel fino com traçados da cidade. Fiquei-me por wraps de carnes que pedi gentilmente «without spice», ao que o rapaz de cara lisa acenou com o típico abanar de cabeça dos indianos bem-educados, quando querem dizer, tu aguentas. Delicioso que estavam os wraps a que tenho por manias chamar shawarma, realmente aguentei o piri-piri. Serviço extra teve a Estelle com o seu petisco que para além dos temperos picantes tinha os graus de piri-piri espalhados. Escusado será dizer que ela comeu e lambeu os beiços. Não provei o café, mas o Thomas disse que estava bom. E se o Thomas, um alemão de Colônia, diz que está bom, está super para um subsahariano como eu. Passei a maior parte da minha pouca vida nos aromas de Ricoffy contrabandeado da África do Sul, quando descobri que há café e Café, já era tarde para ganhar o hábito. Fiquei-me pela água.
Foi a Chiranthi que trouxe o seu nome à mesa. «Em Mysuru tem a casa de Narayan», foi como um espanto. A Estelle foi depressa acompanhada no delírio. Ambas olharam-se felizes com os olhos umedecidos de encanto. «Ele é um grande escritor», disseram. E Chiranthi confessou estar no topo das suas preferências. Complacentes, as duas pouparam-me e o Thomas dos títulos dos teus livros quando perceberam que não sabemos nada sobre si. Foi gentil da parte delas, como de resto, elas sempre foram: duas almas ávidas em tornar os dias, as horas e a vida, menos pesada do que parece. «Temos de ir à casa de Narayan, estamos na própria terra dele, não acredito» disseram quase partilhando as palavras, com a beleza da diferença de sotaques, Estelle num inglês afrancesado e Chiranthi, de Sri Lanka, gritaram um eufórico Oh my God! Soubesse o senhor das abreviaturas da moda, ficava-me fácil, pois escrevo em português e pode calhar-me o erro nas palavras de língua inglesa. O Thomas escreve em alemão, a propósito. Ele está sempre a escrever, com um bloco de notas e uma caneta de tinta azul, tens de vê-lo. Conto-te depois como ele se parece um grande escritor, preocupado sempre em registar os momentos, com a própria mão, assim as palavras têm corpo. Foi o Thomas, aliás, que mandou parar o Txopela quando chegamos na cidade, para que fosse rápida a nossa chegada ao Palácio de Mysuru, o principal objectivo da visita à sua cidade.
Vista frontal do Palácio de Mysuru
Lamento pô-lo a par da verdade, através de uma carta que nem sequer inicia com as saudações de praxe. Contente-se, pois, em saber que não cheguei a ver como vivia a família real, não invadi a vida privada nem a intimidade dos Wodeyar. Quando fiquei a saber que a entrada custava 1000 rúpias indianas fui dar voltas à esquina, como diz-se na gíria, mas literalmente. Andei pelas ruas, às livrarias e aos museus onde só me custaram uns máximos 70 rúpias para a entrada. Tenho pena que não possa ter entrado no Palácio de Mysuru, admito, a vida privada dos outros faz a vida do escritor, não é verdade? Mas pensei comigo, antes vou conhecer Zimbábue e a campa da rainha Bibi Achivanjila, depois juntar algumas moedas para os despojos de Rei de Mysuru. Tudo isso, deve compreender, são desculpas de quem tem de contar as moedas no bolso.
As visitas à tua casa são gratuitas. Bem que pode. O senhor não é rei e não mora num palácio. Talvez, por isso, dá-se ao luxo de fechar as portas da sua casa na terça-feira. De certo não há uma romaria para visitá-lo, ainda que haja quem tenha bondade e possa dar alguma coisa para a casa. Os escritores ganham quase nada, coitados, uma ajudinha não faria mal. Mas como a espécie literária é estranha, eras capaz de não aceitar ajuda nenhuma, que não fosse lerem-te os livros. Guardo essa vergonha para mim, não ter lido ainda um livro da sua autoria.
Antes de chegarmos à sua casa que estava fechada e por isso, mais uma vez, serei incapaz de descrever os interiores, caminhei durante três horas pela cidade. Deve ter sido um acesso de loucura, imagino que o senhor o diga, quem pode andar tanto tempo numa cidade onde o barulho vem de todas as coisas? Dos letreiros cheios de informações em inglês e nas línguas indianas, dos veículos motorizados que surgem de todo lado, pessoas de todas as idades e indumentárias, cavalos, ovelhas, bois de cor-amarela. Sou da Matola, a cidade das festas de família, bodegas, onde quase toda a gente vai para dormir e fazer amor. Nestes dias custa falar da minha cidade sem recordar a imagem cinzenta das lojas e o fumo de um denso cinzento a cobrir os céus, tudo ardido na famigerada fúria popular.
Fui à Galeria de Arte Sri Jayachamarajendra. Importava-me conhecer a cidade e o país através das obras de arte. Importava-me o diálogo, as estórias por detrás da história. A pintura, a escultura, disseram-me muito do que gostava de saber. Dei-me conta depois que não fiz uma fotografia sequer. Que foi o único lugar que não marquei na memória digital. Fiquei-me pela imersão. Fez-me bem ao coração e devo guardar para o futuro, se é que lá chegamos.
Fui para a terminar dos machimbombos. Sou moçambicano — esqueci-me de dizê-lo —, é importante saber onde apanhar o chapa. E ver como se comportam as pessoas, os vendedores ambulantes, os viajantes de várias partidas e chegadas. Há uma certa pressa em tudo, um «deixa-me subir primeiro», que em nada me espanta. Gosto da música que vem da conversa, da chamada dos cobradores, do bater dos pés no alcatrão, dos carros a chegar e partir, dos apitos dos guardas e do cheiro de comida.
Andei pela Ashoka Road onde as joalherias alternam-se entre si, as lojas dos tecidos coloridos ombreiam com sapatarias, ferragens, lojas de utensílios e objectos metálicos do rico e sagrado artesanato; os deuses feitos de aço e bronze, a disputarem o lugar com as jóias de diamante e ouro; as motos que fazem filas nos passeios, a competir em superioridade numérica com os humanos, os chinelos aos montes nas portas, as ovelhas, as cabras e o céu azul, com os pombos em bailado ao deus sol. Ao fundo está a Catedral de São José e Santa Filomena, com os fiéis e devotos de pés descalços, homens, mulheres, jovens quase aos prantos numa via sacra mais de súplica que de paixão; olhei para o monstro que subia aos céus — não devia invocar as sombras ao falar da casa de Deus, eu sei, hábitos da minha terra em que dizemos «monstro sagrado» às coisas que tem dimensão divina —; um grupo de mulheres descia do autocarro com a lentidão dos peregrinos exaustos, mas firmes na fé, fizeram o sinal de cruz e tinham as cabeças e os ombros encurvadas, pude senti-los carregados de tormentos que pretendiam desanuviar. Tenho de dizer que me comovi ao vê-los, mais ainda quando pagaram o ingresso para falar com Deus dentro da catedral. Bem, as catedrais têm conversas que se paguem, diga-nos o mestre Vargas Llosa.
Chegou o fim da tarde. Era a vez de ir visitá-lo à sua casa. Antes tomamos um gelado no Indra Cafe’s Paras. Escolhi o de tâmaras que é de um sabor que nunca havia experimentado, os outros foram pelo sabor das manga e chocolate. Ninguém ficou decepcionado. Depois bebemos o café que quando não se tem o cuidado sempre virá com leite nas tascas tradicionais desta cidade, talvez por isso me tenha aguentado. Já antes tinha sido assim na Estação de Comboios em Bengaluru. Lá eu fui pelo Badam, o leite quente misturado com amêndoas, cardamomo, açafrão e açúcar — desculpe o aborrecimento com esses detalhes que o senhor certamente conhece, mas se não fosse a si, não contava a ninguém estas coisas. Foi no Indra Cafe’s Paras que o Thomas foi parar à porta, qual recepcionista louco ocidental, para o espanto dos sempre muitos transeuntes, clientes e os vendedores nos passeios de todas as idades à frente do Mercado Devaraja. Ele, dentro de si e no olhar às coisas à volta, tomava as devidas notas no seu caderno em alemão. Deve ter sido sobre a multidão que se abalroa entre si, na paleta de cores quentes, nas mulheres belas nos variados feitios, nos homens de lungi, que não sai da cabeça ser uma capulana, a atravessar a praça, os cheiros fortes das especiarias, as vozes dos vendedores ambulantes que chamam os clientes com os preços sempre possíveis de regatear. Se o senhor conhecesse Maputo podia simplificar as coisas, é o Xipamanine de Mysuru. O Thomas tem ares de bom escritor, como o senhor pode notar.
Mulheres em procissão descalças
Catedral de São José e Santa Filomena
Fomos apanhar o Txopela, os quatro, como na primeira vez desde que chegamos nesta cidade, sentados quase um em cima do outro, juntos, efectivamente juntos, dei-me conta nesse instante que nunca tínhamos ficado teu próximos uns dos outros em cerca de 20 dias que vivemos na mesma casa, almoçamos à mesma mesa assim como partilhamos os jantares, além das várias cavaqueiras noturnas e matinais de pôr a conversa em dia, num estranho olhar aos processos históricos dos nossos países, e muito pouco sobre o texto literário, as cozeduras, os truques, as vias de construção que nos fariam chegar ao grande livro. Falamos da nossa relação com as coisas, com os lugares, com histórias oficiais e não oficiais, com os traumas e terapias colectivas que vão acontecendo, embora numa versão longe das nossas concepções ou cogitações.
Devaraj Mohalla é onde fica a sua casa, esse bairro feito de colinas, subidas e descidas, enormes árvores a disputar os céus com aves de várias espécies. Mais tarde me apercebi que está ao pé da linha férrea, fico a imaginá-lo a despertar na madrugada com o chiar dos comboios e o apito de levantar a alma. São também assim as minhas madrugadas, com os apitos dos comboios da linha de Ressano Garcia. Já era assim na casa dos meus pais, mas aí era tudo como um sonho. Agora posso sentir a vibração, o barulho do motor a acelerar e a nostalgia da buzina longa que se devance enquanto procuramos adivinhar a direcção da viagem.
O Txopela — tenho de chamar assim o vosso Tuk-Tuk —, ia passando quando avistamos a sua residência. Mandamo-lo parar ao que o motorista obedeceu com certa desconfiança: a casa pintada de branco estava envolto a escuridão. Agora que escrevo fico a imaginar o que se passou na cabeça do homem ao partir depois de deixar quatro jovens estrangeiros naquele lugar silencioso, quando a noite já era verdade.
Ficamos parados no portão. Estelle e Chiranthi foram de imediato fazer a perícia na casa. Deviam imaginar o senhor R.K. Narayan sentado na mesa a tomar o seu Masala chai. O senhor não deve tomar uma coca-cola como o poeta Craveirinha. Tenho aqui vários dias e quase não vejo ninguém tomá-la. Então as duas admiradoras tuas ficaram a tirar fotos, com troca de palavras, memórias, atmosfera e mais alguma coisa. Há sempre alguma coisa que os leitores acérrimos tiram das obras e dos autores. Nunca tinha vivido um momento igual e não podia esperar que fosse subir e descer colinas, passar mais de duas horas no comboio, caminhar por várias horas, até chegar a casa de um escritor cuja alma habitava em silêncio na sombra. Fiquei a pensar, ainda que reconheça que foi um momento de tolice, como seria se algum leitor decidisse ir até à minha casa. Aquilo é andar por estradas com buracos assassinos, planícies, machambas, atravessar rios, e se fosse entre Fevereiro e Abril ainda teria de ir à nado, rezasse para que a mafurreira que é referência da paragem, não tenha sido cortada para pôr uma barraca. Imagina o senhor que isso não será possível, tal como eu, pois não?
Queria continuar a escrever. Deu-me nestes instantes finais uma certa graça dizer o que disse. Mas a parte que viria daria-me uma certa angústia, refiro-me à exaustão de retorno ao ponto de partida, num comboio noturno, onde fomos numa cabine para os quatro, isolados de todo o mundo. Mas também, chegar ao final levanta outros princípios. Por exemplo, podia ter lido primeiro os livros, antes de fazer chegar esta carta. Vou começar por The Guide. Achei por aí na net. O senhor não se importará com a pirataria africana, não é?
A propósito, as palavras que abrem esta carta, foi o meu monólogo diante da sua residência. Na verdade foi por isso que decidi escrevê-lo, sem esperar que respondesse.
Bengaluru, 23.01.25
E estou eu e o condutor do Txopela que nos recebeu em Mysuru, gentilmente.
Durante Janeiro de 2025 estou em residência literária Sangam House, no The Jamun, que agradeço muito a hospitalidade.