Autor: Eduardo Quive

  • O Cine África e o sonho teatral

    Algures, numa das minhas vidas, fiz teatro. E sinceramente, cheguei a acreditar que era mesmo um actor, que era o senhor dos palcos, capaz de colocar em pé uma imensa plateia, aos aplausos e delírios depois de ver-me em êxtase a contracenar. E os passos que dei levaram-me a essa crença. Não era só uma questão religiosa era mesmo obra. Desde a minha quinta classe, na Escola Primária Patrice Lumumba, nos confis da Matola, até por aí, décima classe, na Escola Secundária São Dâmaso, andei em palcos e em grupos de teatro que realmente eram a principal atração nos eventos escolares. E mais, chegamos a granjear simpatias e a ganhar coisinhas interessantes, na altura, em eventos e festivais Matola a fora. Desde o festival Mogás que era uma referência na altura, aos eventos do dia do município, que muito me lembra a utopia e a forma apaixonada com que Carlos Tembe vivia a sua cidade, Matola no Coração. Chegámos a vencer a fase distrital para o festival nacional da cultura. Chegamos a fazer algumas viagens, inclusive, quando fomos conhecer as montanhas onde tombou o avião matando o papá Samora. Sinceramente, no sonho maravilhoso que vivi, acreditei mesmo que era no teatro que se fazia a vida. Cheguei a ir para um casting no Gungu, acreditem, a insanidade era tão grande, a ingenuidade é corajosa, contradizendo o meu amigo Matiangola que se referia nesses termos sobre a ignorância. Sim tenho uma ingenuidade corajosa. Ou talvez tinha, porque a dado momento e porque não passei ao casting, talvez seja, os tipos que eram encenadores foram ficando velhos para sonhar, precisavam ter certezas, ficaram polícias, professores, foram sumindo para lugares distantes, tão longe que hoje são memória. Antoninho, por exemplo, morreu poucos anos depois de ter sofrido um grave acidente de viação, uma camioneta o arrastou bem ao meu lado, enquanto falavamos de “pitas”. Os outros, outros ficaram funcionários públicos, para garantir a reforma.
    Nessa ingénua e corajosa infância e adolescência, sonho mesmo era que um dia actuassemos no Cine África, a Catedral das Artes moçambicanas. Todas as vezes que subia um palco por mais raso que fosse e estivesse quase de braços com a plateia, eu sentia-me bem lá, em cima, com uma imensa plateia de cabeças levantadas e olhos arregalados, viajando no meu espectáculo. Meu irmão chegou a apresentar-se ali no Cine África, lembro-me do dia, como não podia? Não fui convidado ao espectáculo. Fiquei em casa só a imaginar enquanto lavava loiça e cozinhava. Ainda fiz vénias quando tirei as panelas do lume para me servir e comer.
    Hoje passei do África, veio-me a saudade e o sonho, a angústia e a desilusão. O que o tempo e a vida fazem… o África está num silêncio sepulcral. Não dorme. Está simplesmente inerte. Indiferente. Ausente e diluido, como a outra vida que vivi… Não deixo de estar triste. Nunca, aliás, me dei conta da tristeza que me dá o Cine Teatro África, naquela ausência e Indiferença!

    memorias #historiadevida

  • “O ardina de sapatos gastos”, de Alerto Bia: o prazer da leitura

    Raras são as vezes que sou desafiado a apresentar um livro. Muitas são as vezes que me chegam textos inéditos para dar a opinião crítica e indicar prováveis caminhos aos autores que estão na berma da estrada. Devo confessar que essas tarefas, tanto a de apreciador crítico sobretudo a de apresentador de livro são me sempre estranhas, por pensar e saber que tenho também feito o mesmo em relação aos meus textos de ficção, entregando-os a outros olhos, que os considero mais apurados. Mas por considerar necessária essa troca de textos para uma apreciação por parte do outro, aceito o desafio com o entusiasmo e certo cuidado por saber que muitas vezes trata-se de uma degustação de produtos ainda em cozedura.

    Desta vez, foi o Alerto Bia, um escritor que vem se apresentando na literatura moçambicana que desafia-me a vier a público apresentar o seu primeiro livro em prosa. E porque com a tarefa me vou expor a um público principalmente jovem, aproveito para levantar a voz em torno de uma reflexão que venho fazendo.

    Tenho constatado que a literatura moçambicana dos tempos actuais, apesar de ser conotada como nova, muitas vezes se repete, sobretudo na abordagem estética e temática. Se o estético ainda nos abre espaço para experimentações, os temas são o lado mais arriscado na escrita, por desafiarem o escritor a superar a todas as abordagens já feitas. Em literatura quase já se escreveu sobre todos os assuntos. Então, ao decidir escrever, um autor coloca-se um grande desafio temporal. Noto que parece que os escritores sucedem-se, vão surgindo, mas pouco se arrisca na abordagem aos temas. Andamos às voltas, vendo as mesmas coisas, sentindo os mesmos cheiros, ouvindo as mesmas vozes e o que resulta são os textos que parecem sempre uma repetição de outros textos. 

    Esta leitura que faço é muito particular e não tem a ver com alguma obra específica. Tem antes a ver com os tempos que vivemos. O tempo em que as ropturas parecem serem feitas a todo custo. Tempos em que nos custa afirmar as nossas referências. Tempos que andam depressa, onde a vaidade corrompe a razão e nos tira a dúvida metódica. Temos em que são os outros a definirem o nosso tempo e um bom texto parece ser um grande achado num mar de obras. E os leitores, que sempre foram em número reduzido, parecem também ter perdido a paciência para uma ficção. Isto quererá dizer-nos alguma coisa sobre o trabalho literário. Sobre a vaidade e a astúcia do escritor. Sobre a formação do escritor e de todo um contexto que o define enquanto criativo. E se calhar nos levará a fazer-nos a pergunta que nos aconselha Reiner Maria Rilke, se pararmos de escrever, morremos?

    Penso que um novo livro tem de ser sempre uma oportunidade para formular um novo debate ou para fundamentar opiniões que já existem ou abras novas possibilidades, tanto por parte do escritor e por parte do leitor crítico ou comum.

    Dito isto, tenho de reconhecer que não acho o momento literário moçambicano mau. Acho-o, pelo contrário, entusiasmante. Chegam-nos, de quase todas partes deste vasto país e para gostos variados, obras literárias, como raramente já se assistiu. Sempre pensei a nossa literatura como pobre, enquanto não nos apresentar as propostas literárias das geografias, paisagens e linguagens dos vários pontos que fazem este país. E pensando nisso, felizmente, há narrativas que nos desafiam. Há estéticas que não sendo de grande revolução imaginária, sempre colocam em pauta uma visão, uma atitude de inconformismo em relação ao estabelecido e ainda nos trazem essas novas geografias, paisagens e linguagens. 

    O Alerto Bia já nos levou até ao cais da sua escrita. É um autor com um certo percurso nas letras o que nos leva a receber a sua obra, embora com menos desconfiança, mas com alguma atenção acima do que seria em caso de um primeiro livro.

    Publicou seu primeiro livro em 2016, com o título Sonhar é ressuscitar, o segundo livro saiu em 2017, intitulado Sombras cálidas, em 2021, o terceiro, O desassossego por dentro. Portanto, como podem notar, estamos de um autor que já não se enquadra no termo novo, porque tem um caminho andado. Se calhar, para os hábitos da vida literária nacional, ainda se lhe pode chamar “jovem escritor”, sabe-se lá com que significado, preferindo eu achar que se refere à idade literária. 

    O Alerto Bia tem uma forma de ser e estar própria na literatura. É um autor regular como nos prova a sequência temporal com que publica. Mostra-nos esse facto que estamos diante de um autor oficinal, alguém que tem a escrita como uma tarefa entre outros afazeres da vida. E assim se constrói um escritor cujo estabelecimento na literatura moçambicana se fará primeiro pela regularidade. 

    A obra que nos traz desta vez, O ardina de sapatos gastos, editada pela Fundza, é composta por um conjunto de 14 contos que produziu durante o confinamento obrigado pela pandemia da covid-19. E vai se notar pelo tempo que dá ao ritmo das suas estórias e pela estética que emprega. As narrativas muitas vezes se apresentam sem acções segmentadas ou personagens com características exaustivamente descritas.

    São contos em que o autor privilegia a escrita criativa. Eu diria que é a escrita somente em si a fazer as histórias, talvez inspirado pelo inusitado, por um momento, por uma ideia abstrata, ou somente, sentou-se diante do papel em branco e foi começando a escrever sem rumo, até que surgiram os nomes, os lugares e os acontecimentos e se fez o conto. 

    Muitas vezes e desde a escola, somos ensinamos a ouvir as histórias e nos fazermos a pergunta: qual é a moral da história? Ou perguntas do tipo, qual é o assunto da história? Pois se o leitor é desse tipo terá de reformular o seu pensamento e entregar-se para um estilo que desafia o nosso preparo para os livros. 

    Este conjunto de contos de Alerto Bia não visa necessariamente trazer-nos assuntos. Visa levar-nos para os labirintos da palavra, para a viagem da escrita. Como pouco há hábito, o escritor propõe-nos em O ardina de sapatos gastos, a entrarmos no seu mundo e acompanhar a formação das palavras, acharmos as personagens e construirmos uma estória provável.

    O ardina de sapatos gastos, pode ser aquele livro que há de nos levar a perplexidade pela forma rápida com que os momentos-chaves são narrados ou então, a lentidão com que o autor vai levar-nos a revelar um segredo ou a resolver um problema. É como disse, nota-se que se trata de textos que o escritor escreveu sem pressa, para matar o tédio dos dias de isolamento e de ausências. Textos de uma solidão que não é propriamente o habitual resguardo do escritor que precisa de um tempo para si e para o seu processo de escrita. Mas uma solidão do mundo, que nos permitiu, a todos, a experimentação de um momento incomparável. Então este livro há de ser um pouco do espelho do que cada um de nós experimentou quando não havia abraços, nem beijos, muito menos pessoas nas ruas com rostos abertos.

    As estórias que nos revela são de uma peculiaridade em termos de construção e personagens, fugindo da estética que nos habitua a tradição do conto, onde as personagens muitas vezes são rostos visíveis, são vidas reconhecíveis de longe e os assuntos vem cadenciados, mesmo em narrativas abertas, onde o fim, por vezes é um enigma. O Alerto Bia, apresenta-nos um livro que vai ser um deleite, mas também uma contradição em muito do que manda o nosso senso comum. Por isso, lê-lo é também um exercício ousado, de interagir com a escrita que nos contraria, que não sendo explosiva, é estranha. Uma estranheza que nos leva a querer mais, a querer ler de novo e querer outras histórias depois destas. Aí fica já o desafio para os leitores corajosos.

    *Texto apresentado na cerimónia de lançamento do livro O ardina de sapatos gastos, de Alerto Bia, realizada no dia 1 de Novembro de 2022, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, na Cidade de Maputo.

  • Eduardo Quive em entrevista ao programa Escrever na água, da RDP África

    Durante a sua estadia em Lisboa, onde participa da Residência Literária, o escritor Eduardo Quive foi convidado ao programa Escrever na água, conduzido pela jornalista Fernanda Almeida, na RDP África.

    Eduardo Quive falou da experiência da residência, impacto e perspectivas para o seu trabalho futuro, do trabalho literário em Moçambique e das possibilidades de intercâmbios e mobilidade literárias no espaço da língua portuguesa.

    Escute a entrevista na íntegra o episódio: ESCREVER NA ÁGUA EMITIDO A 14 DE SETEMBRO, DE 2022

  • Encontro com Eduardo Quive na Feira do Livro de Lisboa

    Eduardo Quive, em residência literária em Lisboa, conversa com a escritora Joana Bértholo na Feira do Livro de Lisboa, no dia 11 de Setembro. A moderação esteve a cargo do escritor e jornalista brasileiro João Gabriel Lima. A conversa foi em torno das experiências e registos particulares do escritor e jornalista moçambicano durante os primeiros dias na capital portuguesa e do que a escritora portuguesa viveu e registou em Maputo onde esteve em resiência literária em 2019. O resumo fotográfico do evento está na página das Bibliotecas Municipais de Lisboa.

    A Residência Literária em Lisboa é um programa promovido pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa (CML)

  • A vida como o ar que escasseia

    O corpo estendido na cama sobre um lençol branco, o quarto escuro, em silêncio apenas interrompido subitamente por grilos ou gala-galas, as lagartixas brancas, coladas às paredes, a namorar, dão vida a uma noite húmida. Mais uma em que passará tentando não encostar-se às extremidades da existência. As noites trazem-no sempre a difícil tarefa de ter de compreender a vida que tem e que não teve, o apego à essa vida presente e indefinida e uma provável morte, que também já lhe traçou os cenários.

    O corpo suado, uma respiração quase encenada, para não se deixar ferir pela ânsia de um ar puro a preencher o peito e os pulmões que parecem cada vez desorientados da sua função. De olhos fechados, mas a pensar na dor que o pouco ar que respira causa no peito, e os pulmões que tem de dar vida a um homem que já não acredita, mas mantém-se entre o mundo material e carnal.

    A morte, que sempre pensou nela como um acto de vingança de deus, quase de forma inevitável para si, diante de todos os infortúnios numa vida que se anuncia curta perante os seus 30 anos. Essa partida que paira sempre nas suas noites mal dormidas, parece que não chegará mandatada por algum diabo, não será por nenhum acidente, tão pouco se chamará fatalidade, antes se chamará alívio.

    Nada é novo nas aflições que sente. Nesta noite as dores são as mesmas, o peito a sufocar, o corpo suado quase a inundar a cama, o dilúvio ameaça afogar o que resta do homem e das suas dores. Virá a morte de forma tão traiçoeira, com o corpo a afogar-se no próprio suor? Pensa enquanto tenta entender o estado em que se encontra, como num barco inundado e a deriva, ou como na vida que não se define, nem dormindo nem acordado.

    Pensa no sono dos outros, o mundo está agora calado. E pergunta-se sobre as horas, sobre o dia, se virá o mais tardar ou de imediato. São 3h.42. madrugada a escancarar-se no seu desespero. Vira-se, deita-se de lado, com o braço direito sob o travesseiro e a cabeça sob o braço. Tem de haver ali um intermediário em busca de um conforto possível.

    Olha para a mulher que dorme mesmo a sua frente. Na condição de desacordado à força, não a sente a presença da sua amada. Dorme serena, como se lhe tivesse roubado o sossego de que tanto precisa e procura. Ressona e vai fazendo gestos suaves, como se flutuasse no espaço, às vezes como uma bailarina, balançado ao ritmo do barco que navega a favor do vento.

    Contempla-a. Cobiça-a. Seus lábios entreabertos, os dentes brancos fingindo uma luz.

    Volta a pensar na morte, em como para si não é inesperada. Em cada suspiro o peito parece sufocar-se, falta-lhe ar, doem-lhe os pulmões que tem de se esforçar para dar-lhes mais algum tempo enquanto percorre as melhores memórias. Diz-se que a morte, antes de chegar, anuncia-se pelo riso, faz vênias aos espectadores e discursa. E o que quer este homem é antes envolver-se no corpo quente da mulher, que dorme, alheia a sua triste e dolorosa arte de partida.

    Então revive a sua jornada no mundo. Em como nunca a viu assim, como no corpo da mulher ao seu lado, de tronco descoberto, com um sorriso que sai de uma boca com dentes desarrumados, porém brilhantes como diamantes que nunca viu. Mas esta boca ele beijou, saboreou, mergulhou a sua alma adentrando pela garganta até à nascente, onde vê a luz. A vida como o ar que escasseia, a esvair-se suavemente, mas indecisa e inconclusa.

    Sente pontadas pelas costas, tenta deitar-se de trás. O suor já se alastra por quase todo o quarto, como se traçasse uma rota de fuga, para quem vê a morte tão perto, mas sem saber chamar-lhe pelo nome, reconhecer-lhe o rosto, abraça-la, sentar-se com ela à mesa e tomar os últimos copos de cerveja gelada. Sempre acreditou que o inferno é quente. Então fará falta a sensação da cevada fria descendo goela abaixo, espalhando-se entre as veias, refrescando a alma, como sempre fez questão de descrever em noites de baladas com amigos.

  • As pedras não adormecem

    Vejo da janela como o mundo não para apesar das águas que vem do céu e tomam o chão, trazendo novos barulhos para o quotidiano, muitas vezes ocupado pelas conversas em várias línguas dos turistas. Os carros abrem caminhos no alcatrão coberto de água, as poucas pessoas que se fazem à rua, tem de inventar novos estilos enquanto caminham ou se esquivam das gotas que cada vez mais caiem grossas. A vida, tende a se adaptar a um dia cinzento, em que a chuva que vem se cogitando há vários dias, não se adiou. Chove em Belém, as águas correm pelo alcatrão e traçam-se novas rotas para Maputo.

    Há dias que não vejo notícias, não leio jornais, não consulto sítios de notícias na internet, muito menos entro em grupos de redes sociais em que a informação corre a velocidade maior que o tempo. Todos os vícios, as teorias sobre a importância de saber o que se passa a volta e no mundo esvaziaram-se desde que os ventos levaram-me para este lado do oceano. A morte da Rainha chegou-me de forma inevitável por comentários, muitos dos quais posicionamentos e afirmações e não propriamente um rescaldo do que aconteceu com a monarca. Então continuo desinformado.

    A chuva que cai leva-me de volta para casa. Os receios, a cada gota que se intensifica, só aumentam. Custa-me a sair da janela, procuro acompanhar o percurso das águas, vejo que correm com preguiça. Escuto cada gota que cai e se faz eco das chapas de zinco da velha casa do meu pai. Cada gota, como marteladas que furam o zinco com as ferrugens do tempo, deixando as águas passarem entre buracos que foram se abrindo, até ao chão onde temos de nos esquivar. Da correria para apontar a esses buracos baldes, bacias, tigelas, púcaros, e tudo a encher em segundos e depois a escorrer chão a dentro, e de repente todo o chão estava húmido, o desespero vem sem pânico, sabemos que, apesar de tudo, somos sortudos, a casa não inundará, os poucos bens, a mesa de madeira, a secretária onde sobra o orgulho de tempos de funcionário do meu pai, as cadeiras plásticas, a estante onde ainda há marcas do televisor avariado, não serão atingidos pelas águas. As gotas, apesar de teimarem a inventar novos buracos a cada chuva, sabiam o limite da desgraça. Não iam para além de só molhar o chão todo.

    Os dias de chuva são longos, parecem levar anos. E grande parte do tempo estamos acordados, até onde o susto souber espantar o cansaço e o sono. Quando as coisas parecem, finalmente, calmas, apesar das gotas ainda murmurarem sobre as chapas, vamos para os quartos, para outras batalhas enfrentar. As camas, que só nos lembramos delas mais tarde, tem algumas zonas molhadas. Os cobertores que julgávamos velhos são os únicos da casa e estão todos molhados. As gotas que dançam sobre o zinco, foram achando novos caminhos para dançar connosco dentro da casa. Então vêem-nos a inspiração e a improvisação. Dançando sobre a chuva. Com a força que sempre sobra para esses momentos de alta exigência criativa, carregamos as camas e ensaiamos posições que escapem das gotas que irrompem do céu até dentro da casa. É um vira-vira até que o quarto dê um jeito em si mesmo e, de repente, as coisas se ajustam. Acabamos por aprender sobre a anatomia de uma cama, sobre em quantas partes se divide uma cama e quais delas estão mais molhadas que as outras. E então ajustamos o corpo essa nova descoberta.

    Dormindo praticamente sobre a água, com os corpos esgotados de cansaço, somos pedras onde as águas da chuva batem e fazem as curvas até ao dia seguinte que chega com a nossa indiferença à passagem do tempo. As pedras não adormecem, então desconhecem o amanhecer. A vida corre lá fora. As mulheres há muito que preencheram as ruas organizando os seus quintais, saudando-se. As crianças já brincam nas águas que tomaram o lugar da arreia nos seus quintais e na rua. Os primeiros olhares do novo dia são sempre sobre os caminhos da chuva. E nas conversas logo se percebe que choveu para todos. Para uns, choveu tanto que fez-se um oceano dentro de casa, em breve vão navegar os maiores navios carregados de tralhas que eram objectos de luxo para os seus donos, rumo à lixeira ou vão secar pelo menos as madeiras, para depois serem lenha, e servirem para a cozinha. Para outros a chuva foi um bailado, dançou-se a noite inteira. Mas houve aqueles para quem a chuva foi uma canção, foi ópera, alento para suas almas, estava uma noite boa para relaxar, só não deu para ver um filme, porque a luz quando vai, vai para todos.

    12.09.22, Lisboa

  • O mundo dentro da boca

    Até antes de conhecer Lisboa, pensei que gostasse de caminhar, mas percebo que de caminhar, só conheço a beleza das planícies da minha terra. A areia leve, cinzenta, amolecendo o peso do corpo que vai com as suas intenções, o cheiro da poeira e o capim verde nas ruas do meu bairro. Conheço alguns solos íngremes e movediços da vida, mas os sobe-desces de Lisboa, confesso, estão além do carma da vida de distâncias que levamos desde a nascença. Cresci a ver as pessoas a caminhar. Aliás, já vi mulheres, dando parto em plena caminhada, na rua, no my love, o nosso salvador transporte público, no carro do tio Chico ou numa barraca, como aconteceu com Lúcia. A caminhar nós nascemos. Então penso na vida como um caminho. Nós nascemos caminhando e morremos em marcha.

    Vejo a vida a partir das nossas casas lá no bairro. Podemos percorrer quilómetros num dia, dentro dos quintais, dependendo do que o corpo necessita. Casa mesmo, para muitos de nós, é o quarto e a sala. O resto são complementos. A casa de banho, a cozinha, muitas vezes estão longe da casa. Dispensa-se a dispensa, o que deixar lá? Nas nossas vidas tudo é escasso, imediato e não envelhece. Nada a dispensar. Nada a guardar. A comida que, por hábito, os assalariados compram sempre em quantidades que mais ou menos cubram o mês, fica debaixo dos olhos e do nariz, não vá algum feiticeiro deitar as suas azas sobre o que vai alimentar os nossos corpos e deixar o espírito pronto para acolher as mazelas da vida.

    No parque que fica perto da casa onde moro, temporariamente, que nunca tinha ido, apesar de estar a dois passos de casa e de passar pelos meus olhos todos os dias, vejo a vida a correr devagar. Sinto por dentro a diferença por ter ido ao Jardim Vasco da Gama, um espaço para as famílias e para os solitários como me sinto nesta meia manhã de sábado quente de Belém.

    Todas as vezes que fui a um jardim foi porque ou a vida estava encalhada ou porque estava sem um tostão no bolso à hora do almoço ou porque, enfim, havia sempre um caos na cabeça, então precisava de um alento, um lugar em que, não estando sozinho, poderia tudo ser-me indiferente. É verdade que muitas dessas vezes, jamais consegui me abster. Nunca foi assim em Maputo, nunca é em Lisboa. É impossível abster-me dos afazeres de cada um naquele momento e de alguns contrastes. Do casal já com alguma idade, aos gritos, com palavrões que não chegam a ser insultos à moda portuguesa. Um espantoso e avulso “caralho” repetido várias vezes para a mulher que já se cala e só gesticula, para o homem que parece praticar uma coreografia de dança. Vocifera, pragueja, faz promessas, rasteira-se, cambaleia, quase cai, cospe aos pés da mulher, vai ao carro, abre a porta, quando a mulher vai também abrir a porta do passageiro, o homem grita ainda mais, uma coisa qualquer que não entendo, nem a mulher entende, fica de braços abertos, liga o carro, recua, a mulher vai atrás, então para, acena qualquer coisa, e então ela entra, finalmente, mas sem bater com a porta, com uma calma de quem vai sentar-se sobre pregos e vai ter de esquivar-se de agulhas em sua direcção. Tudo me ocorre em câmara lenta. O carro parte. Ao meu lado, dois adolescentes beijam-se, com desejo e a cegueira dos apaixonados. Observo com perícia o momento, com o espanto de quem se lembra dos melhores beijos só no escuro. Mas estão de olhos fechados, deve estar escuro, algures no seu agora. Beijam-se como se procurassem encontrar um lugar no mundo dentro das suas bocas, como se procurassem entrar num e no outro. A minha avó dizia, o coração de alguém é um país. Mas diante de mim, a boca é todo o mundo. Olho para as horas, são 11h33. Ninguém, em Maputo, beija a essa hora. Volto às crónicas de vida privada da Dulce que a vontade de as ler, foi a que me levou ao parque.

    10.09.22, Lisboa

    Foto: Jardim Vasco da Gama retirada do Guia da Cidade

  • Rui Trindade: O perfil de um homem à frente do seu tempo!

    Este é o artigo que anuncia o festival Maputo Fast Forward 2022 e que custou-me a escrever. Escrevi-o já em Lisboa, sobre um homem que desde que nos conhecemos, as nossas conversas e o trabalho que fizemos juntos, foi sempre a surpreender pela irreverência. Desde 2018 que trabalho com Rui Trindade, colaborando para o MFF e os projectos integrados, sempre na área de comunicação, fazendo oficinas de formação de jornalistas em novas métodos de jornalismo na área multimédia, produção de conteúdos e ainda por dentro da programação do próprio festival.

    Não me esquecerei que no próprio ano que nos conhecemos, 2018, primeiro o Rui fez-me uma entrevista que foi publicada na revista Índico, da LAM, onde ele colaborava. E de seguida, por sua iniciativa, o MFF financiou a impressão de uma edição especial da revista LITERATAS. Uma edição efectivamente especial para nós, pelos conteúdos de qualidade e atemporal que apresentams. Daí para frente foi sempre pé no acelerador, com coisas novas e diferentes.

    Não foi tudo pacífico, nem entre nós nem comigo próprio, na minha cabeça, onde não cabiam todas as suas ideias, que tive, muitas vezes, de perder horas e dias de leituras e pesquisas para tentar chegar perto do que ele pretendia. Em muito, ser jornalista muiltimédia e o trabalho que venho desenvolvendo como curador e programador literário, deveu-se a este homem.

    Não, não honraremos os mortos como pensamos, o Rui nem acreditava nisso, era de uma sensatez às vezes brutal com a vida e com os vivos. Mas seremos nós pessoas diferentes pelas experiências que vivemos, todos os dias, se nos permitirmos. Aproveitem para conhecer todas as ideias de curadoria e programação do festival Maputo Fast Forward 2022 que se introduz com este artigo. É uma dessas experiências que devemos nos permitir.

  • Marcados pela violência

    Não cheguei a ver o que os meus pais, meus irmãos, familiares, conhecidos e desconhecidos, viram. Os horrores da guerra, o medo, o sangue, os mortos com expressões faciais distintas, as mulheres violadas diante dos seus maridos e filhos, outras forçadas ao parto por um canivete ou catana, os homens com os membros amputados, alguns sequestrados para servirem a guerra, o fogo a devorar paredes e torrando a carne viva dos bichos ou de gente. Não ouvi os gritos nem os rostos dos mortos. Mas vi as feridas dos sobreviventes sem glória, com a vida que lhes sobrou a se transformar num peso insuportável.

    Tudo o que sei são histórias contadas, algumas de forma mais ficcionada quanto é possível dissolver os factos cuja crueldade, assumem os vivos, é indescritível. Sei das marcas ainda visíveis nas pessoas e nos lugares, dos edifícios em ruínas e de corpos, ainda vivos, mas com lesões de uma vida.

    Não me esquecerei do pesar, do cheiro das rainhas da noite, do arrepio que passei toda infância sentido, sempre que olhava para a Sara, cuja mãe, conta-se em voz baixa para não despertar os fantasmas, teve de meter o seu bebé no pilão, tritura-lo como um grão de milho que transformado em pó mata a fome. O irmão da Sara foi farinha de milho para alimentar a fome de homens cujo terror só dava apetites insaciáveis. E depois do último grito do bebé, enquanto Sara gemia algures no quintal, a mãe foi levada para servir a outra fome dos homens, durante dias que não se conhecem. A casa até hoje é para toda a zona um cemitério onde os que ainda vivem, por mais que nos esquivemos, sentem o nosso olhar de luto e consternação, sempre que tem de ir à rua.   

    Toda a infância passei fazendo uma viagem, por ano, para a casa dos meus avós em Gaza. Todo esse percurso pela estrada, as marcas da guerra, as cantinas abandonadas e destruídas, as cruzes a marcar os mortos que pouco são lembrados ou estudados, a ausência de vida nos lugares era visível e ruidosa. Todo o encanto da viagem, com as pessoas no machimbombo conversando numa língua que só os meus pais falavam em casa e que iria encontrar meus avós, tios e primos a falar em Chicumbane ou 3 de Fevereiro, pareciam sinos a tocar em honra aos espíritos que vagueiam pelas terras de Maluana.

    E a guerra não acabou, os vivos ainda convalescem, numa existência inútil e degradada. São almas soterradas e agarradas a uma vida de sobras. Cães sarnentos a lamber as suas feridas.

    Na Matola, onde morro, há uma zona que se define pelos que viveram o campo de horror, as catanas afiadas, as balas, as bazucas, o fogo, o grito, o fumo de gente, animais, casas e vegetações carbonizadas. A essa gente ficou-lhes o nome simbólico quanto realístico de “mutilados”. Mutilados no corpo e na alma. Sobreviventes de uma guerra sem “vencedores e nem vencidos”, diria Sophia de Mello Breyner Andresen.

    Os mutilados são apenas uma face, a visibilidade do acto brutal que é o desejo de carnificina que possui a alma humana. Hoje as crianças temem esses homens, como se de monstros se tratassem. Suas conversas são a continuidade dos seus actos no espaço do conflito. Esses são os filhos da guerra. Nós somos os filhos da violência, as reminiscências, de vários conflitos. Uma violência generalizada, institucionalizada e até moralizada. Violentar é um acto moral. Se os pais não batem nos filhos, são maus quanto aquele que gerou e não criou. Um homem que não bate na sua esposa, não merecerá o respeito, nem da mulher e dos filhos que vivem consigo, nem da sociedade. Um professor que não bate no aluno, é fraco, gerou um bando de mal-educados. O professor bom é professor que bate, pune, humilha. Esse terá respeito e vai gerar bons cidadãos. Serão poucos, sim, mas serão bons. Terão sido melhores no corpo e na mente. O que é preciso para se estar preparado na vida?

    Ainda me vêem os nomes, rostos aleijados e almas perdidas, de crianças e adolescentes que tiveram de tomar decisões quase na insanidade, como desistir de ir à escola, depois de violentados. Paus enormes a partirem-se pelos seus corpos duros, como as suas cabeças que não apanhavam nada das lições. Espancados, aos gritos sem socorro, com uma plateia de 50 crianças, impávida, com o coração a bater como um relógio apressado, gemendo-se de dor gratuita, outros enchendo e molhando as calças de diarreias instantâneas e mijo. E o professor com o suor a escorrer-lhe pelo corpo todo, ofegante como se o peito fosse sair pelas costelas, as mãos quase ensanguentadas de tanta força que empregaram sobre um adolescente de 13 anos, com a boca a escorrer-lhe saliva de fúria, olhar vibrante e cheio de fome de matar.

    Algumas crianças, com o passar do tempo, já se riam quando uma outra caia na desgraça do professor, já saiam a correr como numa competição de atletismo, para tirar ramos maiores que a sua altura, preparando a varra da boa educação, como um escultor talha a madeira. Eles riam-se como cães, como alguém cantou.

    E os anos passam…

    Roberto morreu achado numa machamba onde roubava cana-doce. Estava de uniforme escolar mas há muito que não entrava na sala, nem cruzava o recinto da escola. Paulo foi para África do Sul, voltou mais tarde deportado, mais tarde morrera de overdose. Hélder até foi para a tropa, desmobilizou e passou a cafetão e vendedor de droga, agora transformado apenas em fumador e bebedor com a perna amputada, depois de ter levado um tiro em mais uma das suas fugas da polícia… ossos do ofício. Angélica, tão cedo quanto pode, andou nas barracas, teve um número desconhecido de filhos e de lares, até que foi para a África do Sul de onde nunca voltou e nem se tem notícias, com a tonelada de filhos a viverem com os avôs. Marcolino, esse até deu-se bem, tem casa própria, paga muito bem as suas contas, é alfandegário, ganha balúrdios, tem as mulheres que quer, a que escolheu para guardar em casa, espanca-a sempre que lhe apetece.

    Abrir parenteses No jardim do Museu de Arte Antiga onde acabo de conhecer Ronaldo e Eltânia que também me apresentam a Kátia. A guerra e a violência chegaram na nossa conversa como chegam os convites para o café. O Homem é um animal irracional, atira Eltânia. Como é que alguém pode gastar seu tempo e inteligência criando uma arma mais perfeita que a outra para destruir? Pergunta a Kátia, com o espanto próprio de quem cria personagens de outro mundo. No nosso caso, somos filhos da guerra, afirmo. E depois do silêncio, disse ainda, a violência passou para um nível natural nas nossas vidas. Nascemos e crescemos sobre ela, superar isso é um desafio muitas vezes solitário, e os países estão ocupados com dores mais visíveis. Fechar parenteses

    09.09.22, Lisboa

  • O ritual

    Há momentos em que só queremos lembrar. Estar sentados, calados e deixar que a vida rode o seu filme, à sua maneira, ora para frente ora para trás. Numa tarde cinzenta como desta quarta-feira, a vida ficou neutra. E fico então a querer que a voz se insinue entre os atalhos da mente.

    No quintal que agora jaz o silêncio, há ainda reminiscências da vida que se fez entre suor e dor, azares e fintas ao destino. Ainda me lembro, com vozes e cheiros, do dia em que suas lágrimas e gemidos se confundiam com o descer do precipício que já não era escuro.

    Primeiro eram as mulheres que murmuravam e preenchiam os cantos da casa, de rostos mal feitos, espantando qualquer animo que se desejasse. As cabeças que não paravam de abanar em sinal de procura de alguma esperança que a cada segundo esvaia-se, nas paredes que viam um homem a sucumbir de dores, com a alma perdida nos algures da vida.

    Ao fundo, desvenda-se a imagem de uma mulher, de boca trémula, lábios secos, com a gravidade dos gestos apenas aliviada pelo laranja da mulala, entre os cantos escurecidos, de onde de vez em quando vê-se o que resta dos dentes que vão ensaiando alguns cânticos. Olho para as suas mãos atarefadas, com folhas de mafurreira, braços esticados espalhando pelos ares, e batendo nas paredes, com águas cujas origens foram adulteradas pela oração. Ali se pronunciavam palavras que não sei e jamais me lembrei, sussurros que determinavam a expulsão de algum mau espírito.

    Dentro da casa, onde entrei sob olhar impávido das mulheres que enchiam cada vez mais o quintal, quase perdidas nas suas lamentações sem voz, estava o homem deitado no pilão, de costas para a boca daquele objecto, contorcendo-se, de olhos fechados, revirados, com o rosto a maldizer os vivos, sob o coro de cânticos que invocavam o satanás que seria vencido, segurado pelos cornos por quem não perdoa os cobardes. Ali, quase jazia o homem já sem nome, sem pai nem mãe, apenas apegado ao que sobra entre a vida e a morte, com as mãos da mulher de branco que não parava de travar uma guerra que não sei dizer o nome. E os cânticos entre orações e gritos de ordem, aos poucos, iam dando espaço ao silêncio mais barulhento que já ouvi na vida.

    Regresso ao quintal. Tomado pelo suor gelado, ainda com o cheiro dos fumos que saíam negros da sala da casa do meu pai, tomada por aquele povo de mulheres ferozes, quais combatentes de uma causa que se perde, entre a fé e a certeza de seres que disputam a alma de um homem só, já despido de escolhas.

    O corpo do meu pai quase jazia, teimando em não falecer, cambaleando, deitado sobre o pilão, com os olhos embebedados, a boca entre aberta, ora franzindo os lábios, ora mostrando os dentes incompletos e enferrujados, qual aparência original de quem parece que nasceu para comer os frutos decorando os caroços com restos que escapam entre as gengivas desprotegidas. 

    Entra pelo portão a quase viúva e desperta a atenção da audiência, com o barulho das dobradiças enferrujadas. Mais se parece a tradução do grito que parou as hossanas que se faziam sentir por dentro da casa. Foi entrando cambaleando, com o rosto feito o Limpopo a transbordar, arrastando consigo, gente, gado, e levando crocodilos para dentro das casas de palhas onde só sobram utensílios envelhecidos.

    Tentam as mãos das mulheres acolhê-la com ordens de silêncio e calma. Que não vá o ser que ainda se espera que venha a operar milagres, aperceber-se que se chora a alma de um homem que ainda sobram sinais de vida. Mas, em vão, os olhos da mulher, estavam já derretidos, cansados de não saber como vai o dia terminar.