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  • Passeios da vida

    Não sei porque andar por estas ruas me leva para uma infância que não teve grandes epopeias. Gostaria de contar grandes histórias de quando miúdo. Talvez tivesse feito carrinhos de arames, mas não fiz, nunca soube, antes levava os arames em casa para ir dar um outro miúdo para fazê-los. E quase sempre ele é que ficava com o melhor carrinho e eu, apenas com o esqueleto. Se traduzisse isso na vida real, ele ficava com as obras e eu ficava com o sonho.

    Também não sabia jogar futebol. Nalgumas vezes, por compaixão, – era difícil sair de casa, os meus irmãos proibiam-me de ir aprender asneiras na rua – depois de se escolherem os melhores para entrarem no jogo, colocavam-me na baliza, com a ideia de que fariam de tudo para que a bola não chegasse até lá. Na certa se chegasse, ou eu esquivava e entrava o golo, ou punha-me a defender para os pés do adversário o que, na mesma, dava em derrota para a equipa. Então restava-me pouco para fazer nas saídas para a rua da infância.

    Enquanto caminho no Chiado, a caminho do Museu Nacional de Arte Contemporânea, sinto no corpo uma pequena brisa, que bate suavemente de frente, e massageia as orelhas. Escuto a voz da minha infância e suas memórias, como se estas ruas tivessem o chão que carregou os meus passos, quando aprendia a andar.

    Nunca fui a um Museu. Muitas crianças do meu bairro ou da minha escola também nunca foram. Então isso nunca foi problema. Não tenho traumas. Fiz outros passeios. Nas idas frequentes para o hospital, por exemplo. Não fui aos famosos passeios escolares. Só vi os outros meninos a encher os machimbombos, com tigelas fartas, com frango assado, batata frita, arroz refogado a cebola, castanho como deve ser e salada. Porque a ocasião exigia, no saco plástico que guardava a comida, uma fanta, para a felicidade da pequenada. Comer assim, era só em ocasiões especiais, nas festas de Natal e fim de ano, dia 01 de Junho e nesses passeios. Mas eu nunca fui para onde esses meninos iam. Fiquei sempre por terra quando o assunto eram os passeios escolares.

    Com alguma regularidade os professores inventavam passeios para os alunos, diziam que era parte complementar das aulas. Eram visitas às praias, aos museus ou ao jardim zoológico. Nunca conheci o jardim zoológico. E não vou a tempo, todos os animais estão quase mortos, resultado de anos à míngua de alimentos, dizem. Nunca entrei no Museu da História Natural, da Moeda ou da Geologia, por exemplo. Tudo acontece-me na virada para a juventude. Mesmo assim, sempre acelera-me o coração sempre que vou entrar num desses sítios.

    Quando o machimbombo partia, com os sortudos, era como se víssemos a vida a esvair-se. Para muitos meninos que ficavam, o dia era como se fosse uma sexta-feira santa, uma sensação de feriado, dia de tempestade e dia em que um homem muito importante ia ser morto e por isso não se podia comer carne nem pão. O céu sempre ficava cinzento sobre as nossas cabeças e as aulas eram uma chuva de granizos sobre os nossos corpos.

    Andando pelo Chiado e dentro do Museu, apreciando as obras, lembrei-me então da alegria que me dava ouvir dos meninos que foram lá, sobre o ambiente dos museus. Os poucos meninos da escola que iam aos passeios contavam à maioria nós que ficava como eram os lugares, solidariamente, ou não.

    As visitas eram divertidas. No autocarro, um machimbombo dos TPM, a empresa pública de transportes, que era alugado graças às contribuições dos pais das crianças, o ambiente era de uma festa. Cantavam, batiam palmas, conversavam em voz alta, contando piadas, rindo, apreciando as paisagens. O professor ia apontando algumas coisas que terá falado ou que falaria nas próximas aulas. Um dos meninos, chegou a dizer-me que as coisas lhes passavam pelo rosto enquanto o machimbombo andava, as árvores gigantes, os prédios, as pessoas bem vestidas da cidade, como “flashes” da máquina fotográfica do tio Horácio. Mas era difícil captar o momento, mesmo assim tinham certeza do que viram.

    Mas quando chegassem ao museu onde iam fazer a visita, era como se a luz apagasse na hora do corte de bolo na festa. Aliás, era frequente na altura, que justamente ao anoitecer a luz fosse cortada. Mas essa é uma outra história.

    Dentro do museu os meninos tinham uma forma própria em que deviam se comportar. Quase tudo era proibido de fazer. O professor sempre gritava, meninos não toquem nisso. Quando um se deslocava para distante dos outros, maravilhado com o que via, o professor já ia dando ordens, volta pra aqui. E quando um menino repetia a “indisciplina”, o professor determinava: tu não vais mais ao passeio.

    Tudo tinha de ser direitinho, como deve ser. Aos passos e às ordens do professor. De repente ele perguntava aos meninos, o que é isto? E os meninos já com medo, ficavam calados. Então o professor respondia, é uma zebra, então não conhecem a zebra? E eles se calavam de ombros encolhidos e olhos molhados. E ele gritava novamente, não conhecem a zebra? O que estudamos nas ciências naturais? Aí eles respondiam, conhecemos!

    Acabada a visita, ficavam num espaço aberto e comiam. Aí a luz era restabelecida. A festa estava de volta. Até ao regresso à escola, era aos cânticos, sorrisos e cheios de energia. E vinham logo a contar-nos as novidades. E nós celebrávamos com eles, como se tivéssemos participado do passeio. E comíamos os restos da comida.

    Entrando agora no museu, tenho todas essas ideias, essas imagens que os meninos contavam. As obras de arte é que mostram-me o caminho. Mandam-me calar, dizem-me para me sentar ou então sentir-lhes os cheiros. O ambiente, o trabalho do curador, vão fazendo-me parar, observar, experimentar e vivenciar a obra. Não sei se os outros meninos visitavam as obras ou o museu. 

    06.09.22, Lisboa

    Foto: Exposição de Nelson Ferreira “a pintura sublimou o espírito, patente no MNAC.

  • O homem que canta na janela

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. Quase todos os dias, excepto aqueles que não estou. E tem vezes que mesmo de tarde o homem canta, também faz parte daqueles dias em que raramente encontro-me na residência nessa parte do dia. Ele chega com sua estrutura, uma aparelhagem de som, pega na sua viola, e toca a cantar, na maioria das vezes, música brasileira. Por vezes alguns clássicos numa língua que deve ser derivada do inglês. E no final, alguns discursos enquanto faz a percussão, e sempre, quase sempre, aplausos dos que comem e bebem no restaurante para onde ele está virado. Certamente aceitando os votos e desejos de bom apetite.

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. E quase em todas essas vezes, não sou indiferente à sua presença. Só não me vou à janela para apreciar o espectáculo porque sempre calha demasiado ocupado em mexer no computador. Mas tem quase sempre a minha atenção, minha reverência, meu respeito, até quando a vontade é que, por uma avaria qualquer, as colunas se desliguem e fique apenas a sua voz e viola. E não se trata de maldades. É mesmo no espírito de interajuda e solidariedade artística. As colunas só fazem barulho. Ouvi-lo só a si seria melhor, porque os sinais de que há ali um bom artista são claros.

    As interpretações que faz e a coragem que tem em fazê-lo em público, valem o crédito. Canta Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Tom Jobim, Vanessa da Mata, Ivete Sangalo, Ana Carolina, até Seu Jorge, Roberta Miranda, Alcione e outros que de tanto terem sido interpretados por outros, chegamos a pensar que ele deve ser o verdadeiro autor.

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. Canções de amor, da boémia, das aventuras, música de puro prazer pela vida, ou de desgostos, mas sempre para rir. No topo do seu repertório, Martinho da Vila, e não falta Reginaldo Rossi, com o seu garçom, para o cúmulo das emoções.

    Desde que sou hóspede nesta cidade que o homem faz-me serenatas. Na última noite repetiu por três vezes a música Esperando na janela de Gilberto Gil. E nas três vezes, não variou nem uma vez o tom e o ritmo. Foi mesmo a cópia do seu próprio original. Três infalíveis vezes. De certeza a ideia era só cantar por uma vez. Mas faltaram aplausos. O restaurante estava apenas com alguns clientes que não parece terem se comovido com o cancioneiro. Antes cantara uma música na variante inglesa, testando a língua dos clientes, acho. Não reagiram.

    Veio Martinho da Vila, canta canta minha gente, deixa a tristeza pra lá, mas sem correspondência. Os poucos que já eram nenhuns se foram embora. Ficou apenas um casal. Devem ser italianos, pensei. Ou franceses. Devem não entender a língua em que canta o artista. Quase desci para o sugerir que interpretasse um Pavarotti, ou Andrea Bocelli, por exemplo, num estilo mais pop, ah, não me ocorreu nenhum músico francês. Daquela língua mesmo apenas Awilo Longomba, me aparece assim, das memórias distantes de uma adolescência em que só contemplei os outros a dançar.

    Mas não acabaria assim a noite. Há ainda um casal por convencer entre as dezenas de cadeiras vazias. A música não tem uma língua. Então chamou o Gil. Gil é Gil, quem resiste ao Gil! Eu mesmo nesse domingo o escutei três vezes. Três vezes. É o Gil. O senhor da música brasileira em toda sua glória e majestade. Ainda me lembrarei de quando o vi em palco em Fortaleza, num concerto intimista, encerrando a Bienal do Livro do Ceará.

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. Quase todas as noites o seu cantar não me passa despercebido. E desta vez, cantou a mesma música três vezes seguidas. Três vezes repetindo com a perfeição aquela que foi a sua primeira interpretação de Gilberto Gil. Na verdade, a intenção era só cantar uma vez. Mas viu-me a espreitar, finalmente, pela janela. Então decidiu fazer um bis, e mais uma, um tris. E no fim acenou com o braço e com palavras.

    – Quero pedir uma salva de palmas especiais para o amigo ali, oh! – disse o homem.

    E o garçom, sozinho no restaurante, aplaudiu efusivamente em minha direcção.

    04.09.22

  • Andar às voltas

    Na infância, andei com o meu pai, em muitas idas e voltas pela cidade, ora às regulares consultas ao hospital, ora para visitar familiares ou ainda para alguns hábitos que ficam para a reserva individual da memória. Saber guardar também é uma dádiva. Falo de guardar de verdade, reter para a minha exclusiva propriedade, já que o homem de que vos falo não vos pode contar esta parte da história. Nem esta nem outra. Ele morreu.

    Muito cedo nos levantávamos para apanhar o 59 que ia do terminal do nosso bairro, Patrice Lumumba, até ao Museu, no centro da cidade de Maputo. A viagem tinha várias etapas.

    Uma delas, dava-se ao sairmos de casa até à paragem. Às vezes deixava que ele saísse primeiro, quando estava obrigado a ir com ele e sem paciência para suportar a lentidão dos seus passos. Quase andando nada. O corpo não obedecia a cabeça. Ele andava quilómetros no mesmo lugar. Outras vezes, saíamos juntos. Lado a lado. Apenas com breves palavras mesmo à saída do quintal. Mas o resto do percurso de cerca de um quilómetro, multiplicado por 20, era mesmo em silêncio. Só as pessoas na rua iam quebrando a ausência de palavras entre nós. Um bom dia ali, um para onde vais acolá, um vão ao hospital, por aí a diante. Mas sempre havia uma saudação longa à moda moçambicana, pelo menos do Sul.

    Uma saudação é como contar uma história, sobre como a pessoa dormiu, como toda a sua família dormiu; como acordou, como a família toda acordou; se houve sonhos maus ou bons, se alguém está doente, se chegou algum visitante em casa, se os animais, patos, galinhas, estão na sua rotina normal, se ouviu alguma coisa estranha, por aí em diante. E vai se fazendo o diálogo musicado, com gestos de aceitação, espanto, pesar, risos, sempre demonstrando interesse no que outro diz. Se estiver alguém ao lado, entre os dois que se saúdam, será dada a palavra, mas só mesmo no fim, para que reaja à tudo o que ouviu, com uma simples resposta intraduzível para a língua em que vos escrevo.

    Essa pausa chateava-me. E era sempre no mesmo lugar. Sempre com as mesmas pessoas. É como se advinhassem os dias e as horas em que íamos passar por ali. As três velhinhas, uma boa imagem matinal das comadres, duas delas na varanda do seu quintal e outra, varrendo sempre o lado de fora, conversando entre si e, de repente, concentradas em saudar o meu velho. Tudo ensaiado e repetido, todos os dias. Apenas as novidades eram diferentes. Vivendo na entrada da rua, ao pé da estrada, não lhes faltava o que contar. E não vou repetir o que diziam para não me aborrecer já em adulto.

    Não me esqueço das poucas vezes em que mexia na mão do velho enquanto dava uns passos para frente, e a velhinha que fazia questão de ficar muito próximo do meu pai para que não lhe escape nenhuma palavra que de imediato traduzia – sempre dizia o contrário – para as outras comadres um pouco mais distantes, na varanda aberta do seu quintal. Nessas vezes que interrompia a conversa que sempre se faz demorada e detalhista, era um cala a boca, na hora. Mesmo se fosse para avisar que o machimbombo, o autocarro que nos levará de viagem, vai partir…

    Feito o percurso até à paragem, chegava a hora de subir ao machimbombo, uma outra etapa, quase uma outra fase da vida, pela leveza do momento. Primeiro segurava a porta com a mão esquerda e depois colocava o pé do mesmo lado sobre o primeiro degrau. De seguida levantava o resto do corpo com toda a força que pode. Muitas vezes sentia-se já com os dois pés por cima do primeiro degrau, e só quando relaxava o corpo percebia que o pé direito está ainda no chão. Passavam-se minutos nesse exercício até que o corpo se levantasse.

    Dentro do machimbombo, sempre abarrotado de gente, sentados quase corpo sobre corpo, respirando no rosto do outro, colados uns aos outros, trocando-se os suores, os cheiros e, mesmo assim, conversando, rindo, contando-se histórias que não se sabia por onde começavam ou terminavam, trocando-se as vidas, um ânimo que não entendia de onde vinha naquele emaranhado.

    As pessoas iam fazendo o caminho, mesmo assim, para que o meu pai ocupasse uma cadeira, muitas vezes mais à frente, ao lado do motorista. Aí eu gostava. Porque depois punham-me a sentar nas costas do condutor. Ou mesmo por cima de onde trocam-se as mudanças. Era muito quente, estava com as nádegas praticamente sobre o motor. Mas estava com o coração sobre as nuvens. Então me arrefecia de contente.

    Ouvia as conversas todas, mas sobretudo, tinha uma vista privilegiada sobre o caminho que se faz desde o bairro até onde descíamos, ou no Hospital Santa Filomena, agora chamado Alto-Maé ou no Hospital Central, em plena avenida Eduardo Mondlane, onde a cidade se faz mágica, com prédios, lojas iluminadas com variedades nas montras, entre as quais mais apreciava os manequins.

    A andar por Lisboa, no machimbombo, palavra que tenho sempre de traduzir para autocarro, vejo sentado o meu pai. Mas agora num lugar reservado para deficientes. Escuto as conversas em várias línguas. Mas várias vezes, é com o silêncio que falam as pessoas. Na paragem do Jardim de São Bento, por ali onde fica a residência do primeiro-ministro de Portugal, vêm a correr duas senhoras, com os dedos a acenar, intercetando o autocarro. Entram suspirando, e rindo às gargalhadas, mas sem fôlego, sentando-se sobre o balanço do arranque do machimbombo. E elas riem-se, comentando uma com outra sobre o esforço feito. Falam em crioulo. E volto ao meu pai, sobre todo o exercício que para si significava apanhar o machimbombo.

    Dou por mim perdido. Dou por mim com as horas perdidas. Em lugares desconhecidos. Ligado ao google maps que só aqui aprendi a usar, que me informa que já estou fora do percurso. Desço desesperado. 15 minutos a pé, promete-me a tecnologia. E vai apontando, vai gritando no meu ouvido, repreende, vira agora para a esquerda, vira para a direita, a 95 metros vira para a direita. E passa o tempo, atraso-me ao encontro, peço desculpas à Mirna, que está a uma hora a minha espera e não sabe da guerra que travo com a senhora do google maps. E volta-me o meu pai, devoto de Santo António de Lisboa, e lembro-me da avenida Eduardo Mondlane, lembro-me da paragem do hospital, lembro-me, lembro-me, lembro-me e as horas passam-se entre as ruas estreitas da grande metrópole que é Lisboa, com o telemóvel na cara, com a voz que fala e não entendo, com o lugar onde devia estar passam horas e nem tenho noção que está apenas a dois paços, atravessando a rua. Agora entendo o sentido da frase, andar às voltas.

    02.09.22, Lisboa

    Foto: @pikist, ilustrativa.

  • Isto é, portanto, você e tu

    Desde pequeno fui ensinado que a língua portuguesa é a língua de “gente”, a língua que nos vai tirar da miséria, nos vai permitir a inserção numa imaginária aldeia global, um mar de oportunidades. Com essa crença e com toda a convicção, os meus pais e os meus irmãos mais velhos, proibiam-me de expressar-me noutra língua, a língua dos meus avós, a língua dos meus pais, das outras crianças da rua e até dos meus irmãos.

    O português era a língua oficial em casa, assim como era na escola. Mas é da minha relação com ela em casa que já mais me esquecerei. Era um mundo a parte. Não me esquecerei do trabalho árduo do papá e da mamã e dos manos, para garantir que não falássemos a língua de cão. O xi-changana que, entretanto, eles falavam entre si, com as visitas, os muitos primos de sangue e de afinidade que vinham visitar de Gaza, terra natal dos meus pais. Todos eles não sabiam falar português. Eram ma-changanas autênticos. Nem imigrados e nem com instrução escolar básica, como os meus pais. Então não poderiam comunicar-se noutra língua senão a sua língua rural, sem valor e sem oportunidades na cidade.

    Ocorrem-me essas memórias enquanto vagueio pela Lisboa, dirigindo-me para uma conversa com o tema Língua Portuguesa: o pilar que nos une, na Biblioteca Palácio Galveias, na sala José Saramago, cujos convidados, apesar de ilustres, não dispensam a apresentação: Vítor Ramalho, secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), João Ima-Panzo, Diretor de Ação Cultural e Língua Portuguesa da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), Ana Paula Laborinho, Diretora em Portugal da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OEI), Rui Vaz, Diretor de Serviços de Língua do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., Gustavo Barboza, Conselheiro da Embaixada do Brasil em Portugal, Sérgio Letria, director da Fundação José Saramago, Clara Riso, directora da Casa Fernando Pessoa, o moderador, um homem de cultura, Carlos Moura-Carvalho, director Municipal da Cultura da Câmara Municipal e, eu, cuja profissão é a escrita.

    Perguntava-me durante todo o dia, que falarei eu que seja bonito de se ouvir e compreensível num painel com figuras de tão elevada importância e com influência nos processos mais formais da instituição língua portuguesa e de organizações de imenso prestígio nos nossos países.

    Porque a sorte também cabe aos incautos, atrasei-me ao evento e não houve espaço para ambientar-me ou deixar-me instruir pelas questões prévias, embora involuntárias e desinteressadas, mas sempre fazendo o seu efeito no subconsciente. E mais, o moderador que já há uns anos tem sido uma figura que admiro o seu trabalho, e noutros contextos trocamos correspondência, colocou-me como último a falar, o que deu-me uma enorme vantagem: não ter de dizer nada. O seja, apenas precisava contar uma história qualquer e então saiu-me pela boca o passado que ainda me assombra, um presente incerto e um futuro que é uma invenção, dependente da criatividade individual dos cidadãos dos países de língua portuguesa.

    A primeira interveniente a falar, Ana Paula Laborinho, abriu os caminhos para o descaminho, ao tirar a afirmação que marcou a conversa: falemos do que nos divide, da desunião da língua portuguesa.

    E penso na minha relação desde pequeno com a língua portuguesa, da promessa que me foi feita, essa é a língua de oportunidades, da inclusão, de um futuro melhor. E até a minha adolescência, só podia me expressar através dela. Essa língua tornou-se a minha casa, a minha varinha mágica, o meu futuro e o futuro dos que dependessem de mim.

    Os vaticínios e o esforço não foram em vão, talvez. Hoje vivo, trabalho, viajo, conheço pessoas de várias partes do mundo, leio, escrevo, discuto ideias, tenho acesso a culturas e conhecimento, compro coisas, desloco-me, até amo nessa língua portuguesa. Só não a poderei chamar de minha pátria, nos moldes que a querem me dar. Não, a minha pátria não é a língua portuguesa. A língua portuguesa como único território não existe. E ainda que sejam vários os territórios, como actualmente é, erguemos ainda mais alto, os muros sobre as fronteiras que se parecem ténues ou mesmo inexistentes.

    Nesta condição, neste estágio das coisas que nunca foi melhor e nem pior, a língua portuguesa só pode ser a pátria dos poetas, dos escritores, pelo menos assim, ainda fica a honra a quem tantas delícias nos faz com ela, como é Fernando Pessoa, Machado de Assis, Luandino Vieira, Conceição Lima, Odete Semedo, Arménio Vieira ou Ungulani Ba Ka Khosa. Mas desde que os deixem circular, que os permitam chegar ao seu povo comum, no melhor da sua criatividade e complexidade.

    Quanto a mim, a língua portuguesa é o meu destino. Para já, o presente não é bom e não agouro um futuro melhor, nem para mim, nem para os que virão depois de mim, até perfazermos os famosos 500 milhões do nosso ego, num tal de 2100. Não é de uma língua do futuro que quero. Quero uma língua do presente. Uma língua que não se permite traduzir no mercado editorial. Que não se permita legendar sobre si mesma. Uma língua em que posso escrever e publicar e ter os actuais 290 milhões de falantes como os meus leitores. E, não, não quer um intérprete da minha língua. Se for para fazer compreender a minha língua, que seja a quem não a fale.

    A promessa dos meus pais provavelmente não se cumpra, embora tudo o que sei, tenha sido esta língua que me permitiu. Infelizmente, sou péssimo em todas outras línguas, incluindo em português que é todos os dias mais difícil do que antes. Talvez por isso prefira ou só saiba escrever. Porque a escrita pode ser uma forma de viver a liberdade da língua, embora não tão livres como os músicos, os cineastas ou actores e os artistas plásticos, porque podem usar a língua a seu bel-prazer. Aos poetas, não. Só lhes é permitido escrever numa língua portuguesa que seja dos mercados, a língua de quem tem o poder de decidir se é certa ou não. Esta é a língua das suas carreiras, das suas vidas, até para se fazerem conhecer noutras línguas. Nisso os meus pais estavam certos, era preciso falar, e só falar, português desde a esteira que me viu nascer e crescer.

    01. 09. 22, Lisboa

    Foto: facebook Bibliotecas Municipais de Lisboa

  • A arte continua a ser o que é

    São Jorge fica longe, no topo de uma colina, mas a fé move montanhas. Se faltam pés e pulmões que suportem a subida, vai um táxi.  

    O carro move-se para cima acompanhando as pessoas em romaria. Aos poucos e poucos, à entrada do Castelo, acomula-se o público, que troca cumprimentos, sorrindo, conversando, trocando ideias, saudações e piadas à moda portuguesa, se a vida oferece limões faça-se uma limonada. Se os guardas não permitem a entrada de álcool, tome-se os gelados. Riem-se se na mesma.

    Não tarda nada e vai se descobrir que santos da casa fazem milagres. Afinal há vinho lá dentro. E uns salgados. E uns doces.

    No quintal de São Jorge, várias cadeiras se espalham. Uma a uma, as pessoas vão se acomodando, deitadas. Ajustam-se os cobertores para espantar o ar frio que vai soprando com a noite. Já são 22h. Vai iniciar o Fuso. O festival de vídeo arte.

    Filmes curtos vão passando, um após outro, sem intervalo, mas com os devidos aplausos da plateia que na hora de contemplar tem um silêncio entusiasmante.

    Cada filme denuncia a seriedade que toma o trabalho artístico. A arte é uma ciência experimental. O seu entendimento vai para além da razão. Quanto menos entende-se, parece-se no caminho certo.

    Enquanto seguem os filmes, a mistura de imagens, de sons, de movimentos, da performance, da poeticidade das intervenções, do silêncio que faz parte do acto. A acção contrariando a dinâmica. Agir é não agir. Uns vão se repetindo nas acções, como se o realizador quisesse testar a paciência do mundo. O público não se importa, entra no jogo.

    E penso na arte, como matéria. A arte que transporta-nos para outros silêncios. É como se, naquele momento, o corpo partisse para uma outra dimensão. É o espectador sendo o objecto artístico. Maleável. Desafiado a dar sentido e justificação às obras apresentadas. A arte pode ser força bruta. Um vazio. Os papéis se invertem. O público é desafiado a dar sentido à obra. E o artista contempla. Ouve. Vê. E não se justifica.

    Deitado, como toda a gente, vagueia a minha mente. Penso na situação em que nos encontramos. Na condição frágil, de submissão perante o que se vê. Uma imagem que me leva a pensar no trabalho da arte. Que diferença faz no mundo a arte? Não será a arte um capricho humano, dos incapazes, dos excluídos do mundo normal e formal, dos preguiçosos e presunçosos? Quem é o artista? Qual é o trabalho do artista?

    Num mundo em que todo o sujeito procura resolver problemas, os políticos a baterem-se na façanha de servir ao povo, os médicos que curam as dores da carne, os polícias a manter a ordem, os funcionários públicos a cuidarem que não nos falte a espera, a demora, os empreendedores tão aclamados hoje em dia, a procura de soluções para um mudo melhor, de forma pragmática, que problemas resolvem os artistas? 

    Os filmes a preto e branco levaram-me de volta para a casa do meu pai. O televisor pequeno, preto e branco, cujos últimos anos de vida foram de um tratamento brutal da nossa parte. Embrutecidos pelas imagens que se negavam a fixar-se, os actores das novelas e dos filmes, quais bailarinos aos nossos olhos, ora pulando para cima, ora para baixo, com os corpos metamorfoseando-se em escala, de cima para baixo, impossível reconhece-los, não ser pela imaginação. E a hora do telejornal, sagrada para o meu pai, a missão era ainda de elevado grau de perigo com a chacina que se impunha sobre o aparelho. Ou o televisor punha-se a jeito, dando-nos as vozes sem ruidosos ou era à pancada que se resolvia o assunto. E quando as bolas brancas e as manchas pretas ressurgiam, de imediato vinham gritos de ordem: acerta o televisor. E lá na luta titânica, movendo a antena de um lado para outro, íamos procurando a posição milagrosa, que acabam sendo os nossos corpos a sofrer, minutos a fio em pé, exactamente por onde o sinal melhorou, muitas vezes, sendo com os braços suspensos.

    E as pessoas não piscam. Não falam. Não mexem nos telemóveis. Não abanam sequer, se não for para reagir a uma cena inusitada que foge do meu entendimento. A Catarina, vai morrendo-se de rir. Também me rio. Mas por dentro me desespero. As cenas do filme que o título já por si é um vazio, Enigma, parecem desesperadoras. E penso na minha condição. Nas noites que não dormi porque faltava-me o ar. E penso naquela colina até ao São Jorge, que minutos antes exigiu-me que multiplicasse os pulmões, a ver se suportava a subida. Os filmes remetem para a repetição, para a vontade de invadir-se, para o mistério da voz, das paredes e de um mundo onde as relações humanas, embora exigem acções colectivas, o individualismo é uma condição dominante. Porque o todo é um conjunto de particularidades.

    É a arte a desafiar a estética. A ir para além da estética que define a própria arte. O que passará pela cabeça desses artistas, ao trazer obras de tamanha complexidade, mas com uma suavidade intrigante, que instiga a ir ao encontro do que não se sabe. A arte continua a ser o que é, um dilema.

    Foto: Facebook Fuso

    29.08.22, Lisboa

  • Cachupa e uma lei do amor

    Todas as palavras já foram ditas sobre o amor. Tudo já foi dito, incluindo esta frase. Mas o amor como direito e dever, vou ainda ouvir dizer. Vou ouvir e ver que se diga e se faça, em público, com música, megafone, comida e bebida.

    O amor como uma questão de sobrevivência, como o direito à vida, o direito à existência. O amor como saúde e o desamor como doença fatal e degradante. O amor como cidadania e o desamor como o desrespeito e desconsideração. O amor que não é nada romântico. Que é sim uma experiência do corpo, mas é uma condição social. Nada dramático, antes e necessariamente prático. O amor como lei que há de salvar, curar e libertar. Mas não como bem adquirido, oferecido, largado no caixote de lixo para que alguém o apanhe, aqueles que vivem no lado negro da lua, no lado negro dos mercados, no lado negro das noites, no lado negro da cor e da vida.

    O amor como sustentabilidade. Como um direito básico e legislado, até. Como um decreto, escrito a tinta indelével. Porque não basta ao coração a capacidade de amar. Essa oportunidade já lhe foi dado e ele fracassou, sempre foi selectivo, abusivo, traiçoeiro, manipulador, violento, opressor e irracional, quase extinguindo o próprio amor.

    Haverá na humanidade espaço para tão exigente tarefa? O mundo é grande, disse Drummond, e o amor seria da dimensão desse mundo. Deixa-lo que viva nos corações seria assumir que o mundo cabe num só corpo. E não, o corpo todo não suporta o peso do mundo. A capacidade de partilhar ao invés de dar. Não resistimos à tentação de reter, de possuir, de apropriar-se. Seguro mesmo, é ter um seguro de vida, um título de propriedade, um atestado de alguma coisa. É o “eu” às vezes pluralisado, estratégicamente.

    Um amor que ninguém estende a mão para ter e ninguém anda à procura. Um amor que não seja carência nem excesso. Que seja equilíbrio.

    Sim, amamos quando cozinhamos e damos de comer e de beber; ama a mulher que dá o peito a um bebé, amam os que convivem com o outro, os que abraçam, beijam, vê a nudez do outro e a desejam; amam os que curam, dão seu sangue para a vida do outro; mas esse é o amor dado, dependente, condicional e refém dos desejos e da boa vontade, da disponibilidade.

    O amor que vale é o que não se dá. É o que é. É o que deve ser. Um direito natural. As paixões que sejam temperamentais, temporais. Mas o amor, não, que seja essência. E isso não é romântico, poético ou subjectivo.

    Pensa-se o amor depois de uma cachupa preparada por uma mulher aplaudida as vezes todas em que seu nome foi dito, glorificado, para bem dizer. É o Cachupão nos becos de Alfama. Enquanto ali na esquina tem o Museu do Fado, um grupo de negros, mulatos e brancos, escutam atentos, ora rompendo em aplausos de aceitação, a um homem e quatro mulheres que fazem pensar o amor. Cinco psicólogos foram colocados em frente para falarem das dores invisíveis, que transcendem a alma, mas que afectam o estado do espírito e todo o tecido social. As propostas são de uma conjugação difícil de assimilar. O que é amor? Essa foi pergunta de base. Antes, o que não é o amor, foram todos unânimes na resposta que fica como uma pergunta. O que não é o amor?

    O amor, as dores da alma e do corpo. O amor que não é uma questão de sentimento. Da disponibilidade para sentir e demostrar sentimentos, emoções e acções. É uma questão do ser. E fico a pensar na frase dita por alguém de quem não nos lembramos, mas que Miriam, digo, Miriam Pires dos Santos e para que conste nos anais de quem tem memória, o nome tem de ser dito completo, como exige a própria: os peixes nadam juntos, não se descriminam. A descriminação está na água. As pessoas não são racistas, os sistemas, o mundo é que é racista. E completou Shenia Karlsson, como quem determina, que o mundo precisa de leis para o amor, que permitam a não coisificação do outro, a desvalorização da dor do outro, da fome do outro, da guerra do outro. E, não, não se trata de solidariedade ou de um gesto humanitário, dos poucos sensíveis, bondosos, que dão esmola aos miseráveis do mundo. É uma questão de princípios, de leis, que incluem a criminalização do desamor.

    Antes que toda a cachupa se desfizesse no meu estômago, levantei-me e despedi a Sílvia. Enquanto caminhava pelas ruas estreitas, cheias de pessoas, uma multidão em romaria pelas paredes que contam várias histórias, pelas tascas apertadas de onde soltam-se gargalhadas e uma trilha sonora de talheres, percorro os rostos, como se a lei do amor se tivesse decretado. E, penso, mergulhado na metamorfose das aparências, quem entre nós, diante da lei, será o inocente e o criminoso. Quem investigará os crimes cometidos, quem acusará, quem defenderá, quem será o juiz e carcereiro? E o que será o amor?

    28.08.22, Lisboa

  • O acompanhante

    Dá para ouvir de longe a voz que vem leve como se imitasse o vento. Vai se fazendo ouvir puxando a alma para um lugar desconhecido, por aí, algures nas esquinas da vida. É a Elis Regina a fazer-me serenatas.

    Ao entrar no espaço vazio do boteco, um cantinho carioca entre as ruas apertadas da Graça, o vazio me recebe. Seria das poucas vezes que entraria num lugar onde come-se e bebe-se sem ouvir a orquestra de talheres e vozes exaltadas, ora se engasgando entre arroz e vinho, entre um peixe e um gole de cerveja. Não faz mal, há ali uma voz que preenche todos os vazios.

    E canta. E toca. Canta a voz miúda como se deixasse a tristeza para lá. Vai esboçando um sorriso enquanto afoga-se numa distante alegria de viver e de cantar. Quem canta males dos outros espanta, enquanto os seus se desconhecem. É como se dissesse que é feliz lá para onde olha de olhos fechados, como se visse no seu lugar, todos os rostos que eternizaram os hinos que canta. Algo que só ela pode sentir.

    Não ia tardar que, uma a uma, grupo a grupo, chegassem as pessoas. É tarde de sábado. Dia de feijoada brasileira. A música é um acompanhante. O resto da humanidade, que preenche o lugar, vai se ocupando em tornar o mundo num lugar sem fome. Justamente. E há ainda quem peça que nos tirem tudo, mas que nos deixem a música, penso comigo, enquanto desespero pelo prato que viria alegre, recheado de simpatias. Afinal não é a música que nos move!

    Toda a constelação de clássicos brasileiros é invocada com uma espiritualidade da viola e da voz que parece reverenciar a grandeza dos astros. Sem que esta voz se cale, comer é um sacrifício. Mas convém que não se cale. Preciso ouvi-la. Preciso. Então espero, venero o canto. Vou acenando. Em jeito de quem assume toda a sua fragilidade, a sua ingenuidade, a sua reverência. Saravá! Isto é mais do que música. É um segredo. Preciso ouvir e guardar. Apesar de toda a presença, só eu ficarei a saber aonde fica pasárgada. Lá onde os grandes nomes da arte, artistas de verdade, dos quais não me assemelho, são amigos do rei, quase reis. Penso em Manuel Bandeira. A impertinente vontade de pensar nos mortos quando se está feliz. Como se nos culpássemos por sorrir sobre a memória de quem deste mundo passou.

    Vendo aquela voz dando o melhor de si, fazendo levitar clássicos brasileiros e contemporâneos marcantes sem que lhe mereça um único grito ou aplauso, fez-me percorrer as ruas da angústia literária. Penso nos poetas, verdadeiros artistas da vida, que podem esmerar-se em sangrias criativas, podem inventar quanto palavreado, quantos versos que lhes sejam a si próprios marcantes e lhes encha o ego, que lhes preenchem os sonhos da consagração, de serem reconhecidos na esquina, num bar, ou mesmo pelos vizinhos, que ninguém saberá dos seus veros, tampouco da dor que deveras sentem. A verdade é que, por fim, definimos a escrita como viver em constante estado de solitude. Como se a solidão fosse a catarse dos poetas. Ilustres somos, mas até que se nos enxergue o lustre, estaremos algures, de onde não poderemos voltar a ser o que éramos, quando escrevíamos os primeiros textos, o primeiro verso, as paixonetas que nunca esqueceremos, porque nunca nos foram correspondidas. Dos amores que amamos em segredo para que durassem no tempo. Nascemos sob o signo da insignificância. Da invisibilidade. Da inexistência. É a apoteose do nada, ou da angústia como vaticinou um outro poeta maldito.

    De vedetas mal concebidos, terminamos lembrados apenas duas vezes aniversariamente, como disse o poeta que ninguém se lembra quando nasceu e quando morreu. Ainda que recitem incompletamente os seus versos e sem que os compreendam. O poeta é um fingidor. Mas, não, aquela voz a cantar no boteco não finge. Levita. Invocando o santo nome dos compositores imortais da música do mundo. Mas prioridade mesmo, é o feijão para alimentar a fome do mundo. A fome que nos tira tudo, tudo, incluindo a música. 

    27.08.22, Lisboa

  • Dois Corpos

    Pela estrada onde as pessoas passam falando em línguas estranhas, trajadas de várias cores, como de resto são os seus corpos, duas pessoas se destacam indiferentes e alheias a tudo que se passam ao seu redor. As damas que, de pé, iguais à estátua que se esconde do seu olhar, fazem honras ao Museu da Presidência da República.

    Seus corpos esculturais, numa semiótica do tempo indeciso, mais ou menos intemporal, enquanto um casal com duas crianças, únicos naquele lado do passeio, entusiasma-se com toda aquela aparatosa ao mesmo tempo estranha ausência de movimento, em duas almas que certamente sentem o que sentem e pensam o que pensam; que movem-se, certamente no invisível e indecifrável território interior. Pára, o casal, contempla as damas imóveis que continuam alheias ao admirar de quem está de passagem e fala numa língua que não é de Camões. As crianças fazem perguntas. Os dois adultos perguntam-se também entre si coisas que não saberei dizer. E ficam ali numa zona da indecisão ou de ruptura, entre a contemplação e o apoderamento. Decidem-se por captar o momento, levar consigo nos seus aparelhos. Mas não disfarçam a estranheza que sentem com tamanha indiferença, quase desumana daquelas duas figuras. Estranham também o andar do resto de gente que não se comove com a indiferença, com a ausência de movimento em corpos que, apesar da farda e do chapéu a endurecer a paisagem, tem um certo charme, um certo ar de elegância e ao mesmo tempo de uma rigidez.

    E sai a mão da bolsa com um telemóvel. A decisão demorou alguns segundos. Foi se levantando o braço como se pedisse permissão. Permissão concedida com uma silenciosa unanimidade das esculturas expostas, trajadas de botas pretas, calças brancas ajustadas ao corpo, traçando o caminho entre as pernas e a cintura, as luvas brancas nas mãos fazem o traçado sobre essa cintura por onde está suspensa uma espada e um cinto, segurando o casaco azul, com um chapéu com os pelos que se parecem cabelos loiros a descair sobre os obras.  

    E tiram a selfie. Vêem que não acontece nada. Os dois corpos continuam ali, imóveis, com os olhos mirando o horizonte. E tiram outra selfie. Agora sorrindo. Acenando. Com as cabeças intrometidas no intervalo que separa os dois corpos, ali, presentes na ausência. Olham para o resultado no telemóvel. Passam o dedo no ecrã. Uma vez. E outra vez. Mais outra. E outra. Não gostam. Seus corpos de mistura asiática e tropical não se vêem como deve ser na foto, só pode ser. Então aproximam-se mais das guardas. Agora os corpos estáticos quase entre olham-se, como se espreitando na selfie. E crac! Foi só uma vez. Visualizam a foto. Riem-se, contentam-se com o resultado. Viram-se para as esculturas humanas e acenam um provável agradecimento. Ou um adeus possível, para dois corpos que chamam a atenção dos transeuntes de todas as origens, mas querendo-se insignificantes. Será um adeus Leonor e Ester? Um adeus Maria ou Celeste ou adeus Mariana e Catarina? Quem se importa? O que dizem os nomes?
    E as duas mulheres acabam de consentir com o mundo a passar diante dos seus olhos, a fazer poses, a selfar, a falar numa estranha língua, a esboçar sentimentos, quase bailando sob o seu nariz, iguais as moscas inocentes na sua inconveniência. A lei da vida fazendo sentido. Parados o mundo avança.  Enquanto isso, seus olhos estão sobre as costas de um tal Afonso de Albuquerque. Penso enquanto espero o 728 que me vai levar para Cais do Sodré. Quem deverá ser o senhor que dá as costas àqueles corpos, preferindo olhar para o rio, para os comboios que de vez enquanto quebram a monotonia dos ritmos dos peões e de ciclistas que passam além?

    25.08.22, Belém

  • My Love que te quero e que te odeio

    Num ano desses de que já não me lembro agora, e não me quero dar ao trabalho de ir ao Google para resolver essa lembrança, com a Patrícia Reis em Maputo, assim, numa daquelas perguntas de praxe no jornalismo, perguntei se se lembraria de Maputo e o que lembraria. Minto (agora lembrei-me, afinal
    publiquei essa conversa em algum lugar), perguntei exactamente “qual é o “extraordinário” no my love”? Respondeu-me com um autêntico “não sei” (que não escrevi no tal texto). E deu-se tempo para pensar um instante, suspirou, depois de voltar os olhos para o planeta terra, “o extraordinário é dar um nome a
    um transporte colectivo, não organizado, que implica afecto”. Calei-me. E fui a correr para fechar o texto para a revista onde me conferiam algum espacito para fazer algumas coisas de vez em quando.
    Penso hoje no my love. Certamente, um tema desinteressante para se falar e escrever. É mais fácil gozar e memizar, os memes não têm azar, toda gente gosta de algum gozo, de gozação. A Malika, minha filha, por exemplo, às vezes faz-me perguntas de gozar, só para testar-me a atenção. Mas outra vez, a mãe mesmo é que lhe venceu nesse perguntar sem azar, “barriga da mamã faz o quê?” e respondeu-lhe ela sem pensar (essa até eu não pensava, só não teria palavras certas) “faz hõi hõi hõi…” foi para a gargalhada infinita. E até hoje vejo-me a rir sozinho recordando a resposta enquanto abraço no my love.
    Encontrar uma expressão para nomear a precariedade, o perigo, a insegurança, o desespero e a única esperança que nos resta perante a falta, merece mais do que criatividade, é imaginação. A vida é feita por dois extremos, entre aqueles que andam de my love e aqueles que não andam de my love. Podia ainda incluir a classe daqueles que já andaram de my love e se esqueceram e daqueles que só os pais, irmãos e outros familiares andam de my love e simplesmente isso não os atinge. Há ainda as classes dos políticos/governantes, esses são os piores.
    Inventaram um my love de luxo que dizem dar “dignidade” a quem sobe e quem os vê a subir. Sobretudo, a quem interesse falar de dignidade enquanto passa do outro lado da vida, onde Deus já passou e deve ter uma Maria…
    Voltando ao meu bairro, onde dá-me imenso gozo – façamos de conta, pois bem – ser o que anda de my love e olha de cima do camião os que nos olham sempre perplexos com nosso balancear, ora de frente para traz, ora de esquerda para a direita, em danças em círculos, torneando a cintura, enquanto nos abraçamos no vão do medo de cair. Oiço sempre as notícias de uma pickup que abriu o taipal e “despejou” gente enquanto andava a uma velocidade ilusória de 120km/h – não imagino como uma camioneta na sétima vida andaria nessa velocidade numa estrada sem asfalto e cheio de lombas artificiais, para não dizer covas e lagoas. A mim mesmo, como provo em estar vivo e caminhando nas ruas urbaníssimas de Maputo, em alguns eventos de luxo – ai que saudade dos cocktails de lançamentos de livros ou saraus culturais – e vou saindo na televisão falando de problemas que não são os problemas da maioria da minha gente… nunca aconteceu que caísse vítima de um my love desgovernado ou saturado de gente que já não suporta o abraço.
    Na terra onde se faz amor abraçados em público, cambaleando, quais embriagados da nossa orfandade incompreensível, quando compradores de sonhos daqueles que andam de Mercedes e D4Ds, Rangers e uma nova classe de burgueses, os mahindrados sem casta. (este parágrafo não existe).
    Dito isto e aquilo que não disse e que só experimentando o my love nosso de cada dia poderá alguém compreender, não direi mais nada. Mas quero mesmo ler, um dia, o romance de Patrícia Reis sobre my love, mesmo que seja somente para encontrar um personagem, alguém, pelo menos deverá humanizar o my love, que de resto, nós agradecemos que se aumente o número no meu bairro.

  • Para não dizer que não falei das mulheres

    Podia escrever sobre Cabo Delgado. Mas custa-me falar assim das minhas dores, das minhas incompreensões e das imprecisões de quem não devia calar. Já a minha mãe contou-me da guerra civil, do que aconteceu em Gaza, do meu avó que quando todo mundo corria para o mato, ele se sentava com o seu neto pequeno, um dos meus irmãos, aquecidos por uma lareira dentro da palhota, como se esperasse a inevitável morte chegar, sem que tentasse em vão fugir de quem não se sabe porque mata e fere; porque é difícil compreender a morte de crianças, de mulheres e de homens à catanada, mesmo com uma AK47 às costas cheia de balas; já é de todo impossível aceitar a morte de inocentes que jamais compreenderão as guerras que muitas vezes são anunciadas ou recusadas na televisão, na rádio ou ainda em jornais que não chegarão a ter acesso, porque há lá fora e dentro de casa a insegurança a roçar a já intranquila vida dos dias.

    Em tempos de guerra quem mata e quem defende tem quase o mesmo rosto. Quem está na guerra não sabe porquê morre ou porquê vive. Sobre Cabo Delgado só nos chegam ambiguidades, os famintos, os assustados e aterrorizados, os refugiados, desabrigados do seu próprio solo e da sua esperança. Chegam-nos imagens incompreensíveis das armas em punhos entre os que deliberam sobre a morte e o medo e os que estão para a espantar. Só que em ambos os casos causam o mesmo medo de quem só compreende as leis da vida onde ela é normal.

    Hoje, excepcionalmente, escrevo à quarta-feira, mais um dia do nosso orgulho nacionalista, agora pretexto para a alegria das mulheres que sobem cada vez mais na hierarquia das agendas. São muitos os milhões em nome da igualdade e da equidade, difícil mesmo é escrever sobre porquê há convenções e códigos para se identificar um machista, podíamos falar de palavras-chaves, hoje fáceis de se detectar num simples “search”, sem se quer ler o pensamento ou a humanidade no meio das palavras; que, na verdade, hoje em muitas residências, em muitos conjuntos e conglomerados de residências, é mais um dia de festa, de capulanas, camisetas, lenços, algumas pingas para desanuviar o tédio do quotidiano do quase mesma coisa, as mulheres no bairro que são batalhadoras que muitas vezes são as maiores referências dos filhos e até dos maridos, para a prosperidade que se assiste numa sociedade “amarga” como vaticinara o poeta M.P. Bonde, não terão voz nem para falar do seu feminismo ou do seu chefismo de uma economia doméstica improvável. Não se pode prometer rebuçados a uma sociedade amarga, diz-nos o poeta manso. Justamente nos últimos tempos que tento compreender o que nos ensinam os poetas, provavelmente só a chorar as nossas dores, as nossas cicatrizes, nossas lembranças, quais mentes repetidoras de tormentos, iguais à nação que não sabe suspirar de alívio, igual às acácias de Maputo que tem de sobreviver ao mijo, igual às águas de Pemba, que se salgam à custa das lágrimas de muitos sobreviventes, quais órfãos da sua terra e dos seus ente queridos que não serão lembrados. Os nomes não os temos na memória, não os podemos dizer em voz alta, nem em voz de quem sussurra a dor que não sente. Aquelas águas promovidas em revistas de turismo, como das mais lindas do mundo, estão banhadas de silêncios de almas que vaguearão como espíritos se quer esquecidos, porque jamais existiram na nossa memória colectiva, antes as imagens das mulheres que choram enquanto renovam a vida na terra, nascendo em plena fuga para a incerteza. Hoje há quem pensa naqueles bebés que rasgam os ventres das mães, certamente com um sem vontade contrário com que emergiram no seu ventre. Serão frutos do amor? Hoje queria falar das flores, como das mulheres, mas como Vandré, surge-me a revolta dos tempos que vivo. Vem-me o nome do território ensanguentado, onde são muitos os nossos mortos e desconhecidos, onde são muitos os sobreviventes e quase irreconhecíveis de onde os vemos. Penso nas mulheres de Cabo Delgado, hoje as declarações de amor devem ser com uma flor ou uma arma na mão?