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  • Acordados e vigilantes: as horas de pânico na Matola 

    Crónica publicada na revista Sábado, de Portugal, onde descrevo os mais recentes acontecimentos da crise pós-eleitoral que resvala para cenários de vandalismo, saque e mortes.

    “Ainda não havia passado a depressão da ausência da festa de natal e já se anunciava o terror: homens com catanas andam à solta no bairro, com sede de sangue e dispostos a cometer todo o tipo de crimes. Passa da uma da madrugada e o telemóvel não pára de tocar com gente de outros lugares, familiares, amigos e vizinhos, preocupados em dar-nos a notícia, as nossas vidas correm perigo.” Leia a crónica na íntegra aqui

  • O que dignifica?

    — Mãe, porque é que as pessoas dizem povo no poder?

    A mãe descansa as mãos na cintura fina que acompanha a forma do seu corpo sem grandes nuances, uma mulher de 30 anos, que deu-se ao luxo de ter duas filhas, e que agora não sabe mais o que fazer com elas; a mais velha, de seis anos, está na idade dos insuportáveis porquês da vida; a mais nova, aos três anos, dorme como se não se importasse com o mundo, indiferente aos 34 graus celsius que se multiplicam ao triplo na casa de madeira e zinco e os mosquitos celebram a liberdade de circulação e livre manifestação. Deu agora para que a mais velha, justamente à esta hora da noite, com o jantar dos mil e um sacrifícios posto à mesa, querer saber os porquês destes tempos: porque gritam as pessoas lá fora pelo poder popular — povo no poder, rectifica-se. 

    — Mamã — insiste a criança ameaçadora, enquanto bate-lhe na malha da anca — o que dignifica povo no poder? 

    Ela quis dizer significa. Deu-lhe, já há uns dias, trocar os significados às coisas; se bem que dignidade é também pelo que gritam as vozes imponentes que cada vez se aproximam na rua e um fumo negro ganha espaço pelos ares, em direcção às nuvens dispersas, que parecem mover-se com a força dos homens, mulheres e crianças, e mais os outros a quem a dignidade sempre lhes fez falta.

    — Mamã, mamã…

    — Diz…

    — Quem são as pessoas que estão a gritar lá fora?

    São os invisíveis e inaudíveis, assim chama-lhes a mãe. Mas evita dizê-lo na voz que a criança possa escutar e originar outros porquês. Por exemplo, continuar a falar dentro da sua cabeça onde se passam todos os problemas do mundo, perguntaria a criança a seguir, porque são eles invisíveis? A isso ela podia responder, porque sempre existiram, mas ninguém se deu conta, porque não estavam vestidos de forma «adequada», eles não cheiram aos aromas de Paris, nem à moda milanesa, antes à contrafcção chinesa ou nigeriana; eles sempre andaram aos gritos que só arrepiava eles mesmos, porque quem devia os escutar, cercou-se de vozes semelhantes, de igual poder, iguais cheiros, cantando todos em uníssono as canções de embalar os saciados. O que ficou para estes, são resquícios de uma solidão e angústia que só se sufocava nas promessas e nos sonhos vistos aos ecrãs dos smartphones, de segunda mão, tal como as roupas, vindas de contentores para o descarte. Os pensamentos da mãe podiam continuar a escalar, não fosse que a criança ia se tornando incômoda, impaciente, um tormento para quem também tem os seus porquês da vida. Está na hora de responder à criança que não se cala, já num corro como os inaudíveis.

    — Mãe, lá foram estão a cantar porquê?

    Manifestações pós-eleitorais em Maputo com a mensagem “Povo no Poder” | Fotografia: Adelium Castelo

    Esta pergunta será inevitável que responda; a mãe não se pode recolher nos seus silêncios habituais, fadados por ser mulher e mãe solteira; a mãe não se pode contentar mais com os silêncios irritantes do mundo; pesa-lhe a consciência não responder à estas simples perguntas de um ser que procura compreender o mundo sem fazer juízos de valor; sem escolher os lados; sem cobranças, sem reivindicações, a não ser os porquês.

    — Mãe… 

    — É uma manifestação, filha. Esses são os manifestantes.

    Quando a mãe disse manifestantes, soo-lhe o que diria a um adulto como ela sobre esses tais; são os invisíveis, os desconhecidos, os inaudíveis que, hoje, estranhamente se lhes escutam as vozes já roucas de gritar por toda e pela vida; são os que metem medo; os que fazem encarar a vida com a certeza de que nem tudo anda bem, apesar do futuro que sempre se anunciou próspero; são os que agora cobram a sua parte da riqueza que todos os dias faz manchete nos jornais; são os que lavam os carros dos aspirantes à classe média, no centro da cidade; a mãe tem a idade da constatação e do pânico, distópico, como diria nas palavras que vem praticando na língua que procura afiar, a ver se arruma um emprego de jeito, por isso poderia continuar a caracterizar, mas faria de tudo para não tratá-los por vândalos, como nos noticiários.

    Abre a janela e rouba o olhar à rua; a filha imita-lhe os gestos. 

    — Eles estão a dizer povo no poder, mãe.

    — Sim.

    — O que dignifica isso?

    — Significa, filha.

    — Isso mesmo, mãe.

    — O quê?

    — Povo no poder.

    E esta, agora, pior é que se não respondo ela não se cala. Devo agora traduzir o que diz a letra da música, ou o que sai da boca dos manifestantes; nem eu sei muito bem o que dizem. Postos os instantes de reflexão e discussão com os seus sentidos, disse-lhe que é letra de uma música que agora é usada por manifestantes que reclamam o poder. Um tal de Azagaia é que a cantou, dando uma outra vida às palavras de Samora Machel. A mãe não podia dizer esses nomes à criança que ia perguntar a seguir sobre esses homens. Não há tempo para biografias, nem verificação dos factos. Factos, essa palavra é outra que traz consigo problemas, rima com a verdade, é parece que ela agora só vem de uma só voz, o que a mãe também acha um perigo. O perigo de uma história única que tanto ela aprende agora a combater no final do seu curso superior; agora que ela aprendeu que a verdade não virá de uma só boca. A mãe também está confusa, é o que pelo menos acha, ela pelo menos não tem certeza de nada, talvez por isso é que lhe custa dar certas respostas.

    — Mãe, o que digni…

    — Significa, sig-ni-fi-ca. sig, sig…

    — O que são manifestantes?

    Manifestantes são pessoas nas ruas que não estando felizes com alguma situação decidem mostrar a sua insatisfação. Por outras palavras, os que não se conformam com a ordem estabelecida. Apesar do esforço, a mãe sempre se complica, afinal, não é todos os dias que se vê essa gente, nem se debruçam sobre esses termos. Manifestantes, protestatários, protestantes, vândalos, indignados, revoltantes, revoltosos, rima com faltosos, mas estes estão presentes e não são uma pedra no sapato, eles até lançam pedras contra balas e o caos semeiam. 

    — Por exemplo, aqueles ali — apontou para a rua — querem justiça eleitoral, verdade eleitoral e dizem que o candidato no qual votaram é que ganhou eleições.

    — Eleições é que aquilo de ir pintar o dedo que mãe disse está ir escolher o presidente?

    — É isso mesmo — ela sabe que não é bem assim, mas quer sair de uma vez da encruzilhada. 

    Afinal, agora já não sabe bem se votou ou não, se escolheu um presidente ou não. Certa mesmo, está que pintou o dedo, recebeu três boletins de votos em que marcou-lhes com um xix num símbolo e num rosto e que esse acto significava quatro escolhas, a escolha de um presidente da República, deputados da Assembleia da República e da Assembleia provincial e daí um governador da província. Mas hoje já não está muito certa disso. É que já passou tanto tempo que se esqueceu até das opções que tomou.

    A mãe dá uma pausa quando apercebe-se que a filha tem a cara desfeita em rugas, a boca virada para um lado em estranheza do que a mãe diz. Mas o que está para aí a dizer a mãe? Cogita a criança; outros vários porquês devem estar a reproduzir-se na sua mente e logo se vão deitar para fora, para a consciência da mãe.

    — Mãe, porque não estamos lá fora nós também?

    — Porque estaríamos lá fora?

    — A mãe não quer justiça?

    Esta não vai parar de fazer perguntas, diz a mãe, já com sinais visíveis de intriga e cansaço. A pergunta faz o inevitável eco por dentro. Mas convém ser honesta, perante a insistência.

    — Não sei, filha. Eu não sei.

    — Mas a mãe diz que sempre sabe.

    — É para dizer-te o quê?

    — A verdade?

    Verdade. O que virá a ser isso? Tenho 30 anos, boa parte dos quais como aluna e estudante, já sonhei com uma carreira, um projecto, tenho duas filhas e tenho-lhes na mão e no peito como um sonho a se colocar em prática, com os respectivos orçamentos em constante ajustamento; que lhes posso sonhar? A cabeça da mãe gira. A mesa está posta. Três fatias de pão, três rodelas de palone comprado na rua nestes dias — não terá sido daquele camião que vinha da África do Sul, atacado no meio da rua? —, três chávenas, um pacote de five rose, três colherinhas de açúcar, e várias penumbras. Quanto tempo se vai aguentar dentro de casa, com estas crianças a fazerem perguntas. 

    — Mãe, nós já não vamos à escola porquê?

    — Porque será? —  devolve-lhe a pergunta a sorrir.

    — A professora diz que é por causa da manifestação.

    — Sim.

    — Não vamos voltar mais à escola?

    — Não sei.

    — Assim é bom, mãe?

    A mãe afasta a chávena de chá em direcção à criança. E o pão com o palone frito. A criança recebe e dá uma mordida gulosa. A mãe hoje tem orgulho do jantar que parece um alento no meio da incerteza. Não se lembra de quando comeu um palone. São as realizações deste tempo que vem com o som dos apitos e vuvuzelas. O coração da mãe bate descontrolado, como se um sino tivesse tocado a recordar-lhe as perguntas que ficou sem responder. Lá fora parece que os inaudíveis ganham mais voz e parecem terem se decidido parar à sua porta. Os invisíveis estão cada vez em maior número e parecem exigir as mesmas respostas que a sua filha. Até quando isto vai durar?, pergunta-se a mãe.

    — Mãe, o que eles estão a cantar agora lá fora?

    Com que palavras poderá ela traduzir a canção dos invisíveis? Como dizer a filha tudo o que gritam aqueles homens e mulheres que enfim acharam o seu lugar no mundo e a sua voz já se escuta; abrem finalmente os noticiários, dedicam-lhes horas e horas de emissão na televisão, páginas inteiras de jornais, estudiosos de todo o tipo procuram compreender o refrão dos seus cânticos; como dizer para a filha tudo, palavra à palavra, o que cantam, na língua do povo, com todas as suas metáforas e inúmeros significados? E depois de dizer cada palavra, como responder os porquês que virão à seguir? Como se a criança imaginasse o tormento da mãe, volta aonde tudo começou.

    — Eles dizem povo no poder, de novo.

    — Sim filha, isso quer dizer que nós votamos, nós decidimos o nosso destino…

    — E o que dignifica destino?

    Manifestantes a tocar panelas e outros utencílios num prédio em Maputo | Fotografia: Adelium Castelo

    Decidiu não trocar-lhe as voltas com a palavra “dignifica”. E se realmente fizer sentido, o que dignifica o destino? O que dignifica o povo no poder? Nunca essas perguntas chegaram a fazer sentido como agora fazem, no emaranhado de sensações em que se encontra. No final, pensa como se respondesse à filha, dignidade, é o que cantam os invisíveis. Concluindo seu pensamento, levantou-se, pegou na panela e bateu-lhe com uma colher de pão. A filha bateu na mesa com as próprias mãos e fez tremer as chávenas, as colherinhas, a tigelinha de açúcar, o pão, o palone; e como se a mesa também reivindicasse a dignidade, foi-se abaixo, deitando tudo que havia sobre isso no chão de cimento queimado; a mãe bateu na panela com mais força; o colher de pau partiu-se em protesto; a filha dançou no frenesim, lá fora os homens e mulheres, expandiram os gritos em como se tratassem de uma plateia em êxtase com aquele espectáculo familiar.  

    Maputo, dezembro de 2024

  • A Nação existe

    Vamos obrigar-vos a perceber o ridículo que foi vocês todos a agitarem a bandeira e a cantarem o hino nacional. Vamos provar-vos que vocês não são mais do que corpos sujos e fétidos. Que valem tanto como carcaças de animais esfomeados.

    Han Kang, Atos Humanos

    Manifestantes, em Maputo, em cima de um “chapa” Anjo Voador – Preça dos Combatentes. Fotografia de Ildefonso Colaço

    A estação de Infulene está à vista. Luís Cabral também. Um coro de apitos vem acompanhado de vozes roucas, mas sem cessar a sua tarefa: desçam, desçam, xikani, ordenam. Três homens, dois deles adolescentes. Corpos a suar aos cântaros; de chinelos nos pés que crescem a cada passo. O comboio era uma jiboia morta. 

    — O comboio é nosso,  saiam, afinal porque não ouvem? 

    Infulene

    Desci os altos degraus até às pedras que me receberam com hostilidade; dentro das sapatilhas castanhas, velhas, mas resistentes e complacentes com a economia necessária dos dias, os pedregulhos anunciavam a sua “insistente presença”, pelos próximos 30 km que alguns de nós irá percorrer de volta para casa.  Alguns passos dados de volta à procedência, olhei para trás e me convenci, o monstro que anda nas linhas férreas, estava tomado. Assim o corpo iniciava uma experiência do poder popular dos invisíveis que decidiram ganhar uma voz.

    Trevo

    Uma multidão ocupava os trilhos em substituição do fluxo de comboios habitual à hora matinal das 7. A “cobra metálica” — assim o apelidaram os da estação de Nkobe  — cuspiu-nos quando sucumbiu nas malhas dos manifestantes. Nas bermas onde mora boa parte desses invisíveis, porquem os dias se definem pelo ruído das carruagens em velocidade, outra multidão assistia à procissão dos descrentes das ordens de paralisação. 

     — É também por vocês, pela melhoria dos vossos salários, das vossas condições de trabalho, pela dignidade, que fazemos essa luta.

    Machava-Sede

    E as pedras cresciam no meio do caminho. Isso não é uma metáfora drummoniana. Éramos muitos a caminhar como almas doentes em processo de purificação; tinha ser feito o caminho, quanto mais longo e dolorido que se revelou, melhor, assim se aprende a amar de novo o país, numa cidadania que já não é do futuro; a verdade não podia estar mais escancarada; a Nação existe e exala o cheiro dos invisíveis; a Nação existe e ressurge em cada grito de ordem dos inaudíveis do quotidiano nada equitativo — olá Craveirinha.

    Esta é a marcha que a verdade nos impõe; a verdade que dói, e sinto-a em cada passo, em cada gota de suor que cai entre as pedras que vou pensando enquanto conto as estações.  

    Liberdade

    Um amontoado de areia. Uma camiseta vermelha balança em pedaços de paus cruzados em sinal de cruz. Uma vênia se nos é cobrada. Gotas de águas se nos deitam nas palmas das mãos até que atravessam os dedos para irrigar as folhas secas sobre a areia, numa imagem nos lembra as sepulturas abandonadas do cemitério de Lhanguene, lá dos lados de Xinhambanine, onde os vivos se recusam a render-se aos falecidos.

    Daniel

    O cheiro forte das mangas podres lembra o ciclos da vida; os pés já não obedecem o desejo autoritário de chegar à casa, onde a lamúria de todas as desgraças espera; o corpo encontrou as próprias razões de ser; sinto a crescer a pátria nas veias e no coração que se comove, quando no meio da caminhada que vai longa, um homem interrompe o silêncio dos peregrinos.

    — Eles também exageram. Anos e anos de exagero. Foi demais.

    Pela primeira vez, os meus pés duvidaram do percurso. O que nos espera o destino?

     — Toma uma manga, mano, isto tudo é nisso  — saboreei com apetite o fruto da época.

    Matola-Gare

    Homens, mulheres e crianças, com garrafas de refrigerantes nas mãos, uma ideia de ostentação que só não alcança o luxo que desfila à solo, dos mercedes-benz’s, kias, e outros bichos de quatro rodas, antes imagináveis em sagas como Transformers; quando olhei nos rostos de cada um dos showfistas, iam se parecendo todos aos outros que tomaram o comboio em Infulene, mesma alegria, mesmo sentido de pertença; vieram-me os dezembros da infância, que se resumiam em duas datas, 25 e 31, na alegria mais sincera que já vivi por um fim de ano, cuja fantasia residia numa fatia de bolo, arroz de cebola, salada de tomate, frango assado e uma fanta, apenas possíveis nessas duas datas do ano, como recompensa pelos dias de água, trigo, sal, açúcar e algumas verduras; tinha a imagem nítida do quintal da casa do meu pai, quando um homem disse.

    — Tudo isto para depois… nada!

    Quando ele disse “tudo”, voltei aonde tudo começou. E dei-me conta que não foi quando o comboio parou.

    Eduardo Mondlane

    Sexta-feira, Avenida Eduardo Mondlane. Meio-dia. Uma a uma, as pessoas foram se dando as mãos, a eles se juntou um grupo trajado de batas brancas, fardas verdes e azuis; um cordão formou-se a atravessar o alcatrão de margem à margem, e as vozes se elevaram em coro, a entoar o hino nacional; a pátria crescia-lhes por dentro até nas terminações das palavras audíveis em todos os cantos. 

    Num instante que não se viu a chegar, surgiram homens armados de farda castanha que fizeram cantar o coro das armas. As mãos da multidão se desfizeram, como um tecido que se rasga; o coro celestial substituiu-se com gritos e grunhidos de uma dor que só podia vir dos confins do inferno.

    Mesmo assim, podes te orgulhar, poeta, vieste de qualquer parte, de uma nação que ainda não existia. Agora ela emerge e cresce como um “canto de amor natural”.

    Eduardo Quive

    Matola, 12. 12. 24

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    Texto inspirado nos acontecimentos vivenciados a 9 de Dezembro de 2024 e escrito para a fanzine do movimento L.U.T.O.

  • “A vida é um mar de perguntas sem respostas” – Jessemusse Cacinda

    Em 2023 dias antes de Jessemusse Cacinda publicar seu primeiro livro de ficção, Kwashala Blues, entrevistei-o para que ele desse o panorama geral da obra. Eu já havia lido o livro e surpreendi-me com o seu formato. São pequenas histórias que se juntaram num corpo maior e deram sentido a um livro de escrita simples, veloz, com personagens que na sua complexidade procuravam simplificar as suas experiências. A paisagem em que ela foi construída, desde Maputo, até e sobretudo Nampula, fazem com que ela pareça, de imediato, uma obra diferente aos olhos de leitores da literatura moçambicana, onde os lugares muitas vezes se transformam entre o rural e urbano.

    Fica claro em Kwashala Blues que Jessemusse Cacinda é um escritor que se fez em processos, por etapas, ciente de que é um contador de histórias, mas sem a pressão de se revelar. Felizmente fê-lo através de uma obra que se justifica por si, sem ser refém do futuro.

    Conhecemo-nos a mais de 15 anos. E foi pela literatura que se foi fazendo a nossa amizade, até escalar outros patamares. A sua primeira viagem para Maputo, qual caçador de sonhos, caminhando nas estradas do país desde Nampula, para um percurso que diz da sua personalidade e do lugar onde quer chegar. E para onde vai Jessemusse Cacinda? De volta ao lugar onde nasceu. A vida dá tantas voltas. Conheci Nampula a seu convite, em 2016. Eram o fim do caminho, o festival que criou. Era o princípio da utopia, uma editora de livros “africanos”, é o que é a editora Ethale Publishing, sobre a qual falaremos numa outra vez. Foram horas e horas de serão. Conversas que ao tempo não enganaram. Já lhe havia reconhecido a incaracterística forma de fazer o jornalismo, saindo da sua voz na rádio, estórias de despertar. Hoje, entre tantas coisas, filósofo, editor e escritor. Era um caminho incontornável. As tantas estórias que a vida dá. E aí chegamos a este Kwashala Blues que nos confunde “não sei que género é este”, afirma o próprio autor que se estreia no que podemos chamar de novela.

    O que é a vida? perguntou Antônio Abujamra aos seus entrevistados e no final ele descobriu: a vida é um abismo, onde ele próprio caiu no final. Veio-me um pouco de tudo depois de ler Kwashala Blues. E esta entrevista é a única forma que encontramos de desanuviar em meio ao frenesim dos enredos.

    Sempre soube-o como escritor, repito. Faltava o livro. E o livro chegou. O que fizemos com ele? Lemos. E depois de ler? Conversamos. Porque algumas estórias levam a isso…

    Vamos começar do começo do “Kwashala Blues”, a chamada que o narrador recebe sobre a morte do pai. É o começo de um romance ou apenas a viagem de um personagem?

    Na verdade, é mesmo uma chamada que o narrador recebe para reavivar suas memórias. Um acontecimento trágico como a morte de um pai é uma oportunidade que um ser humano tem de questionar-se sobre tudo. Questionar-se sobre a vida, sobre as decisões que tomou, sobre os erros por si cometidos, e sobre o amor, o futuro. Quem nunca filosofou na vida, seguramente, o faz quando um entequerido seu morre.

    Ao falar dessa personagem, a que recebe a chamada, não se identifica. Isto porque quase todas as estórias do livro estão na primeira pessoa. Não resisto a fazer esta pergunta, é uma autobiografia?

    Veja, eu tenho dito que vivi e vivo a vida. Neste exercício também conheço pessoas que vivem. Viver a vida é em toda a sua plenitude, assumir os momentos tanto bons como ruis. E a vida é feita disso. O Kwashala Blues é um ponto de encontro, onde através da música e do rítmo, as histórias de vários moçambicanos se cruzam.

    Um livro triste, este. Mas uma tristeza estranha, que dá vontade de dançar, dá vontade de sorrir com o rosto cheio de lágrimas e o peito apertado. Que angústia é essa?

    A vida é uma constante angústia. Veja que em nenhum momento de nossas vidas nos sentimos satisfeitos. A vida é como a filosofia, é um mar de perguntas sem respostas. Se esperarmos que os nossos problemas sejam completamente resolvidos, nunca vamos esperimentar a felicidade. Por isso devemos sorrir enquanto dá, dançar enquanto podemos e quando for necessário, chorar acreditando que ninguém tenha lágrimas suficientes para provocar uma inundação. Este livro é sobre a vida e a vida é isso mesmo.

    Não posso deixar de percorrer o Este de África lendo estas estórias. Vou confessar que de lá li poucas estórias e o ápice seria Ngugi. Mas veio-me de repente a África Ocidental, numa estrenha sensação das linguagens, da música e até da dinâmica territorial. A pergunta que me ocorre é sobre as viagens do escritor até chegarmos a este Kwashala Blues.

    Todo mundo que nasceu e cresceu no norte de Moçambique na década 90 do século passado sabe que Dar-es-salam era mais perto que Maputo. E isso se notou pela influencia que a África Oriental e Ocidental tinham no nosso estilo de vida. Quando cheguei a Maputo notei pouca ligação com aquela África com a qual eu havia crescido e como um bom cidadão, senti necessidade de trazer essas todas áfricas para a nossa capital. O Kwashala é uma moçambicanização da rumba congolesa.

    Deve ser um caminho pouco feito pelos escritores. A forte ligação da narrativa com o seu lugar de origem. Escrever o lugar, as paisagens, as gentes, os sons e até, estranhamente, dá pra sentir os cheiros. Para a tua vida no todo, Nampula é o teu lugar de partida ou de chegada?

    Nampula é o meu ponto de partida e o lugar de chegada é o infinito. Uma das coisas que tento fazer é mostrar as pessoas que todos nós conhecemos um pouco de Nampula, mesmo sem ter lá estado e sem ter ouvido nada a respeito da província e da cidade.

    Voltemos ao livro. Os processos de escrita. Nota-se que são estórias escritas em momentos separados. Mas elas têm um fio condutor. A figura do pai quase que é a linha que cose a narrativa. O que aconteceu aos textos para terem essa linhagem que roça o romance?

    Os textos foram escritos em momentos diferentes, mas havia um fio condutor. Cronicar os acontecimentos contemporâneos de Moçambique com um pendor filosófico. E precisava de uma imagem para nos levar a este exercício, a morte de um pai. O pai é aquele nosso amigo e inimigo ao mesmo tempo. O amamos e, às vezes, o adiamos. E na vida somos assim. Mas a ideia de fazer este quase romance ou quase novela (na verdade nem sei que género de livro é este) veio das conversas e discussões que tive com o Sérgio Raimundo que disse-me que estes textos não eram contos quaisquer, eram capítulos de uma novela.

    E, já agora, em que momentos da sua vida se reescreveram essas estórias? Num acto de reflexão, releitura de um percurso (não podemos ignorar que Jessemusse tem a vida toda quase feita em Nampula e parte para Maputo já formado e até a trabalhar) ou terá sido a bendita inspiração isoladamente?

    Wow. Existem sim, alguns episódios que podem ser ligados a minha vida e outros que podem ser ligados a vida de amigos e pessoas que conheço. Não vou denunciar-lhes. Preciso que me contem suas histórias para próximos livros. Mas posso partilhar consigo que meu pai faleceu e senti-me de certa forma culpado por não ter aproveitado quando ele estava vivo. Na minha própria vida já também agarrei-me a coisas que me impediam de ser feliz em nome de um conforto. E a filosofia, este exercicio de questionar-se, reflectir, tentar encontrar as várias respostas sobre um problema, tem me ajudado a encarar a vida com sabor. E provavelmente, há pessoas que tem todas ferramentas para ser feliz, mas falta-lhes esta vontade de filosofar em torno da sua própria experiência.

    A música, Jessemusse, não queria me referir a ela porque já é óbvio pelo título do livro. Mas é inevitável. Fala-me dela, como ela roubou protagonismo à literatura?

    A música é o bálsamo da alma. Há uma música do Murara Jazz, banda de Kwashala de Cabo Delgado, com o título Adelina, em que o poeta fica desapontado porque a Adelina não conseguiu guardar-lhe os seus segredos mais intimos enquanto foram namorados. E quantas vezes na vida não nos desapontamos quando nossa intimidade é exposta? No a música começa um pouco lenta e chega uma altura em que o rítmo aumenta. Nesssa parte, chamada “Okoroxeliya”, mesmo que a música fale de coisas tristes, é mesmo para dançar. E voce sabe que na África, a dança é nossa vida e quando a gente dança, é  como se expíritos nos estivessem a puxar de um lado para outro. E a literatura é um registo da vida. Logo, um protagonista que vive a vida, vai seguramente ter a musica consigo. Se alguém me dizer que nunca ouviu música eu lhe diria que está morto.

    De certa forma encontramos muito de memorial e da cultura popular, digamos assim. Conheço um pouco Nampula, é certo, mas bastava-me ler o teu livro para entrar por dentro dos ambientes. O que me leva a querer saber da tua infância, os chãos que você pisou em pequeno, as pessoas que fizeram parte desse momento que parece descobrirmos já adulto, que é a infância? Quero que me fale da tua casa, dos teus parentes, da tua rua, do teu bairro…

    Cresci entre Cuamba, Nampula e Memba. Este nomadismo é normal no norte de Moçambique. Em Cuamba vivia no bairro do aeroporto e via os aviões a cairem todos todos, em Memba vivia no bairro do Muaco, há 1Km da praia da Costa do Sol e do campo de futebol da vila e em Nampula, no bairro de Muatala, mais conhecido por Matadouro. No Matadouro vivia com os meus pais, e quando se divorciaram, passei a partilhar entre Cuamba (onde estava o meu pai) e Memba (para onde foi a minha mãe).

    Conhecemo-nos há vários anos e nunca perguntei-te sobre os teus pais. Nesse sentido também é interessante para mim ler o Kwashala, porque parte do desconhecimento. Sei, porém, que a tua mãe é uma professora, e o teu pai?

    Sim, a minha mãe professora e meu pai, chefe de cozinha. Hoje o meu pai faleceu e a minha mãe é funcionária administrativa. Cada um deles exerceu determinada influencia em mim, talvez seja por isso que enquanto gosto de aprender, gosto também de comer. 

    Trabalhou na rádio Moçambique a partir de uma adolescência. Já te ouvia nos programas infantis e juvenis da Rádio com uma forte expressão na palavra. O que significou esse parte da tua vida?

    Eu tenho dito que não tenho motivos para não ser feliz. Meu sonho era falar na rádio e consegui. Isso significou tudo para mim. Sai da rádio porque tive vontade de experimentar muitas coisas. Foi para preencher uma série de curiosidades, mas voltaria a trabalhar na rádio sem nenhum problema. Um radialista é um artista e um artista nunca abandona a sua arte.

    Os primeiros livros que leste, as primeiras estórias, a primeira ficção onde foi que encontraste?

    Os livros apanhei com a minha mãe e na escola. Primeiro foram os textos do livro de Português do ensino primário (tenho comigo o livro de Português da Sétima Clásse, onde leio e releio Crónica de Carteira de N. Marimbique que fui descobrir mais tarde que era Nelson Saúte) e depois vieram os poemas, Os Lusiadas de Camões foi o primeiro livro que livro.

    E hoje o livro virou um trabalho, com a Ethale Publishing. Recordo-me das conversas em Nampula a volta deste projecto, como se fosse uma miram. E hoje, aonde estamos?

    Hoje estamos onde a vida nos leva. Essa curiosidade está a levar-me a Coimbra para fazer o meu doutoramento e continuar nessa coisa de trabalhar como investigador, autor e editor.

    Jessemusse, tens leituras de invejar. Deves conhecer as narrativas deste vasto continente como poucos de nós conhecemos. Fico a pensar, o que efectivamente andaste por aí a ler e a conhecer. Mas sobretudo, que caminhos para chegarmos à essa literatura mais próxima da nossa realidade, mas tão distante em termos de acesso?

    Como sabes, sempre fui um “puto curioso”. A minha ligação com a África Oriental e Ocidental veio da musica que escutamos no norte de Moçambique, depois, quando aprendi a ler, fui eu mesmo procurar. Aproveitei-me bastante da evolução tecnológica e viajei pelo continente africano de carro. Para teres uma ideia, eu sai de Harare a Nampula, via Lusaka e Blantyre. Vamos ser mais aventureiros e curtir este continente sem chiliques.

    Quantas rumbas e kwashalas dançaste para te atormentarem e até decidirem o destino do teu primeiro livro de ficção?

    Cresci com muita rumba e kwashala. Tenho várias no meu computador e toco nos fim-de-semana para dançar. Eu, o Gércio Alexandre da Rádio Moçambique e o Peter, apresentador da TVM, somos amigos e temos dançado essas coisas nos fim-de-semana. Quero que as pessoas que leiam o livro tenham vontade também de dançar.

    Acho que não pararia esta entrevista se não me impusessem os limites da imprensa. Então vamos fechar à moda tradicional, as tais considerações finais. Agora que experimentas a escrita descomprometida, digamos assim, da ficção. De que lado da história ficarias se houvesse um só lado?

    Pergunta dificil. Eu quis escrever justamente para não estar num só lado. A literatura não tem lado. A literatura é o respeito pela diversidade que faz o nosso país e o nosso continente. Este Kwashala Blues é uma oportunidade para os moçambicanos conhecerem-se a si mesmos. Mas também para celebrar as dorres e alegrias das pessoas deste país e deste continente.

  • Prosa de um poeta – Álvaro Carmo Vaz

    “Mutiladas” é um livro de contos de Eduardo Quive, lançado em Maputo em meados de Maio. Ele escreveu, em prólogo:
    Este livro é dividido em duas partes, a primeira, Cor de Sombra, composta pelos textos que deram destino a toda a obra, e a segunda, Outros Caminhos, escrita entre Agosto e Setembro de 2022, durante a Residência Literária em Lisboa…
    Nas suas pouco mais de noventa páginas, a prosa poética de Eduardo Quive delicia quem se dedique a ler estas histórias, sem que ela abale a dolorosa crueza de grande parte delas, como “Destina”, na minha opinião, o mais conseguido destes contos.
    Para pessoa que acreditava como Destina, certo é dizer que tinha os olhos incrédulos.Os peitos continuavam hirtos como mangas maduras. As mãos esticadas estavam com os punhos cerrados como se ainda lutassem contra os dois homens, com a valentia dos heróis. Os que a viram não sabiam se se jubilavam pela sua coragem de fechar os punhos contra os agressores ou choravam a morte de uma mulher que sucumbiu na noite de luar, na festa dos lobos. Destina acreditou em tudo, só não acreditou que aquele era o dia em que tudo teria um fim.
    As outras histórias da primeira parte do livro são:
    • “Decadência” – Vitorino, um trompetista de jazz, célebre na terra e no estrangeiro, arrasta uma grave tuberculose que, tirando-lhe o fôlego, lhe destruiu a carreira e o conduz para o inevitável fim;
    • “Uma história de família” – Uma família abastada e aparentemente feliz, casal com duas filhas, que entra em crise quando o casal se desentende, levando a um desfecho inesperado;
    • “Cláudia” – A história trágica da protagonista e dos três amigos do narrador, todos jovens, uma história que gostaríamos de não sentir como representativa de alguma da nossa juventude urbana.
    Em “Outros Caminhos”, segunda parte do livro, gostei de “O cheiro das flores”, evocativa da barbárie das nossa guerra civil, a “guerra dos 16 anos”. Também gostei de “Os passeios da vida”. “O comboio” contrasta o fascínio da primeira viagem de comboio feita pelo adolescente Mito na linha de Ressano Garcia e a dele, já adulto, vinte anos depois, em Algés. “A Punição” apresenta um retrato de um professor em particular, a ideia da generalização parece-me excessiva. As restantes histórias são “As pedras não adormecem” e “O silêncio”.

    Um livro que vale a pena ler.

    Álvaro Carmo Vaz

    Escritor

  • “A arte tem poder de iluminar as sombras mais escuras da nossa existência” – Dora Chipande lê “Mutiladas”

    Enquanto mulher e activista social, ao ler “Mutiladas”, o que salta-me logo à vista é a representação visceral da violência, especialmente da violência de género, que atravessa vários contos. O feminicídio, tratado de forma repetida e brutal na obra, ecoa profundamente em mim, pois recorda as experiências de tantas mulheres que sofrem abusos, agressões e mortes, muitas vezes esquecidas, como as personagens “Destina” e “Cláudia”. Ao dar nomes próprios a estas mulheres, Quive devolve-lhes a identidade, algo que tantas vezes é-lhes negado na realidade. Esta abordagem faz-me pensar em como a nossa sociedade (não só em Moçambique, mas em tantos outros países) está mutilada, não só no corpo, mas também na alma.

    Nós, mulheres, somos frequentemente reduzidas a meros objectos descartáveis. A banalização da violência sexual e do feminicídio que Quive descreve é uma crítica dolorosa à indiferença social e à impunidade que cercam esses crimes. Sinto que a obra obriga-me a confrontar essa realidade: a violência de género não é uma aberração, mas uma característica endémica de uma sociedade doente.

    Conjugando a arte e o activismo, vejo “Mutiladas” como mais do que uma simples obra literária. Para mim, é uma denúncia, mas também um acto de resistência. Eduardo Quive, com uma linguagem poética e realista, revela a devastação que a violência e as desigualdades causam nas vidas das pessoas e na comunidade em volta. No entanto, a forma como ele usa a paródia e o exagero estilístico ajuda-me a processar essa violência sem perder-me completamente no desespero. Apesar de tudo, há ali uma luz, um convite à reflexão e à acção, um grito de socorro que ecoa nas páginas e pede uma resposta. Enquanto artista, sinto que a arte tem o poder de expor as profundezas da miséria humana e, ao mesmo tempo, questionar o “estado das coisas”. A arte em “Mutiladas” é uma ferramenta de contestação e transformação social, algo com o qual identifico-me profundamente enquanto activista. Na verdade, acredito que, na vida real, a arte tem o poder de mobilizar consciências, de gerar diálogos e de provocar mudanças.

    A sociedade que Quive descreve, mutilada em todos os níveis, reflecte o estado interno de tantas pessoas que sobreviveram a traumas e que continuam a lutar para encontrar um espaço de cura, de voz.

    Como sobrevivente de abuso infantil, muitos dos temas abordados em “Mutiladas” tocam-me de uma forma muito pessoal. A mutilação, tanto literal quanto metafórica, que se espalha pela obra, faz-me lembrar as feridas abertas que muitas de nós, sobreviventes de abuso, carregamos. O abuso infantil, tal como a mutilação genital feminina (uma prática que ainda persiste em algumas partes do mundo), e outras formas de violência, são maneiras de roubar-nos a autonomia e a dignidade. Estes actos deixam cicatrizes, não só no corpo, mas também na mente e na alma. E isso fica tão claro na descrição de personagens que são “sombras” do que um dia foram.

    A introspeção do narrador-personagem, especialmente em contos como “Decadência”, faz-me reflectir sobre a maneira como nós, vítimas de abuso, muitas vezes procuramos reconstruir as nossas identidades fragmentadas. A sociedade que Quive descreve, mutilada em todos os níveis, reflecte o estado interno de tantas pessoas que sobreviveram a traumas e que continuam a lutar para encontrar um espaço de cura, de voz.

    “Mutiladas” também faz-me pensar nas desigualdades sociais que afectam particularmente as mulheres. Nos contos em que se fala de famílias ricas e pobres, de meninos que têm acesso a educação e outros que não, vejo uma ligação clara entre essas desigualdades económicas e as desigualdades de género. Nós, mulheres, especialmente as mais pobres, somos frequentemente as primeiras a sofrer as consequências dessas exclusões. Ficamos presas em ciclos de pobreza e violência, sem os recursos necessários para escapar ou para lutar pelos nossos direitos.

    Como activista, a crítica que Quive faz a essas desigualdades é um apelo à acção. O texto não só descreve a opressão, como também leva-me a questionar: o que podemos fazer para mudar esta realidade? Como podemos, através da arte, da literatura e do ativismo, lutar contra essas estruturas que perpetuam a violência e a exclusão?

    Como sobrevivente de violência, a banalização da morte, especialmente a morte de mulheres, como ocorre em “Mutiladas”, é talvez o aspecto mais angustiante para mim. O silêncio que segue esses actos de violência (um silêncio que reflecte a indiferença da sociedade e a falta de justiça) é um tema recorrente na luta contra a violência de género.

    No fundo, para mim, “Mutiladas” de Eduardo Quive é mais do que uma obra literária; é um manifesto contra a opressão e a violência que assolam a nossa sociedade. Quive usa a narrativa como um espelho, expondo as feridas abertas do mundo contemporâneo, especialmente no que diz respeito à violência de género e à desigualdade social. Sinto que a obra convida-me a reflectir e a agir, lembrando-me que a arte tem o poder de iluminar as sombras mais escuras da nossa existência.

    Por Dora Chipande

  • isto não é um poema

    quem compra um poema sobre a saudade?

    os olhos embaciados decifram, palavra a palavra, o amor que te escrevo. o coração não devia guardar, o amor que sobra como o eco no vazio. posso sentir-te o cheiro de longe, a fragância dos ventos a penetrar pelos pôros; tua silhueta persiste nos rostos desconhecidos, dos entristecidos; no sorriso à venda no mercado; no suor encharcado das vendedeiras e o tatear profético dos cegos; sonhos perdidos nas estradas incompletas da cidade. quero-te e digo-o ao silêncio; quem comprará um poema sobre o incerto lugar do desejo.

    quem pagará sobre a ausência.
    quero o beijo que guardaste na promessa. nos cheiros encardidos, surge arrogante o teu aroma, a grossura da tua voz, os olhos cristalinos como as luzes distantes da cidade. leve, vejo-te a acenar comos um pássaro a alegrar os céus. fico a imaginar-te as feições, a desejar-te os beijos tardios e frescos, como o orvalho sobre o verde da cidade.

    cantam as cigarras o teu nome, és presença breve inconstante. sinto os cheiros verdes do limão. como é doce esse azedo gosto que te sinto na língua. tudo o que faço é encontrar-te significados.

    não, isto não é um poema.

    ****

    e fico a pensar-te ausente no meio dos outros. batem palmas, acenam-me e, eu, aceno-te onde estás. então me sobes e me cresces, caminhas nas veias, não és sangue, és o suor que me cobre desde o queixo até o peito, nos cantos da boca dança a língua. enquanto todos me acenam, eu aceno-te, me cais na boca, bebo-te húmida, o suor se faz suco, como as laranjas doces que saboreio-lhes os gomos, um a um, para nunca esquecer que te amei; que te amei maior que o universo, porque o mundo é um lugar distante; que te amei mais do que a existência, porque existir é uma viagem longa e tediosa; tenho-te o amor breve, porque intensos são os sabores dos frutos da época; tenho-te o amor inconsciente, que será dos sentimentos quando lhes darmos a razão dos humanos ou o pudor das aparências? não, o meu amor não é comparência, é presença, intemporal; não me quero eterno, como não é eterno o amor que te dedico; quero-te antes em todos os tempos, esse lugar que não pode caber nas nossas mãos; porque não me quero deitar nunca, no teu corpo, sem a estranha vontade de pedir-te, vamos fazer amor, com o desespero de quem não guarda certezas nenhumas sobre o tempo e as vontades.

    ****

    ainda sou o mesmo – e não me envergonho – apesar da saudade que sinto do tempo que foi. ser alguma coisa era o princípio, sem deixar que o caminho fosse feito por memórias póstumas. ser o mesmo não é, de todo, o que esperava do futuro, mas o que fazer se em tudo vejo a mesma infância que fui. acreditava num mundo melhor e ainda acredito; isso sem contar que o mundo é grande e tenho o coração aos bocados, fragmentos de medos, incertezas, amores; nos caminhos por onde passo, levantam-se as areias leves e cheirosas onde se apagam os teus passos; agora ando em linhas férreas e no alcatrão; vejo a areia teimosa, nas bermas ou em abismos no meio da estrada; Elis me lembra: eu tenho mais de 20 anos e ainda estou ligado ao velho aparelho da casa do meu pai, onde virei as cassetes, que me deram a primeira metáfora: que a vida tem o lado A e o lado B; pressinto continuar na mesma infância, no exacto instante em que ainda não compreendo de que lado fica está o teu corpo que tanto procuro.

    Eduardo Quive,

    Aburi, Gana, 21.08.24

  • Quehá e Santos Mabunda – Quando a técnica revela a leveza

    Entre Santos Mabunda e João Paulo Quehá, há uma mistura de técnicas e simbolismos que nos remetem à paixão que os artistas têm pelo processo criativo na sua abordagem à vida, num estágio em que há uma transfiguração do belo e dos seus significados.

    Não podia haver um encontro mais rico em representações, como o destes dois artistas que constroem as suas obras em como se tratasse de uma crónica sobre os seres, seus dilemas, complexidades e encantamentos. Dois artistas que vão para além do mero cumprimento do dever criativo: o de deitar sobre a tela a técnica do saber construir obre a mestria dada pelos anos de aperfeiçoamento.

    Os dois artistas são profundamente comprometidos com o detalhe e a minúcia para transpor aos olhos de meros mortais o que se passa no seu âmago, no diálogo entre a sua consciência e as coisas à volta.

    Santos Mabunda (n. 1982), com o papel, a caneta, o lápis e às vezes o pincel, vai talhando com detalhes milimétricos, corpos, rostos, objectos, deixando a sua alma nesse percurso da mão. Esse trabalho é carregado de significado, desde o pessoal ao colectivo, remetendo-nos para a coreografia e o bailado. Ainda com as assemblagens dá-nos a sensação de multiplicação, como se a vida se repetisse nesses encontros e sobreposições.

    Esta mostra, dos mais recentes trabalhos, é como se viesse dar-nos todas as certezas sobre a afirmação de um artista completo, que no caminho que escolheu, que exige a aptidão de génios e a paciência de um monge, só há um destino: a consagração.

    João Paulo Quehá (n. 1975) segue pelo caminho da leveza da cor, como se procurasse deixar que os seres e os objectos tomem protagonismo, através do seu discurso e sentimentos. A preocupação de Quehá está em mostrar as pessoas e o seu subconsciente, seus desejos e o que paira a sua volta, seguindo uma linhagem carregada de elementos da natureza, para além do espaço habitacional, os animais e a sua relação com a vida das pessoas.

    É dessa leveza que nos referimos e que nos atrai para outros mundos, que exige de nós a total disponibilidade para enxergar a intenção e não a cor, nem os objectos. Um artista com espírito libertino, vocacionado a encontrar formas para as mais inusitadas e subjectivas sensações da alma, numa sociedade que se reinventa todos os dias, mas sem se ultrapassar os problemas.

    A pintura de Quehá é ritualística, assente nas estórias e histórias destes e de outros tempos, do tempo em que o Homem e a natureza se encontravam numa coabitação harmoniosa, antes dos conflitos e rompimentos por vezes até não pacíficas, entre a matéria e o espírito.

    Num olhar mais contemporâneo, seria de se questionar que seres habitam a cidade e o âmago das pessoas, engolidas pelo ego, pelas exigências do quotidiano, do trabalho e da ganância. Esse questionamento que se traduz como espantos, não são, de todo, um manto de pesar que se nos lança, é sobretudo, o apelo para a o abrandamento, para o fim do medo, para a consciência de que tudo à nossa volta são bocados da nossa acção e atitudes. É preciso ver com os olhos da alma para enxergar as pequenas coisas que fazem a vida ter algum sentido e prazer. Só um artista no alto da sua sensibilidade e humanidade como Quehá, nos pode direccionar para tal mensagem, sem impor a sua visão, escolhendo a paleta de cores que nos permite esse espaço de constatação.

    A diferença de idades e de gerações não os distancia na sua qualidade. As vivências sociais e os processos históricos são impossíveis de ignorar ao olhar para o resultado do seu trabalho, afinal, um artista é moldado nessa combinação de factores. A arte é sobre pessoas, sobre o ser humano, então é para elas que é feita. Esta exposição é o reflexo desses dois princípios, a das vivências sociais dos artistas e a de representação das pessoas e da sua condição humana (vida em comunidade, crenças, valores e paradoxos).

    Juntos, Santos Mabunda e João Paulo Quehá dialogam, abrem e constroem caminhos por onde passa a vida, o sentimento das pessoas, os rituais da cura e da terapia, a complexa dimensão humana da arte e os seus vaticínios.

    Eduardo Quive

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    Texto de apresentação da exposição de pintura e assemblagem de Quehá e Santos Mabunda, intitulada “Entre Vozes e Caminhos”, patente na Fundação Fernando Leite Couto de 05 a 29 de Junho de 2024.

  • Cartografia da miséria: “o desamparo das flores”

    Mutiladas é o título da última obra do escritor moçambicano Eduardo Quive, lançada em Maputo, em Maio do presente ano. A obra é composta por 12 contos, narrados em 101 páginas.

    A miséria do mundo

    Ler Mutiladas recordou-me o modo como a obra Angústia do escritor brasileiro Graciliano Ramos foi escrita: a temática, o tipo de narrador e o facto de abordar a época vivida pelo seu escritor. No seu livro, aquele autor conta os dramas do comportamento humano, através de um narrador-personagem que denuncia modos de agir de pessoas a viverem no seu limite de humanos. A critica a essa sua obra, tem, repetidamente, afirmado que o autor “narra a miséria de estar no mundo”.

    Em Mutiladas, a miséria humana é analisada por um dos narradores introspectivo de Quive. O outro narrador, observa-a e relata-a minuciosamente. As acções têm lugar em espaços-representações de Moçambique (Maputo, Chokwe, Gaza e Matola), com reminiscências em Lisboa, por, a partir de lá, o narrador observar e abordar Moçambique. O comportamento das pessoas está na base dos contos. A época fabulada é contemporânea a do seu autor empírico, a julgar pela menção aos my love, aos grupos de WhatsApp, aos smarphones, aos memes, aos emojis, à verificação de status em redes sociais e a feminicídio. A temática do livro é focada no dia-a-dia, num género literário pós-modernista, marcado pela forma como o real e o imaginário são construídos, bem como o imediatismo e o pano de fundo de um texto com uma linguagem rente à dos médias electrónicos nos quais predomina a cultura de massas.

    Devastação, desigualdades e dores do mundo

    Logo a partir da cor da capa, que é negra, aliada ao seu título, somos avisados que a matéria abordada pode ter um teor pesado, fúnebre, triste. E é. Coadjuvado a isso e à sugestão de pano de fundo negro, os títulos dos contos, também, nos remetem à desgraça, nomeadamente: “Decadência”, “Três balas”, “A punição”, “Andar às voltas” e “silêncio”. Destaco este último título, pelo facto do silêncio ser sugestivo, tanto de dor, quanto de introspecção, quanto de desejo ou não de ficar sem dizer nada. Essa sugestão de fatalidade, na obra, é, entretanto, camuflada por um tom narrativo leve, de paródia e, por vezes, com recurso ao exagero – enquanto figura de estilo; o que torna a leitura menos dramática, embora acutilante. O título do conto “O cheiro das flores” foi apenas uma estratégia para poupar o coração do leitor; remete, à primeira, à ilusão da beleza, mas não é disso que fala. Trata-se de flores para abafar “o odor insuportável dos falecidos da casa de Sara”, cf. pg 64. A matéria é muito comovente.

    O narrador-personagem, na maior parte das vezes, concentra as falas dos personagens na sua. Faz um monólogo interior, abordando o presente, com alguns recuos para o passado. Vive lembranças, percepções, e, pelo tom com que escreve, denuncia realidades sociais actuais, ignoradas, na vida real, por quem de direito e de dever. É um narrador psicologicamente ruidoso, embora afável nas suas palavras escritas.

    A narrativa coloca o leitor perante dramas do quotidiano moçambicano e das suas misérias, vistos na perspectiva dos seus narradores. Critica aspectos aparentemente banais, que nos habituamos a viver, enquanto habitantes de países pobres, como se de problemas não se tratasse. Revela que há necessidade de se prestar atenção ou de se resolver dramas sociais, em contextos factuais. Mutiladas questiona a cidadania dos moçambicanos. A sua actuação enquanto humanos, na defesa da vida.

    O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporênea.

    Trata-se de dramas descritos com mestria. Aliás a descrição, a observação e a escuta, mostram-se fortes por parte dos narradores deste livro. No primeiro conto, intitulado “Decadência”, há um homem que não o é por inteiro, é sobra de homem, de tão doente que vive. A sua tosse é descrita ao pormenor. A sua esposa é uma sobra de um passado glorioso, portanto, também uma mutilação do que ela vivera, enquanto esposa. Há um cego que pergunta se os outros não têm olhos para ver. Há nisto um exagero, mas é para demonstrar o quão a sociedade narrada se encontra mutilada. Há, no segundo conto, intitulado “Três balas”, um bairro que vive o drama de tiroteios e de ladrões que roubam produtos básicos e de primeira necessidade. Um autêntico faroeste. E outra vez com recurso ao exagero, o narrador fala em alguém que foi morto três vezes. Trata-se de gente e de lugares devastados.

    As desigualdades, no livro, são narradas de modo recorrente, por exemplo, no conto intitulado “Uma história de família”, fala-se numa família que tem whiskeys com imensos anos de velhice e que tem bastantes televisores que não utiliza (uma família abastada) e outra família pobre, na qual há membros que utilizam o mesmo telemóvel. Nesta última, vive-se sem amor, disputando bens e vivendo desentendimentos que levam à morte. As desigualdades são também referidas no conto “Passeios da vida”, num texto no qual há meninos com possibilidade de se deslocar a um museu e outros, não. Essa impossibilidade é comparada distância que se situa entre os objectos colocados nas prateleiras ou paredes de um museu, que não podem ser tocados, apenas “sentir-lhes os cheiros e […] observar, experimentar e vivenciá-los”, cf. p.89. A desigualdade de acesso, faz lembrar a mensagem que se pode ler no poema intitulado “Fábula”, de José Craveirinha, e cito-o, só para contextualizar o que digo, mas é preciso ler Mutiladas para se perceber a razão para a qual o poema é chamado.

    Menino gordo comprou um balão / e assoprou / assoprou / assoprou com força o balão amarelo. // Menino gordo assoprou / assoprou / assoprou / o balão inchou / inchou / e rebentou! // Meninos magros apanharam os restos / e fizeram balõezinhos.

    Craveirinha (1995a:14)

    Angústia e o questionamento do status quo

    A Angústia que mais comove ou desconcerta o leitor, nesta obra, é o feminicídio. “Destina” e “Cláudia”, mulheres cujos nomes são, também, títulos de contos, são vítimas das sagas desta época. Barbaramente assassinadas por violação sexual, crime que, tal como o narrador o aborda, é depois relatado, por alguns personagens, como se nada fosse. Temos visto, em contexto real, em Moçambique, depoimentos similares aos mencionados no livro, agressores a falarem sobre a violação sexual, quase que sem culpa, sem arrependimento; como se de uma brincadeira se tratasse. O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporênea.

    O tipo de crime narrado, recorda-me um outro, o dos raptos, fabulado por Miguel Luís, outro escritor moçambicano, na sua obra O Desamparo das flores. Ambas as transgressões suplantam a capacidade de contenção por parte dos agentes policiais em Moçambique, em contexto real. Vivemos, portanto, uma sociedade mutilada e a pedir socorro! A resposta aos gritos tem sido quase silenciosa, quase muda e sem expressão, ante o agravamento dos acontecimentos diários. Quive convida-nos a reflectir sobre o país que hoje vivemos, cheio de atrocidades sociais, desde as que parecem menores, até às de grande vulto que acontecem à luz do dia.

    O autor empírico de Mutiladas faz uma cartografia da dor e da miséria humana, com laivos de realismo. É inconformado com o “estado das coisas”. Nesta obra retoma o debate da sua anterior, intitulada Para onde foram os vivos, numa alusão ao abandono de corpos e de lugares, nos quais a violência, o silêncio ante a dor e o desespero tomam conta de todos. No conto já referido, o “Cheiro das flores”, do livro Mutiladas, o narrador mostra-se um bom ouvinte, a morte e a extirpação são o reflexo dos espaços nos quais se pode questionar onde é que andam os vivos, porque estes, vivem “mutilados no corpo e na alma” (cf. p. 63 de Mutiladas).

    Eduardo Quive é este escritor, poeta, jornalista, activista social e “agitador” cultural que acredita na arte como possibilidade de diálogo com a sociedade, através de uma linguagem, que sendo a habitual à do dia-a-dia, talvez ajude a repor a “ordem natural das coisas”. Esta obra demonstra o observador atento que é o seu autor empírico.

    A todos, desejo uma boa leitura. Esperando que o trabalho de Quive seja o grito que, juntando-se a outros que têm sido feitos, através de factos ou pela literatura, nos permitam viver uma sociedade livre da violência. Que a arte continue a iluminar a vida.

    • Sara Jona Laisse, docente na Universidade Católica de Moçambique, em Maputo. Membro do Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

    Maputo, Maio de 2024.

    Fotos do evento de lançamento captadas por Adelium Castelo

  • Pensar o teatro moçambicano

    A peça “O embondeiro que sonhava pássaros” exibida a 12 de Abril, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, teve em palco os astros do teatro nacional, a contracenar as nossas esperanças e certezas. Uma obra escrita e encenada por Evaristo Abreu e inspirada num conto de Mia Couto.

    Esta peça fez mais do que dar teatro ao público, reabriu um drama da cultura moçambicana, o debate sempre adiado e o descortinar de um futuro cheio de incertezas. Muito tem se falado destes tempos como a grande dúvida, Lipovetsky (1983) chegou mesmo a escrever o ensaio “A era do vazio”, onde parecer é ser, tudo é efémero, passa tão rápido que sequer chegou a acontecer. Mas já lá vamos, primeiro, exaltemos o espectáculo que, de certeza, mostrou-nos que a alma do teatro moçambicano está em chamas e que todas as gerações dão-nos garantias.

    Ver em palco Adelino Branquinho, Yolanda Fumo e Elliot Alex, a contracenar com Horácio Guiamba — que já não tem mais nada a provar —, Fernando Macamo e Lucrécia Noronha, estes dois que já performaram em alguns espectáculos e a estudante Shércia Carolina que se mostrou à altura do desafio, é um acontecimento marcante. São actores de gerações diferentes, o que deixa à vista que o teatro vive, sobrevive e pode ganhar outras vidas, como por exemplo, o facto de as salas de teatro estarem em extinção ou a servir para outros fins, a falta do necessário apoio institucional e mecenas, tudo isto, curiosamente, quando já há um curso superior de teatro e muitos actores à disposição.

    Em palco estava o passado que facilmente se confunde com o presente e, se não houver “vigilância” —  os acontecimentos diários mostram isso — pode se repetir esse passado tenebroso: escravatura, exploração e segregação. O resto é actual, as personalidades feitas de ira – de fúria irracional —, a coisificação do outro, o racismo, a bajulação e o cumprimento de ordens sem questionar. Em meio a tudo isso há um belo que se não vê: o encanto na natureza, nas coisas simples como os pássaros de várias espécies a voar livremente e a cantar para os humanos tomados pela insanidade instalada, o tempo que nos falta para contemplar de forma desinteressada o belo, mas também a classificação dos seres. Como pode uma criança branca brincar com uma negra? Como se não bastasse, falarem a mesma língua, apreciarem a mesma natureza e ainda mergulharem nas realidades de cada sociedade. A partir do diálogo dessas duas personagens, a preta e cuidadora de pássaros — Yolanda Fumo — e a criança branca — Shércia Carolina — encontram-se dois mundos: no mundo dos brancos representado por Adelino Branquinho, sempre zangado, com o chicote e a esbracejar “igual a uma coruja”; e, por outro lado, estão os pretos, representados por Yolanda Fumo, que compreende o desejo e a essência dos humanos, igual aos pássaros, nascidos para serem livres.

    É uma família dominante, branca, vive amargurada e na encruzilhada do racismo, sobretudo por se julgar uma classe superior, que tem o direito à terra, os recursos, incluindo as pessoas pretas que são objectos de uso, força bruta, sem sequer capacidade de raciocinar — Elliot Alex, Fernando Macamo e Lucrécia Noronha —, que vai se ver desestruturada por uma criança que decidiu ignorar as diferenças, olhou com os olhos inocentes de uma criança o mundo à sua volta.

    É possível ler-se os papéis de Elliot, Fernando e Lucrécia, nas entrelinhas das personagens da vida real, capazes de aplaudir e executar tarefas sem questionar, por vezes, com danos sobre gente da mesma classe social que a sua. A ideia de estar com quem manda e que faz pensar que temos poder e por isso os outros seres humanos não valem nada, está muito bem representada.

    O narrador Horácio Guiamba conseguiu ser o pivô da trama, sem deixar que ela se transformasse numa história contada, antes, um elemento para conectar os acontecimentos que ocorrem num ritmo frenético. Escusado é dizer que começa a ser moda o narrador Horácio Guiamba em palco (o acor cumpriu quase o mesmo papel em “Aqueles dias da rádio”, musical dirigido por Zé Pires). O acompanhamento musical de Cheny wa Gune e Xixel Langa foi certeira por torná-los presente no espectáculo, preencheu as cenas.

    Foi, em suma, um trabalho ao nível do senhor de teatro que é Evaristo Abreu. O que nos leva à questão seguinte.

    1. As condições em que a peça foi exibida foram as melhores possíveis, é verdade. Aliás, não é em vão que o CCFM é dos melhores espaços culturais da cidade. Porém a sala grande não foi capaz de dar as condições que o teatro precisa: a acústica necessária para a projecção das vozes, para que as palavras sejam ouvidas e compreendidas. Apesar de todo empenho e esforço até, muitas foram as palavras que coube ao espectador mais atento tirar as certezas se foi dito. As falas de Adelino Branquinho, por exemplo, e até do Elliot Alex, foram disso exemplo. O Horácio cuja presença era sobretudo em discurso, não sei se não lhe sobraram dores pelo esforço para se fazer ouvir. E, aliado a tudo isso, como havia a voz no microfone e os instrumentos musicais, o desnível foi evidente. Ao contrário do que se viu e se vê com os especáculos do género quando acontecem no auditório. Esse, sim, era o sítio indicado.

    2. O cenário podia ser melhor, a sensação de um imenso vazio é inquietante. Sim, é a nossa realidade, fazer muito com pouco, mas foi notável o sofrimento dos actores naquele palco, ora à procura de prencher espaços ou a cuidarem para não se deixar derrubar nas poucas coisas ali presentes, porém de uma precariedade patente. Por outro lado, foi como se aqueles elementos fossem estranhos aos actores. Não será pelo tempo de ensaio com o cenário do espectáculo?

    3. Quando vai parar a sina de ver só uma vez os bons espectáculos de teatro, penso eu com os meus botões enquanto oiço os murmúrios dos espectadores. Compreendo as várias razões por detrás das instituições e do cenário artístico nacional, mas é um desperdício dos níveis de quem deixa uma torneira aberta com a água a escorrer pelas areias. Não é assim só com este espectáculo, foi assim com “Aqueles dias de rádio” (2023), por exemplo, uma das melhores obras de arte em palco que se produziu nos tempos actuais. Como é possível um elenco daquele nível, os ensaios de meses, a publicidade feita — a acrescer a que continua a ser feita por via de comentários positivos dos que viram o espectáculo — resultar em apenas uma apresentação? Será que o custo de uma repetição é maior que o de tudo o que se investiu para conceber o trabalho? Esta questão não é dirigida ao CCFM, é sobretudo uma reflexão que todo o sector cultural deve fazer. Um pouco por todos os centros culturais os espectáculos são exibidos só uma vez, nunca percebo as razões, mas se elas se prenderem com o factor “oportunidade para todos”, “cabimento orçamental” ou “público”, então é uma questão talvez mais fácil de resolver. Mas se a razão for do tipo fazer muito eventos e acolher a todos ou for por importar os hábitos da música para o teatro, então a situação é grave. Enquanto a música pode ser gravada e ouvida através de várias plataformas, a qualquer momento, o teatro precisa de palco para ser visto, e o bom teatro, ainda mais.

    Quando a arte é exposta desta maneira, incorre-se ao risco de banalizar-se o talento, o trabalho árduo e comprometer o profissionalismo nas artes, como analisa Mário Vargas Llosa em A Civilização do Espetáculo (2012).

    Pensar em tudo isto, na esteira de “o embondeiro que sonhava pássaros”, que instiga a memória colectiva, revisita a história, reflecte a contemporaneidade dos comportamentos, das trivialidades e desperta-nos para uma sociedade em modo loop — as diferenças entre classes, o medo de sonhar, os limites às liberdades —, é no mínimo exercer o próprio papel do teatro, despertar-nos para o drama da vida, dos indivíduos, das sociedades, enfim, levar ao palco os nossos dilemas e contextos.

    Um trabalho como o visto no dia 12 de Abril de 2024, deveria ser possível revisitá-lo, pelo menos, mais três vezes. Ao contrário disso, quando tudo é dado assim, aos bocados, honestamente, é fácil cair na banalidade, no vazio enfim, no esquecimento.

    Fotografias de Gillelio Cossa

    Artigo originalmente publicado no jornal O País a 16.04.24