Categoria: Mínima Metáfora

  • O que dignifica?

    — Mãe, porque é que as pessoas dizem povo no poder?

    A mãe descansa as mãos na cintura fina que acompanha a forma do seu corpo sem grandes nuances, uma mulher de 30 anos, que deu-se ao luxo de ter duas filhas, e que agora não sabe mais o que fazer com elas; a mais velha, de seis anos, está na idade dos insuportáveis porquês da vida; a mais nova, aos três anos, dorme como se não se importasse com o mundo, indiferente aos 34 graus celsius que se multiplicam ao triplo na casa de madeira e zinco e os mosquitos celebram a liberdade de circulação e livre manifestação. Deu agora para que a mais velha, justamente à esta hora da noite, com o jantar dos mil e um sacrifícios posto à mesa, querer saber os porquês destes tempos: porque gritam as pessoas lá fora pelo poder popular — povo no poder, rectifica-se. 

    — Mamã — insiste a criança ameaçadora, enquanto bate-lhe na malha da anca — o que dignifica povo no poder? 

    Ela quis dizer significa. Deu-lhe, já há uns dias, trocar os significados às coisas; se bem que dignidade é também pelo que gritam as vozes imponentes que cada vez se aproximam na rua e um fumo negro ganha espaço pelos ares, em direcção às nuvens dispersas, que parecem mover-se com a força dos homens, mulheres e crianças, e mais os outros a quem a dignidade sempre lhes fez falta.

    — Mamã, mamã…

    — Diz…

    — Quem são as pessoas que estão a gritar lá fora?

    São os invisíveis e inaudíveis, assim chama-lhes a mãe. Mas evita dizê-lo na voz que a criança possa escutar e originar outros porquês. Por exemplo, continuar a falar dentro da sua cabeça onde se passam todos os problemas do mundo, perguntaria a criança a seguir, porque são eles invisíveis? A isso ela podia responder, porque sempre existiram, mas ninguém se deu conta, porque não estavam vestidos de forma «adequada», eles não cheiram aos aromas de Paris, nem à moda milanesa, antes à contrafcção chinesa ou nigeriana; eles sempre andaram aos gritos que só arrepiava eles mesmos, porque quem devia os escutar, cercou-se de vozes semelhantes, de igual poder, iguais cheiros, cantando todos em uníssono as canções de embalar os saciados. O que ficou para estes, são resquícios de uma solidão e angústia que só se sufocava nas promessas e nos sonhos vistos aos ecrãs dos smartphones, de segunda mão, tal como as roupas, vindas de contentores para o descarte. Os pensamentos da mãe podiam continuar a escalar, não fosse que a criança ia se tornando incômoda, impaciente, um tormento para quem também tem os seus porquês da vida. Está na hora de responder à criança que não se cala, já num corro como os inaudíveis.

    — Mãe, lá foram estão a cantar porquê?

    Manifestações pós-eleitorais em Maputo com a mensagem “Povo no Poder” | Fotografia: Adelium Castelo

    Esta pergunta será inevitável que responda; a mãe não se pode recolher nos seus silêncios habituais, fadados por ser mulher e mãe solteira; a mãe não se pode contentar mais com os silêncios irritantes do mundo; pesa-lhe a consciência não responder à estas simples perguntas de um ser que procura compreender o mundo sem fazer juízos de valor; sem escolher os lados; sem cobranças, sem reivindicações, a não ser os porquês.

    — Mãe… 

    — É uma manifestação, filha. Esses são os manifestantes.

    Quando a mãe disse manifestantes, soo-lhe o que diria a um adulto como ela sobre esses tais; são os invisíveis, os desconhecidos, os inaudíveis que, hoje, estranhamente se lhes escutam as vozes já roucas de gritar por toda e pela vida; são os que metem medo; os que fazem encarar a vida com a certeza de que nem tudo anda bem, apesar do futuro que sempre se anunciou próspero; são os que agora cobram a sua parte da riqueza que todos os dias faz manchete nos jornais; são os que lavam os carros dos aspirantes à classe média, no centro da cidade; a mãe tem a idade da constatação e do pânico, distópico, como diria nas palavras que vem praticando na língua que procura afiar, a ver se arruma um emprego de jeito, por isso poderia continuar a caracterizar, mas faria de tudo para não tratá-los por vândalos, como nos noticiários.

    Abre a janela e rouba o olhar à rua; a filha imita-lhe os gestos. 

    — Eles estão a dizer povo no poder, mãe.

    — Sim.

    — O que dignifica isso?

    — Significa, filha.

    — Isso mesmo, mãe.

    — O quê?

    — Povo no poder.

    E esta, agora, pior é que se não respondo ela não se cala. Devo agora traduzir o que diz a letra da música, ou o que sai da boca dos manifestantes; nem eu sei muito bem o que dizem. Postos os instantes de reflexão e discussão com os seus sentidos, disse-lhe que é letra de uma música que agora é usada por manifestantes que reclamam o poder. Um tal de Azagaia é que a cantou, dando uma outra vida às palavras de Samora Machel. A mãe não podia dizer esses nomes à criança que ia perguntar a seguir sobre esses homens. Não há tempo para biografias, nem verificação dos factos. Factos, essa palavra é outra que traz consigo problemas, rima com a verdade, é parece que ela agora só vem de uma só voz, o que a mãe também acha um perigo. O perigo de uma história única que tanto ela aprende agora a combater no final do seu curso superior; agora que ela aprendeu que a verdade não virá de uma só boca. A mãe também está confusa, é o que pelo menos acha, ela pelo menos não tem certeza de nada, talvez por isso é que lhe custa dar certas respostas.

    — Mãe, o que digni…

    — Significa, sig-ni-fi-ca. sig, sig…

    — O que são manifestantes?

    Manifestantes são pessoas nas ruas que não estando felizes com alguma situação decidem mostrar a sua insatisfação. Por outras palavras, os que não se conformam com a ordem estabelecida. Apesar do esforço, a mãe sempre se complica, afinal, não é todos os dias que se vê essa gente, nem se debruçam sobre esses termos. Manifestantes, protestatários, protestantes, vândalos, indignados, revoltantes, revoltosos, rima com faltosos, mas estes estão presentes e não são uma pedra no sapato, eles até lançam pedras contra balas e o caos semeiam. 

    — Por exemplo, aqueles ali — apontou para a rua — querem justiça eleitoral, verdade eleitoral e dizem que o candidato no qual votaram é que ganhou eleições.

    — Eleições é que aquilo de ir pintar o dedo que mãe disse está ir escolher o presidente?

    — É isso mesmo — ela sabe que não é bem assim, mas quer sair de uma vez da encruzilhada. 

    Afinal, agora já não sabe bem se votou ou não, se escolheu um presidente ou não. Certa mesmo, está que pintou o dedo, recebeu três boletins de votos em que marcou-lhes com um xix num símbolo e num rosto e que esse acto significava quatro escolhas, a escolha de um presidente da República, deputados da Assembleia da República e da Assembleia provincial e daí um governador da província. Mas hoje já não está muito certa disso. É que já passou tanto tempo que se esqueceu até das opções que tomou.

    A mãe dá uma pausa quando apercebe-se que a filha tem a cara desfeita em rugas, a boca virada para um lado em estranheza do que a mãe diz. Mas o que está para aí a dizer a mãe? Cogita a criança; outros vários porquês devem estar a reproduzir-se na sua mente e logo se vão deitar para fora, para a consciência da mãe.

    — Mãe, porque não estamos lá fora nós também?

    — Porque estaríamos lá fora?

    — A mãe não quer justiça?

    Esta não vai parar de fazer perguntas, diz a mãe, já com sinais visíveis de intriga e cansaço. A pergunta faz o inevitável eco por dentro. Mas convém ser honesta, perante a insistência.

    — Não sei, filha. Eu não sei.

    — Mas a mãe diz que sempre sabe.

    — É para dizer-te o quê?

    — A verdade?

    Verdade. O que virá a ser isso? Tenho 30 anos, boa parte dos quais como aluna e estudante, já sonhei com uma carreira, um projecto, tenho duas filhas e tenho-lhes na mão e no peito como um sonho a se colocar em prática, com os respectivos orçamentos em constante ajustamento; que lhes posso sonhar? A cabeça da mãe gira. A mesa está posta. Três fatias de pão, três rodelas de palone comprado na rua nestes dias — não terá sido daquele camião que vinha da África do Sul, atacado no meio da rua? —, três chávenas, um pacote de five rose, três colherinhas de açúcar, e várias penumbras. Quanto tempo se vai aguentar dentro de casa, com estas crianças a fazerem perguntas. 

    — Mãe, nós já não vamos à escola porquê?

    — Porque será? —  devolve-lhe a pergunta a sorrir.

    — A professora diz que é por causa da manifestação.

    — Sim.

    — Não vamos voltar mais à escola?

    — Não sei.

    — Assim é bom, mãe?

    A mãe afasta a chávena de chá em direcção à criança. E o pão com o palone frito. A criança recebe e dá uma mordida gulosa. A mãe hoje tem orgulho do jantar que parece um alento no meio da incerteza. Não se lembra de quando comeu um palone. São as realizações deste tempo que vem com o som dos apitos e vuvuzelas. O coração da mãe bate descontrolado, como se um sino tivesse tocado a recordar-lhe as perguntas que ficou sem responder. Lá fora parece que os inaudíveis ganham mais voz e parecem terem se decidido parar à sua porta. Os invisíveis estão cada vez em maior número e parecem exigir as mesmas respostas que a sua filha. Até quando isto vai durar?, pergunta-se a mãe.

    — Mãe, o que eles estão a cantar agora lá fora?

    Com que palavras poderá ela traduzir a canção dos invisíveis? Como dizer a filha tudo o que gritam aqueles homens e mulheres que enfim acharam o seu lugar no mundo e a sua voz já se escuta; abrem finalmente os noticiários, dedicam-lhes horas e horas de emissão na televisão, páginas inteiras de jornais, estudiosos de todo o tipo procuram compreender o refrão dos seus cânticos; como dizer para a filha tudo, palavra à palavra, o que cantam, na língua do povo, com todas as suas metáforas e inúmeros significados? E depois de dizer cada palavra, como responder os porquês que virão à seguir? Como se a criança imaginasse o tormento da mãe, volta aonde tudo começou.

    — Eles dizem povo no poder, de novo.

    — Sim filha, isso quer dizer que nós votamos, nós decidimos o nosso destino…

    — E o que dignifica destino?

    Manifestantes a tocar panelas e outros utencílios num prédio em Maputo | Fotografia: Adelium Castelo

    Decidiu não trocar-lhe as voltas com a palavra “dignifica”. E se realmente fizer sentido, o que dignifica o destino? O que dignifica o povo no poder? Nunca essas perguntas chegaram a fazer sentido como agora fazem, no emaranhado de sensações em que se encontra. No final, pensa como se respondesse à filha, dignidade, é o que cantam os invisíveis. Concluindo seu pensamento, levantou-se, pegou na panela e bateu-lhe com uma colher de pão. A filha bateu na mesa com as próprias mãos e fez tremer as chávenas, as colherinhas, a tigelinha de açúcar, o pão, o palone; e como se a mesa também reivindicasse a dignidade, foi-se abaixo, deitando tudo que havia sobre isso no chão de cimento queimado; a mãe bateu na panela com mais força; o colher de pau partiu-se em protesto; a filha dançou no frenesim, lá fora os homens e mulheres, expandiram os gritos em como se tratassem de uma plateia em êxtase com aquele espectáculo familiar.  

    Maputo, dezembro de 2024

  • A Nação existe

    Vamos obrigar-vos a perceber o ridículo que foi vocês todos a agitarem a bandeira e a cantarem o hino nacional. Vamos provar-vos que vocês não são mais do que corpos sujos e fétidos. Que valem tanto como carcaças de animais esfomeados.

    Han Kang, Atos Humanos

    Manifestantes, em Maputo, em cima de um “chapa” Anjo Voador – Preça dos Combatentes. Fotografia de Ildefonso Colaço

    A estação de Infulene está à vista. Luís Cabral também. Um coro de apitos vem acompanhado de vozes roucas, mas sem cessar a sua tarefa: desçam, desçam, xikani, ordenam. Três homens, dois deles adolescentes. Corpos a suar aos cântaros; de chinelos nos pés que crescem a cada passo. O comboio era uma jiboia morta. 

    — O comboio é nosso,  saiam, afinal porque não ouvem? 

    Infulene

    Desci os altos degraus até às pedras que me receberam com hostilidade; dentro das sapatilhas castanhas, velhas, mas resistentes e complacentes com a economia necessária dos dias, os pedregulhos anunciavam a sua “insistente presença”, pelos próximos 30 km que alguns de nós irá percorrer de volta para casa.  Alguns passos dados de volta à procedência, olhei para trás e me convenci, o monstro que anda nas linhas férreas, estava tomado. Assim o corpo iniciava uma experiência do poder popular dos invisíveis que decidiram ganhar uma voz.

    Trevo

    Uma multidão ocupava os trilhos em substituição do fluxo de comboios habitual à hora matinal das 7. A “cobra metálica” — assim o apelidaram os da estação de Nkobe  — cuspiu-nos quando sucumbiu nas malhas dos manifestantes. Nas bermas onde mora boa parte desses invisíveis, porquem os dias se definem pelo ruído das carruagens em velocidade, outra multidão assistia à procissão dos descrentes das ordens de paralisação. 

     — É também por vocês, pela melhoria dos vossos salários, das vossas condições de trabalho, pela dignidade, que fazemos essa luta.

    Machava-Sede

    E as pedras cresciam no meio do caminho. Isso não é uma metáfora drummoniana. Éramos muitos a caminhar como almas doentes em processo de purificação; tinha ser feito o caminho, quanto mais longo e dolorido que se revelou, melhor, assim se aprende a amar de novo o país, numa cidadania que já não é do futuro; a verdade não podia estar mais escancarada; a Nação existe e exala o cheiro dos invisíveis; a Nação existe e ressurge em cada grito de ordem dos inaudíveis do quotidiano nada equitativo — olá Craveirinha.

    Esta é a marcha que a verdade nos impõe; a verdade que dói, e sinto-a em cada passo, em cada gota de suor que cai entre as pedras que vou pensando enquanto conto as estações.  

    Liberdade

    Um amontoado de areia. Uma camiseta vermelha balança em pedaços de paus cruzados em sinal de cruz. Uma vênia se nos é cobrada. Gotas de águas se nos deitam nas palmas das mãos até que atravessam os dedos para irrigar as folhas secas sobre a areia, numa imagem nos lembra as sepulturas abandonadas do cemitério de Lhanguene, lá dos lados de Xinhambanine, onde os vivos se recusam a render-se aos falecidos.

    Daniel

    O cheiro forte das mangas podres lembra o ciclos da vida; os pés já não obedecem o desejo autoritário de chegar à casa, onde a lamúria de todas as desgraças espera; o corpo encontrou as próprias razões de ser; sinto a crescer a pátria nas veias e no coração que se comove, quando no meio da caminhada que vai longa, um homem interrompe o silêncio dos peregrinos.

    — Eles também exageram. Anos e anos de exagero. Foi demais.

    Pela primeira vez, os meus pés duvidaram do percurso. O que nos espera o destino?

     — Toma uma manga, mano, isto tudo é nisso  — saboreei com apetite o fruto da época.

    Matola-Gare

    Homens, mulheres e crianças, com garrafas de refrigerantes nas mãos, uma ideia de ostentação que só não alcança o luxo que desfila à solo, dos mercedes-benz’s, kias, e outros bichos de quatro rodas, antes imagináveis em sagas como Transformers; quando olhei nos rostos de cada um dos showfistas, iam se parecendo todos aos outros que tomaram o comboio em Infulene, mesma alegria, mesmo sentido de pertença; vieram-me os dezembros da infância, que se resumiam em duas datas, 25 e 31, na alegria mais sincera que já vivi por um fim de ano, cuja fantasia residia numa fatia de bolo, arroz de cebola, salada de tomate, frango assado e uma fanta, apenas possíveis nessas duas datas do ano, como recompensa pelos dias de água, trigo, sal, açúcar e algumas verduras; tinha a imagem nítida do quintal da casa do meu pai, quando um homem disse.

    — Tudo isto para depois… nada!

    Quando ele disse “tudo”, voltei aonde tudo começou. E dei-me conta que não foi quando o comboio parou.

    Eduardo Mondlane

    Sexta-feira, Avenida Eduardo Mondlane. Meio-dia. Uma a uma, as pessoas foram se dando as mãos, a eles se juntou um grupo trajado de batas brancas, fardas verdes e azuis; um cordão formou-se a atravessar o alcatrão de margem à margem, e as vozes se elevaram em coro, a entoar o hino nacional; a pátria crescia-lhes por dentro até nas terminações das palavras audíveis em todos os cantos. 

    Num instante que não se viu a chegar, surgiram homens armados de farda castanha que fizeram cantar o coro das armas. As mãos da multidão se desfizeram, como um tecido que se rasga; o coro celestial substituiu-se com gritos e grunhidos de uma dor que só podia vir dos confins do inferno.

    Mesmo assim, podes te orgulhar, poeta, vieste de qualquer parte, de uma nação que ainda não existia. Agora ela emerge e cresce como um “canto de amor natural”.

    Eduardo Quive

    Matola, 12. 12. 24

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    Texto inspirado nos acontecimentos vivenciados a 9 de Dezembro de 2024 e escrito para a fanzine do movimento L.U.T.O.

  • A estranha voz que fala no barulho do mundo

    “Voz, já te oiço”, revela Suzy Bila, na exposição que inaugurou no sábado, 11 de Maio, na Galeria Arte de Gema em Maputo. Uma afirmação corajosa que só pode vir de quem caminhou sobre pedras até encontrar esse lugar que de tão remoto, várias são às vezes que não se chega ou tarda-se a chegar. Mas onde será e o que caracteriza esse lugar? Que voz é essa que finalmente se fez ouvir?

    Desde logo, uma confissão, uma constatação perante a “Voz” que Suzy Bila faz para chamar a nossa atenção. Uma proposta para a pausa no caos, possível apenas se aos olhos emprestarmos o discernimento. Mas também, essa forma vocativa, é a chegada a um destino, como quem enxerga a luz no fundo do túnel, após caminhadas longas na penumbra.

    Para ouvir é preciso o silêncio. Há muito por se dizer e escrever sobre esse silêncio necessário para entrar nas profundezas da alma, na imersão pelo território remoto do corpo que, de natureza, está ligado ao exterior. Talvez, por isso, a vida nos passa despercebida, efémera. Somos uma espécie que se move pelo ruído. Pressionados a ignorar os sinais do interior, quando nos chama para o invisível, o abstrato. Num contexto social de disputa pelos espaços e protagonismo, falamos ao mesmo tempo, em línguas diferentes, em palavras divergentes, não há espaço para a escuta; tentados a se sobrepor ao outro ainda gritamos, nos exaltamos e, mesmo assim, custa escutar essa voz serena, prudente, brisa, calmaria e constatação, o lugar de chegada, por isso, próprio para a contemplação, compreensão.

    Exposição patente na Galeria Arte d´´´Gema, com a curadoria de Élia Gemusse, até dia 30 de Junho.

    Exemplo desse lugar encontra-se nas telas que expressam, de novo a inocência, caminhos feitos sem pretensões, nem ideias preconcebidas, a negação ou os sortilégios da sorte ou azar.

    Quando se observa o conjunto de obras em exposição, não se pode ignorar o trabalho que Suzy Bila desenvolve na área da arte-educação, que se foca nas crianças e jovens “problemáticos”, regenerando as suas vindas, ajudando-os a encontrar um caminho através de um espaço que é por excelência, de liberdade, questionamento e humanização, que é a arte. Esses jovens tidos na sociedade como indisciplinados, rebeldes, sem interesse nem “cabeça” para os estudos, encontram na arte as suas “vozes” e os seus “eus” que os sistemas formais sequer se deram a paciência de achar. Esse tem sido seu foco, quer na formação académica – doutoranda em Educação Artística – ou profissionalmente – trabalha como Educadora de Infância numa Equipa de Intervenção e Capacitação Familiar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

    Por tudo isso, a artista dedica tempo e suor a compreender o outro. E esse trabalho em muito implica a ouvir as histórias de vida e compreender a complexidade de quem as conta.

    Espectadora contemplando a obra “Criança que mora em mim” | Técnica: acrílico e tinta da china sobre papel.

    A forma como concebe as suas obras já denuncia uma alma comprometida em compreender a essência da condição humana e toda a sua complexidade. Esse processo é também sobre si. Quando a artista lança a tinta sobre tela já aí se estabeleceu um processo endógeno de busca, encontros e reencontros. A forma como compõe as telas vai carregar esse desejo de encontrar outros caminhos, finalmente, o outro, respeitando o processo e o tempo. Por isso, deitar os olhos sobre a pintura de Suzy Bila é um processo de autorreconhecimento. Porque a artista não se distancia da obra, pelo contrário.

    Suzy é introspectiva. A sua vocação sempre foi para o interior, para o âmago, para os lugares obscuros e inacessíveis para os que temem a realidade do corpo. Que é líquido, frágil e matéria-prima de um plano maior do que está ao alcance dos olhos desprovidos de coragem. Olhar para dentro requer coragem, mas antes de tudo, requer disponibilidade e consciência para os ciclos. Corremos em direcção ao nada, ao vazio. Não se trata de um abismo iminente, não; no lugar de uma infinita escuridão, há o vazio, o silêncio, a recolha. Estacionados nesse lugar de dentro onde somos “nus”, um outro portal se abre. É aí onde habita a voz. A voz que já podemos ouvir com todos os seus ecos, com a simplicidade que não se lhe compara a nada, com a verdade imaterial e inconclusa. Sem amarras, senão com nós mesmos.

    Nos tempos que correm a escuta é um elemento precioso e raro. O tempo de escuta, esse que ainda não está à venda no bazar da ambição e da ganância, esse que não exige nada para além da nossa total e completa disponibilidade, é uma raridade que anda à nossa volta, vai dando sinais ao corpo e à mente de quando em vez, mas quem se dará ao tempo?

    Suzy Bila ao lado do seu mestre Noel Langa, na inauguração da exposição

    Num mundo em frenesim constante, pressionados a realizações com a agilidade dos mágicos, haverá espaço para a mera contemplação? Haverá sequer, espaço para estar e ser com os outros? Não será a falta de tempo em si, uma perca de tempo para o que realmente importa, o que não se exalta e nem pode disputar o protagonismo com o material da nossa loucura colectiva? Não é o outro esse espelho indiscreto, do que somos, mas sequer nos reconhecemos, na cegueira do ego? Esses são alguns dos questionamentos dessa afirmação: “Voz, já te oiço”.

    Texto e fotos: Eduardo Quive

    Maputo, 14/05/2024

  • Zena, ternura num mundo em rebuliço

    Zena,

    Como falar-te dos sinos, do eco, intenso, mas suave, presente, mas distante, o vibrar e o estrondo, o susto e o suspiro, o alívio a subir lento a escala do sossego, porque é o despertar de um sono tranquilo, ténue e, por isso, assustador, nos dias agitados da sociedade das almas insatisfeitas. 

    O estremecer das veias transportando o som até as artérias do coração que só aí se decifram as palavras que nos cantadas na língua da poesia. Tu, Zena, cantas na língua da música, na língua do amor intangível e utópico. Teu ritmo, na língua que cantas, é o corpo a mergulhar entre ondas de um vasto oceano, aparente tranquilidade, que nos é capaz de dizer as marés que se aproximam e as tempestades que nos esperam. 

    Na língua e no ritmo que cantas dançam as folhas das palmeiras, tocando-se umas às outras, simulando refrões. Na língua que cantas sopram sobre as casuarinas os ventos leves do Índico. Deve compreender-te todo Oriente até ao Sul onde te fizeste chegar, para o nosso delírio incompreendido. 

    Feliz és, por seres amada e dançada em toda essa incompreensão. E, por isso, a língua na tua boca é a música, o corpo de todos os nomes e linguagens. 

    Cantas-nos as andorinhas, o assobio alto que se dissipa nos céus azuis enquanto fazem o voo em que o destino é onde a alma pode sossegar, no barulho sagrado da ausência. Eu choro contigo toda a saudade que cantas, porque é ainda crua a minha fé, ao ouvir-te recitar os versos como a chamada para a oração do azan ao romper da aurora. 

    Todo o amor na tua voz é retrato e imaginação. Essa miséria sem que a vida seja menos que desgraça. Lamento contigo todas as angústias e sinto mais do que podem dizer-me as palavras da minha língua, as nuances e os batuques que te acompanham nesse teu canto quente e trêmulo. Vem do interior da terra todo o amálgama que te sai nas cordas vocais, és os sinos sobre os ouvidos incautos do mundo.

    Lembro-te sentada, em palco, caindo-te as lágrimas de vidas passadas e futuras, para cantar-nos as tuas dores, a alegria melancólica e incompreendida, alegria líquida e volátil, que te escorria-te o rosto todo de suor, até às capulanas garidas, o corpo encurvado e os pés envelhecidos, descalços, para não deixar de sentir a terra toda a venerar-te. 

    Lembro-me dos teus dias como um rio de tormentos que procuraste navegar na possível utopia. A amar como tu amavas, a viajar assim, nas estradas das nossas almas como tu viajas, não te podíamos nem em mínimas medidas, dar-te na recíproca retribuição a magia que precisavas para dias melhores. Na verdade somos angustiados a tentar não nos morrermos de dor que desconhecemos o remédio. 

    Tua música, teu gingar, teu estremecer nas terminações, teu grito ligeiro e potente, a letra a sair-te lenta, os silêncios podem ouvir e dançar.  Eras o tédio necessário para as nossas marés agitadas, vidas presentes sem emoções, ilusões e loucuras. A loucura, Zena, o que é deste mundo sem ela? Os dias tranquilos e de preguiça são as razões pelas quais o povo caminha errante todos os dias. E tu davas-nos sem por isso darmos o devido valor. Estes nossos ouvidos, Zena, só sabem sorver o instante previsível das montras de luxo material onde se deposita a soberba. Ter-te, porém foi um luxo acima do que podíamos usufruir. A honestidade artística tem o seu preço, tu pagaste. 

    Ainda hoje, Zena, te encontro sem coincidências. Sem que te procure. Porque és presença e permanência. Ouvir-te, nessa língua do corpo, do vento, das nuvens e do orvalho, chama-me para a vida. Queimo-me sobre o fogo da tua erupção, piso a terra descalço, enquanto corre-me apressada a vida.

    Por tudo isso, Zena Bacar, cantam os sinos ou os altifalantes do nascer do sol, com as orações em jeito de música. Teu canto é sagrado, até que se compreenda porque existe o silêncio e a ternura num mundo em rebuliço.

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    Este é o blogue onde publico anotações que me vão na alma e no pensamento, seja em jeito de ficção ou a realidade que nos foge na agitação dos dias. Não se esqueça de me seguir em:

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  • Zaida, o princípio

    Zaida, não quero escrever-te no teu aniversário, nem do nascimento nem da morte. Não podia cair na razão do poeta que vaticinou: Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:/ Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;/ Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada. Não, não tem razão o Álvaro Campos. Escrevo-te numa segunda-feira, para que sejas o princípio de tudo, da liberdade, da ousadia, da performance, da desregra, do eco, da extravagância única e exclusiva tua. 

    Anos se passaram desde que te foste para te deitares ao sol e celebrar em Pasárgada, para onde vai a estrita e iluminada legião de estrelas. 



    Tu Zaida, que viveste esses tempos em que podias fazer a sociedade espelhar-se na arte, sem querer impor preconceitos, modismos e tendências. Eras a tua própria voz, sem gritar nem a sossurar. Eras a voz na dose que te convinha. Eras, à semelhança dos sindicalistas e nacionalistas de toda a parte, uma activista de uma causa sem códigos de conduta, ainda difícil de compreender nesses tempos. Por outro lado a Winnie Mandela, a Makeba, a Nina Simone, e cá estavas tu, sem representações, mas exercendo a tua presença. 

    Tu, Zaida, antes que houvessem as “marandzas”, já alertavas para a vergonha alheia e gratuita, das relações por interesses que se sobrepõem ao genuíno amor. O que dirias, hoje, Zaida?

    A violência doméstica baseada nos valores tradicionais, antes a do género, já havias denunciado, alertando para o negócio do lobolo.

  • Para ti, Isabel, esta carta que queria cantar-te

    Isabel, deixares assim que na tua voz nasça a flor enquanto os instrumentos fazem-nos viver a alegria do mistério é de uma maldade que só tu podes fazer com elegância. Podem ouvir-te pessoas várias, nações dispersas, tirando cada um para hidratar o corpo e alimentar a alma, com o néctar do teu ritmo. 

    Foto de Ouri Pota

    Isabel, 

    escrevo-te estas palavras que não saberia dizê-las, na minha indesejada timidez, olhando-te nos olhos. Ainda bem que me posso revelar pela escrita.

    Hoje, Isabel, tu vieste-me, sentado na segunda carruagem do comboio das 17h45. Ia de Maputo para os confins da terra, lá onde as pessoas andam apressadas, descem do alto degrau do comboio como se atiram dos saltos para voltar a usar as botas ou chinelos que levam ao sair de casa pela virgem manhã, a caminho do trabalho. Sabes onde é, é outro lado da Matola onde tu pertences. Lá onde quando o nome do bairro, causo susto e espanto, ao mesmo tempo pesar e compaixão, dos que mesmo sem saber onde, compreendem a distância e sobretudo, o estar além.

    Hoje, Isabel, voltaste a adentrar para lugares irreconhecíveis do meu corpo, e a fazer-me festinhas neste meu coração que tu conheces como pouquíssimos, os seus dilemas para palpitar com a força da vida. Tu, Isabel, apenas tu e mais somente alguns, sabes a sinuosa rotação das válvulas deste meu coração, pois estiveste comigo nesses tempos outros, logo depois que a Francine se ia… 

    Escutei-te, novamente hoje, enquanto viajava entre carris e o baloiço da locomotiva. Eras tu, por completo, e as tuas Metamorfoses. Ouvi-te a cantar, a contar segredos, para bem dizer, a sussurrar nos meus ouvidos, a fazer-me sentir a ternura que me acompanhou nos dias que tu conheces, no lar dos enfermos. Nesse tempo, para lá de homens e mulheres que conhecem a anatomia dos corpos a esvair-se de dores, de almas em desesperos e angústias, de corações dilacerados e dilatados como o meu, tu eras o meu alento. Tu e as outras vozes que ousarei dizer-lhes também a verdade, neste meu sentimentalismo exacerbado e ridículo, como estas palavras que te escrevo diante de vários olhares.

    Comecemos pela Oração. Talvez porque nunca rezei na vida a não ser diante da vida e da morte, os sinos tocaram quando ouvi-te a cantar naquela língua que não sei dizer. Os batuques especiais, habituados a ouvi-los no nosso tufo insular, a mística das vozes, o rítmo que pareciam-me a tua mão a bater-me suavemente nas costas, a tua voz a chamar-me para ver o pôr do sol na Ilha de Moçambique, e a fazer-me querer ver o mundo pela “Janela do Oriente”, como ousou escrever o poeta maldito, Eduardo White, quem ainda dedico memórias. Ouvir-te é provar as especiarias únicas e os cheiros a mar, naquelas casas gigantes, onde as janelas são vias abertas para contemplar todo o mundo.

    Fico a pensar, Isabel, como nos dias em que enfermo e incrédulo escutei-te, como és capaz de mandar-me aliviar o coração para que esse ser que tu evocas, entre meu corpo e dê-me sossego, quando é a tua voz a fazer-me navegar lento pelos caminhos da esperança.  

    Isabel, escuto-te  a falar da paz, do olhar que te faz feliz, do sorriso, como se desenhasses um retrato com a tua voz, na lírica do amor, como quem fala de um acto completo, puro e simples. É a tua alma a deixar que a voz percorra os caminhos sempre subjectivos do silêncio, essa insustentável leveza do ser, como tão belo escreveu Milan Kundera. Fico a pensar em cada palavra tua, como se procurasse razões para ouvir-te na próxima música. E como te oiço aleatoriamente, sem pré requisitos, és como o pássaro a assobiar para a certeza do Amanhecer, como também cantaste lá naquele primeiro álbum. 

    Então procuro seguir a leve e suave viagem da playlist. E levas-me para mais um lugar que me é difícil de revisitar, poupando palavras para uma mística do afecto em For My Father. Isabel, deixares assim que na tua voz nasça a flor enquanto os instrumentos fazem-nos viver a alegria do mistério é de uma maldade que só tu podes fazer com elegância.

    Mesmo quando não falas de amor e dos afectos do teu íntimo, consegues surpreender na forma como dizes certas coisas. Como quando afirmas I’m not a colour, i’m not a religion, im just you like you are e ainda dizes let ‘s stop the hate, como se soubesses o valor das palavras determinadas, é tudo à tua medida, como disse-te noutras linhas. Ou ainda quando unes a tua voz a outras, para o “We Shall Sing” e ainda afirmam nesse som, we shall fight for the freedom, sinceramente, foquei a lembrar, assim, inusitadamente, o som que me ficou do que vi do “Hotel Ruanda”, que só mais tarde soube que é um som feito por Andrea Guerra. Sobre a liberdade de cantar já nos havias “cantado” em Unanga lá do teu primeiro álbum, sobre a universalidade da música, sobre a alegria que também sente-se quando te agarras ao microfone para deixar voar as borboletas dentro do teu corpo. Fazes isso, Isabel, como se nada fosse, transformas o difícil e o complexo numa rotina. 

    Gosto, Isabel, da liberdade de te cantares usando só a tua voz, como ví-te a fazer naquele espectáculo nos tempos do fica em casa. Se poeta como White eu fosse, dedicava-te este verso, o peso da vida gostaria de senti-lo à tua medida. Assim, ia-me leve a alma deambular no universo das jornadas mundanas.     

    E como se a música fosse uma missão que não se pode viver a sós, ainda consegues levar-me para coros que me fazem viver dias e tempos que não me vem à memória. Fazes-me viver lugares que não conheci, fazes-me ter a fé que sempre me foi escassa, justamente eu que era ateu e vi milagres, como vaticinou Caetano das terras do Quincas Berro d’Água. Eu sei que há muito de ritos tradicionais que te movem. Eu sei que bebes da fonte dos teus, há toda uma espiritualidade no que cantas, há uma tradição de coros das nossas canções dos rituais que te movem, coisas que não se podem dizer, que dão-nos vontade de ser grandes, de levitar e caminhar de passos firmes, batendo o chão como no nosso makwayela. És, Isabel, como só um poeta como Craveirinha podia inventar, uma moçambicaníssima voz aberta ao mundo. Podem ouvir-te pessoas várias, nações dispersas, tirando cada um para hidratar o corpo e alimentar a alma, com o néctar do teu ritmo. 

    Tu sabes, Isabel, como pouquíssimos, que foi no teu ritmo que dei os primeiros passos quando precisava me levantar no leito do da restauração.

    E voltas a visitar-me hoje, assim, sem que te esperasse e me afazeres reviver a minha intimidade mais submersa, aquela que não queria revelar a ninguém. 

    E fazes-me querer dizer-te aos outros, querer questionar a tua ausência entre outros ouvidos, como se toda a beleza da tua música, sem mais adjectivos possíveis, fosse a música absoluta, no meio de tanto caos e ruído. Este teu Metamorfoses é capaz de vaguear no nosso interior, de arrumar a desordem das almas que correm apressadas nos caminhos da vida, vivendo apenas mais um dia depois do dia anterior que será como o dia seguinte. 

    Fico apensar por tua causa, Isabel, na beleza das coisas insignificantes, as nuvens cinzentas a se desenharem no céu onde o sol persiste em sobressar, na saudade discreta dos nossos amores, no beijo suave no rosto ou no abraço desinteressado das pessoas que parecem comuns no nosso dia-a-dia, mas que de repente, ganham a dimensão de deuses quando se vão ou quando estão distantes de nós. 

    Ai se pudessem as gentes apressadas pararem para ouvir-te no meio de tanto barulho. Se pudessem sentir a voz como a mão passar nos ombros, como eu senti, se pudessem dançar ao teu ritmo, tudo era mais leve e possível.

    Agora que me vou terminar, digo-te para que não seja memória, deves ser da tua geração, Isabel, das vozes mais afinadas, das pouquíssimas, incapaz de dizer uma palavra que não carregue sentimento. Há um certo encanto, em andar devagar e nos detalhes que se perdem na retina das coisas dolorosas da vida.

    Agora, Isabel Novella, despeço-me. Ou como ainda diria aquele que venho chamando em meu auxílio nesta carta que te escrevo, até amanhã, coração.

  • “O ardina de sapatos gastos”, de Alerto Bia: o prazer da leitura

    Raras são as vezes que sou desafiado a apresentar um livro. Muitas são as vezes que me chegam textos inéditos para dar a opinião crítica e indicar prováveis caminhos aos autores que estão na berma da estrada. Devo confessar que essas tarefas, tanto a de apreciador crítico sobretudo a de apresentador de livro são me sempre estranhas, por pensar e saber que tenho também feito o mesmo em relação aos meus textos de ficção, entregando-os a outros olhos, que os considero mais apurados. Mas por considerar necessária essa troca de textos para uma apreciação por parte do outro, aceito o desafio com o entusiasmo e certo cuidado por saber que muitas vezes trata-se de uma degustação de produtos ainda em cozedura.

    Desta vez, foi o Alerto Bia, um escritor que vem se apresentando na literatura moçambicana que desafia-me a vier a público apresentar o seu primeiro livro em prosa. E porque com a tarefa me vou expor a um público principalmente jovem, aproveito para levantar a voz em torno de uma reflexão que venho fazendo.

    Tenho constatado que a literatura moçambicana dos tempos actuais, apesar de ser conotada como nova, muitas vezes se repete, sobretudo na abordagem estética e temática. Se o estético ainda nos abre espaço para experimentações, os temas são o lado mais arriscado na escrita, por desafiarem o escritor a superar a todas as abordagens já feitas. Em literatura quase já se escreveu sobre todos os assuntos. Então, ao decidir escrever, um autor coloca-se um grande desafio temporal. Noto que parece que os escritores sucedem-se, vão surgindo, mas pouco se arrisca na abordagem aos temas. Andamos às voltas, vendo as mesmas coisas, sentindo os mesmos cheiros, ouvindo as mesmas vozes e o que resulta são os textos que parecem sempre uma repetição de outros textos. 

    Esta leitura que faço é muito particular e não tem a ver com alguma obra específica. Tem antes a ver com os tempos que vivemos. O tempo em que as ropturas parecem serem feitas a todo custo. Tempos em que nos custa afirmar as nossas referências. Tempos que andam depressa, onde a vaidade corrompe a razão e nos tira a dúvida metódica. Temos em que são os outros a definirem o nosso tempo e um bom texto parece ser um grande achado num mar de obras. E os leitores, que sempre foram em número reduzido, parecem também ter perdido a paciência para uma ficção. Isto quererá dizer-nos alguma coisa sobre o trabalho literário. Sobre a vaidade e a astúcia do escritor. Sobre a formação do escritor e de todo um contexto que o define enquanto criativo. E se calhar nos levará a fazer-nos a pergunta que nos aconselha Reiner Maria Rilke, se pararmos de escrever, morremos?

    Penso que um novo livro tem de ser sempre uma oportunidade para formular um novo debate ou para fundamentar opiniões que já existem ou abras novas possibilidades, tanto por parte do escritor e por parte do leitor crítico ou comum.

    Dito isto, tenho de reconhecer que não acho o momento literário moçambicano mau. Acho-o, pelo contrário, entusiasmante. Chegam-nos, de quase todas partes deste vasto país e para gostos variados, obras literárias, como raramente já se assistiu. Sempre pensei a nossa literatura como pobre, enquanto não nos apresentar as propostas literárias das geografias, paisagens e linguagens dos vários pontos que fazem este país. E pensando nisso, felizmente, há narrativas que nos desafiam. Há estéticas que não sendo de grande revolução imaginária, sempre colocam em pauta uma visão, uma atitude de inconformismo em relação ao estabelecido e ainda nos trazem essas novas geografias, paisagens e linguagens. 

    O Alerto Bia já nos levou até ao cais da sua escrita. É um autor com um certo percurso nas letras o que nos leva a receber a sua obra, embora com menos desconfiança, mas com alguma atenção acima do que seria em caso de um primeiro livro.

    Publicou seu primeiro livro em 2016, com o título Sonhar é ressuscitar, o segundo livro saiu em 2017, intitulado Sombras cálidas, em 2021, o terceiro, O desassossego por dentro. Portanto, como podem notar, estamos de um autor que já não se enquadra no termo novo, porque tem um caminho andado. Se calhar, para os hábitos da vida literária nacional, ainda se lhe pode chamar “jovem escritor”, sabe-se lá com que significado, preferindo eu achar que se refere à idade literária. 

    O Alerto Bia tem uma forma de ser e estar própria na literatura. É um autor regular como nos prova a sequência temporal com que publica. Mostra-nos esse facto que estamos diante de um autor oficinal, alguém que tem a escrita como uma tarefa entre outros afazeres da vida. E assim se constrói um escritor cujo estabelecimento na literatura moçambicana se fará primeiro pela regularidade. 

    A obra que nos traz desta vez, O ardina de sapatos gastos, editada pela Fundza, é composta por um conjunto de 14 contos que produziu durante o confinamento obrigado pela pandemia da covid-19. E vai se notar pelo tempo que dá ao ritmo das suas estórias e pela estética que emprega. As narrativas muitas vezes se apresentam sem acções segmentadas ou personagens com características exaustivamente descritas.

    São contos em que o autor privilegia a escrita criativa. Eu diria que é a escrita somente em si a fazer as histórias, talvez inspirado pelo inusitado, por um momento, por uma ideia abstrata, ou somente, sentou-se diante do papel em branco e foi começando a escrever sem rumo, até que surgiram os nomes, os lugares e os acontecimentos e se fez o conto. 

    Muitas vezes e desde a escola, somos ensinamos a ouvir as histórias e nos fazermos a pergunta: qual é a moral da história? Ou perguntas do tipo, qual é o assunto da história? Pois se o leitor é desse tipo terá de reformular o seu pensamento e entregar-se para um estilo que desafia o nosso preparo para os livros. 

    Este conjunto de contos de Alerto Bia não visa necessariamente trazer-nos assuntos. Visa levar-nos para os labirintos da palavra, para a viagem da escrita. Como pouco há hábito, o escritor propõe-nos em O ardina de sapatos gastos, a entrarmos no seu mundo e acompanhar a formação das palavras, acharmos as personagens e construirmos uma estória provável.

    O ardina de sapatos gastos, pode ser aquele livro que há de nos levar a perplexidade pela forma rápida com que os momentos-chaves são narrados ou então, a lentidão com que o autor vai levar-nos a revelar um segredo ou a resolver um problema. É como disse, nota-se que se trata de textos que o escritor escreveu sem pressa, para matar o tédio dos dias de isolamento e de ausências. Textos de uma solidão que não é propriamente o habitual resguardo do escritor que precisa de um tempo para si e para o seu processo de escrita. Mas uma solidão do mundo, que nos permitiu, a todos, a experimentação de um momento incomparável. Então este livro há de ser um pouco do espelho do que cada um de nós experimentou quando não havia abraços, nem beijos, muito menos pessoas nas ruas com rostos abertos.

    As estórias que nos revela são de uma peculiaridade em termos de construção e personagens, fugindo da estética que nos habitua a tradição do conto, onde as personagens muitas vezes são rostos visíveis, são vidas reconhecíveis de longe e os assuntos vem cadenciados, mesmo em narrativas abertas, onde o fim, por vezes é um enigma. O Alerto Bia, apresenta-nos um livro que vai ser um deleite, mas também uma contradição em muito do que manda o nosso senso comum. Por isso, lê-lo é também um exercício ousado, de interagir com a escrita que nos contraria, que não sendo explosiva, é estranha. Uma estranheza que nos leva a querer mais, a querer ler de novo e querer outras histórias depois destas. Aí fica já o desafio para os leitores corajosos.

    *Texto apresentado na cerimónia de lançamento do livro O ardina de sapatos gastos, de Alerto Bia, realizada no dia 1 de Novembro de 2022, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, na Cidade de Maputo.

  • My Love que te quero e que te odeio

    Num ano desses de que já não me lembro agora, e não me quero dar ao trabalho de ir ao Google para resolver essa lembrança, com a Patrícia Reis em Maputo, assim, numa daquelas perguntas de praxe no jornalismo, perguntei se se lembraria de Maputo e o que lembraria. Minto (agora lembrei-me, afinal
    publiquei essa conversa em algum lugar), perguntei exactamente “qual é o “extraordinário” no my love”? Respondeu-me com um autêntico “não sei” (que não escrevi no tal texto). E deu-se tempo para pensar um instante, suspirou, depois de voltar os olhos para o planeta terra, “o extraordinário é dar um nome a
    um transporte colectivo, não organizado, que implica afecto”. Calei-me. E fui a correr para fechar o texto para a revista onde me conferiam algum espacito para fazer algumas coisas de vez em quando.
    Penso hoje no my love. Certamente, um tema desinteressante para se falar e escrever. É mais fácil gozar e memizar, os memes não têm azar, toda gente gosta de algum gozo, de gozação. A Malika, minha filha, por exemplo, às vezes faz-me perguntas de gozar, só para testar-me a atenção. Mas outra vez, a mãe mesmo é que lhe venceu nesse perguntar sem azar, “barriga da mamã faz o quê?” e respondeu-lhe ela sem pensar (essa até eu não pensava, só não teria palavras certas) “faz hõi hõi hõi…” foi para a gargalhada infinita. E até hoje vejo-me a rir sozinho recordando a resposta enquanto abraço no my love.
    Encontrar uma expressão para nomear a precariedade, o perigo, a insegurança, o desespero e a única esperança que nos resta perante a falta, merece mais do que criatividade, é imaginação. A vida é feita por dois extremos, entre aqueles que andam de my love e aqueles que não andam de my love. Podia ainda incluir a classe daqueles que já andaram de my love e se esqueceram e daqueles que só os pais, irmãos e outros familiares andam de my love e simplesmente isso não os atinge. Há ainda as classes dos políticos/governantes, esses são os piores.
    Inventaram um my love de luxo que dizem dar “dignidade” a quem sobe e quem os vê a subir. Sobretudo, a quem interesse falar de dignidade enquanto passa do outro lado da vida, onde Deus já passou e deve ter uma Maria…
    Voltando ao meu bairro, onde dá-me imenso gozo – façamos de conta, pois bem – ser o que anda de my love e olha de cima do camião os que nos olham sempre perplexos com nosso balancear, ora de frente para traz, ora de esquerda para a direita, em danças em círculos, torneando a cintura, enquanto nos abraçamos no vão do medo de cair. Oiço sempre as notícias de uma pickup que abriu o taipal e “despejou” gente enquanto andava a uma velocidade ilusória de 120km/h – não imagino como uma camioneta na sétima vida andaria nessa velocidade numa estrada sem asfalto e cheio de lombas artificiais, para não dizer covas e lagoas. A mim mesmo, como provo em estar vivo e caminhando nas ruas urbaníssimas de Maputo, em alguns eventos de luxo – ai que saudade dos cocktails de lançamentos de livros ou saraus culturais – e vou saindo na televisão falando de problemas que não são os problemas da maioria da minha gente… nunca aconteceu que caísse vítima de um my love desgovernado ou saturado de gente que já não suporta o abraço.
    Na terra onde se faz amor abraçados em público, cambaleando, quais embriagados da nossa orfandade incompreensível, quando compradores de sonhos daqueles que andam de Mercedes e D4Ds, Rangers e uma nova classe de burgueses, os mahindrados sem casta. (este parágrafo não existe).
    Dito isto e aquilo que não disse e que só experimentando o my love nosso de cada dia poderá alguém compreender, não direi mais nada. Mas quero mesmo ler, um dia, o romance de Patrícia Reis sobre my love, mesmo que seja somente para encontrar um personagem, alguém, pelo menos deverá humanizar o my love, que de resto, nós agradecemos que se aumente o número no meu bairro.

  • Para não dizer que não falei das mulheres

    Podia escrever sobre Cabo Delgado. Mas custa-me falar assim das minhas dores, das minhas incompreensões e das imprecisões de quem não devia calar. Já a minha mãe contou-me da guerra civil, do que aconteceu em Gaza, do meu avó que quando todo mundo corria para o mato, ele se sentava com o seu neto pequeno, um dos meus irmãos, aquecidos por uma lareira dentro da palhota, como se esperasse a inevitável morte chegar, sem que tentasse em vão fugir de quem não se sabe porque mata e fere; porque é difícil compreender a morte de crianças, de mulheres e de homens à catanada, mesmo com uma AK47 às costas cheia de balas; já é de todo impossível aceitar a morte de inocentes que jamais compreenderão as guerras que muitas vezes são anunciadas ou recusadas na televisão, na rádio ou ainda em jornais que não chegarão a ter acesso, porque há lá fora e dentro de casa a insegurança a roçar a já intranquila vida dos dias.

    Em tempos de guerra quem mata e quem defende tem quase o mesmo rosto. Quem está na guerra não sabe porquê morre ou porquê vive. Sobre Cabo Delgado só nos chegam ambiguidades, os famintos, os assustados e aterrorizados, os refugiados, desabrigados do seu próprio solo e da sua esperança. Chegam-nos imagens incompreensíveis das armas em punhos entre os que deliberam sobre a morte e o medo e os que estão para a espantar. Só que em ambos os casos causam o mesmo medo de quem só compreende as leis da vida onde ela é normal.

    Hoje, excepcionalmente, escrevo à quarta-feira, mais um dia do nosso orgulho nacionalista, agora pretexto para a alegria das mulheres que sobem cada vez mais na hierarquia das agendas. São muitos os milhões em nome da igualdade e da equidade, difícil mesmo é escrever sobre porquê há convenções e códigos para se identificar um machista, podíamos falar de palavras-chaves, hoje fáceis de se detectar num simples “search”, sem se quer ler o pensamento ou a humanidade no meio das palavras; que, na verdade, hoje em muitas residências, em muitos conjuntos e conglomerados de residências, é mais um dia de festa, de capulanas, camisetas, lenços, algumas pingas para desanuviar o tédio do quotidiano do quase mesma coisa, as mulheres no bairro que são batalhadoras que muitas vezes são as maiores referências dos filhos e até dos maridos, para a prosperidade que se assiste numa sociedade “amarga” como vaticinara o poeta M.P. Bonde, não terão voz nem para falar do seu feminismo ou do seu chefismo de uma economia doméstica improvável. Não se pode prometer rebuçados a uma sociedade amarga, diz-nos o poeta manso. Justamente nos últimos tempos que tento compreender o que nos ensinam os poetas, provavelmente só a chorar as nossas dores, as nossas cicatrizes, nossas lembranças, quais mentes repetidoras de tormentos, iguais à nação que não sabe suspirar de alívio, igual às acácias de Maputo que tem de sobreviver ao mijo, igual às águas de Pemba, que se salgam à custa das lágrimas de muitos sobreviventes, quais órfãos da sua terra e dos seus ente queridos que não serão lembrados. Os nomes não os temos na memória, não os podemos dizer em voz alta, nem em voz de quem sussurra a dor que não sente. Aquelas águas promovidas em revistas de turismo, como das mais lindas do mundo, estão banhadas de silêncios de almas que vaguearão como espíritos se quer esquecidos, porque jamais existiram na nossa memória colectiva, antes as imagens das mulheres que choram enquanto renovam a vida na terra, nascendo em plena fuga para a incerteza. Hoje há quem pensa naqueles bebés que rasgam os ventres das mães, certamente com um sem vontade contrário com que emergiram no seu ventre. Serão frutos do amor? Hoje queria falar das flores, como das mulheres, mas como Vandré, surge-me a revolta dos tempos que vivo. Vem-me o nome do território ensanguentado, onde são muitos os nossos mortos e desconhecidos, onde são muitos os sobreviventes e quase irreconhecíveis de onde os vemos. Penso nas mulheres de Cabo Delgado, hoje as declarações de amor devem ser com uma flor ou uma arma na mão?

  • Monólogos da ausência

    Hoje é quarta-feira. Quase podia escrever sobre o silêncio, da surdez dos esquecidos ou das flores lá fora desamparadas, dos pássaros confinados no peso da noite que vai leve para os ventos, da janela descortinada quase que desconseguindo separar a rua de cá dentro, das couves que crescem excluídas do olhar de quem as quer comer, ali, caladas, impacientes do seu crescimento, do comboio que buzina lá do longe, como se nada tivesse imposto o recolher desobrigado da noite que manda as almas silenciarem, da vitória dos grilos ou do andar livre dos dispensados do dia; mas não, não calam os barulhos de cá de dentro, a alma é um mundo obscuro, que desconheço, por isso escuto todos os movimentos da mente, como se as vozes às vezes interrompidas pelos mosquitos, nesta mesa plástica que acolhe a escrita, com a garrafa de água caída, denunciando, uma garrafa de coca-cola vazia, o copo que tapa a metade do limão cortado, resquícios de um chá da manhã de ontem, uns quantos copos e chávenas vazios, nuns jazem as sementes do limão do chá da manhã de ontem, noutros a memória do sorvete cujo sabor nunca me havia lembrado, umas cascas de bananas que vão dessecando no limiar da vida, um brinco e um lenço…

    …Ia falar dos movimentos da mente, como se as vozes às vezes interrompidas pelos mosquitos, na sala silenciosa, quisessem falar-me de si, mas só de mim, e por isso precisassem mais do que nunca tirar-me a cama ao corpo. Mas agora que estou sentado não posso ouvir-me falar, porque desce pelos dedos a fúria da escrita que não deixa o silêncio falar-me do que desconheço, como por exemplo, a sinfonia harmónica que toca lá fora sem ouvintes nem espectadores. Apetecia-me assisti-la, apesar de triste é encantador, o encanto da tristeza, do choro, da lágrima, da dor, da fúria, mas também da saudade e da ausência que nunca sabemos do que realmente se trata.

    Ocorre-me agora também a angústia do silêncio, mas também a sua ternura, o sorriso com que nos acompanha a esquisita lágrima brilhante que teima em cair, quanto nascente de um rio que o tempo não secou. Agora não sei porque escrevo isto, deve ser porque me anima falar assim do que não me lembro.   

    Podia falar das almas que se deitam, mas este cenário, entre livros empoeirados e esquecidos, o televisor desligado, com a luz vermelha acesa, único sinal de vida, igual ao contador que vai gritando de tempos em tempos, igual as formigas que passam pela mesa, os mosquitos que cantam o som sempre incómodo quanto despertador; ao fundo um CD de Ana Carolina “ao vivo” ainda empacotado e uma lanterna comprada no chinês e que avariou sem nenhuma explicação, deixando saudade e de vez em quando, a angústia do que ainda podia ter servido, ainda a pouco havia lido no jornal, uma entrevista a Pilar Del Rio, revivendo as reminiscências da vida do seu Saramago, Nobel faz 10 anos e ainda havia lido a entrevista a João de Melo que vem aí com um novo romance. Os romances, mesmo quando em tempos de silêncios, não deixam de ser um alerta para a vida. Lá fora a noite faz a festa sem silenciar os sobreviventes, resistentes de uma luta entre a luz e as trevas da escuridão, às vezes anoitecidos de dia noutras amanhecidos de noite, quantos lá do outro lado das casas, não dormem como eu e o que lhes permite o desassossego do não descanso? A ausência ou a presença? A ansiedade ou a certeza? A lágrima ou o riso? A insónia simples e injustificada ou a incerteza do sono? Perguntar nunca havia sido uma forma de resposta, de quem tenta sem saber, falar da ausência.