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  • Prosa de um poeta – Álvaro Carmo Vaz

    “Mutiladas” é um livro de contos de Eduardo Quive, lançado em Maputo em meados de Maio. Ele escreveu, em prólogo:
    Este livro é dividido em duas partes, a primeira, Cor de Sombra, composta pelos textos que deram destino a toda a obra, e a segunda, Outros Caminhos, escrita entre Agosto e Setembro de 2022, durante a Residência Literária em Lisboa…
    Nas suas pouco mais de noventa páginas, a prosa poética de Eduardo Quive delicia quem se dedique a ler estas histórias, sem que ela abale a dolorosa crueza de grande parte delas, como “Destina”, na minha opinião, o mais conseguido destes contos.
    Para pessoa que acreditava como Destina, certo é dizer que tinha os olhos incrédulos.Os peitos continuavam hirtos como mangas maduras. As mãos esticadas estavam com os punhos cerrados como se ainda lutassem contra os dois homens, com a valentia dos heróis. Os que a viram não sabiam se se jubilavam pela sua coragem de fechar os punhos contra os agressores ou choravam a morte de uma mulher que sucumbiu na noite de luar, na festa dos lobos. Destina acreditou em tudo, só não acreditou que aquele era o dia em que tudo teria um fim.
    As outras histórias da primeira parte do livro são:
    • “Decadência” – Vitorino, um trompetista de jazz, célebre na terra e no estrangeiro, arrasta uma grave tuberculose que, tirando-lhe o fôlego, lhe destruiu a carreira e o conduz para o inevitável fim;
    • “Uma história de família” – Uma família abastada e aparentemente feliz, casal com duas filhas, que entra em crise quando o casal se desentende, levando a um desfecho inesperado;
    • “Cláudia” – A história trágica da protagonista e dos três amigos do narrador, todos jovens, uma história que gostaríamos de não sentir como representativa de alguma da nossa juventude urbana.
    Em “Outros Caminhos”, segunda parte do livro, gostei de “O cheiro das flores”, evocativa da barbárie das nossa guerra civil, a “guerra dos 16 anos”. Também gostei de “Os passeios da vida”. “O comboio” contrasta o fascínio da primeira viagem de comboio feita pelo adolescente Mito na linha de Ressano Garcia e a dele, já adulto, vinte anos depois, em Algés. “A Punição” apresenta um retrato de um professor em particular, a ideia da generalização parece-me excessiva. As restantes histórias são “As pedras não adormecem” e “O silêncio”.

    Um livro que vale a pena ler.

    Álvaro Carmo Vaz

    Escritor

  • Cartografia da miséria: “o desamparo das flores”

    Mutiladas é o título da última obra do escritor moçambicano Eduardo Quive, lançada em Maputo, em Maio do presente ano. A obra é composta por 12 contos, narrados em 101 páginas.

    A miséria do mundo

    Ler Mutiladas recordou-me o modo como a obra Angústia do escritor brasileiro Graciliano Ramos foi escrita: a temática, o tipo de narrador e o facto de abordar a época vivida pelo seu escritor. No seu livro, aquele autor conta os dramas do comportamento humano, através de um narrador-personagem que denuncia modos de agir de pessoas a viverem no seu limite de humanos. A critica a essa sua obra, tem, repetidamente, afirmado que o autor “narra a miséria de estar no mundo”.

    Em Mutiladas, a miséria humana é analisada por um dos narradores introspectivo de Quive. O outro narrador, observa-a e relata-a minuciosamente. As acções têm lugar em espaços-representações de Moçambique (Maputo, Chokwe, Gaza e Matola), com reminiscências em Lisboa, por, a partir de lá, o narrador observar e abordar Moçambique. O comportamento das pessoas está na base dos contos. A época fabulada é contemporânea a do seu autor empírico, a julgar pela menção aos my love, aos grupos de WhatsApp, aos smarphones, aos memes, aos emojis, à verificação de status em redes sociais e a feminicídio. A temática do livro é focada no dia-a-dia, num género literário pós-modernista, marcado pela forma como o real e o imaginário são construídos, bem como o imediatismo e o pano de fundo de um texto com uma linguagem rente à dos médias electrónicos nos quais predomina a cultura de massas.

    Devastação, desigualdades e dores do mundo

    Logo a partir da cor da capa, que é negra, aliada ao seu título, somos avisados que a matéria abordada pode ter um teor pesado, fúnebre, triste. E é. Coadjuvado a isso e à sugestão de pano de fundo negro, os títulos dos contos, também, nos remetem à desgraça, nomeadamente: “Decadência”, “Três balas”, “A punição”, “Andar às voltas” e “silêncio”. Destaco este último título, pelo facto do silêncio ser sugestivo, tanto de dor, quanto de introspecção, quanto de desejo ou não de ficar sem dizer nada. Essa sugestão de fatalidade, na obra, é, entretanto, camuflada por um tom narrativo leve, de paródia e, por vezes, com recurso ao exagero – enquanto figura de estilo; o que torna a leitura menos dramática, embora acutilante. O título do conto “O cheiro das flores” foi apenas uma estratégia para poupar o coração do leitor; remete, à primeira, à ilusão da beleza, mas não é disso que fala. Trata-se de flores para abafar “o odor insuportável dos falecidos da casa de Sara”, cf. pg 64. A matéria é muito comovente.

    O narrador-personagem, na maior parte das vezes, concentra as falas dos personagens na sua. Faz um monólogo interior, abordando o presente, com alguns recuos para o passado. Vive lembranças, percepções, e, pelo tom com que escreve, denuncia realidades sociais actuais, ignoradas, na vida real, por quem de direito e de dever. É um narrador psicologicamente ruidoso, embora afável nas suas palavras escritas.

    A narrativa coloca o leitor perante dramas do quotidiano moçambicano e das suas misérias, vistos na perspectiva dos seus narradores. Critica aspectos aparentemente banais, que nos habituamos a viver, enquanto habitantes de países pobres, como se de problemas não se tratasse. Revela que há necessidade de se prestar atenção ou de se resolver dramas sociais, em contextos factuais. Mutiladas questiona a cidadania dos moçambicanos. A sua actuação enquanto humanos, na defesa da vida.

    O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporênea.

    Trata-se de dramas descritos com mestria. Aliás a descrição, a observação e a escuta, mostram-se fortes por parte dos narradores deste livro. No primeiro conto, intitulado “Decadência”, há um homem que não o é por inteiro, é sobra de homem, de tão doente que vive. A sua tosse é descrita ao pormenor. A sua esposa é uma sobra de um passado glorioso, portanto, também uma mutilação do que ela vivera, enquanto esposa. Há um cego que pergunta se os outros não têm olhos para ver. Há nisto um exagero, mas é para demonstrar o quão a sociedade narrada se encontra mutilada. Há, no segundo conto, intitulado “Três balas”, um bairro que vive o drama de tiroteios e de ladrões que roubam produtos básicos e de primeira necessidade. Um autêntico faroeste. E outra vez com recurso ao exagero, o narrador fala em alguém que foi morto três vezes. Trata-se de gente e de lugares devastados.

    As desigualdades, no livro, são narradas de modo recorrente, por exemplo, no conto intitulado “Uma história de família”, fala-se numa família que tem whiskeys com imensos anos de velhice e que tem bastantes televisores que não utiliza (uma família abastada) e outra família pobre, na qual há membros que utilizam o mesmo telemóvel. Nesta última, vive-se sem amor, disputando bens e vivendo desentendimentos que levam à morte. As desigualdades são também referidas no conto “Passeios da vida”, num texto no qual há meninos com possibilidade de se deslocar a um museu e outros, não. Essa impossibilidade é comparada distância que se situa entre os objectos colocados nas prateleiras ou paredes de um museu, que não podem ser tocados, apenas “sentir-lhes os cheiros e […] observar, experimentar e vivenciá-los”, cf. p.89. A desigualdade de acesso, faz lembrar a mensagem que se pode ler no poema intitulado “Fábula”, de José Craveirinha, e cito-o, só para contextualizar o que digo, mas é preciso ler Mutiladas para se perceber a razão para a qual o poema é chamado.

    Menino gordo comprou um balão / e assoprou / assoprou / assoprou com força o balão amarelo. // Menino gordo assoprou / assoprou / assoprou / o balão inchou / inchou / e rebentou! // Meninos magros apanharam os restos / e fizeram balõezinhos.

    Craveirinha (1995a:14)

    Angústia e o questionamento do status quo

    A Angústia que mais comove ou desconcerta o leitor, nesta obra, é o feminicídio. “Destina” e “Cláudia”, mulheres cujos nomes são, também, títulos de contos, são vítimas das sagas desta época. Barbaramente assassinadas por violação sexual, crime que, tal como o narrador o aborda, é depois relatado, por alguns personagens, como se nada fosse. Temos visto, em contexto real, em Moçambique, depoimentos similares aos mencionados no livro, agressores a falarem sobre a violação sexual, quase que sem culpa, sem arrependimento; como se de uma brincadeira se tratasse. O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporênea.

    O tipo de crime narrado, recorda-me um outro, o dos raptos, fabulado por Miguel Luís, outro escritor moçambicano, na sua obra O Desamparo das flores. Ambas as transgressões suplantam a capacidade de contenção por parte dos agentes policiais em Moçambique, em contexto real. Vivemos, portanto, uma sociedade mutilada e a pedir socorro! A resposta aos gritos tem sido quase silenciosa, quase muda e sem expressão, ante o agravamento dos acontecimentos diários. Quive convida-nos a reflectir sobre o país que hoje vivemos, cheio de atrocidades sociais, desde as que parecem menores, até às de grande vulto que acontecem à luz do dia.

    O autor empírico de Mutiladas faz uma cartografia da dor e da miséria humana, com laivos de realismo. É inconformado com o “estado das coisas”. Nesta obra retoma o debate da sua anterior, intitulada Para onde foram os vivos, numa alusão ao abandono de corpos e de lugares, nos quais a violência, o silêncio ante a dor e o desespero tomam conta de todos. No conto já referido, o “Cheiro das flores”, do livro Mutiladas, o narrador mostra-se um bom ouvinte, a morte e a extirpação são o reflexo dos espaços nos quais se pode questionar onde é que andam os vivos, porque estes, vivem “mutilados no corpo e na alma” (cf. p. 63 de Mutiladas).

    Eduardo Quive é este escritor, poeta, jornalista, activista social e “agitador” cultural que acredita na arte como possibilidade de diálogo com a sociedade, através de uma linguagem, que sendo a habitual à do dia-a-dia, talvez ajude a repor a “ordem natural das coisas”. Esta obra demonstra o observador atento que é o seu autor empírico.

    A todos, desejo uma boa leitura. Esperando que o trabalho de Quive seja o grito que, juntando-se a outros que têm sido feitos, através de factos ou pela literatura, nos permitam viver uma sociedade livre da violência. Que a arte continue a iluminar a vida.

    • Sara Jona Laisse, docente na Universidade Católica de Moçambique, em Maputo. Membro do Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

    Maputo, Maio de 2024.

    Fotos do evento de lançamento captadas por Adelium Castelo

  • O mundo dentro da boca

    Até antes de conhecer Lisboa, pensei que gostasse de caminhar, mas percebo que de caminhar, só conheço a beleza das planícies da minha terra. A areia leve, cinzenta, amolecendo o peso do corpo que vai com as suas intenções, o cheiro da poeira e o capim verde nas ruas do meu bairro. Conheço alguns solos íngremes e movediços da vida, mas os sobe-desces de Lisboa, confesso, estão além do carma da vida de distâncias que levamos desde a nascença. Cresci a ver as pessoas a caminhar. Aliás, já vi mulheres, dando parto em plena caminhada, na rua, no my love, o nosso salvador transporte público, no carro do tio Chico ou numa barraca, como aconteceu com Lúcia. A caminhar nós nascemos. Então penso na vida como um caminho. Nós nascemos caminhando e morremos em marcha.

    Vejo a vida a partir das nossas casas lá no bairro. Podemos percorrer quilómetros num dia, dentro dos quintais, dependendo do que o corpo necessita. Casa mesmo, para muitos de nós, é o quarto e a sala. O resto são complementos. A casa de banho, a cozinha, muitas vezes estão longe da casa. Dispensa-se a dispensa, o que deixar lá? Nas nossas vidas tudo é escasso, imediato e não envelhece. Nada a dispensar. Nada a guardar. A comida que, por hábito, os assalariados compram sempre em quantidades que mais ou menos cubram o mês, fica debaixo dos olhos e do nariz, não vá algum feiticeiro deitar as suas azas sobre o que vai alimentar os nossos corpos e deixar o espírito pronto para acolher as mazelas da vida.

    No parque que fica perto da casa onde moro, temporariamente, que nunca tinha ido, apesar de estar a dois passos de casa e de passar pelos meus olhos todos os dias, vejo a vida a correr devagar. Sinto por dentro a diferença por ter ido ao Jardim Vasco da Gama, um espaço para as famílias e para os solitários como me sinto nesta meia manhã de sábado quente de Belém.

    Todas as vezes que fui a um jardim foi porque ou a vida estava encalhada ou porque estava sem um tostão no bolso à hora do almoço ou porque, enfim, havia sempre um caos na cabeça, então precisava de um alento, um lugar em que, não estando sozinho, poderia tudo ser-me indiferente. É verdade que muitas dessas vezes, jamais consegui me abster. Nunca foi assim em Maputo, nunca é em Lisboa. É impossível abster-me dos afazeres de cada um naquele momento e de alguns contrastes. Do casal já com alguma idade, aos gritos, com palavrões que não chegam a ser insultos à moda portuguesa. Um espantoso e avulso “caralho” repetido várias vezes para a mulher que já se cala e só gesticula, para o homem que parece praticar uma coreografia de dança. Vocifera, pragueja, faz promessas, rasteira-se, cambaleia, quase cai, cospe aos pés da mulher, vai ao carro, abre a porta, quando a mulher vai também abrir a porta do passageiro, o homem grita ainda mais, uma coisa qualquer que não entendo, nem a mulher entende, fica de braços abertos, liga o carro, recua, a mulher vai atrás, então para, acena qualquer coisa, e então ela entra, finalmente, mas sem bater com a porta, com uma calma de quem vai sentar-se sobre pregos e vai ter de esquivar-se de agulhas em sua direcção. Tudo me ocorre em câmara lenta. O carro parte. Ao meu lado, dois adolescentes beijam-se, com desejo e a cegueira dos apaixonados. Observo com perícia o momento, com o espanto de quem se lembra dos melhores beijos só no escuro. Mas estão de olhos fechados, deve estar escuro, algures no seu agora. Beijam-se como se procurassem encontrar um lugar no mundo dentro das suas bocas, como se procurassem entrar num e no outro. A minha avó dizia, o coração de alguém é um país. Mas diante de mim, a boca é todo o mundo. Olho para as horas, são 11h33. Ninguém, em Maputo, beija a essa hora. Volto às crónicas de vida privada da Dulce que a vontade de as ler, foi a que me levou ao parque.

    10.09.22, Lisboa

    Foto: Jardim Vasco da Gama retirada do Guia da Cidade

  • Marcados pela violência

    Não cheguei a ver o que os meus pais, meus irmãos, familiares, conhecidos e desconhecidos, viram. Os horrores da guerra, o medo, o sangue, os mortos com expressões faciais distintas, as mulheres violadas diante dos seus maridos e filhos, outras forçadas ao parto por um canivete ou catana, os homens com os membros amputados, alguns sequestrados para servirem a guerra, o fogo a devorar paredes e torrando a carne viva dos bichos ou de gente. Não ouvi os gritos nem os rostos dos mortos. Mas vi as feridas dos sobreviventes sem glória, com a vida que lhes sobrou a se transformar num peso insuportável.

    Tudo o que sei são histórias contadas, algumas de forma mais ficcionada quanto é possível dissolver os factos cuja crueldade, assumem os vivos, é indescritível. Sei das marcas ainda visíveis nas pessoas e nos lugares, dos edifícios em ruínas e de corpos, ainda vivos, mas com lesões de uma vida.

    Não me esquecerei do pesar, do cheiro das rainhas da noite, do arrepio que passei toda infância sentido, sempre que olhava para a Sara, cuja mãe, conta-se em voz baixa para não despertar os fantasmas, teve de meter o seu bebé no pilão, tritura-lo como um grão de milho que transformado em pó mata a fome. O irmão da Sara foi farinha de milho para alimentar a fome de homens cujo terror só dava apetites insaciáveis. E depois do último grito do bebé, enquanto Sara gemia algures no quintal, a mãe foi levada para servir a outra fome dos homens, durante dias que não se conhecem. A casa até hoje é para toda a zona um cemitério onde os que ainda vivem, por mais que nos esquivemos, sentem o nosso olhar de luto e consternação, sempre que tem de ir à rua.   

    Toda a infância passei fazendo uma viagem, por ano, para a casa dos meus avós em Gaza. Todo esse percurso pela estrada, as marcas da guerra, as cantinas abandonadas e destruídas, as cruzes a marcar os mortos que pouco são lembrados ou estudados, a ausência de vida nos lugares era visível e ruidosa. Todo o encanto da viagem, com as pessoas no machimbombo conversando numa língua que só os meus pais falavam em casa e que iria encontrar meus avós, tios e primos a falar em Chicumbane ou 3 de Fevereiro, pareciam sinos a tocar em honra aos espíritos que vagueiam pelas terras de Maluana.

    E a guerra não acabou, os vivos ainda convalescem, numa existência inútil e degradada. São almas soterradas e agarradas a uma vida de sobras. Cães sarnentos a lamber as suas feridas.

    Na Matola, onde morro, há uma zona que se define pelos que viveram o campo de horror, as catanas afiadas, as balas, as bazucas, o fogo, o grito, o fumo de gente, animais, casas e vegetações carbonizadas. A essa gente ficou-lhes o nome simbólico quanto realístico de “mutilados”. Mutilados no corpo e na alma. Sobreviventes de uma guerra sem “vencedores e nem vencidos”, diria Sophia de Mello Breyner Andresen.

    Os mutilados são apenas uma face, a visibilidade do acto brutal que é o desejo de carnificina que possui a alma humana. Hoje as crianças temem esses homens, como se de monstros se tratassem. Suas conversas são a continuidade dos seus actos no espaço do conflito. Esses são os filhos da guerra. Nós somos os filhos da violência, as reminiscências, de vários conflitos. Uma violência generalizada, institucionalizada e até moralizada. Violentar é um acto moral. Se os pais não batem nos filhos, são maus quanto aquele que gerou e não criou. Um homem que não bate na sua esposa, não merecerá o respeito, nem da mulher e dos filhos que vivem consigo, nem da sociedade. Um professor que não bate no aluno, é fraco, gerou um bando de mal-educados. O professor bom é professor que bate, pune, humilha. Esse terá respeito e vai gerar bons cidadãos. Serão poucos, sim, mas serão bons. Terão sido melhores no corpo e na mente. O que é preciso para se estar preparado na vida?

    Ainda me vêem os nomes, rostos aleijados e almas perdidas, de crianças e adolescentes que tiveram de tomar decisões quase na insanidade, como desistir de ir à escola, depois de violentados. Paus enormes a partirem-se pelos seus corpos duros, como as suas cabeças que não apanhavam nada das lições. Espancados, aos gritos sem socorro, com uma plateia de 50 crianças, impávida, com o coração a bater como um relógio apressado, gemendo-se de dor gratuita, outros enchendo e molhando as calças de diarreias instantâneas e mijo. E o professor com o suor a escorrer-lhe pelo corpo todo, ofegante como se o peito fosse sair pelas costelas, as mãos quase ensanguentadas de tanta força que empregaram sobre um adolescente de 13 anos, com a boca a escorrer-lhe saliva de fúria, olhar vibrante e cheio de fome de matar.

    Algumas crianças, com o passar do tempo, já se riam quando uma outra caia na desgraça do professor, já saiam a correr como numa competição de atletismo, para tirar ramos maiores que a sua altura, preparando a varra da boa educação, como um escultor talha a madeira. Eles riam-se como cães, como alguém cantou.

    E os anos passam…

    Roberto morreu achado numa machamba onde roubava cana-doce. Estava de uniforme escolar mas há muito que não entrava na sala, nem cruzava o recinto da escola. Paulo foi para África do Sul, voltou mais tarde deportado, mais tarde morrera de overdose. Hélder até foi para a tropa, desmobilizou e passou a cafetão e vendedor de droga, agora transformado apenas em fumador e bebedor com a perna amputada, depois de ter levado um tiro em mais uma das suas fugas da polícia… ossos do ofício. Angélica, tão cedo quanto pode, andou nas barracas, teve um número desconhecido de filhos e de lares, até que foi para a África do Sul de onde nunca voltou e nem se tem notícias, com a tonelada de filhos a viverem com os avôs. Marcolino, esse até deu-se bem, tem casa própria, paga muito bem as suas contas, é alfandegário, ganha balúrdios, tem as mulheres que quer, a que escolheu para guardar em casa, espanca-a sempre que lhe apetece.

    Abrir parenteses No jardim do Museu de Arte Antiga onde acabo de conhecer Ronaldo e Eltânia que também me apresentam a Kátia. A guerra e a violência chegaram na nossa conversa como chegam os convites para o café. O Homem é um animal irracional, atira Eltânia. Como é que alguém pode gastar seu tempo e inteligência criando uma arma mais perfeita que a outra para destruir? Pergunta a Kátia, com o espanto próprio de quem cria personagens de outro mundo. No nosso caso, somos filhos da guerra, afirmo. E depois do silêncio, disse ainda, a violência passou para um nível natural nas nossas vidas. Nascemos e crescemos sobre ela, superar isso é um desafio muitas vezes solitário, e os países estão ocupados com dores mais visíveis. Fechar parenteses

    09.09.22, Lisboa