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  • Os rostos de Nelsa Guambe

    Podemos deitar os outros sobre as obras e ver as estruturas frágeis em que se constroem os retratos. Enquanto vamos nos envolvendo os cenários se multiplicam sobre os olhos e vão se construindo narrativas, com personagens a discursar, seus sentimentos, suas intenções, do que se pode ver e do que se pode sentir. Eis a sensação ao entrar no universo de Nelsa Guambe na exposição “Memórias daqui”, patente na Fundação Fernando Leite Couto. Encontramos um conjunto de obras da mais recente criação de Nelsa Guambe, (2023 e 2024), utilizando na maioria das obras a técnica de carvão e pastel de óleo sobre papel e com dois trabalhos em acrílico sobre vela. 

    O estilo de Nelsa Guambe faz pensar na vida dos artistas. Embora tenham, estes, razões subjectivas, que passam sobretudo pelo seu interior, suas experiências associadas na concepção da obra, não se pode olhar para o trabalho artístico e isolá-lo das circunstâncias e contextos em que ele é feito. Não se pode olhar para estes corpos, estes rostos cujos tecidos se expõem para além da carne, não se-lhes procurar atribuir vidas, parecenças e um certo sentido de reconhecimento. Pode ser injusto para o artista, mas essa é a natureza humana. Buscar sempre referências do que vemos: o que lembra? Serão cheiros? Serão lugares? Um acontecimento? Uma pessoa? Um sabor? Qual é o estado de espírito das imagens que se nos apresentam? São várias as perguntas que a natureza humana impele-se a si mesma.

    Por isso a importância da abstração. A importância do tempo. A importância do exercício incansável e acutilante da observação. Olhar várias vezes. Repetir e repetir quantas vezes for preciso, até que tudo faça sentido, ou não. Às vezes, não compreender é compreender.  Esta última condição dificilmente se aplica em Nelsa Guambe. Da sua técnica, dos seus materiais, das suas representações e criações, alguma coisa, no meio de várias interpretações, se compreende. O corpo, o exótico, a fragilidade e a memória. Podemos construir uma narrativa. 

    Quando criança, os dias eram normais até que chegasse o tio Horácio. O fotógrafo andarilho com a sua lente Nikon analógica pendurada ao pescoço, e uma pasta no ombro direito. Tio eram todos nesse tempo, mas o Tio Horácio devia ser o mais famoso. Assim que se pressentia a sua chegada na rua, nós do 904 ainda tínhamos o privilégio do banho militar, e depois vestíamos as melhores roupas das nossas vidas; os de 49, as primeiras casas, iam directo à vaselina que os deixava a brilhar mais que o sol, pois era dali que entrava o fotógrafo sorridente. Um sorriso que era base das poses, com os dentes brancos a conflituar com as caras pretas, lisas e com um certo ar de bondade, com algumas gotas de suor de alegria. Chegado à nossa frente, posicionados no jardim, descalços porque não havia nem fotografia que nos convencesse de calçar, estávamos em grupo posicionados para a foto que só era captada num único clique. Quando olho para esses retratos hoje, todas as sensações retornam com as vozes, os sorrisos, a espontaneidade e a revolta dos que ficaram por fora, zangados por terem sidos excluídos da história. 

    Esta história não é sobre o tio Horácio nem sobre a fotografia, tampouco a rua “O”. É sobre a força de um retrato. É sobre a nostalgia que aqueles rostos, embora abstratos e numa tentativa estranha de irrelevância, mas próximos, familiares e sedentos de querer dizer coisas. Dizer-nos do seu passado, da relação desse tempo connosco, de como a memória é feita de matéria sensível, aos bocados de carvão que se podem apagar ou desanuviar num pequeno lapso.

    É fácil ficarmos pelas mulheres como o centro destas “memórias daqui”. Mas pensemos na natureza no seu todo. Vamos reparar que nas minas de carvão, no abate das árvores, no garimpo, nos matadouros, são os homens a força bruta. Eles é que estão na linha da frente para matar, abater, cortar, queimar, transformar. Hoje as consequências sentimos todos. Este carvão, também matéria para construir estes corpos apresentados por Nelsa Guambe, são produto da combustão, também nós somos feitos de processos de transformação até que voltemos ao pó. A partir daí, podemos reparar de novo nesses retratos que convocam uma certa consciência do clima, da natureza e dos ciclos da vida.

    Reparem nas flores que estas mulheres trazem, esse gesto de ternura, de tréguas, que representa a sensibilidade, mas também a sedução, a paixão até que voltemos aos ciclos existenciais. É nesse contraste que se faz a vida, da flor que nos acompanha em todos os ciclos da vida, do nascimento até à morte, do amor aos desamores, dos presságios e vaticínios.

    Reparem nos olhos dessas mulheres, como estão embaciados, envergonhados, distantes e até numa nostalgia do tempo. 

    E, de repente, como chamados para a dura realidade, somos lembrados da fragilidade do corpo. E não é da mulher o corpo frágil. É de todos nós. É o corpo planeta, é o corpo social. Como sociedade estamos doentes e precisando de cura urgente. Mas não com a pressão avassaladora que arrasta tudo consigo, antes com a subtileza dos sábios, ver, ouvir, meditar, reflectir, dormir, sonhar, respirar e só depois, mas em última instância mesmo, as palavras.

  • Mário Macilau revela a alma dos explorados

    Na nova exposição intitulada “imediatismo”, o fotógrafo Mário Macilau, coloca nos seus retratos à preto e branco, a alma dos ignorados na exploração desenfreada dos recursos.

    Os rostos e os corpos “gastos”, pálidos, mostram na perfeição das rugas de quem vêem a idade e a vida a avançar, tudo à sua volta a transformar-se em pó e num abismo onde cabem todas as ambições e a ganância do Homem. A olhar pelos rostos que nos são apresentados, constata-se a pobreza das gentes dos lugares ricos em recursos minerais, por exemplo. Lugares em que a riqueza se expõe no meio de uma pobreza estrema. E o lixo dos ricos é o luxo dos pobres, como pode-se perceber pelas imagens extraídas da maior lixeira da capital moçambicana, em Hulene.

    No olhar, nas feições simples, inocentes até, das crianças e dos idosos, nota-se toda uma cadeia de desesperanças no trabalho que Macilau apresenta. São os corpos que sobram e resistem da degradação. O fotógrafo procura expor mais do que as evidências de que esses corpos se recompõem todos os dias à margem. Leva-nos para dentro da alma das personagens, instigando o espetador a uma leitura da narrativa das vidas representadas, “preto no branco”. Ele que já explicou a escolha desse caminho à duas cores, “o preto e branco proporcionam uma conexão mais forte(…). Torna uma imagem atemporal, quase como uma memória.

    O conjunto de fotografias percorre ao consumismo e as vítimas de um sistema que já vem a controlar os estilos de vida e as sociedades há anos. Os rostos de gentes carregadas e revestidas de silêncios e o que representa a força bruta de trabalho, não são propriamente de denúncia, são sobretudo o escancarar da dura realidade que se sobrepõe toda voracidade do capitalismo que avança e arrasta consigo as pessoas, os lugares, a qualidade de vida, as expectativas e o futuro, uma vez afectar a abundância doutros recursos vitais, como a água, a qualidade dos solos para agricultura e o ar.

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    Macilau tornou-se numa referência enquanto fotógrafo que vai ao encontro dos “invisíveis”. Os homens, as mulheres e as crianças das periferias do mundo, marginalizados e vendidos ao preço da ilusão, procura mais uma vez fazer uma abordagem provocadora, instigante. Em “imediatismo” talvez se volte à questão ambiental, mais no modo reconfigurado, como as pessoas nos lugares de abundância de recursos são insignificantes e invisíveis diante do carvão, do gás, do petróleo ou outros minérios que realmente importam para a sociedade de consumo e grandes corporações. Nesse sentido, o que se expõe é também a outra face dos negócios dos recursos e os contratos que desvalorizam as populações. O próprio fotógrafo já assumiu usar a lente como “ferramenta de intervenção social”.

    Embora fotografe esses marginalizados, mas também de condição de vida precária, Macilau procura dar-lhes dignidade, personalidade e carácter. Vai ser por isso, que algumas dessas personagens, se nos apresenta com os seus utensílios, outros estilosos, com adereços e acessórios de estilo. Mesmo os rostos mais enrugados, não são de grito nem desespero, são sobretudo almas vivas, pertencentes a um lugar e que assistem às mudanças, em meio a promessas e expectativas de um melhor futuro, que contrasta com o que vislumbram.

    A exposição esteve patente de 10 de abril a 10 de maio, no Centro Cultural Franco Moçambicano, em Maputo. Texto originalmente publicador no RADAR – MAPUTO FAST FORWARD