Etiqueta: residência literária

  • Nas ruas de Mysuru e uma carta a R.K. Narayan

    Guarda este momento. Vais te lembrar dele quando já nada houver para lembrar. Do materialismo ou da pressa para a afirmação, quando correr atrás não for mais do que uma metáfora para te manteres vivo, precisarás das coisas que se sustém no tempo, intemporais. Não creio que isso vá te acontecer tão depressa, pois és jovem, mas um dia sempre acontece. Não será na velhice, que a velhice é coisa preciosa para desperdiçar com memórias iguais a estas. Mas guarde. Guarde porque a tua mente precisa preencher-se de vazios, também. Não se pode passar os dias apenas com contas de somar na cabeça. E nem a vida pode passar, sem que se guardem momentos como estes, por mais vazios ou desprovidos de substância que se pareçam.

    Caro senhor R.K. Narayan, fomos a sua casa e não estava. Pior do que isso, a casa estava encerrada. Passava das cinco da tarde, mas essa não foi a principal razão para termos ficado à porta. Era terça-feira.

    Já que não o conheço, não vou meter-me em enganações. Só ouvi falar de si quando chegamos a Mysuru — aprendi a dizê-lo como os próprios indianos, desapeguei-me do inglês Mysore —, por volta das 12h40. Fomos ali ao Bean Stop Café. O aspecto intimista e o design minimalista são incríveis, mas o preço dos chás e cafés foi a martelada da decisão que nos fez entrar. Olhei para as paredes e estavam lá as marcas de pincel fino com traçados da cidade. Fiquei-me por wraps de carnes que pedi gentilmente «without spice», ao que o rapaz de cara lisa acenou com o típico abanar de cabeça dos indianos bem-educados, quando querem dizer, tu aguentas. Delicioso que estavam os wraps a que tenho por manias chamar shawarma, realmente aguentei o piri-piri. Serviço extra teve a Estelle com o seu petisco que para além dos temperos picantes tinha os graus de piri-piri espalhados. Escusado será dizer que ela comeu e lambeu os beiços. Não provei o café, mas o Thomas disse que estava bom. E se o Thomas, um alemão de Colônia, diz que está bom, está super para um subsahariano como eu. Passei a maior parte da minha pouca vida nos aromas de Ricoffy contrabandeado da África do Sul, quando descobri que há café e Café, já era tarde para ganhar o hábito. Fiquei-me pela água.

    Foi a Chiranthi que trouxe o seu nome à mesa. «Em Mysuru tem a casa de Narayan», foi como um espanto. A Estelle foi depressa acompanhada no delírio. Ambas olharam-se felizes com os olhos umedecidos de encanto. «Ele é um grande escritor», disseram. E Chiranthi confessou estar no topo das suas preferências. Complacentes, as duas pouparam-me e o Thomas dos títulos dos teus livros quando perceberam que não sabemos nada sobre si. Foi gentil da parte delas, como de resto, elas sempre foram: duas almas ávidas em tornar os dias, as horas e a vida, menos pesada do que parece. «Temos de ir à casa de Narayan, estamos na própria terra dele, não acredito» disseram quase partilhando as palavras, com a beleza da diferença de sotaques, Estelle num inglês afrancesado e Chiranthi, de Sri Lanka, gritaram um eufórico Oh my God! Soubesse o senhor das abreviaturas da moda, ficava-me fácil, pois escrevo em português e pode calhar-me o erro nas palavras de língua inglesa. O Thomas escreve em alemão, a propósito. Ele está sempre a escrever, com um bloco de notas e uma caneta de tinta azul, tens de vê-lo. Conto-te depois como ele se parece um grande escritor, preocupado sempre em registar os momentos, com a própria mão, assim as palavras têm corpo. Foi o Thomas, aliás, que mandou parar o Txopela quando chegamos na cidade, para que fosse rápida a nossa chegada ao Palácio de Mysuru, o principal objectivo da visita à sua cidade. 

    Vista frontal do Palácio de Mysuru

    Lamento pô-lo a par da verdade, através de uma carta que nem sequer inicia com as saudações de praxe. Contente-se, pois, em saber que não cheguei a ver como vivia a família real, não invadi a vida privada nem a intimidade dos Wodeyar. Quando fiquei a saber que a entrada custava 1000 rúpias indianas fui dar voltas à esquina, como diz-se na gíria, mas literalmente. Andei pelas ruas, às livrarias e aos museus onde só me custaram uns máximos 70 rúpias para a entrada. Tenho pena que não possa ter entrado no Palácio de Mysuru, admito, a vida privada dos outros faz a vida do escritor, não é verdade? Mas pensei comigo, antes vou conhecer Zimbábue e a campa da rainha Bibi Achivanjila, depois juntar algumas moedas para os despojos de Rei de Mysuru. Tudo isso, deve compreender, são desculpas de quem tem de contar as moedas no bolso. 

    As visitas à tua casa são gratuitas. Bem que pode. O senhor não é rei e não mora num palácio. Talvez, por isso, dá-se ao luxo de fechar as portas da sua casa na terça-feira. De certo não há uma romaria para visitá-lo, ainda que haja quem tenha bondade e possa dar alguma coisa para a casa. Os escritores ganham quase nada, coitados, uma ajudinha não faria mal. Mas como a espécie literária é estranha, eras capaz de não aceitar ajuda nenhuma, que não fosse lerem-te os livros. Guardo essa vergonha para mim, não ter lido ainda um livro da sua autoria.

    Antes de chegarmos à sua casa que estava fechada e por isso, mais uma vez, serei incapaz de descrever os interiores, caminhei durante três horas pela cidade. Deve ter sido um acesso de loucura, imagino que o senhor o diga, quem pode andar tanto tempo numa cidade onde o barulho vem de todas as coisas? Dos letreiros cheios de informações em inglês e nas línguas indianas, dos veículos motorizados que surgem de todo lado, pessoas de todas as idades e indumentárias, cavalos, ovelhas, bois de cor-amarela. Sou da Matola, a cidade das festas de família, bodegas, onde quase toda a gente vai para dormir e fazer amor. Nestes dias custa falar da minha cidade sem recordar a imagem cinzenta das lojas e o fumo de um denso cinzento a cobrir os céus, tudo ardido na famigerada fúria popular. 

    Fui à Galeria de Arte Sri Jayachamarajendra. Importava-me conhecer a cidade e o país através das obras de arte. Importava-me o diálogo, as estórias por detrás da história. A pintura, a escultura, disseram-me muito do que gostava de saber. Dei-me conta depois que não fiz uma fotografia sequer. Que foi o único lugar que não marquei na memória digital. Fiquei-me pela imersão. Fez-me bem ao coração e devo guardar para o futuro, se é que lá chegamos.

    Fui para a terminar dos machimbombos. Sou moçambicano — esqueci-me de dizê-lo —, é importante saber onde apanhar o chapa. E ver como se comportam as pessoas, os vendedores ambulantes, os viajantes de várias partidas e chegadas. Há uma certa pressa em tudo, um «deixa-me subir primeiro», que em nada me espanta. Gosto da música que vem da conversa, da chamada dos cobradores, do bater dos pés no alcatrão, dos carros a chegar e partir, dos apitos dos guardas e do cheiro de comida. 

    Andei pela Ashoka Road onde as joalherias alternam-se entre si, as lojas dos tecidos coloridos ombreiam com sapatarias, ferragens, lojas de utensílios e objectos metálicos do rico e sagrado artesanato; os deuses feitos de aço e bronze, a disputarem o lugar com as jóias de diamante e ouro; as motos que fazem filas nos passeios, a competir em superioridade numérica com os humanos, os chinelos aos montes nas portas, as ovelhas, as cabras e o céu azul, com os pombos em bailado ao deus sol. Ao fundo está a Catedral de São José e Santa Filomena, com os fiéis e devotos de pés descalços, homens, mulheres, jovens quase aos prantos numa via sacra mais de súplica que de paixão; olhei para o monstro que subia aos céus — não devia invocar as sombras ao falar da casa de Deus, eu sei, hábitos da minha terra em que dizemos «monstro sagrado» às coisas que tem dimensão divina —; um grupo de mulheres descia do autocarro com a lentidão dos peregrinos exaustos, mas firmes na fé, fizeram o sinal de cruz e tinham as cabeças e os ombros encurvadas, pude senti-los carregados de tormentos que pretendiam desanuviar. Tenho de dizer que me comovi ao vê-los, mais ainda quando pagaram o ingresso para falar com Deus dentro da catedral. Bem, as catedrais têm conversas que se paguem, diga-nos o mestre Vargas Llosa. 

    Chegou o fim da tarde. Era a vez de ir visitá-lo à sua casa. Antes tomamos um gelado no Indra Cafe’s Paras. Escolhi o de tâmaras que é de um sabor que nunca havia experimentado, os outros foram pelo sabor das manga e chocolate. Ninguém ficou decepcionado. Depois bebemos o café que quando não se tem o cuidado sempre virá com leite nas tascas tradicionais desta cidade, talvez por isso me tenha aguentado. Já antes tinha sido assim na Estação de Comboios em Bengaluru. Lá eu fui pelo Badam, o leite quente misturado com amêndoas, cardamomo, açafrão e açúcar — desculpe o aborrecimento com esses detalhes que o senhor certamente conhece, mas se não fosse a si, não contava a ninguém estas coisas. Foi no Indra Cafe’s Paras que o Thomas foi parar à porta, qual recepcionista louco ocidental, para o espanto dos sempre muitos transeuntes, clientes e os vendedores nos passeios de todas as idades à frente do Mercado Devaraja. Ele, dentro de si e no olhar às coisas à volta, tomava as devidas notas no seu caderno em alemão. Deve ter sido sobre a multidão que se abalroa entre si, na paleta de cores quentes, nas mulheres belas nos variados feitios, nos homens de lungi, que não sai da cabeça ser uma capulana, a atravessar a praça, os cheiros fortes das especiarias, as vozes dos vendedores ambulantes que chamam os clientes com os preços sempre possíveis de regatear. Se o senhor conhecesse Maputo podia simplificar as coisas, é o Xipamanine de Mysuru. O Thomas tem ares de bom escritor, como o senhor pode notar.

    Mulheres em procissão descalças
    Catedral de São José e Santa Filomena

    Fomos apanhar o Txopela, os quatro, como na primeira vez desde que chegamos nesta cidade, sentados quase um em cima do outro, juntos, efectivamente juntos, dei-me conta nesse instante que nunca tínhamos ficado teu próximos uns dos outros em cerca de 20 dias que vivemos na mesma casa, almoçamos à mesma mesa assim como partilhamos os jantares, além das várias cavaqueiras noturnas e matinais de pôr a conversa em dia, num estranho olhar aos processos históricos dos nossos países, e muito pouco sobre o texto literário, as cozeduras, os truques, as vias de construção que nos fariam chegar ao grande livro. Falamos da nossa relação com as coisas, com os lugares, com histórias oficiais e não oficiais, com os traumas e terapias colectivas que vão acontecendo, embora numa versão longe das nossas concepções ou cogitações. 

    Devaraj Mohalla é onde fica a sua casa, esse bairro feito de colinas, subidas e descidas, enormes árvores a disputar os céus com aves de várias espécies. Mais tarde me apercebi que está ao pé da linha férrea, fico a imaginá-lo a despertar na madrugada com o chiar dos comboios e o apito de levantar a alma. São também assim as minhas madrugadas, com os apitos dos comboios da linha de Ressano Garcia. Já era assim na casa dos meus pais, mas aí era tudo como um sonho. Agora posso sentir a vibração, o barulho do motor a acelerar e a nostalgia da buzina longa que se devance enquanto procuramos adivinhar a direcção da viagem.  

    O Txopela — tenho de chamar assim o vosso Tuk-Tuk —, ia passando quando avistamos a sua residência. Mandamo-lo parar ao que o motorista obedeceu com certa desconfiança: a casa pintada de branco estava envolto a escuridão. Agora que escrevo fico a imaginar o que se passou na cabeça do homem ao partir depois de deixar quatro jovens estrangeiros naquele lugar silencioso, quando a noite já era verdade.

    Ficamos parados no portão. Estelle e Chiranthi foram de imediato fazer a perícia na casa. Deviam imaginar o senhor R.K. Narayan sentado na mesa a tomar o seu Masala chai. O senhor não deve tomar uma coca-cola como o poeta Craveirinha. Tenho aqui vários dias e quase não vejo ninguém tomá-la. Então as duas admiradoras tuas ficaram a tirar fotos, com troca de palavras, memórias, atmosfera e mais alguma coisa. Há sempre alguma coisa que os leitores acérrimos tiram das obras e dos autores. Nunca tinha vivido um momento igual e não podia esperar que fosse subir e descer colinas, passar mais de duas horas no comboio, caminhar por várias horas, até chegar a casa de um escritor cuja alma habitava em silêncio na sombra. Fiquei a pensar, ainda que reconheça que foi um momento de tolice, como seria se algum leitor decidisse ir até à minha casa. Aquilo é andar por estradas com buracos assassinos, planícies, machambas, atravessar rios, e se fosse entre Fevereiro e Abril ainda teria de ir à nado, rezasse para que a mafurreira que é referência da paragem, não tenha sido cortada para pôr uma barraca. Imagina o senhor que isso não será possível, tal como eu, pois não?

    Queria continuar a escrever. Deu-me nestes instantes finais uma certa graça dizer o que disse. Mas a parte que viria daria-me uma certa angústia, refiro-me à exaustão de retorno ao ponto de partida, num comboio noturno, onde fomos numa cabine para os quatro, isolados de todo o mundo. Mas também, chegar ao final levanta outros princípios. Por exemplo, podia ter lido primeiro os livros, antes de fazer chegar esta carta. Vou começar por The Guide. Achei por aí na net. O senhor não se importará com a pirataria africana, não é? 

    A propósito, as palavras que abrem esta carta, foi o meu monólogo diante da sua residência. Na verdade foi por isso que decidi escrevê-lo, sem esperar que respondesse. 

    Bengaluru, 23.01.25

    E estou eu e o condutor do Txopela que nos recebeu em Mysuru, gentilmente.

    Durante Janeiro de 2025 estou em residência literária Sangam House, no The Jamun, que agradeço muito a hospitalidade.

  • Eduardo Quive em entrevista ao programa Escrever na água, da RDP África

    Durante a sua estadia em Lisboa, onde participa da Residência Literária, o escritor Eduardo Quive foi convidado ao programa Escrever na água, conduzido pela jornalista Fernanda Almeida, na RDP África.

    Eduardo Quive falou da experiência da residência, impacto e perspectivas para o seu trabalho futuro, do trabalho literário em Moçambique e das possibilidades de intercâmbios e mobilidade literárias no espaço da língua portuguesa.

    Escute a entrevista na íntegra o episódio: ESCREVER NA ÁGUA EMITIDO A 14 DE SETEMBRO, DE 2022

  • Encontro com Eduardo Quive na Feira do Livro de Lisboa

    Eduardo Quive, em residência literária em Lisboa, conversa com a escritora Joana Bértholo na Feira do Livro de Lisboa, no dia 11 de Setembro. A moderação esteve a cargo do escritor e jornalista brasileiro João Gabriel Lima. A conversa foi em torno das experiências e registos particulares do escritor e jornalista moçambicano durante os primeiros dias na capital portuguesa e do que a escritora portuguesa viveu e registou em Maputo onde esteve em resiência literária em 2019. O resumo fotográfico do evento está na página das Bibliotecas Municipais de Lisboa.

    A Residência Literária em Lisboa é um programa promovido pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa (CML)

  • A vida como o ar que escasseia

    O corpo estendido na cama sobre um lençol branco, o quarto escuro, em silêncio apenas interrompido subitamente por grilos ou gala-galas, as lagartixas brancas, coladas às paredes, a namorar, dão vida a uma noite húmida. Mais uma em que passará tentando não encostar-se às extremidades da existência. As noites trazem-no sempre a difícil tarefa de ter de compreender a vida que tem e que não teve, o apego à essa vida presente e indefinida e uma provável morte, que também já lhe traçou os cenários.

    O corpo suado, uma respiração quase encenada, para não se deixar ferir pela ânsia de um ar puro a preencher o peito e os pulmões que parecem cada vez desorientados da sua função. De olhos fechados, mas a pensar na dor que o pouco ar que respira causa no peito, e os pulmões que tem de dar vida a um homem que já não acredita, mas mantém-se entre o mundo material e carnal.

    A morte, que sempre pensou nela como um acto de vingança de deus, quase de forma inevitável para si, diante de todos os infortúnios numa vida que se anuncia curta perante os seus 30 anos. Essa partida que paira sempre nas suas noites mal dormidas, parece que não chegará mandatada por algum diabo, não será por nenhum acidente, tão pouco se chamará fatalidade, antes se chamará alívio.

    Nada é novo nas aflições que sente. Nesta noite as dores são as mesmas, o peito a sufocar, o corpo suado quase a inundar a cama, o dilúvio ameaça afogar o que resta do homem e das suas dores. Virá a morte de forma tão traiçoeira, com o corpo a afogar-se no próprio suor? Pensa enquanto tenta entender o estado em que se encontra, como num barco inundado e a deriva, ou como na vida que não se define, nem dormindo nem acordado.

    Pensa no sono dos outros, o mundo está agora calado. E pergunta-se sobre as horas, sobre o dia, se virá o mais tardar ou de imediato. São 3h.42. madrugada a escancarar-se no seu desespero. Vira-se, deita-se de lado, com o braço direito sob o travesseiro e a cabeça sob o braço. Tem de haver ali um intermediário em busca de um conforto possível.

    Olha para a mulher que dorme mesmo a sua frente. Na condição de desacordado à força, não a sente a presença da sua amada. Dorme serena, como se lhe tivesse roubado o sossego de que tanto precisa e procura. Ressona e vai fazendo gestos suaves, como se flutuasse no espaço, às vezes como uma bailarina, balançado ao ritmo do barco que navega a favor do vento.

    Contempla-a. Cobiça-a. Seus lábios entreabertos, os dentes brancos fingindo uma luz.

    Volta a pensar na morte, em como para si não é inesperada. Em cada suspiro o peito parece sufocar-se, falta-lhe ar, doem-lhe os pulmões que tem de se esforçar para dar-lhes mais algum tempo enquanto percorre as melhores memórias. Diz-se que a morte, antes de chegar, anuncia-se pelo riso, faz vênias aos espectadores e discursa. E o que quer este homem é antes envolver-se no corpo quente da mulher, que dorme, alheia a sua triste e dolorosa arte de partida.

    Então revive a sua jornada no mundo. Em como nunca a viu assim, como no corpo da mulher ao seu lado, de tronco descoberto, com um sorriso que sai de uma boca com dentes desarrumados, porém brilhantes como diamantes que nunca viu. Mas esta boca ele beijou, saboreou, mergulhou a sua alma adentrando pela garganta até à nascente, onde vê a luz. A vida como o ar que escasseia, a esvair-se suavemente, mas indecisa e inconclusa.

    Sente pontadas pelas costas, tenta deitar-se de trás. O suor já se alastra por quase todo o quarto, como se traçasse uma rota de fuga, para quem vê a morte tão perto, mas sem saber chamar-lhe pelo nome, reconhecer-lhe o rosto, abraça-la, sentar-se com ela à mesa e tomar os últimos copos de cerveja gelada. Sempre acreditou que o inferno é quente. Então fará falta a sensação da cevada fria descendo goela abaixo, espalhando-se entre as veias, refrescando a alma, como sempre fez questão de descrever em noites de baladas com amigos.

  • As pedras não adormecem

    Vejo da janela como o mundo não para apesar das águas que vem do céu e tomam o chão, trazendo novos barulhos para o quotidiano, muitas vezes ocupado pelas conversas em várias línguas dos turistas. Os carros abrem caminhos no alcatrão coberto de água, as poucas pessoas que se fazem à rua, tem de inventar novos estilos enquanto caminham ou se esquivam das gotas que cada vez mais caiem grossas. A vida, tende a se adaptar a um dia cinzento, em que a chuva que vem se cogitando há vários dias, não se adiou. Chove em Belém, as águas correm pelo alcatrão e traçam-se novas rotas para Maputo.

    Há dias que não vejo notícias, não leio jornais, não consulto sítios de notícias na internet, muito menos entro em grupos de redes sociais em que a informação corre a velocidade maior que o tempo. Todos os vícios, as teorias sobre a importância de saber o que se passa a volta e no mundo esvaziaram-se desde que os ventos levaram-me para este lado do oceano. A morte da Rainha chegou-me de forma inevitável por comentários, muitos dos quais posicionamentos e afirmações e não propriamente um rescaldo do que aconteceu com a monarca. Então continuo desinformado.

    A chuva que cai leva-me de volta para casa. Os receios, a cada gota que se intensifica, só aumentam. Custa-me a sair da janela, procuro acompanhar o percurso das águas, vejo que correm com preguiça. Escuto cada gota que cai e se faz eco das chapas de zinco da velha casa do meu pai. Cada gota, como marteladas que furam o zinco com as ferrugens do tempo, deixando as águas passarem entre buracos que foram se abrindo, até ao chão onde temos de nos esquivar. Da correria para apontar a esses buracos baldes, bacias, tigelas, púcaros, e tudo a encher em segundos e depois a escorrer chão a dentro, e de repente todo o chão estava húmido, o desespero vem sem pânico, sabemos que, apesar de tudo, somos sortudos, a casa não inundará, os poucos bens, a mesa de madeira, a secretária onde sobra o orgulho de tempos de funcionário do meu pai, as cadeiras plásticas, a estante onde ainda há marcas do televisor avariado, não serão atingidos pelas águas. As gotas, apesar de teimarem a inventar novos buracos a cada chuva, sabiam o limite da desgraça. Não iam para além de só molhar o chão todo.

    Os dias de chuva são longos, parecem levar anos. E grande parte do tempo estamos acordados, até onde o susto souber espantar o cansaço e o sono. Quando as coisas parecem, finalmente, calmas, apesar das gotas ainda murmurarem sobre as chapas, vamos para os quartos, para outras batalhas enfrentar. As camas, que só nos lembramos delas mais tarde, tem algumas zonas molhadas. Os cobertores que julgávamos velhos são os únicos da casa e estão todos molhados. As gotas que dançam sobre o zinco, foram achando novos caminhos para dançar connosco dentro da casa. Então vêem-nos a inspiração e a improvisação. Dançando sobre a chuva. Com a força que sempre sobra para esses momentos de alta exigência criativa, carregamos as camas e ensaiamos posições que escapem das gotas que irrompem do céu até dentro da casa. É um vira-vira até que o quarto dê um jeito em si mesmo e, de repente, as coisas se ajustam. Acabamos por aprender sobre a anatomia de uma cama, sobre em quantas partes se divide uma cama e quais delas estão mais molhadas que as outras. E então ajustamos o corpo essa nova descoberta.

    Dormindo praticamente sobre a água, com os corpos esgotados de cansaço, somos pedras onde as águas da chuva batem e fazem as curvas até ao dia seguinte que chega com a nossa indiferença à passagem do tempo. As pedras não adormecem, então desconhecem o amanhecer. A vida corre lá fora. As mulheres há muito que preencheram as ruas organizando os seus quintais, saudando-se. As crianças já brincam nas águas que tomaram o lugar da arreia nos seus quintais e na rua. Os primeiros olhares do novo dia são sempre sobre os caminhos da chuva. E nas conversas logo se percebe que choveu para todos. Para uns, choveu tanto que fez-se um oceano dentro de casa, em breve vão navegar os maiores navios carregados de tralhas que eram objectos de luxo para os seus donos, rumo à lixeira ou vão secar pelo menos as madeiras, para depois serem lenha, e servirem para a cozinha. Para outros a chuva foi um bailado, dançou-se a noite inteira. Mas houve aqueles para quem a chuva foi uma canção, foi ópera, alento para suas almas, estava uma noite boa para relaxar, só não deu para ver um filme, porque a luz quando vai, vai para todos.

    12.09.22, Lisboa

  • O mundo dentro da boca

    Até antes de conhecer Lisboa, pensei que gostasse de caminhar, mas percebo que de caminhar, só conheço a beleza das planícies da minha terra. A areia leve, cinzenta, amolecendo o peso do corpo que vai com as suas intenções, o cheiro da poeira e o capim verde nas ruas do meu bairro. Conheço alguns solos íngremes e movediços da vida, mas os sobe-desces de Lisboa, confesso, estão além do carma da vida de distâncias que levamos desde a nascença. Cresci a ver as pessoas a caminhar. Aliás, já vi mulheres, dando parto em plena caminhada, na rua, no my love, o nosso salvador transporte público, no carro do tio Chico ou numa barraca, como aconteceu com Lúcia. A caminhar nós nascemos. Então penso na vida como um caminho. Nós nascemos caminhando e morremos em marcha.

    Vejo a vida a partir das nossas casas lá no bairro. Podemos percorrer quilómetros num dia, dentro dos quintais, dependendo do que o corpo necessita. Casa mesmo, para muitos de nós, é o quarto e a sala. O resto são complementos. A casa de banho, a cozinha, muitas vezes estão longe da casa. Dispensa-se a dispensa, o que deixar lá? Nas nossas vidas tudo é escasso, imediato e não envelhece. Nada a dispensar. Nada a guardar. A comida que, por hábito, os assalariados compram sempre em quantidades que mais ou menos cubram o mês, fica debaixo dos olhos e do nariz, não vá algum feiticeiro deitar as suas azas sobre o que vai alimentar os nossos corpos e deixar o espírito pronto para acolher as mazelas da vida.

    No parque que fica perto da casa onde moro, temporariamente, que nunca tinha ido, apesar de estar a dois passos de casa e de passar pelos meus olhos todos os dias, vejo a vida a correr devagar. Sinto por dentro a diferença por ter ido ao Jardim Vasco da Gama, um espaço para as famílias e para os solitários como me sinto nesta meia manhã de sábado quente de Belém.

    Todas as vezes que fui a um jardim foi porque ou a vida estava encalhada ou porque estava sem um tostão no bolso à hora do almoço ou porque, enfim, havia sempre um caos na cabeça, então precisava de um alento, um lugar em que, não estando sozinho, poderia tudo ser-me indiferente. É verdade que muitas dessas vezes, jamais consegui me abster. Nunca foi assim em Maputo, nunca é em Lisboa. É impossível abster-me dos afazeres de cada um naquele momento e de alguns contrastes. Do casal já com alguma idade, aos gritos, com palavrões que não chegam a ser insultos à moda portuguesa. Um espantoso e avulso “caralho” repetido várias vezes para a mulher que já se cala e só gesticula, para o homem que parece praticar uma coreografia de dança. Vocifera, pragueja, faz promessas, rasteira-se, cambaleia, quase cai, cospe aos pés da mulher, vai ao carro, abre a porta, quando a mulher vai também abrir a porta do passageiro, o homem grita ainda mais, uma coisa qualquer que não entendo, nem a mulher entende, fica de braços abertos, liga o carro, recua, a mulher vai atrás, então para, acena qualquer coisa, e então ela entra, finalmente, mas sem bater com a porta, com uma calma de quem vai sentar-se sobre pregos e vai ter de esquivar-se de agulhas em sua direcção. Tudo me ocorre em câmara lenta. O carro parte. Ao meu lado, dois adolescentes beijam-se, com desejo e a cegueira dos apaixonados. Observo com perícia o momento, com o espanto de quem se lembra dos melhores beijos só no escuro. Mas estão de olhos fechados, deve estar escuro, algures no seu agora. Beijam-se como se procurassem encontrar um lugar no mundo dentro das suas bocas, como se procurassem entrar num e no outro. A minha avó dizia, o coração de alguém é um país. Mas diante de mim, a boca é todo o mundo. Olho para as horas, são 11h33. Ninguém, em Maputo, beija a essa hora. Volto às crónicas de vida privada da Dulce que a vontade de as ler, foi a que me levou ao parque.

    10.09.22, Lisboa

    Foto: Jardim Vasco da Gama retirada do Guia da Cidade

  • Marcados pela violência

    Não cheguei a ver o que os meus pais, meus irmãos, familiares, conhecidos e desconhecidos, viram. Os horrores da guerra, o medo, o sangue, os mortos com expressões faciais distintas, as mulheres violadas diante dos seus maridos e filhos, outras forçadas ao parto por um canivete ou catana, os homens com os membros amputados, alguns sequestrados para servirem a guerra, o fogo a devorar paredes e torrando a carne viva dos bichos ou de gente. Não ouvi os gritos nem os rostos dos mortos. Mas vi as feridas dos sobreviventes sem glória, com a vida que lhes sobrou a se transformar num peso insuportável.

    Tudo o que sei são histórias contadas, algumas de forma mais ficcionada quanto é possível dissolver os factos cuja crueldade, assumem os vivos, é indescritível. Sei das marcas ainda visíveis nas pessoas e nos lugares, dos edifícios em ruínas e de corpos, ainda vivos, mas com lesões de uma vida.

    Não me esquecerei do pesar, do cheiro das rainhas da noite, do arrepio que passei toda infância sentido, sempre que olhava para a Sara, cuja mãe, conta-se em voz baixa para não despertar os fantasmas, teve de meter o seu bebé no pilão, tritura-lo como um grão de milho que transformado em pó mata a fome. O irmão da Sara foi farinha de milho para alimentar a fome de homens cujo terror só dava apetites insaciáveis. E depois do último grito do bebé, enquanto Sara gemia algures no quintal, a mãe foi levada para servir a outra fome dos homens, durante dias que não se conhecem. A casa até hoje é para toda a zona um cemitério onde os que ainda vivem, por mais que nos esquivemos, sentem o nosso olhar de luto e consternação, sempre que tem de ir à rua.   

    Toda a infância passei fazendo uma viagem, por ano, para a casa dos meus avós em Gaza. Todo esse percurso pela estrada, as marcas da guerra, as cantinas abandonadas e destruídas, as cruzes a marcar os mortos que pouco são lembrados ou estudados, a ausência de vida nos lugares era visível e ruidosa. Todo o encanto da viagem, com as pessoas no machimbombo conversando numa língua que só os meus pais falavam em casa e que iria encontrar meus avós, tios e primos a falar em Chicumbane ou 3 de Fevereiro, pareciam sinos a tocar em honra aos espíritos que vagueiam pelas terras de Maluana.

    E a guerra não acabou, os vivos ainda convalescem, numa existência inútil e degradada. São almas soterradas e agarradas a uma vida de sobras. Cães sarnentos a lamber as suas feridas.

    Na Matola, onde morro, há uma zona que se define pelos que viveram o campo de horror, as catanas afiadas, as balas, as bazucas, o fogo, o grito, o fumo de gente, animais, casas e vegetações carbonizadas. A essa gente ficou-lhes o nome simbólico quanto realístico de “mutilados”. Mutilados no corpo e na alma. Sobreviventes de uma guerra sem “vencedores e nem vencidos”, diria Sophia de Mello Breyner Andresen.

    Os mutilados são apenas uma face, a visibilidade do acto brutal que é o desejo de carnificina que possui a alma humana. Hoje as crianças temem esses homens, como se de monstros se tratassem. Suas conversas são a continuidade dos seus actos no espaço do conflito. Esses são os filhos da guerra. Nós somos os filhos da violência, as reminiscências, de vários conflitos. Uma violência generalizada, institucionalizada e até moralizada. Violentar é um acto moral. Se os pais não batem nos filhos, são maus quanto aquele que gerou e não criou. Um homem que não bate na sua esposa, não merecerá o respeito, nem da mulher e dos filhos que vivem consigo, nem da sociedade. Um professor que não bate no aluno, é fraco, gerou um bando de mal-educados. O professor bom é professor que bate, pune, humilha. Esse terá respeito e vai gerar bons cidadãos. Serão poucos, sim, mas serão bons. Terão sido melhores no corpo e na mente. O que é preciso para se estar preparado na vida?

    Ainda me vêem os nomes, rostos aleijados e almas perdidas, de crianças e adolescentes que tiveram de tomar decisões quase na insanidade, como desistir de ir à escola, depois de violentados. Paus enormes a partirem-se pelos seus corpos duros, como as suas cabeças que não apanhavam nada das lições. Espancados, aos gritos sem socorro, com uma plateia de 50 crianças, impávida, com o coração a bater como um relógio apressado, gemendo-se de dor gratuita, outros enchendo e molhando as calças de diarreias instantâneas e mijo. E o professor com o suor a escorrer-lhe pelo corpo todo, ofegante como se o peito fosse sair pelas costelas, as mãos quase ensanguentadas de tanta força que empregaram sobre um adolescente de 13 anos, com a boca a escorrer-lhe saliva de fúria, olhar vibrante e cheio de fome de matar.

    Algumas crianças, com o passar do tempo, já se riam quando uma outra caia na desgraça do professor, já saiam a correr como numa competição de atletismo, para tirar ramos maiores que a sua altura, preparando a varra da boa educação, como um escultor talha a madeira. Eles riam-se como cães, como alguém cantou.

    E os anos passam…

    Roberto morreu achado numa machamba onde roubava cana-doce. Estava de uniforme escolar mas há muito que não entrava na sala, nem cruzava o recinto da escola. Paulo foi para África do Sul, voltou mais tarde deportado, mais tarde morrera de overdose. Hélder até foi para a tropa, desmobilizou e passou a cafetão e vendedor de droga, agora transformado apenas em fumador e bebedor com a perna amputada, depois de ter levado um tiro em mais uma das suas fugas da polícia… ossos do ofício. Angélica, tão cedo quanto pode, andou nas barracas, teve um número desconhecido de filhos e de lares, até que foi para a África do Sul de onde nunca voltou e nem se tem notícias, com a tonelada de filhos a viverem com os avôs. Marcolino, esse até deu-se bem, tem casa própria, paga muito bem as suas contas, é alfandegário, ganha balúrdios, tem as mulheres que quer, a que escolheu para guardar em casa, espanca-a sempre que lhe apetece.

    Abrir parenteses No jardim do Museu de Arte Antiga onde acabo de conhecer Ronaldo e Eltânia que também me apresentam a Kátia. A guerra e a violência chegaram na nossa conversa como chegam os convites para o café. O Homem é um animal irracional, atira Eltânia. Como é que alguém pode gastar seu tempo e inteligência criando uma arma mais perfeita que a outra para destruir? Pergunta a Kátia, com o espanto próprio de quem cria personagens de outro mundo. No nosso caso, somos filhos da guerra, afirmo. E depois do silêncio, disse ainda, a violência passou para um nível natural nas nossas vidas. Nascemos e crescemos sobre ela, superar isso é um desafio muitas vezes solitário, e os países estão ocupados com dores mais visíveis. Fechar parenteses

    09.09.22, Lisboa

  • O ritual

    Há momentos em que só queremos lembrar. Estar sentados, calados e deixar que a vida rode o seu filme, à sua maneira, ora para frente ora para trás. Numa tarde cinzenta como desta quarta-feira, a vida ficou neutra. E fico então a querer que a voz se insinue entre os atalhos da mente.

    No quintal que agora jaz o silêncio, há ainda reminiscências da vida que se fez entre suor e dor, azares e fintas ao destino. Ainda me lembro, com vozes e cheiros, do dia em que suas lágrimas e gemidos se confundiam com o descer do precipício que já não era escuro.

    Primeiro eram as mulheres que murmuravam e preenchiam os cantos da casa, de rostos mal feitos, espantando qualquer animo que se desejasse. As cabeças que não paravam de abanar em sinal de procura de alguma esperança que a cada segundo esvaia-se, nas paredes que viam um homem a sucumbir de dores, com a alma perdida nos algures da vida.

    Ao fundo, desvenda-se a imagem de uma mulher, de boca trémula, lábios secos, com a gravidade dos gestos apenas aliviada pelo laranja da mulala, entre os cantos escurecidos, de onde de vez em quando vê-se o que resta dos dentes que vão ensaiando alguns cânticos. Olho para as suas mãos atarefadas, com folhas de mafurreira, braços esticados espalhando pelos ares, e batendo nas paredes, com águas cujas origens foram adulteradas pela oração. Ali se pronunciavam palavras que não sei e jamais me lembrei, sussurros que determinavam a expulsão de algum mau espírito.

    Dentro da casa, onde entrei sob olhar impávido das mulheres que enchiam cada vez mais o quintal, quase perdidas nas suas lamentações sem voz, estava o homem deitado no pilão, de costas para a boca daquele objecto, contorcendo-se, de olhos fechados, revirados, com o rosto a maldizer os vivos, sob o coro de cânticos que invocavam o satanás que seria vencido, segurado pelos cornos por quem não perdoa os cobardes. Ali, quase jazia o homem já sem nome, sem pai nem mãe, apenas apegado ao que sobra entre a vida e a morte, com as mãos da mulher de branco que não parava de travar uma guerra que não sei dizer o nome. E os cânticos entre orações e gritos de ordem, aos poucos, iam dando espaço ao silêncio mais barulhento que já ouvi na vida.

    Regresso ao quintal. Tomado pelo suor gelado, ainda com o cheiro dos fumos que saíam negros da sala da casa do meu pai, tomada por aquele povo de mulheres ferozes, quais combatentes de uma causa que se perde, entre a fé e a certeza de seres que disputam a alma de um homem só, já despido de escolhas.

    O corpo do meu pai quase jazia, teimando em não falecer, cambaleando, deitado sobre o pilão, com os olhos embebedados, a boca entre aberta, ora franzindo os lábios, ora mostrando os dentes incompletos e enferrujados, qual aparência original de quem parece que nasceu para comer os frutos decorando os caroços com restos que escapam entre as gengivas desprotegidas. 

    Entra pelo portão a quase viúva e desperta a atenção da audiência, com o barulho das dobradiças enferrujadas. Mais se parece a tradução do grito que parou as hossanas que se faziam sentir por dentro da casa. Foi entrando cambaleando, com o rosto feito o Limpopo a transbordar, arrastando consigo, gente, gado, e levando crocodilos para dentro das casas de palhas onde só sobram utensílios envelhecidos.

    Tentam as mãos das mulheres acolhê-la com ordens de silêncio e calma. Que não vá o ser que ainda se espera que venha a operar milagres, aperceber-se que se chora a alma de um homem que ainda sobram sinais de vida. Mas, em vão, os olhos da mulher, estavam já derretidos, cansados de não saber como vai o dia terminar.

  • Passeios da vida

    Não sei porque andar por estas ruas me leva para uma infância que não teve grandes epopeias. Gostaria de contar grandes histórias de quando miúdo. Talvez tivesse feito carrinhos de arames, mas não fiz, nunca soube, antes levava os arames em casa para ir dar um outro miúdo para fazê-los. E quase sempre ele é que ficava com o melhor carrinho e eu, apenas com o esqueleto. Se traduzisse isso na vida real, ele ficava com as obras e eu ficava com o sonho.

    Também não sabia jogar futebol. Nalgumas vezes, por compaixão, – era difícil sair de casa, os meus irmãos proibiam-me de ir aprender asneiras na rua – depois de se escolherem os melhores para entrarem no jogo, colocavam-me na baliza, com a ideia de que fariam de tudo para que a bola não chegasse até lá. Na certa se chegasse, ou eu esquivava e entrava o golo, ou punha-me a defender para os pés do adversário o que, na mesma, dava em derrota para a equipa. Então restava-me pouco para fazer nas saídas para a rua da infância.

    Enquanto caminho no Chiado, a caminho do Museu Nacional de Arte Contemporânea, sinto no corpo uma pequena brisa, que bate suavemente de frente, e massageia as orelhas. Escuto a voz da minha infância e suas memórias, como se estas ruas tivessem o chão que carregou os meus passos, quando aprendia a andar.

    Nunca fui a um Museu. Muitas crianças do meu bairro ou da minha escola também nunca foram. Então isso nunca foi problema. Não tenho traumas. Fiz outros passeios. Nas idas frequentes para o hospital, por exemplo. Não fui aos famosos passeios escolares. Só vi os outros meninos a encher os machimbombos, com tigelas fartas, com frango assado, batata frita, arroz refogado a cebola, castanho como deve ser e salada. Porque a ocasião exigia, no saco plástico que guardava a comida, uma fanta, para a felicidade da pequenada. Comer assim, era só em ocasiões especiais, nas festas de Natal e fim de ano, dia 01 de Junho e nesses passeios. Mas eu nunca fui para onde esses meninos iam. Fiquei sempre por terra quando o assunto eram os passeios escolares.

    Com alguma regularidade os professores inventavam passeios para os alunos, diziam que era parte complementar das aulas. Eram visitas às praias, aos museus ou ao jardim zoológico. Nunca conheci o jardim zoológico. E não vou a tempo, todos os animais estão quase mortos, resultado de anos à míngua de alimentos, dizem. Nunca entrei no Museu da História Natural, da Moeda ou da Geologia, por exemplo. Tudo acontece-me na virada para a juventude. Mesmo assim, sempre acelera-me o coração sempre que vou entrar num desses sítios.

    Quando o machimbombo partia, com os sortudos, era como se víssemos a vida a esvair-se. Para muitos meninos que ficavam, o dia era como se fosse uma sexta-feira santa, uma sensação de feriado, dia de tempestade e dia em que um homem muito importante ia ser morto e por isso não se podia comer carne nem pão. O céu sempre ficava cinzento sobre as nossas cabeças e as aulas eram uma chuva de granizos sobre os nossos corpos.

    Andando pelo Chiado e dentro do Museu, apreciando as obras, lembrei-me então da alegria que me dava ouvir dos meninos que foram lá, sobre o ambiente dos museus. Os poucos meninos da escola que iam aos passeios contavam à maioria nós que ficava como eram os lugares, solidariamente, ou não.

    As visitas eram divertidas. No autocarro, um machimbombo dos TPM, a empresa pública de transportes, que era alugado graças às contribuições dos pais das crianças, o ambiente era de uma festa. Cantavam, batiam palmas, conversavam em voz alta, contando piadas, rindo, apreciando as paisagens. O professor ia apontando algumas coisas que terá falado ou que falaria nas próximas aulas. Um dos meninos, chegou a dizer-me que as coisas lhes passavam pelo rosto enquanto o machimbombo andava, as árvores gigantes, os prédios, as pessoas bem vestidas da cidade, como “flashes” da máquina fotográfica do tio Horácio. Mas era difícil captar o momento, mesmo assim tinham certeza do que viram.

    Mas quando chegassem ao museu onde iam fazer a visita, era como se a luz apagasse na hora do corte de bolo na festa. Aliás, era frequente na altura, que justamente ao anoitecer a luz fosse cortada. Mas essa é uma outra história.

    Dentro do museu os meninos tinham uma forma própria em que deviam se comportar. Quase tudo era proibido de fazer. O professor sempre gritava, meninos não toquem nisso. Quando um se deslocava para distante dos outros, maravilhado com o que via, o professor já ia dando ordens, volta pra aqui. E quando um menino repetia a “indisciplina”, o professor determinava: tu não vais mais ao passeio.

    Tudo tinha de ser direitinho, como deve ser. Aos passos e às ordens do professor. De repente ele perguntava aos meninos, o que é isto? E os meninos já com medo, ficavam calados. Então o professor respondia, é uma zebra, então não conhecem a zebra? E eles se calavam de ombros encolhidos e olhos molhados. E ele gritava novamente, não conhecem a zebra? O que estudamos nas ciências naturais? Aí eles respondiam, conhecemos!

    Acabada a visita, ficavam num espaço aberto e comiam. Aí a luz era restabelecida. A festa estava de volta. Até ao regresso à escola, era aos cânticos, sorrisos e cheios de energia. E vinham logo a contar-nos as novidades. E nós celebrávamos com eles, como se tivéssemos participado do passeio. E comíamos os restos da comida.

    Entrando agora no museu, tenho todas essas ideias, essas imagens que os meninos contavam. As obras de arte é que mostram-me o caminho. Mandam-me calar, dizem-me para me sentar ou então sentir-lhes os cheiros. O ambiente, o trabalho do curador, vão fazendo-me parar, observar, experimentar e vivenciar a obra. Não sei se os outros meninos visitavam as obras ou o museu. 

    06.09.22, Lisboa

    Foto: Exposição de Nelson Ferreira “a pintura sublimou o espírito, patente no MNAC.

  • O homem que canta na janela

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. Quase todos os dias, excepto aqueles que não estou. E tem vezes que mesmo de tarde o homem canta, também faz parte daqueles dias em que raramente encontro-me na residência nessa parte do dia. Ele chega com sua estrutura, uma aparelhagem de som, pega na sua viola, e toca a cantar, na maioria das vezes, música brasileira. Por vezes alguns clássicos numa língua que deve ser derivada do inglês. E no final, alguns discursos enquanto faz a percussão, e sempre, quase sempre, aplausos dos que comem e bebem no restaurante para onde ele está virado. Certamente aceitando os votos e desejos de bom apetite.

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. E quase em todas essas vezes, não sou indiferente à sua presença. Só não me vou à janela para apreciar o espectáculo porque sempre calha demasiado ocupado em mexer no computador. Mas tem quase sempre a minha atenção, minha reverência, meu respeito, até quando a vontade é que, por uma avaria qualquer, as colunas se desliguem e fique apenas a sua voz e viola. E não se trata de maldades. É mesmo no espírito de interajuda e solidariedade artística. As colunas só fazem barulho. Ouvi-lo só a si seria melhor, porque os sinais de que há ali um bom artista são claros.

    As interpretações que faz e a coragem que tem em fazê-lo em público, valem o crédito. Canta Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Tom Jobim, Vanessa da Mata, Ivete Sangalo, Ana Carolina, até Seu Jorge, Roberta Miranda, Alcione e outros que de tanto terem sido interpretados por outros, chegamos a pensar que ele deve ser o verdadeiro autor.

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. Canções de amor, da boémia, das aventuras, música de puro prazer pela vida, ou de desgostos, mas sempre para rir. No topo do seu repertório, Martinho da Vila, e não falta Reginaldo Rossi, com o seu garçom, para o cúmulo das emoções.

    Desde que sou hóspede nesta cidade que o homem faz-me serenatas. Na última noite repetiu por três vezes a música Esperando na janela de Gilberto Gil. E nas três vezes, não variou nem uma vez o tom e o ritmo. Foi mesmo a cópia do seu próprio original. Três infalíveis vezes. De certeza a ideia era só cantar por uma vez. Mas faltaram aplausos. O restaurante estava apenas com alguns clientes que não parece terem se comovido com o cancioneiro. Antes cantara uma música na variante inglesa, testando a língua dos clientes, acho. Não reagiram.

    Veio Martinho da Vila, canta canta minha gente, deixa a tristeza pra lá, mas sem correspondência. Os poucos que já eram nenhuns se foram embora. Ficou apenas um casal. Devem ser italianos, pensei. Ou franceses. Devem não entender a língua em que canta o artista. Quase desci para o sugerir que interpretasse um Pavarotti, ou Andrea Bocelli, por exemplo, num estilo mais pop, ah, não me ocorreu nenhum músico francês. Daquela língua mesmo apenas Awilo Longomba, me aparece assim, das memórias distantes de uma adolescência em que só contemplei os outros a dançar.

    Mas não acabaria assim a noite. Há ainda um casal por convencer entre as dezenas de cadeiras vazias. A música não tem uma língua. Então chamou o Gil. Gil é Gil, quem resiste ao Gil! Eu mesmo nesse domingo o escutei três vezes. Três vezes. É o Gil. O senhor da música brasileira em toda sua glória e majestade. Ainda me lembrarei de quando o vi em palco em Fortaleza, num concerto intimista, encerrando a Bienal do Livro do Ceará.

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. Quase todas as noites o seu cantar não me passa despercebido. E desta vez, cantou a mesma música três vezes seguidas. Três vezes repetindo com a perfeição aquela que foi a sua primeira interpretação de Gilberto Gil. Na verdade, a intenção era só cantar uma vez. Mas viu-me a espreitar, finalmente, pela janela. Então decidiu fazer um bis, e mais uma, um tris. E no fim acenou com o braço e com palavras.

    – Quero pedir uma salva de palmas especiais para o amigo ali, oh! – disse o homem.

    E o garçom, sozinho no restaurante, aplaudiu efusivamente em minha direcção.

    04.09.22