Etiqueta: Pintura

  • Os rostos de Nelsa Guambe

    Podemos deitar os outros sobre as obras e ver as estruturas frágeis em que se constroem os retratos. Enquanto vamos nos envolvendo os cenários se multiplicam sobre os olhos e vão se construindo narrativas, com personagens a discursar, seus sentimentos, suas intenções, do que se pode ver e do que se pode sentir. Eis a sensação ao entrar no universo de Nelsa Guambe na exposição “Memórias daqui”, patente na Fundação Fernando Leite Couto. Encontramos um conjunto de obras da mais recente criação de Nelsa Guambe, (2023 e 2024), utilizando na maioria das obras a técnica de carvão e pastel de óleo sobre papel e com dois trabalhos em acrílico sobre vela. 

    O estilo de Nelsa Guambe faz pensar na vida dos artistas. Embora tenham, estes, razões subjectivas, que passam sobretudo pelo seu interior, suas experiências associadas na concepção da obra, não se pode olhar para o trabalho artístico e isolá-lo das circunstâncias e contextos em que ele é feito. Não se pode olhar para estes corpos, estes rostos cujos tecidos se expõem para além da carne, não se-lhes procurar atribuir vidas, parecenças e um certo sentido de reconhecimento. Pode ser injusto para o artista, mas essa é a natureza humana. Buscar sempre referências do que vemos: o que lembra? Serão cheiros? Serão lugares? Um acontecimento? Uma pessoa? Um sabor? Qual é o estado de espírito das imagens que se nos apresentam? São várias as perguntas que a natureza humana impele-se a si mesma.

    Por isso a importância da abstração. A importância do tempo. A importância do exercício incansável e acutilante da observação. Olhar várias vezes. Repetir e repetir quantas vezes for preciso, até que tudo faça sentido, ou não. Às vezes, não compreender é compreender.  Esta última condição dificilmente se aplica em Nelsa Guambe. Da sua técnica, dos seus materiais, das suas representações e criações, alguma coisa, no meio de várias interpretações, se compreende. O corpo, o exótico, a fragilidade e a memória. Podemos construir uma narrativa. 

    Quando criança, os dias eram normais até que chegasse o tio Horácio. O fotógrafo andarilho com a sua lente Nikon analógica pendurada ao pescoço, e uma pasta no ombro direito. Tio eram todos nesse tempo, mas o Tio Horácio devia ser o mais famoso. Assim que se pressentia a sua chegada na rua, nós do 904 ainda tínhamos o privilégio do banho militar, e depois vestíamos as melhores roupas das nossas vidas; os de 49, as primeiras casas, iam directo à vaselina que os deixava a brilhar mais que o sol, pois era dali que entrava o fotógrafo sorridente. Um sorriso que era base das poses, com os dentes brancos a conflituar com as caras pretas, lisas e com um certo ar de bondade, com algumas gotas de suor de alegria. Chegado à nossa frente, posicionados no jardim, descalços porque não havia nem fotografia que nos convencesse de calçar, estávamos em grupo posicionados para a foto que só era captada num único clique. Quando olho para esses retratos hoje, todas as sensações retornam com as vozes, os sorrisos, a espontaneidade e a revolta dos que ficaram por fora, zangados por terem sidos excluídos da história. 

    Esta história não é sobre o tio Horácio nem sobre a fotografia, tampouco a rua “O”. É sobre a força de um retrato. É sobre a nostalgia que aqueles rostos, embora abstratos e numa tentativa estranha de irrelevância, mas próximos, familiares e sedentos de querer dizer coisas. Dizer-nos do seu passado, da relação desse tempo connosco, de como a memória é feita de matéria sensível, aos bocados de carvão que se podem apagar ou desanuviar num pequeno lapso.

    É fácil ficarmos pelas mulheres como o centro destas “memórias daqui”. Mas pensemos na natureza no seu todo. Vamos reparar que nas minas de carvão, no abate das árvores, no garimpo, nos matadouros, são os homens a força bruta. Eles é que estão na linha da frente para matar, abater, cortar, queimar, transformar. Hoje as consequências sentimos todos. Este carvão, também matéria para construir estes corpos apresentados por Nelsa Guambe, são produto da combustão, também nós somos feitos de processos de transformação até que voltemos ao pó. A partir daí, podemos reparar de novo nesses retratos que convocam uma certa consciência do clima, da natureza e dos ciclos da vida.

    Reparem nas flores que estas mulheres trazem, esse gesto de ternura, de tréguas, que representa a sensibilidade, mas também a sedução, a paixão até que voltemos aos ciclos existenciais. É nesse contraste que se faz a vida, da flor que nos acompanha em todos os ciclos da vida, do nascimento até à morte, do amor aos desamores, dos presságios e vaticínios.

    Reparem nos olhos dessas mulheres, como estão embaciados, envergonhados, distantes e até numa nostalgia do tempo. 

    E, de repente, como chamados para a dura realidade, somos lembrados da fragilidade do corpo. E não é da mulher o corpo frágil. É de todos nós. É o corpo planeta, é o corpo social. Como sociedade estamos doentes e precisando de cura urgente. Mas não com a pressão avassaladora que arrasta tudo consigo, antes com a subtileza dos sábios, ver, ouvir, meditar, reflectir, dormir, sonhar, respirar e só depois, mas em última instância mesmo, as palavras.

  • A arte dos afetos de Tizta Berhanu

    Quando entramos na galeria Addis Fine Art, situada no coração da capital da Etiópia, chama-nos a atenção a tranquilidade do espaço e o impacto visual causado pelas cores fortes e nas figuras que preenchem os quadros. As personagens parecem indiferentes a tudo e a todos, apenas entregues a si, numa interdependência e leveza que contrasta com a luz das cores. Ocorre-nos o silêncio e a quietude, em primeira instância, de seguida despertamos nos detemos na forma como se preenchem os vazios. 

    A artista é Tizta Berhanu (n.1991) e os quadros monocromáticos vão contra o frenesim destes tempos. Desafia-nos a esquecer os ponteiros do tempo, a abstração das coisas ao redor e dedicar toda a atenção às pessoas, assumir o amor como um ofício em que temos de nos esmerar, deixar que ele seja a casa (revisitando as palavras de Eduardo White), onde as almas se multiplicam na generosidade do gesto, dos sentimentos, na poesia do afeto.

    Nos dias em que temos os olhos voltados para os outros, como se disso dependesse o rumo das nossas vidas, a pintura de Tizta traz figuras que estão voltadas para si ao mesmo tempo em que se abraçam e formam uma comunidade dos afectos. As obras sugerem a unicidade da alma, os corpos, esses, são de propriedade indivudal, mas eles vivem entrelaçados uns nos outros. Por causa dessa necessidade que se tem pelo outro, no sentido do “nós” a que nos desafia o amor, não se distingue as divisões, os limites, onde começa o corpo de uma mulher e começa de um homem, onde habita a criança e até onde vão as mãos que a acolhem. É cada um é mim, como bem o disse o poeta Nelson Lineu. Esse olhar para o outro como a si mesmo. O amor é sobretudo dar-se antes de receber. Não é uma troca, não é uma transação, com impostos, juros ou bónus. É a natureza humana no seu ponto mais alto, quando olhar para nós significa pouco. É estranho como uma certa angústia se nos vem daquela ternura, a melancolia e a serenidade que provém da segurança em estarmos tão juntos que não se conhecem os limites. Em tempos de “likes” e “shares” e “hashtags” que nos simulam estarmos em vida comunitária, em vidas partilhadas. 

    Ao intitular “Agape” à exposição, como rebuscado da palavra grega antiga que designa a forma mais elevada de amor, um amor divino que transcende e resiste a todos os obstáculos, Tizta mostra o que lhe interessa na complexidade humana. Os sentimentos que não se assentam nas coisas, mas no calor que o outro transmite, na confiança que nos põe a dormir no côlo do outro, nesse gesto genuíno de experimentar o sossego e a confiança.

    Addis Abeba que está a transformar a olhos vistos, bem distante daquela que conheci em 2019, que parecia morfar, podre, sem sinais de alegria e aquela frustração de se estar na capital da diplomacia africana, na altura praticamente apenas a sede da União Africana a ser um dos edifícios mais vistosos.  A actual cidade tem um certo brilho, edifícios novos, estradas, jardins e as pessoas num baile de um “à vontade”. A cidade está numa transformação na arquitectura, nos estilos de vida e na organização social.

    As artes plásticas na Etiópia tem revelado artistas que facilmente conquistam o circuito artístico internacional. Para isso também contribuem galerias como a Addis Fine Art, fundada em 2016 por Rakeb Sile e Mesai Haileleul, com foco em artistas etíopes, do Corno de África e das suas diásporas e que funciona como uma importante ponte para o alcance aos mercados internacionais. O caso de Tizta Berhanu é um exemplo, tendo exibido o seu trabalho em outros países africanos e na Europa, por exemplo.

    De volta à exposição “Agape”, a aposta nas cores que se associam à natureza, castanho e cinzento de terra, o preto, o marrom, o azul e o amarelo, não terão sido escolhidos por acaso. O amor que se experimenta no corpo, passa para a natureza, a água, a terra, as plantas, mas também o sonho. É como se a artista nos desafiasse a partilhar a intimidade com o que nos mantém vivos, o vento, o sol, a chuva, a areia e o intangível sentimento que é, afinal, a força do individual e do colectivo.

    Em algumas obras é como se a artista quisesse que o espectador experimentasse a atração física, assim como o confronto, a verdade, a empatia e a honestidade. Parece controverso, mas não é assim, às vezes, o campo dos sentidos? Os olhos não tem segredos, nem enganações. 

    A própria artista tem uma percepção que vai para além do tato, do tangível ou do mensurável. Não se trata apenas de uma abstração flutuante, mas de algo real e vivido. Não está longe, mas perto, por vezes à distância de um braço. Além disso, se olharmos para ele de um ponto de vista teórico, é suposto ser o todo final; um concreto onde todos os pequenos detalhes se juntam num grande todo; como o conceito de Deus, por exemplo.  Por isso, não o posso evitar, mesmo que o tente fazer intencionalmente. explica Tizta Berhanu.

    Se a temática do amor já foi explorada até a exaustão, ao decidir abordá-lo, o artista tem de estar muito certo do que faz. E isso Tizta conseguiu, desde o conceito, a técnica e a empatia que transmite, fazendo com que o espectador seja parte do conjunto da obra. A forma como aplica a tinta sobre tela, preenchendo os espaços deixando os vazios necessários, colocando cada elemento no seu devido lugar onde a preocupação não é no valor utilitário, é sobretudo a humildade de deixar um lugar para os outros enxergar com os sentidos o que pretende transmitir. Ou seja, cada observador terá de intervir para a constituição do cosmos e dessa energia infinita da empatia.

    Tizta Berhanu nasceu em Addis Ababa, Etiópia, onde vive e trabalha. Licenciou-se em 2013 na Universidade de Adis Abeba, em Belas Artes e Design. Aos 34 anos tem todo um caminho a percorrer, experimentando, confrontando, mas não há dúvidas sobre o seu instinto e técnicas apuradas. 

    E porque a sorte anda com os peregrinos, enquanto fazia a visita à Addis Fine Arte, Mesai Haleileleul, o fundador da galeria, falou sobre a plataforma que tem a ambição de revelar artistas emergentes, ao mesmo tempo que procura projectar o melhor das artes plásticas etíopes pelo mundo. A ideia também, segundo Mesai, em conversa informal e que por isso não cito na primeira pessoa, a ideia é criar condições para que a arte possa ter o seu próprio tempo, que o caminho seja feito em harmonia com a natureza e com os princípios que cada artista persegue. Enquanto isso, ser um centro onde a arte africana possa se afirmar.

    A exposição “Agape”, foi inaugurada a 6 de Janeiro e pode ser vista até 8 de Março na Addis Fine Art, na capital etíope.

  • Mulheres “visíveis e invisíveis”: a desconstrução do sagrado

    Enquanto Índia celebra o Dia da República uma exposição no Museu de Arte e Fotografia (MAP) guia-nos para as dimensões e compreensões da feminilidade e do género, com um discurso que se transforma no tempo, enquanto o país também assiste a mudanças. 

    Percorrer as cerca de 130 obras de arte expostas na galeria do quarto andar, pode revelar o que está no consciente e subconsciente,  nas montras sociais, por dentro e fora das famílias na Índia, desde o século X à actualidade, através de esculturas, tecidos, pôsteres, pinturas e fotografias do acervo do MAP que foi inaugurado em 2023, em pleno centro da cidade de Bangalore (Bengaluru), na província de Karnataka, região sul.  

    MAP – Museum of Art and Photography, Bengaluru, Índia

    Ter ido visitar a mostra horas antes da celebração do Republic Day foi mera coincidência — pertinente coincidência —, uma vez que a exposição Visível/Invisível: Representação da Mulher na Arte através da Colecção MAP, está patente desde Fevereiro de 2023 e vai até 1 de Dezembro de 2025. Isso permitiu fazer uma leitura, ainda que sempre relativa, da nação, através da arte e da abordagem feita à vida das mulheres. A maioria das obras pertence a artistas masculinos e desde logo vai saltar à vista a mulher enquanto sexo oposto (ao homem), que significa, primeiro, de  presença, porque ela existe é a musa, e suscita o interesse por parte de quem a vê, e também está sob o domínio desse outro (homem); em segundo, própria representação nas artes, como ela é relegada ao anonimato por várias razões, sobretudo as culturais (sempre muito complexas, entre grupos sociais, castas, religiões, etc).

    A exposição enquadra perfeitamente toda a complexidade do país, ao subdividir-se entre temas baseados em narrativas e contra-narrativas: Deusa e Mortal, Sexualidade e Desejo, Poder e Violência, Luta e Resistência.

    “Naag” (1986), obra de Mrinalini Mukherjee

    A arte permite-nos conhecer o outro, perceber as complexidades humanas e o meio; a arte é humana ao mesmo tempo que política, religiosa, além do interesse de reflectir a própria arte. Contra a ideia da nação conservadora, ficou-me a secção Sexualidade e Desejo e Luta e Resistência. Além da própria feminilidade, a mulher na sociedade ou o discurso político de género, questiona-se a história, as crenças, as tradições, de forma provocadora ao mesmo tempo que sensual. As obras contemporâneas reflectem as crises identitárias, levantam uma outra narrativa sobre a mistificação e sacralização do corpo feminino  como forma de controlar as mulheres ou relegá-las a um utilitarismo. Isso inclui a sua própria sexualidade, os direitos e as liberdades.

    Nessa linha de pensamento, a obra de Mrinalini Mukherjee (1949–2015) intitulada “Naag”, de 1986, feita de fibras entrelaçadas, plissadas e pregadas com alfinetes, tingidas de roxo e marrom, com dimensões humanas, chama atenção. Numa ligação título-obra, desvenda-se a ideia da artista, ao fazer uma invocação ao sagrado, às crenças religiosas, aos deuses e às figuras patentes nos templos hindus. Ao levar-nos a uma dimensão em que o objecto (obra) confronta-nos com o seu tamanho e forma, facilmente procuramos associá-la ao corpo ou as partes dele. Ao retirar do campo espiritual (deuses) a mulher, e expô-la na sua sexualidade, formula um discurso poderoso sobre o corpo, associado a sentimentos e defeitos. Tornar a mulher “santa” para controlar o seu pensamento e atitudes. “Nagg” (acredita-se ser uma raça divina, ou semi-divina, de seres meio-humanos, meio-cobra), é uma outra narrativa sobre a intimidade feminina colocada à nu e em dimensões que não pode ser ignorada ou passar despercebida.

    Como se dialogasse com as ideias de Mrinalini está o quadro de Mithu Sen (n. 1971), em aguarela sobre papel artesanal. A obra apresenta um ser em forma de serpente que também remete aos intestinos, com uma imagem minúscula de um tigre colado, uma cabeça de mulher com uma língua comprida e uma flor cor-de-rosa. Continua assim o pensamento crítico sobre a imagem feminina, num discurso que roça o grotesco e o sensual. O rosa sobre branco acende sobre os olhos, revela essa suave rebeldia, o perigoso desejo. As narrativas sobre o mal e as origens da humanidade pintam uma cor cinzenta sobre a mulher, conforme convém aos narradores, sendo que só se recorre a ela — já num olhar aos hábitos e costumes locais — para fins de procriação, por exemplo. Portanto, ela por si, é a encarnação do pecado, mas associando-se o desejo do homem e as suas necessidades de “consumo”, torna-se essa luz, uma flor. 

    Na abordagem à luta e resistência na história da Índia, uma crítica à organização social, aos sistemas de castas, está a instalação “Tríptico Mukta Salve” de Rahee Punyashloka (n.1993) com o contundente manifesto da jovem estudante Mukta Salve baseado no texto “About the grief of the mangs and the mahars” (Sobre o luto dos Mangs e Mahars), considerado uma das primeiras obras de literatura feminista dalit. Aqui se concretiza a ideia da sociedade complexa indiana que referi-me na introdução deste artigo. É a literatura a ser chamada para o campo visual, em jeito de homenagem a uma figura que abordou num contexto delicado a vida da classe dos renegados do sistema de castas. A instalação contempla um retrato da página original da publicação denominada Dnyanodaya de 15 de Fevereiro de 1855, onde foi publicado pela primeira vez o manifesto com o título “Condição dos Mangs e Mahars – Ensaio de uma rapariga Mang em Poona”, publicada em inglês, hindi e marathi.

    “Tríptico Mukta Salve” de Rahee Punyashloka

    A fechar deixo um excerto do manifesto de Mukta Salve que pode ser lido na íntegra aqui.   

    Ó sábios eruditos, dobrem seu sacerdócio egoísta e parem com a tagarelice de sua sabedoria vazia e ouçam o que tenho a dizer. Quando nossas mulheres dão à luz bebês, elas não têm nem mesmo um teto sobre suas cabeças. Como elas sofrem na chuva e no frio! Por favor, tente entender isso por experiência própria. Se elas pegarem alguma doença durante o parto, onde elas vão conseguir dinheiro para médicos ou remédios? Já houve algum médico entre vocês que fosse humano o suficiente para tratar essas pessoas de graça?

    Obra Hidden Trails de Chitra Ganesh
    Fachada do MAP

  • Quehá e Santos Mabunda – Quando a técnica revela a leveza

    Entre Santos Mabunda e João Paulo Quehá, há uma mistura de técnicas e simbolismos que nos remetem à paixão que os artistas têm pelo processo criativo na sua abordagem à vida, num estágio em que há uma transfiguração do belo e dos seus significados.

    Não podia haver um encontro mais rico em representações, como o destes dois artistas que constroem as suas obras em como se tratasse de uma crónica sobre os seres, seus dilemas, complexidades e encantamentos. Dois artistas que vão para além do mero cumprimento do dever criativo: o de deitar sobre a tela a técnica do saber construir obre a mestria dada pelos anos de aperfeiçoamento.

    Os dois artistas são profundamente comprometidos com o detalhe e a minúcia para transpor aos olhos de meros mortais o que se passa no seu âmago, no diálogo entre a sua consciência e as coisas à volta.

    Santos Mabunda (n. 1982), com o papel, a caneta, o lápis e às vezes o pincel, vai talhando com detalhes milimétricos, corpos, rostos, objectos, deixando a sua alma nesse percurso da mão. Esse trabalho é carregado de significado, desde o pessoal ao colectivo, remetendo-nos para a coreografia e o bailado. Ainda com as assemblagens dá-nos a sensação de multiplicação, como se a vida se repetisse nesses encontros e sobreposições.

    Esta mostra, dos mais recentes trabalhos, é como se viesse dar-nos todas as certezas sobre a afirmação de um artista completo, que no caminho que escolheu, que exige a aptidão de génios e a paciência de um monge, só há um destino: a consagração.

    João Paulo Quehá (n. 1975) segue pelo caminho da leveza da cor, como se procurasse deixar que os seres e os objectos tomem protagonismo, através do seu discurso e sentimentos. A preocupação de Quehá está em mostrar as pessoas e o seu subconsciente, seus desejos e o que paira a sua volta, seguindo uma linhagem carregada de elementos da natureza, para além do espaço habitacional, os animais e a sua relação com a vida das pessoas.

    É dessa leveza que nos referimos e que nos atrai para outros mundos, que exige de nós a total disponibilidade para enxergar a intenção e não a cor, nem os objectos. Um artista com espírito libertino, vocacionado a encontrar formas para as mais inusitadas e subjectivas sensações da alma, numa sociedade que se reinventa todos os dias, mas sem se ultrapassar os problemas.

    A pintura de Quehá é ritualística, assente nas estórias e histórias destes e de outros tempos, do tempo em que o Homem e a natureza se encontravam numa coabitação harmoniosa, antes dos conflitos e rompimentos por vezes até não pacíficas, entre a matéria e o espírito.

    Num olhar mais contemporâneo, seria de se questionar que seres habitam a cidade e o âmago das pessoas, engolidas pelo ego, pelas exigências do quotidiano, do trabalho e da ganância. Esse questionamento que se traduz como espantos, não são, de todo, um manto de pesar que se nos lança, é sobretudo, o apelo para a o abrandamento, para o fim do medo, para a consciência de que tudo à nossa volta são bocados da nossa acção e atitudes. É preciso ver com os olhos da alma para enxergar as pequenas coisas que fazem a vida ter algum sentido e prazer. Só um artista no alto da sua sensibilidade e humanidade como Quehá, nos pode direccionar para tal mensagem, sem impor a sua visão, escolhendo a paleta de cores que nos permite esse espaço de constatação.

    A diferença de idades e de gerações não os distancia na sua qualidade. As vivências sociais e os processos históricos são impossíveis de ignorar ao olhar para o resultado do seu trabalho, afinal, um artista é moldado nessa combinação de factores. A arte é sobre pessoas, sobre o ser humano, então é para elas que é feita. Esta exposição é o reflexo desses dois princípios, a das vivências sociais dos artistas e a de representação das pessoas e da sua condição humana (vida em comunidade, crenças, valores e paradoxos).

    Juntos, Santos Mabunda e João Paulo Quehá dialogam, abrem e constroem caminhos por onde passa a vida, o sentimento das pessoas, os rituais da cura e da terapia, a complexa dimensão humana da arte e os seus vaticínios.

    Eduardo Quive

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    Texto de apresentação da exposição de pintura e assemblagem de Quehá e Santos Mabunda, intitulada “Entre Vozes e Caminhos”, patente na Fundação Fernando Leite Couto de 05 a 29 de Junho de 2024.

  • Suzy Bila: “nua e crua”

    Suzy Bila é uma artista complexa, que consegue unir o conceptual e o devaneio, a lembrança e o sonho, que faz confundir a saudade e a nostalgia, ou a crítica e a constatação. É uma artista existencialista.


    Suzy Bila é um nome que circula distante do horizonte comum das galerias de Maputo, a cidade que a viu nascer, crescer como pessoa e a despontar nos anos da paixão ilusória pela arte de pintar. Foi às espreitadelas que viu o pincel a compor o seu universo imaginário, pela mão de mestre Noel Langa, lá no bairro Indígena, hoje Munhuana, com quem mais tarde, mas ainda moça, viria a “aprender” a pintar, a encontrar nas cores, estórias, sensações, gentes e lugares e a dar asa à sua realidade imaginária.

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    Parece complexo compreender o embrião artístico assim, uma realidade imaginária, ou a magia das realidades que exigem da autora, mais do que uma simples contemplação, o questionamento. Essencialmente, é disso que é feita a artista Suzy Bila, pode se notar na exposição “nua e crua”, um projecto que começou por ser “as flores que nunca murcham”, que teria sido no Museu Nacional da Arte, mas que veio a cair no CCBM – Centro Cultural Brasil-Moçambique, em Maputo, que é dirigido pelo conhecido homem das artes Jorge Dias que, sem dúvidas, foi motor para esse desfecho.

    Um conjunto de obras que nos faz viajar pelas raízes da autora, pelo percurso artístico e suas experiências de vida, mas também pelo seu pensamento e suas insónias. Suzy Bila é uma artista complexa, que consegue unir o conceptual e o devaneio, a lembrança e o sonho, que faz confundir a saudade e a nostalgia, ou a crítica e a constatação. É uma artista existencialista.

    “Num olhar às suas telas, vem a poesia, o devaneio, naquelas imagens em que não dizem, sussuram coisas que habitam à nossa volta, mas são como pedaços de inexistências.

    Aliás, enquanto pausa-se o olhar pelas telas enormes, frases, inspirações poéticas, dão mensagem a uma mensagem que já vem densa pelas cores que compõem os seus quadros.

    O nascimento de um novo ser, as dores do parto, o alívio de quem vê as lágrimas desse ritual de povoar o mundo, ou a alegria, de quem sabe que o mundo é assim, os homens e as mulheres, vem do ventre, essa sina que, ora fortalece, ora fragiliza quem gera, alí está, em obras que querem dizer mais do que se pode ver, é essa a impressão que fica na sua expressão.

    O vermelho que escorre como uma lágrima num vale em que escorrem todas as angústias, vermelho, ora que nos pode enganar com o erotismo ora como uma marca indelével das feridas que não podem mais sarar, nem na memória da criadora, nem da criança que cresceu no bairro de Maxaquene, ao pé do Posto de saúde 1º de Maio e assistiu a cenas de mulheres no (des)espero do parto, pelo corredor do hospital, aos gritos, aos prantos, aos gemidos de quem espera e desespera.

    Um conjunto de obras que remete ao silêncio que grita por dentro, é a arte a despir a podridão que se esconde entre quatro paredes, a paixão ardente, o ciúme doentio ou uma tal masculidade que fere e mata. Um quarto em que se guardam todos os segredos de uma sociedade em que os seres acreditam-se puros. É a mulher e os dilemas de que já foram retratados, mas tampouco com essa realidade em que a sua “sensibilidade” reclama a atenção.

    Resumir, por isso, a obra de Suzy Bila, ao mundo controverso e intrigante da mulher seria reduzir uma artista de mão cheia, que já não tem mais nada a provar. A sua obra vai para além do limite do normal. É a poesia em todas as línguas e linguagens ou o silêncio que canta, ou o decanto do medo e ainda um hino à memória, afinal, “nua e crua”, é, sobretudo, um presente do tempo aos olhos de ver…    

  • Emília Duarte reflecte as relações humanas… ou o que sobra delas

    É o primeiro passo pelos próprios pés e sem companhia. Emília Duarte, na sua primeira exposição no CCBM – Centro Cultural Brasil-Moçambique (Abril, 2020) intitulada “Desconexão através da conexão”, coloca-se para o olhar do público sobre aquilo que se “vê” todos os dias, mas que os olhos, que estão preocupados com seus próprios egos e vaidades, não permitem tactear a realidade.


    Desde a natureza… a forma das coisas, as cores, as paisagens, mas, sobretudo, as pessoas e dos seus utensílios, ou como diria Mia Couto, quase resumindo a ideia desta artista, inutensílios. O pincel e a tela de Emília são uma fotografia que nos leva ao foco do que várias vezes nos retira esse foco. A nossa relação com os espaços, os acontecimentos e os momentos e como pretendemos conservar essas memórias.

    Não será o Homem, hoje, um corpo sem vida, uma caixa vazia, sem função nenhuma, quando desligado a aparelhos. O que acontece se se desliga o telemóvel involuntariamente, seja por descarga, ou por perda ou roubo. Quão desconcertados ficamos quando desligados esses aparelhos que nos retiram a espontaneidade natural dos sentidos, com os gestos e a memória humana já desconfigurada para captar e guardar esses momentos.

    É a isso que nos convida a pintura de Emília Duarte, que com simples gestos de pincel, vai intrometendo-se nos hábitos que podem tirar a escassa liberdade que tanto a humanidade reclama todos os dias e que, diga-se até, as tecnologias de comunicação até são aliadas. E a artista não procura olhar para estes problemas de longe, como um corpo estranho e apático, antes pelo contrário.

    “Tenho amor pela introspecção, estou sempre a reflectir sobre a minha vida e principalmente sobre o que eu vejo e porque não retratar isso, o que vejo, o que sinto?”

    Também faço parte do problema, também fico ao celular, perco tempo, também comparo, então achei importante reflectir, como é que nos comportamos quando estamos com os outros. É como se quiséssemos sempre fugir da realidade”. Portanto, uma exposição que para além da contemplação do “belo” é um chamamento à reflexão, justamente nestes tempos em que as coisas primeiro acontecem, depois é que é pensadas.

    Pensar nas sociedades contemporâneas, nos dilemas da modernidade, do conflito entre a ostentação e a inocente intenção de não perder no esquecimento da nossa cada vez mais frágil memória, daquele episódio que enquanto ocorria se quer nos demos conta do detalhe e da importância, porque procurávamos o telemóvel, preocupados na forma como os outros irão ver e como irão reagir, com quantos “gostos” e “partilhas” até à “viralização” dos mais bizarros acontecimentos e de imediatos analisados fenómenos sociais.

    Em conversa na Galeria Portinari do CCBM, fez questão de afirmar que, de todo, os telemóveis e as redes sociais não são uma catástrofe para as gerações actuais. “Os medias sociais e os celulares não são um diabo. Podem ser muito úteis, tem coisas muito boas, tal como a comunicação rápida, partilha de informação importante”, considera para depois chamar atenção ao perigo “quando nos fixamos a coisas que não devemos, quando perdemos tempo, invés de cuidar das nossas vidas, o nosso trabalho, quando perdemos o controlo”.

    Emília Duarte teve sempre na arte a essência para a sua formação, enquanto pessoa e com relevância para a profissional que se tornou. É formada em psicologia e não consegue encontrar distâncias com o que forma a sua personalidade.

    “Comecei com o desenho muito mais nova. Amava desenhos animados japoneses, ‘manga’, o meu primeiro plano era ser desenhadora da animação japonesa. O tempo foi passando e comecei a envolver-me com a moda, enquanto vivia na Itália. A influência da moda foi muito grande. Prossegui enquanto estilista até a minha chegada a Maputo onde fiz trabalhos com moda e cheguei a participar no Mozambique Fashion Week.”

    O direccionamento da sua alma artística para o mundo do desenho de modo não matou a artista de pincel e tela.

    O bichinho do desenho, de criar estórias, a pintura começou a bater mais forte. E decidi voltar para trás, voltei a pintar, sempre tive essa veia, do desenho, sempre gostei.” Conta a artista que teve nas irmãs Nelly e Nelsa Guambe amizade necessária para despertar o monstro das telas que agora vemos nas paredes do CCBM, substituindo, não completamente, porém destacadamente, o papel e o lápis.

    Nas suas telas, há um encontro para lá da provocação da reflexão em torno do material e dessa ausência humana provocada pelos aparelhos. A substituição das sensações, da contemplação e do prazer pelo contacto, pelo virtualismo que chegam a afectar as relações humanas, contrariando até a ideia conceitual de “rede social”.

    Tenho amor pela introspecção, estou sempre a reflectir sobre a minha vida e principalmente sobre o que eu vejo e porque não retratar isso, o que vejo, o que sinto? Às vezes tinha questões na cabeça, coisas que sempre procuro entender. E o desafio está aí, colocar a ansiedade no papel, colocar tudo, pintar, porque não”, explica a artista quando questionada sobre o que move a sua pintura.