Etiqueta: música

  • We apologise for the delay: o regresso aos palcos dos 340ml

    Em meio a ebulição social veio a música, regressaram ao recreio os rapazes sem se deixar enganar pelo tempo e os contextos. A banda 340 mil subiu ao palco do Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), em Maputo, para encontrar um público que desesperava, embora em êxtase, pela música que apela à uma estranha tranquilidade, a metáfora dos sentidos e vibração. E eles vieram só um pouco depois das 20 horas, hora marcada para o concerto, que antecipava o verdadeiro “show ao vivo”, que causou “amor e espanto” e uma correria desenfreada para a compra dos bilhetes, tendo esgotado em cerca de cinco dias. Bom para nós os que fomos por últimos. 

    Foi Rui Soeiro o primeiro a entrar no palco e pegou na sua guitarra-baixo. Seguiu-se Paulo Chibanga, o baterista que virou uma das pessoas mais influente da cena artista moçambicana, conectando artistas de Moçambique para o mundo e do mundo para Moçambique; depois entrou Tiago Correia-Paulo, o criativo da guitarra solo, acenando para a plateia, como quem vem encontrar-se com a ‘malta’. Os três prepararam o enredo para chegar Pedro da Silva Pinto, aquele que parece nada querer, para dar voz e sonoridades líricas. Era o começo do fim da secura.

    Paulo era o que emitia os sinais do fim da angústia. A alegria de estar no seu lugar. Qual maestro de uma orquestra, “gesticulava” para que todos se levantassem, para que a alegria de viver aquele momento não fosse contida, para que não se reprimisse a vontade de acenar, nem que seja com o abanar sereno do corpo, da cabeça, ao bom estilo dub. Rui dava o toque agudo necessário para o balanço. Tiago dava asas, o apelo aos sentidos e lá estava Pedro, a atribuir palavras a tudo o que se passava, a toda aquela vibração, a toda aquela apoteótica recepção. 

    “You knock me over with your kung fu smile”, cantaram, enquanto o público de várias gerações e origens, é que deixava-se, na verdade, derrubar-se com aquele modo ‘kung fu’ de fazer música, tal mestres, a deixar o ritmo ‘bater’. 

    Foto cedida por Pedro da Silva

    Tiago ia dedilhando a guitarra quando parou e atirou “vou ter que repetir isto, perdoem, já estou cota”. O público pareceu recusar-se a admiti-lo. Foi em razão de ser, a energia transmitida ia para além das idades. Os diálogos entre os três, Tiago, Paulo e Pedro – com os nomes a remeter-nos para um cenário bíblico – conferiram uma atmosfera intimista, humana e humanizada. Envolver o público no acto de criar e fazer a música. Mostrar a fragilidade, a temporalidade e essa coisa estranha que estar no palo, enquanto os outros olham com os olhos esbugalhados, cheios de magia e aquela saudade que ainda desvanece, na realidade instalada: são mesmo os 340ml ao vivo. Muitos, como eu, não se lembrarão de os ter visto em palco. 

    E a noite era de recreio. A sala grande do CCFM reduzia-se no calor humano e na alegria infantil daquele jeito de actuar dos já “cotas”. Paulo recordava-nos, incansavelmente, dos cerca de 15 anos de paragem e os desafios do restart, de tocar com o mistério dos anos 2000 naquela nada serena cidade sul-africana de Joanesburgo. Mas os quatro estavam para “as curvas”. E ninguém parou de cantar, com os coros a serem atribuídos a uma plateia que deixou de ser plateia, era uma companhia para Pedro, que se deliciava a dar voz à letra e nas folgas fazia o serviço extra, nas melodias, orada batendo nos teclados, ora soprando.

    Quando tocaram o sucesso “Midnight” a temperatura já estava óptima e gritar fez bem, como aliás, cantam: “Stars are out, the temperature is right / Hold my hand, it’s ok if you scream”. E ficamos todos a sorrir. E depois ficamos todos a pedir mais e mais, eles foram e voltaram. E depois foram e voltaram mais uma vez. E depois o Paulo veio buscar o que deixara atrás, sem sentar-se na bateria. Aí percebemos que sim, tínhamos de despertar do sono, e lembramos que eles pediram, “Sorry for the delay”, então fica a resposta, We apologise for the delay.

  • Zaida, o princípio

    Zaida, não quero escrever-te no teu aniversário, nem do nascimento nem da morte. Não podia cair na razão do poeta que vaticinou: Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:/ Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;/ Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada. Não, não tem razão o Álvaro Campos. Escrevo-te numa segunda-feira, para que sejas o princípio de tudo, da liberdade, da ousadia, da performance, da desregra, do eco, da extravagância única e exclusiva tua. 

    Anos se passaram desde que te foste para te deitares ao sol e celebrar em Pasárgada, para onde vai a estrita e iluminada legião de estrelas. 



    Tu Zaida, que viveste esses tempos em que podias fazer a sociedade espelhar-se na arte, sem querer impor preconceitos, modismos e tendências. Eras a tua própria voz, sem gritar nem a sossurar. Eras a voz na dose que te convinha. Eras, à semelhança dos sindicalistas e nacionalistas de toda a parte, uma activista de uma causa sem códigos de conduta, ainda difícil de compreender nesses tempos. Por outro lado a Winnie Mandela, a Makeba, a Nina Simone, e cá estavas tu, sem representações, mas exercendo a tua presença. 

    Tu, Zaida, antes que houvessem as “marandzas”, já alertavas para a vergonha alheia e gratuita, das relações por interesses que se sobrepõem ao genuíno amor. O que dirias, hoje, Zaida?

    A violência doméstica baseada nos valores tradicionais, antes a do género, já havias denunciado, alertando para o negócio do lobolo.

  • Para ti, Isabel, esta carta que queria cantar-te

    Isabel, deixares assim que na tua voz nasça a flor enquanto os instrumentos fazem-nos viver a alegria do mistério é de uma maldade que só tu podes fazer com elegância. Podem ouvir-te pessoas várias, nações dispersas, tirando cada um para hidratar o corpo e alimentar a alma, com o néctar do teu ritmo. 

    Foto de Ouri Pota

    Isabel, 

    escrevo-te estas palavras que não saberia dizê-las, na minha indesejada timidez, olhando-te nos olhos. Ainda bem que me posso revelar pela escrita.

    Hoje, Isabel, tu vieste-me, sentado na segunda carruagem do comboio das 17h45. Ia de Maputo para os confins da terra, lá onde as pessoas andam apressadas, descem do alto degrau do comboio como se atiram dos saltos para voltar a usar as botas ou chinelos que levam ao sair de casa pela virgem manhã, a caminho do trabalho. Sabes onde é, é outro lado da Matola onde tu pertences. Lá onde quando o nome do bairro, causo susto e espanto, ao mesmo tempo pesar e compaixão, dos que mesmo sem saber onde, compreendem a distância e sobretudo, o estar além.

    Hoje, Isabel, voltaste a adentrar para lugares irreconhecíveis do meu corpo, e a fazer-me festinhas neste meu coração que tu conheces como pouquíssimos, os seus dilemas para palpitar com a força da vida. Tu, Isabel, apenas tu e mais somente alguns, sabes a sinuosa rotação das válvulas deste meu coração, pois estiveste comigo nesses tempos outros, logo depois que a Francine se ia… 

    Escutei-te, novamente hoje, enquanto viajava entre carris e o baloiço da locomotiva. Eras tu, por completo, e as tuas Metamorfoses. Ouvi-te a cantar, a contar segredos, para bem dizer, a sussurrar nos meus ouvidos, a fazer-me sentir a ternura que me acompanhou nos dias que tu conheces, no lar dos enfermos. Nesse tempo, para lá de homens e mulheres que conhecem a anatomia dos corpos a esvair-se de dores, de almas em desesperos e angústias, de corações dilacerados e dilatados como o meu, tu eras o meu alento. Tu e as outras vozes que ousarei dizer-lhes também a verdade, neste meu sentimentalismo exacerbado e ridículo, como estas palavras que te escrevo diante de vários olhares.

    Comecemos pela Oração. Talvez porque nunca rezei na vida a não ser diante da vida e da morte, os sinos tocaram quando ouvi-te a cantar naquela língua que não sei dizer. Os batuques especiais, habituados a ouvi-los no nosso tufo insular, a mística das vozes, o rítmo que pareciam-me a tua mão a bater-me suavemente nas costas, a tua voz a chamar-me para ver o pôr do sol na Ilha de Moçambique, e a fazer-me querer ver o mundo pela “Janela do Oriente”, como ousou escrever o poeta maldito, Eduardo White, quem ainda dedico memórias. Ouvir-te é provar as especiarias únicas e os cheiros a mar, naquelas casas gigantes, onde as janelas são vias abertas para contemplar todo o mundo.

    Fico a pensar, Isabel, como nos dias em que enfermo e incrédulo escutei-te, como és capaz de mandar-me aliviar o coração para que esse ser que tu evocas, entre meu corpo e dê-me sossego, quando é a tua voz a fazer-me navegar lento pelos caminhos da esperança.  

    Isabel, escuto-te  a falar da paz, do olhar que te faz feliz, do sorriso, como se desenhasses um retrato com a tua voz, na lírica do amor, como quem fala de um acto completo, puro e simples. É a tua alma a deixar que a voz percorra os caminhos sempre subjectivos do silêncio, essa insustentável leveza do ser, como tão belo escreveu Milan Kundera. Fico a pensar em cada palavra tua, como se procurasse razões para ouvir-te na próxima música. E como te oiço aleatoriamente, sem pré requisitos, és como o pássaro a assobiar para a certeza do Amanhecer, como também cantaste lá naquele primeiro álbum. 

    Então procuro seguir a leve e suave viagem da playlist. E levas-me para mais um lugar que me é difícil de revisitar, poupando palavras para uma mística do afecto em For My Father. Isabel, deixares assim que na tua voz nasça a flor enquanto os instrumentos fazem-nos viver a alegria do mistério é de uma maldade que só tu podes fazer com elegância.

    Mesmo quando não falas de amor e dos afectos do teu íntimo, consegues surpreender na forma como dizes certas coisas. Como quando afirmas I’m not a colour, i’m not a religion, im just you like you are e ainda dizes let ‘s stop the hate, como se soubesses o valor das palavras determinadas, é tudo à tua medida, como disse-te noutras linhas. Ou ainda quando unes a tua voz a outras, para o “We Shall Sing” e ainda afirmam nesse som, we shall fight for the freedom, sinceramente, foquei a lembrar, assim, inusitadamente, o som que me ficou do que vi do “Hotel Ruanda”, que só mais tarde soube que é um som feito por Andrea Guerra. Sobre a liberdade de cantar já nos havias “cantado” em Unanga lá do teu primeiro álbum, sobre a universalidade da música, sobre a alegria que também sente-se quando te agarras ao microfone para deixar voar as borboletas dentro do teu corpo. Fazes isso, Isabel, como se nada fosse, transformas o difícil e o complexo numa rotina. 

    Gosto, Isabel, da liberdade de te cantares usando só a tua voz, como ví-te a fazer naquele espectáculo nos tempos do fica em casa. Se poeta como White eu fosse, dedicava-te este verso, o peso da vida gostaria de senti-lo à tua medida. Assim, ia-me leve a alma deambular no universo das jornadas mundanas.     

    E como se a música fosse uma missão que não se pode viver a sós, ainda consegues levar-me para coros que me fazem viver dias e tempos que não me vem à memória. Fazes-me viver lugares que não conheci, fazes-me ter a fé que sempre me foi escassa, justamente eu que era ateu e vi milagres, como vaticinou Caetano das terras do Quincas Berro d’Água. Eu sei que há muito de ritos tradicionais que te movem. Eu sei que bebes da fonte dos teus, há toda uma espiritualidade no que cantas, há uma tradição de coros das nossas canções dos rituais que te movem, coisas que não se podem dizer, que dão-nos vontade de ser grandes, de levitar e caminhar de passos firmes, batendo o chão como no nosso makwayela. És, Isabel, como só um poeta como Craveirinha podia inventar, uma moçambicaníssima voz aberta ao mundo. Podem ouvir-te pessoas várias, nações dispersas, tirando cada um para hidratar o corpo e alimentar a alma, com o néctar do teu ritmo. 

    Tu sabes, Isabel, como pouquíssimos, que foi no teu ritmo que dei os primeiros passos quando precisava me levantar no leito do da restauração.

    E voltas a visitar-me hoje, assim, sem que te esperasse e me afazeres reviver a minha intimidade mais submersa, aquela que não queria revelar a ninguém. 

    E fazes-me querer dizer-te aos outros, querer questionar a tua ausência entre outros ouvidos, como se toda a beleza da tua música, sem mais adjectivos possíveis, fosse a música absoluta, no meio de tanto caos e ruído. Este teu Metamorfoses é capaz de vaguear no nosso interior, de arrumar a desordem das almas que correm apressadas nos caminhos da vida, vivendo apenas mais um dia depois do dia anterior que será como o dia seguinte. 

    Fico apensar por tua causa, Isabel, na beleza das coisas insignificantes, as nuvens cinzentas a se desenharem no céu onde o sol persiste em sobressar, na saudade discreta dos nossos amores, no beijo suave no rosto ou no abraço desinteressado das pessoas que parecem comuns no nosso dia-a-dia, mas que de repente, ganham a dimensão de deuses quando se vão ou quando estão distantes de nós. 

    Ai se pudessem as gentes apressadas pararem para ouvir-te no meio de tanto barulho. Se pudessem sentir a voz como a mão passar nos ombros, como eu senti, se pudessem dançar ao teu ritmo, tudo era mais leve e possível.

    Agora que me vou terminar, digo-te para que não seja memória, deves ser da tua geração, Isabel, das vozes mais afinadas, das pouquíssimas, incapaz de dizer uma palavra que não carregue sentimento. Há um certo encanto, em andar devagar e nos detalhes que se perdem na retina das coisas dolorosas da vida.

    Agora, Isabel Novella, despeço-me. Ou como ainda diria aquele que venho chamando em meu auxílio nesta carta que te escrevo, até amanhã, coração.

  • O acompanhante

    Dá para ouvir de longe a voz que vem leve como se imitasse o vento. Vai se fazendo ouvir puxando a alma para um lugar desconhecido, por aí, algures nas esquinas da vida. É a Elis Regina a fazer-me serenatas.

    Ao entrar no espaço vazio do boteco, um cantinho carioca entre as ruas apertadas da Graça, o vazio me recebe. Seria das poucas vezes que entraria num lugar onde come-se e bebe-se sem ouvir a orquestra de talheres e vozes exaltadas, ora se engasgando entre arroz e vinho, entre um peixe e um gole de cerveja. Não faz mal, há ali uma voz que preenche todos os vazios.

    E canta. E toca. Canta a voz miúda como se deixasse a tristeza para lá. Vai esboçando um sorriso enquanto afoga-se numa distante alegria de viver e de cantar. Quem canta males dos outros espanta, enquanto os seus se desconhecem. É como se dissesse que é feliz lá para onde olha de olhos fechados, como se visse no seu lugar, todos os rostos que eternizaram os hinos que canta. Algo que só ela pode sentir.

    Não ia tardar que, uma a uma, grupo a grupo, chegassem as pessoas. É tarde de sábado. Dia de feijoada brasileira. A música é um acompanhante. O resto da humanidade, que preenche o lugar, vai se ocupando em tornar o mundo num lugar sem fome. Justamente. E há ainda quem peça que nos tirem tudo, mas que nos deixem a música, penso comigo, enquanto desespero pelo prato que viria alegre, recheado de simpatias. Afinal não é a música que nos move!

    Toda a constelação de clássicos brasileiros é invocada com uma espiritualidade da viola e da voz que parece reverenciar a grandeza dos astros. Sem que esta voz se cale, comer é um sacrifício. Mas convém que não se cale. Preciso ouvi-la. Preciso. Então espero, venero o canto. Vou acenando. Em jeito de quem assume toda a sua fragilidade, a sua ingenuidade, a sua reverência. Saravá! Isto é mais do que música. É um segredo. Preciso ouvir e guardar. Apesar de toda a presença, só eu ficarei a saber aonde fica pasárgada. Lá onde os grandes nomes da arte, artistas de verdade, dos quais não me assemelho, são amigos do rei, quase reis. Penso em Manuel Bandeira. A impertinente vontade de pensar nos mortos quando se está feliz. Como se nos culpássemos por sorrir sobre a memória de quem deste mundo passou.

    Vendo aquela voz dando o melhor de si, fazendo levitar clássicos brasileiros e contemporâneos marcantes sem que lhe mereça um único grito ou aplauso, fez-me percorrer as ruas da angústia literária. Penso nos poetas, verdadeiros artistas da vida, que podem esmerar-se em sangrias criativas, podem inventar quanto palavreado, quantos versos que lhes sejam a si próprios marcantes e lhes encha o ego, que lhes preenchem os sonhos da consagração, de serem reconhecidos na esquina, num bar, ou mesmo pelos vizinhos, que ninguém saberá dos seus veros, tampouco da dor que deveras sentem. A verdade é que, por fim, definimos a escrita como viver em constante estado de solitude. Como se a solidão fosse a catarse dos poetas. Ilustres somos, mas até que se nos enxergue o lustre, estaremos algures, de onde não poderemos voltar a ser o que éramos, quando escrevíamos os primeiros textos, o primeiro verso, as paixonetas que nunca esqueceremos, porque nunca nos foram correspondidas. Dos amores que amamos em segredo para que durassem no tempo. Nascemos sob o signo da insignificância. Da invisibilidade. Da inexistência. É a apoteose do nada, ou da angústia como vaticinou um outro poeta maldito.

    De vedetas mal concebidos, terminamos lembrados apenas duas vezes aniversariamente, como disse o poeta que ninguém se lembra quando nasceu e quando morreu. Ainda que recitem incompletamente os seus versos e sem que os compreendam. O poeta é um fingidor. Mas, não, aquela voz a cantar no boteco não finge. Levita. Invocando o santo nome dos compositores imortais da música do mundo. Mas prioridade mesmo, é o feijão para alimentar a fome do mundo. A fome que nos tira tudo, tudo, incluindo a música. 

    27.08.22, Lisboa