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  • Ou então amaremos a chuva

    Sempre que chove o passado visita-me. Delírios e traumas. A êxtase e a angústia. O sonho e a insónia. Infelizmente, em todos os casos, quando é de noite a chover, não consigo dormir. 

    Vêem-me as ruas de onde nasci e cresci. As poças de água que ficaram nossas praias, como a praia Landinha, por exemplo, ali nas zonas baixas entre Patrice e T3, onde também íamos pescar para depois chegarmos em casa, passados dias, vermos o que pareciam peixinhos a se transformar em bichos estranhos que nos atormentavam por longos dias de pesadelos e gozação dos mais velhos.

    Frequentei aquelas zonas baixas quase toda a adolescência, muitas vezes sem que os meus pais e meus irmãos soubessem, porque as consequências seriam dolorosas. Quando chegou a vez de ir ao pré-universitário na Zona Verde, entre colegas e amigos, cruzamos aquelas zonas todos os dias com os pés trocando os passos de cansaço e desespero, fome disfarçada enquanto ou íamos para a escola ou íamos passando em busca de histórias para reportar, quando já marcava passos para o jornalismo. Eram passos largos e cheios de certeza, sol a sal, como diria o poeta Léo Cote.



    Mas quando chovia ainda mais novo,  a vida se dividia. Em casa, anunciava-se a chuva e já apontávamos as tigelas,  baldes e bacias entre buracos das velhas chapas de zinco que faziam o teto. As camas, as poucas camas que tínhamos, eram encostadas nas esquinas onde provavelmente não caíssem as gotas de chuva. Ainda tínhamos algumas roupas velhas para sugar as águas que escorressem as paredes. Chagava a hora em que vamos dormir. Chovia. Chovia torrencialmente. Na cama ou na esteira onde muitas vezes foi onde pousei o meu corpo ossudo, vinham as gotas e depois se transformavam em torneiras descontroladas. Nos levantávamos para reposicionar as camas, as esteiras facilmente ficavam molhadas, então se tornavam inúteis. As tigelas enchiam logo, os baldes e bacias não cabiam para os buracos que pareciam aumentar de tamanho. 

    Nesse momento me recordava da frase motivacional dos velhinhos da zona, “aku neliwa niku pfuteliwa aswi fani”. Essa língua que pela infância afora falei só palavras algumas, percebia que o que diziam era, “vale a pena um teto a gotejar que estar sem teto” ou, por outra, “molhar na chuva ao relento não é o mesmo que por debaixo de um teto com buracos”. Na verdade, passei a vida sem compreender o sentido da expressão, fui compreendendo, porém,  que a chuva era um karma. Dentro da casa, angústia e desespero, lá fora, nas águas que se juntavam nos buracos e valetas, era uma festa. Nós que nunca ou raramente íamos à praia, tínhamos ali a nossa praia. Nós que nunca vimos um rio, para além do que mostravam os livros, tínhamos os rios, fartos de água a correr pelas extensas ruas até invadir as casas ou ir desaguar na zona baixa onde os campos agrícolas transformavam-se num mar cinzento com coisas a flutuar, as couves e alfaces arrancadas da terra, garrafas  e sacos plásticas, eram das coisas mais visíveis.

    Um dia a chover, como hoje, foi uma fotografia a decompor-se, enquanto andava pelo comboio em direção à Estação Central de Maputo. Fui vendo homens, mulheres e crianças mergulhando indiferentes nas águas.  Há semanas ainda andavam aos saltitos. Agora mergulham, passeiam e até se sentam e se deitam nas águas, procurando não deixar que a vida se turve no dilúvio. Sobretudo as mulheres, nota-se o seu ar de cansaço, certamente de dias de insónia e trabalhos de limpeza. Olhava tudo enquanto o comboio deixava fazíamos seguir em frente, como se abandonasse o passado. Porém as imagens se repetiam em câmara lenta. 

    Nesse retorno ao passado, veio-me à lembrança, o dia em que conheci o poeta Lopito Feijó. Era dia de quase chuva em Maputo, ano de 2011. Estávamos algures na baixa da cidade e o levamos até ao Jardim Tunduru onde fazíamos a exposição de poemas que chamamos “Poesia nas Acácias”. O poeta perguntou-nos, ao ver que os poemas estavam impressos em cartolina simples: e se chover, isto não molha? Respondi-lhe que contávamos com a sorte. E ele respondeu, ou então amarrem a chuva. Para o meu espanto, apesar de estar familiarizado com isso, justamente eu que apenas tenho diferença de um ano e cerca de três meses com a filha mais nova dos meus pais, fiquei apenas a contar as árvores e a mirar o céu que estava cada vez cinzento. Hoje penso mesmo, alguém terá de mudar o ditado dos velhinhos do bairro ou, então, amaremos a chuva.

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  • O Cine África e o sonho teatral

    Algures, numa das minhas vidas, fiz teatro. E sinceramente, cheguei a acreditar que era mesmo um actor, que era o senhor dos palcos, capaz de colocar em pé uma imensa plateia, aos aplausos e delírios depois de ver-me em êxtase a contracenar. E os passos que dei levaram-me a essa crença. Não era só uma questão religiosa era mesmo obra. Desde a minha quinta classe, na Escola Primária Patrice Lumumba, nos confis da Matola, até por aí, décima classe, na Escola Secundária São Dâmaso, andei em palcos e em grupos de teatro que realmente eram a principal atração nos eventos escolares. E mais, chegamos a granjear simpatias e a ganhar coisinhas interessantes, na altura, em eventos e festivais Matola a fora. Desde o festival Mogás que era uma referência na altura, aos eventos do dia do município, que muito me lembra a utopia e a forma apaixonada com que Carlos Tembe vivia a sua cidade, Matola no Coração. Chegámos a vencer a fase distrital para o festival nacional da cultura. Chegamos a fazer algumas viagens, inclusive, quando fomos conhecer as montanhas onde tombou o avião matando o papá Samora. Sinceramente, no sonho maravilhoso que vivi, acreditei mesmo que era no teatro que se fazia a vida. Cheguei a ir para um casting no Gungu, acreditem, a insanidade era tão grande, a ingenuidade é corajosa, contradizendo o meu amigo Matiangola que se referia nesses termos sobre a ignorância. Sim tenho uma ingenuidade corajosa. Ou talvez tinha, porque a dado momento e porque não passei ao casting, talvez seja, os tipos que eram encenadores foram ficando velhos para sonhar, precisavam ter certezas, ficaram polícias, professores, foram sumindo para lugares distantes, tão longe que hoje são memória. Antoninho, por exemplo, morreu poucos anos depois de ter sofrido um grave acidente de viação, uma camioneta o arrastou bem ao meu lado, enquanto falavamos de “pitas”. Os outros, outros ficaram funcionários públicos, para garantir a reforma.
    Nessa ingénua e corajosa infância e adolescência, sonho mesmo era que um dia actuassemos no Cine África, a Catedral das Artes moçambicanas. Todas as vezes que subia um palco por mais raso que fosse e estivesse quase de braços com a plateia, eu sentia-me bem lá, em cima, com uma imensa plateia de cabeças levantadas e olhos arregalados, viajando no meu espectáculo. Meu irmão chegou a apresentar-se ali no Cine África, lembro-me do dia, como não podia? Não fui convidado ao espectáculo. Fiquei em casa só a imaginar enquanto lavava loiça e cozinhava. Ainda fiz vénias quando tirei as panelas do lume para me servir e comer.
    Hoje passei do África, veio-me a saudade e o sonho, a angústia e a desilusão. O que o tempo e a vida fazem… o África está num silêncio sepulcral. Não dorme. Está simplesmente inerte. Indiferente. Ausente e diluido, como a outra vida que vivi… Não deixo de estar triste. Nunca, aliás, me dei conta da tristeza que me dá o Cine Teatro África, naquela ausência e Indiferença!

    memorias #historiadevida