Crónica publicada na revista Sábado, de Portugal, onde descrevo os mais recentes acontecimentos da crise pós-eleitoral que resvala para cenários de vandalismo, saque e mortes.
“Ainda não havia passado a depressão da ausência da festa de natal e já se anunciava o terror: homens com catanas andam à solta no bairro, com sede de sangue e dispostos a cometer todo o tipo de crimes. Passa da uma da madrugada e o telemóvel não pára de tocar com gente de outros lugares, familiares, amigos e vizinhos, preocupados em dar-nos a notícia, as nossas vidas correm perigo.” Leia a crónica na íntegra aqui
Vamos obrigar-vos a perceber o ridículo que foi vocês todos a agitarem a bandeira e a cantarem o hino nacional. Vamos provar-vos que vocês não são mais do que corpos sujos e fétidos. Que valem tanto como carcaças de animais esfomeados.
Han Kang, Atos Humanos
Manifestantes, em Maputo, em cima de um “chapa” Anjo Voador – Preça dos Combatentes. Fotografia de Ildefonso Colaço
A estação de Infulene está à vista. Luís Cabral também. Um coro de apitos vem acompanhado de vozes roucas, mas sem cessar a sua tarefa: desçam, desçam, xikani, ordenam. Três homens, dois deles adolescentes. Corpos a suar aos cântaros; de chinelos nos pés que crescem a cada passo. O comboio era uma jiboia morta.
— O comboio é nosso, saiam, afinal porque não ouvem?
Infulene
Desci os altos degraus até às pedras que me receberam com hostilidade; dentro das sapatilhas castanhas, velhas, mas resistentes e complacentes com a economia necessária dos dias, os pedregulhos anunciavam a sua “insistente presença”, pelos próximos 30 km que alguns de nós irá percorrer de volta para casa. Alguns passos dados de volta à procedência, olhei para trás e me convenci, o monstro que anda nas linhas férreas, estava tomado. Assim o corpo iniciava uma experiência do poder popular dos invisíveis que decidiram ganhar uma voz.
Trevo
Uma multidão ocupava os trilhos em substituição do fluxo de comboios habitual à hora matinal das 7. A “cobra metálica” — assim o apelidaram os da estação de Nkobe — cuspiu-nos quando sucumbiu nas malhas dos manifestantes. Nas bermas onde mora boa parte desses invisíveis, porquem os dias se definem pelo ruído das carruagens em velocidade, outra multidão assistia à procissão dos descrentes das ordens de paralisação.
— É também por vocês, pela melhoria dos vossos salários, das vossas condições de trabalho, pela dignidade, que fazemos essa luta.
Machava-Sede
E as pedras cresciam no meio do caminho. Isso não é uma metáfora drummoniana. Éramos muitos a caminhar como almas doentes em processo de purificação; tinha ser feito o caminho, quanto mais longo e dolorido que se revelou, melhor, assim se aprende a amar de novo o país, numa cidadania que já não é do futuro; a verdade não podia estar mais escancarada; a Nação existe e exala o cheiro dos invisíveis; a Nação existe e ressurge em cada grito de ordem dos inaudíveis do quotidiano nada equitativo — olá Craveirinha.
Esta é a marcha que a verdade nos impõe; a verdade que dói, e sinto-a em cada passo, em cada gota de suor que cai entre as pedras que vou pensando enquanto conto as estações.
Liberdade
Um amontoado de areia. Uma camiseta vermelha balança em pedaços de paus cruzados em sinal de cruz. Uma vênia se nos é cobrada. Gotas de águas se nos deitam nas palmas das mãos até que atravessam os dedos para irrigar as folhas secas sobre a areia, numa imagem nos lembra as sepulturas abandonadas do cemitério de Lhanguene, lá dos lados de Xinhambanine, onde os vivos se recusam a render-se aos falecidos.
Daniel
O cheiro forte das mangas podres lembra o ciclos da vida; os pés já não obedecem o desejo autoritário de chegar à casa, onde a lamúria de todas as desgraças espera; o corpo encontrou as próprias razões de ser; sinto a crescer a pátria nas veias e no coração que se comove, quando no meio da caminhada que vai longa, um homem interrompe o silêncio dos peregrinos.
— Eles também exageram. Anos e anos de exagero. Foi demais.
Pela primeira vez, os meus pés duvidaram do percurso. O que nos espera o destino?
— Toma uma manga, mano, isto tudo é nisso — saboreei com apetite o fruto da época.
Matola-Gare
Homens, mulheres e crianças, com garrafas de refrigerantes nas mãos, uma ideia de ostentação que só não alcança o luxo que desfila à solo, dos mercedes-benz’s, kias, e outros bichos de quatro rodas, antes imagináveis em sagas como Transformers; quando olhei nos rostos de cada um dos showfistas, iam se parecendo todos aos outros que tomaram o comboio em Infulene, mesma alegria, mesmo sentido de pertença; vieram-me os dezembros da infância, que se resumiam em duas datas, 25 e 31, na alegria mais sincera que já vivi por um fim de ano, cuja fantasia residia numa fatia de bolo, arroz de cebola, salada de tomate, frango assado e uma fanta, apenas possíveis nessas duas datas do ano, como recompensa pelos dias de água, trigo, sal, açúcar e algumas verduras; tinha a imagem nítida do quintal da casa do meu pai, quando um homem disse.
— Tudo isto para depois… nada!
Quando ele disse “tudo”, voltei aonde tudo começou. E dei-me conta que não foi quando o comboio parou.
Eduardo Mondlane
Sexta-feira, Avenida Eduardo Mondlane. Meio-dia. Uma a uma, as pessoas foram se dando as mãos, a eles se juntou um grupo trajado de batas brancas, fardas verdes e azuis; um cordão formou-se a atravessar o alcatrão de margem à margem, e as vozes se elevaram em coro, a entoar o hino nacional; a pátria crescia-lhes por dentro até nas terminações das palavras audíveis em todos os cantos.
Num instante que não se viu a chegar, surgiram homens armados de farda castanha que fizeram cantar o coro das armas. As mãos da multidão se desfizeram, como um tecido que se rasga; o coro celestial substituiu-se com gritos e grunhidos de uma dor que só podia vir dos confins do inferno.
Mesmo assim, podes te orgulhar, poeta, vieste de qualquer parte, de uma nação que ainda não existia. Agora ela emerge e cresce como um “canto de amor natural”.
Eduardo Quive
Matola, 12. 12. 24
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Texto inspirado nos acontecimentos vivenciados a 9 de Dezembro de 2024e escrito para a fanzine do movimento L.U.T.O.
“Voz, já te oiço”, revela Suzy Bila, na exposição que inaugurou no sábado, 11 de Maio, na Galeria Arte de Gema em Maputo. Uma afirmação corajosa que só pode vir de quem caminhou sobre pedras até encontrar esse lugar que de tão remoto, várias são às vezes que não se chega ou tarda-se a chegar. Mas onde será e o que caracteriza esse lugar? Que voz é essa que finalmente se fez ouvir?
Desde logo, uma confissão, uma constatação perante a “Voz” que Suzy Bila faz para chamar a nossa atenção. Uma proposta para a pausa no caos, possível apenas se aos olhos emprestarmos o discernimento. Mas também, essa forma vocativa, é a chegada a um destino, como quem enxerga a luz no fundo do túnel, após caminhadas longas na penumbra.
Para ouvir é preciso o silêncio. Há muito por se dizer e escrever sobre esse silêncio necessário para entrar nas profundezas da alma, na imersão pelo território remoto do corpo que, de natureza, está ligado ao exterior. Talvez, por isso, a vida nos passa despercebida, efémera. Somos uma espécie que se move pelo ruído. Pressionados a ignorar os sinais do interior, quando nos chama para o invisível, o abstrato. Num contexto social de disputa pelos espaços e protagonismo, falamos ao mesmo tempo, em línguas diferentes, em palavras divergentes, não há espaço para a escuta; tentados a se sobrepor ao outro ainda gritamos, nos exaltamos e, mesmo assim, custa escutar essa voz serena, prudente, brisa, calmaria e constatação, o lugar de chegada, por isso, próprio para a contemplação, compreensão.
Exposição patente na Galeria Arte d´´´Gema, com a curadoria de Élia Gemusse, até dia 30 de Junho.
Exemplo desse lugar encontra-se nas telas que expressam, de novo a inocência, caminhos feitos sem pretensões, nem ideias preconcebidas, a negação ou os sortilégios da sorte ou azar.
Quando se observa o conjunto de obras em exposição, não se pode ignorar o trabalho que Suzy Bila desenvolve na área da arte-educação, que se foca nas crianças e jovens “problemáticos”, regenerando as suas vindas, ajudando-os a encontrar um caminho através de um espaço que é por excelência, de liberdade, questionamento e humanização, que é a arte. Esses jovens tidos na sociedade como indisciplinados, rebeldes, sem interesse nem “cabeça” para os estudos, encontram na arte as suas “vozes” e os seus “eus” que os sistemas formais sequer se deram a paciência de achar. Esse tem sido seu foco, quer na formação académica – doutoranda em Educação Artística – ou profissionalmente – trabalha como Educadora de Infância numa Equipa de Intervenção e Capacitação Familiar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Por tudo isso, a artista dedica tempo e suor a compreender o outro. E esse trabalho em muito implica a ouvir as histórias de vida e compreender a complexidade de quem as conta.
Espectadora contemplando a obra “Criança que mora em mim” | Técnica: acrílico e tinta da china sobre papel.
A forma como concebe as suas obras já denuncia uma alma comprometida em compreender a essência da condição humana e toda a sua complexidade. Esse processo é também sobre si. Quando a artista lança a tinta sobre tela já aí se estabeleceu um processo endógeno de busca, encontros e reencontros. A forma como compõe as telas vai carregar esse desejo de encontrar outros caminhos, finalmente, o outro, respeitando o processo e o tempo. Por isso, deitar os olhos sobre a pintura de Suzy Bila é um processo de autorreconhecimento. Porque a artista não se distancia da obra, pelo contrário.
Suzy é introspectiva. A sua vocação sempre foi para o interior, para o âmago, para os lugares obscuros e inacessíveis para os que temem a realidade do corpo. Que é líquido, frágil e matéria-prima de um plano maior do que está ao alcance dos olhos desprovidos de coragem. Olhar para dentro requer coragem, mas antes de tudo, requer disponibilidade e consciência para os ciclos. Corremos em direcção ao nada, ao vazio. Não se trata de um abismo iminente, não; no lugar de uma infinita escuridão, há o vazio, o silêncio, a recolha. Estacionados nesse lugar de dentro onde somos “nus”, um outro portal se abre. É aí onde habita a voz. A voz que já podemos ouvir com todos os seus ecos, com a simplicidade que não se lhe compara a nada, com a verdade imaterial e inconclusa. Sem amarras, senão com nós mesmos.
Nos tempos que correm a escuta é um elemento precioso e raro. O tempo de escuta, esse que ainda não está à venda no bazar da ambição e da ganância, esse que não exige nada para além da nossa total e completa disponibilidade, é uma raridade que anda à nossa volta, vai dando sinais ao corpo e à mente de quando em vez, mas quem se dará ao tempo?
Suzy Bila ao lado do seu mestre Noel Langa, na inauguração da exposição
Num mundo em frenesim constante, pressionados a realizações com a agilidade dos mágicos, haverá espaço para a mera contemplação? Haverá sequer, espaço para estar e ser com os outros? Não será a falta de tempo em si, uma perca de tempo para o que realmente importa, o que não se exalta e nem pode disputar o protagonismo com o material da nossa loucura colectiva? Não é o outro esse espelho indiscreto, do que somos, mas sequer nos reconhecemos, na cegueira do ego? Esses são alguns dos questionamentos dessa afirmação: “Voz, já te oiço”.