O escritor e jornalista moçambicano Eduardo Quive publica em Portugal o seu romance A cor da tua sombra, sob a chancela da Desmuro editora.
A narrativa que se ambienta num Moçambique contemporâneo cruzando os dilemas identitários, as memórias fragmentadas, desafios sociais no meio urbano o que torna ainda mais complexas as relações humanas. A história é contada sob o ponto de vista de uma família desestruturada por várias tragédias desde a Zambézia e a capital Maputo.
Com uma escrita sensível e incisiva, Eduardo Quive constrói uma narrativa que atravessa dimensões íntimas e sociais, explorando as tensões entre o passado e o presente, o indivíduo e a coletividade. A cor da tua sombra propõe ao leitor uma viagem literária marcada por personagens densas, conflitos morais e uma atmosfera que dialoga com os desafios sociais e políticos destes tempos num país em que o futuro é uma eterna promessa.
“Neste livro de estreia em prosa Eduardo Quive conseguiu aquilo que muitos prosadores procuram durante a vida inteira: uma escrita ao mesmo tempo sensível e acutilante, encantada sem nunca se desamarrar de um quotidiano que exclui e anula a nossa partilhada humanidade.” – Mia Couto
A narrativa, marcada por um lirismo sombrio e fragmentado, ecoa as memórias estilhaçadas de seus protagonistas, expondo sem filtros a fragilidade humana e os traumas que moldam identidades. Eduardo Quive escreve com o pulso de um poeta atento às tensões entre o íntimo e o coletivo, construindo um romance que revela a perseguição aos albinos, a desintegração familiar e o espetáculo da dor no espaço público das redes sociais.
A cor da tua sombra é uma obra que confronta os silêncios herdados e denuncia as crenças violentas que ainda moldam tantas infâncias.
Para o lançamento do livro o escritor moçambicano participará em eventos no Porto e em Lisboa, de 18 a 25 de Abril.
O primeiro evento será no festival LEV – Literatura em Viagem, em Matosinhos, onde estará à conversa com Dino d’Santiago e Mia Couto.
No dia 20 estará na Livraria Flâneur, no Porto para conversa e apresentação do livro A cor da tua sombra com o escritor João Zamith.
Dia 23 de Abril às 18h30 será a vez da apresentação em Lisboa, na livraria Snob, numa conversa com Ana Bárbara Pedrosa e Mia Couto.
Eduardo Quive é escritor e jornalista moçambicano. Com um percurso marcado pelo envolvimento em projectos culturais e literários, tem vindo a afirmar-se como uma voz emergente na literatura moçambicana, apostando em obras que cruzam ficção e reflexão social. A cor da tua sombra é o seu quarto livro, o primeiro editado em Portugal, uma estreia no romance, depois de ter publicado entre outros, «Para onde foram os vivos» (Poesia, 2022), finalista do Prémio Literário Mia Couto para melhor livro do ano em Moçambique, e «Mutiladas» (contos, 2024), indicado para leitura no ensino secundário nos países da CPLP pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa – IILP.
No dia 13 de fevereiro fomos chamados a reflectir sobre o incentivo à leitura e promoção do acesso ao livro. Comigo estavam Ana Albasini, coordenadora do projecto Mabuku Ya Hina, implementado pela Escola Portuguesa de Moçambique, Constante Michel, coordenadora da Associação Chapateca e Susana Damasceno presidente de direcção de AIDGLOBAL. Já no dia anterior tinha sido debatido o mercado editorial e a distribuição do livro, dois assuntos muito bem abordados em grande reportagem no jornal Notícias do dia 19 de Fevereiro. Mas lá foi incisivamente levantado o Plano Nacional de Leitura, tal instrumento que sucumbe nas gavetas dos ministérios. A missão ficará agora para este ciclo de governação que iniciou, se for de interesse. O plano pode ser um bom impulso para a venda de livros e ajudar na sustentabilidade das editoras, uma vez que, pressupõe a compra de livros de ficção pelo Estado para distribuição nas escolas. Mas também seria importante para o incentivo à leitura, uma vez que, em princípio, os alunos do Sistema Nacional do Ensino teriam como recomendação curricular (quase obrigatório) a leitura de ficção. Mais ainda, o plano é fazer chegar do Rovuma ao Maputo a literatura nacional, por tanto, um bom princípio de distribuição. Um instrumento e todas as “aldeias” curadas dos seus males. No final, haveria mais leitores.
A partir do trabalho desenvolvido por Mabuku Ya Hina, Chapateca e AIDGLOBAL olhamos para as soluções possíveis a partir de uma abordagem diversificada, que se estende por diferentes espaços nacionais, mas que o fim é o mesmo: pôr as pessoas a ler, como uma experiência de lazer, aprendizagem e desenvolvimento cognitivo. Não se trata de combater o analfabetismo, de dar acesso à escola, é dar instrumentos para o desenvolvimento humano, treinar o pensamento, a imaginação, a criatividade, a retenção do conhecimento e até contribuir para o exercício de cidadania. Isto é, conferir criatividade, imaginação e liberdade à instrução escolar. Ditas assim as coisas, parecem apenas palavras bonitas, até porque os impactos destes projectos, caminham com a vida das pessoas. A capacidade de ler e compreender, reflectir sobre os processos, a interpretação, a formação do discurso por meio das palavras, as relações humanas, o saber dar importância o que está para além do tangível, através da leitura de ficção, demanda tempo.
Perceberam-se as complexidades do problema que a falta de leitura e o que causa a falta de livros no espaço público. Mas foram os pequenos gestos que ampliaram o horizonte sobre o que ainda se pode fazer:
A multiplicação e criação de mais iniciativas de promoção de leitura na primeira infância por todo o país.
Aposta na formação dos professores para o fomento de hábitos de leitura.
Mais publicação de obras para a infância por autores moçambicanos, incluindo, claro está, o respectivo apoio às editoras para a sua edição.
A necessária criação de instrumentos e sua implementação pelo Governo para programas de incentivo à leitura.
Mais parcerias para que estas iniciativas cheguem a mais províncias de Moçambique.
É preciso acções que incluam os jovens nos programas de incentivo e promoção da leitura. Escusado será dizer que para tudo isto é preciso financiamento, esse que se estende desde aos programas de criação literária (para que os escritores tenham condições para escrever), produção de livros, circulação e programas de incentivo à leitura.
Em 2023 dias antes de Jessemusse Cacinda publicar seu primeiro livro de ficção, Kwashala Blues, entrevistei-o para que ele desse o panorama geral da obra. Eu já havia lido o livro e surpreendi-me com o seu formato. São pequenas histórias que se juntaram num corpo maior e deram sentido a um livro de escrita simples, veloz, com personagens que na sua complexidade procuravam simplificar as suas experiências. A paisagem em que ela foi construída, desde Maputo, até e sobretudo Nampula, fazem com que ela pareça, de imediato, uma obra diferente aos olhos de leitores da literatura moçambicana, onde os lugares muitas vezes se transformam entre o rural e urbano.
Fica claro emKwashala Blues que Jessemusse Cacinda é um escritor que se fez em processos, por etapas, ciente de que é um contador de histórias, mas sem a pressão de se revelar. Felizmente fê-lo através de uma obra que se justifica por si, sem ser refém do futuro.
Conhecemo-nos a mais de 15 anos. E foi pela literatura que se foi fazendo a nossa amizade, até escalar outros patamares. A sua primeira viagem para Maputo, qual caçador de sonhos, caminhando nas estradas do país desde Nampula, para um percurso que diz da sua personalidade e do lugar onde quer chegar. E para onde vai Jessemusse Cacinda? De volta ao lugar onde nasceu. A vida dá tantas voltas. Conheci Nampula a seu convite, em 2016. Eram o fim do caminho, o festival que criou. Era o princípio da utopia, uma editora de livros “africanos”, é o que é a editora Ethale Publishing, sobre a qual falaremos numa outra vez. Foram horas e horas de serão. Conversas que ao tempo não enganaram. Já lhe havia reconhecido a incaracterística forma de fazer o jornalismo, saindo da sua voz na rádio, estórias de despertar. Hoje, entre tantas coisas, filósofo, editor e escritor. Era um caminho incontornável. As tantas estórias que a vida dá. E aí chegamos a este Kwashala Blues que nos confunde “não sei que género é este”, afirma o próprio autor que se estreia no que podemos chamar de novela.
O que é a vida? perguntou Antônio Abujamra aos seus entrevistados e no final ele descobriu: a vida é um abismo, onde ele próprio caiu no final. Veio-me um pouco de tudo depois de ler Kwashala Blues. E esta entrevista é a única forma que encontramos de desanuviar em meio ao frenesim dos enredos.
Sempre soube-o como escritor, repito. Faltava o livro. E o livro chegou. O que fizemos com ele? Lemos. E depois de ler? Conversamos. Porque algumas estórias levam a isso…
Vamos começar do começo do “Kwashala Blues”, a chamada que o narrador recebe sobre a morte do pai. É o começo de um romance ou apenas a viagem de um personagem?
Na verdade, é mesmo uma chamada que o narrador recebe para reavivar suas memórias. Um acontecimento trágico como a morte de um pai é uma oportunidade que um ser humano tem de questionar-se sobre tudo. Questionar-se sobre a vida, sobre as decisões que tomou, sobre os erros por si cometidos, e sobre o amor, o futuro. Quem nunca filosofou na vida, seguramente, o faz quando um entequerido seu morre.
Ao falar dessa personagem, a que recebe a chamada, não se identifica. Isto porque quase todas as estórias do livro estão na primeira pessoa. Não resisto a fazer esta pergunta, é uma autobiografia?
Veja, eu tenho dito que vivi e vivo a vida. Neste exercício também conheço pessoas que vivem. Viver a vida é em toda a sua plenitude, assumir os momentos tanto bons como ruis. E a vida é feita disso. O Kwashala Blues é um ponto de encontro, onde através da música e do rítmo, as histórias de vários moçambicanos se cruzam.
Um livro triste, este. Mas uma tristeza estranha, que dá vontade de dançar, dá vontade de sorrir com o rosto cheio de lágrimas e o peito apertado. Que angústia é essa?
A vida é uma constante angústia. Veja que em nenhum momento de nossas vidas nos sentimos satisfeitos. A vida é como a filosofia, é um mar de perguntas sem respostas. Se esperarmos que os nossos problemas sejam completamente resolvidos, nunca vamos esperimentar a felicidade. Por isso devemos sorrir enquanto dá, dançar enquanto podemos e quando for necessário, chorar acreditando que ninguém tenha lágrimas suficientes para provocar uma inundação. Este livro é sobre a vida e a vida é isso mesmo.
Não posso deixar de percorrer o Este de África lendo estas estórias. Vou confessar que de lá li poucas estórias e o ápice seria Ngugi. Mas veio-me de repente a África Ocidental, numa estrenha sensação das linguagens, da música e até da dinâmica territorial. A pergunta que me ocorre é sobre as viagens do escritor até chegarmos a este Kwashala Blues.
Todo mundo que nasceu e cresceu no norte de Moçambique na década 90 do século passado sabe que Dar-es-salam era mais perto que Maputo. E isso se notou pela influencia que a África Oriental e Ocidental tinham no nosso estilo de vida. Quando cheguei a Maputo notei pouca ligação com aquela África com a qual eu havia crescido e como um bom cidadão, senti necessidade de trazer essas todas áfricas para a nossa capital. O Kwashala é uma moçambicanização da rumba congolesa.
Deve ser um caminho pouco feito pelos escritores. A forte ligação da narrativa com o seu lugar de origem. Escrever o lugar, as paisagens, as gentes, os sons e até, estranhamente, dá pra sentir os cheiros. Para a tua vida no todo, Nampula é o teu lugar de partida ou de chegada?
Nampula é o meu ponto de partida e o lugar de chegada é o infinito. Uma das coisas que tento fazer é mostrar as pessoas que todos nós conhecemos um pouco de Nampula, mesmo sem ter lá estado e sem ter ouvido nada a respeito da província e da cidade.
Voltemos ao livro. Os processos de escrita. Nota-se que são estórias escritas em momentos separados. Mas elas têm um fio condutor. A figura do pai quase que é a linha que cose a narrativa. O que aconteceu aos textos para terem essa linhagem que roça o romance?
Os textos foram escritos em momentos diferentes, mas havia um fio condutor. Cronicar os acontecimentos contemporâneos de Moçambique com um pendor filosófico. E precisava de uma imagem para nos levar a este exercício, a morte de um pai. O pai é aquele nosso amigo e inimigo ao mesmo tempo. O amamos e, às vezes, o adiamos. E na vida somos assim. Mas a ideia de fazer este quase romance ou quase novela (na verdade nem sei que género de livro é este) veio das conversas e discussões que tive com o Sérgio Raimundo que disse-me que estes textos não eram contos quaisquer, eram capítulos de uma novela.
E, já agora, em que momentos da sua vida se reescreveram essas estórias? Num acto de reflexão, releitura de um percurso (não podemos ignorar que Jessemusse tem a vida toda quase feita em Nampula e parte para Maputo já formado e até a trabalhar) ou terá sido a bendita inspiração isoladamente?
Wow. Existem sim, alguns episódios que podem ser ligados a minha vida e outros que podem ser ligados a vida de amigos e pessoas que conheço. Não vou denunciar-lhes. Preciso que me contem suas histórias para próximos livros. Mas posso partilhar consigo que meu pai faleceu e senti-me de certa forma culpado por não ter aproveitado quando ele estava vivo. Na minha própria vida já também agarrei-me a coisas que me impediam de ser feliz em nome de um conforto. E a filosofia, este exercicio de questionar-se, reflectir, tentar encontrar as várias respostas sobre um problema, tem me ajudado a encarar a vida com sabor. E provavelmente, há pessoas que tem todas ferramentas para ser feliz, mas falta-lhes esta vontade de filosofar em torno da sua própria experiência.
A música, Jessemusse, não queria me referir a ela porque já é óbvio pelo título do livro. Mas é inevitável. Fala-me dela, como ela roubou protagonismo à literatura?
A música é o bálsamo da alma. Há uma música do Murara Jazz, banda de Kwashala de Cabo Delgado, com o título Adelina, em que o poeta fica desapontado porque a Adelina não conseguiu guardar-lhe os seus segredos mais intimos enquanto foram namorados. E quantas vezes na vida não nos desapontamos quando nossa intimidade é exposta? No a música começa um pouco lenta e chega uma altura em que o rítmo aumenta. Nesssa parte, chamada “Okoroxeliya”, mesmo que a música fale de coisas tristes, é mesmo para dançar. E voce sabe que na África, a dança é nossa vida e quando a gente dança, é como se expíritos nos estivessem a puxar de um lado para outro. E a literatura é um registo da vida. Logo, um protagonista que vive a vida, vai seguramente ter a musica consigo. Se alguém me dizer que nunca ouviu música eu lhe diria que está morto.
De certa forma encontramos muito de memorial e da cultura popular, digamos assim. Conheço um pouco Nampula, é certo, mas bastava-me ler o teu livro para entrar por dentro dos ambientes. O que me leva a querer saber da tua infância, os chãos que você pisou em pequeno, as pessoas que fizeram parte desse momento que parece descobrirmos já adulto, que é a infância? Quero que me fale da tua casa, dos teus parentes, da tua rua, do teu bairro…
Cresci entre Cuamba, Nampula e Memba. Este nomadismo é normal no norte de Moçambique. Em Cuamba vivia no bairro do aeroporto e via os aviões a cairem todos todos, em Memba vivia no bairro do Muaco, há 1Km da praia da Costa do Sol e do campo de futebol da vila e em Nampula, no bairro de Muatala, mais conhecido por Matadouro. No Matadouro vivia com os meus pais, e quando se divorciaram, passei a partilhar entre Cuamba (onde estava o meu pai) e Memba (para onde foi a minha mãe).
Conhecemo-nos há vários anos e nunca perguntei-te sobre os teus pais. Nesse sentido também é interessante para mim ler o Kwashala, porque parte do desconhecimento. Sei, porém, que a tua mãe é uma professora, e o teu pai?
Sim, a minha mãe professora e meu pai, chefe de cozinha. Hoje o meu pai faleceu e a minha mãe é funcionária administrativa. Cada um deles exerceu determinada influencia em mim, talvez seja por isso que enquanto gosto de aprender, gosto também de comer.
Trabalhou na rádio Moçambique a partir de uma adolescência. Já te ouvia nos programas infantis e juvenis da Rádio com uma forte expressão na palavra. O que significou esse parte da tua vida?
Eu tenho dito que não tenho motivos para não ser feliz. Meu sonho era falar na rádio e consegui. Isso significou tudo para mim. Sai da rádio porque tive vontade de experimentar muitas coisas. Foi para preencher uma série de curiosidades, mas voltaria a trabalhar na rádio sem nenhum problema. Um radialista é um artista e um artista nunca abandona a sua arte.
Os primeiros livros que leste, as primeiras estórias, a primeira ficção onde foi que encontraste?
Os livros apanhei com a minha mãe e na escola. Primeiro foram os textos do livro de Português do ensino primário (tenho comigo o livro de Português da Sétima Clásse, onde leio e releio Crónica de Carteira de N. Marimbique que fui descobrir mais tarde que era Nelson Saúte) e depois vieram os poemas, Os Lusiadas de Camões foi o primeiro livro que livro.
E hoje o livro virou um trabalho, com a Ethale Publishing. Recordo-me das conversas em Nampula a volta deste projecto, como se fosse uma miram. E hoje, aonde estamos?
Hoje estamos onde a vida nos leva. Essa curiosidade está a levar-me a Coimbra para fazer o meu doutoramento e continuar nessa coisa de trabalhar como investigador, autor e editor.
Jessemusse, tens leituras de invejar. Deves conhecer as narrativas deste vasto continente como poucos de nós conhecemos. Fico a pensar, o que efectivamente andaste por aí a ler e a conhecer. Mas sobretudo, que caminhos para chegarmos à essa literatura mais próxima da nossa realidade, mas tão distante em termos de acesso?
Como sabes, sempre fui um “puto curioso”. A minha ligação com a África Oriental e Ocidental veio da musica que escutamos no norte de Moçambique, depois, quando aprendi a ler, fui eu mesmo procurar. Aproveitei-me bastante da evolução tecnológica e viajei pelo continente africano de carro. Para teres uma ideia, eu sai de Harare a Nampula, via Lusaka e Blantyre. Vamos ser mais aventureiros e curtir este continente sem chiliques.
Quantas rumbas e kwashalas dançaste para te atormentarem e até decidirem o destino do teu primeiro livro de ficção?
Cresci com muita rumba e kwashala. Tenho várias no meu computador e toco nos fim-de-semana para dançar. Eu, o Gércio Alexandre da Rádio Moçambique e o Peter, apresentador da TVM, somos amigos e temos dançado essas coisas nos fim-de-semana. Quero que as pessoas que leiam o livro tenham vontade também de dançar.
Acho que não pararia esta entrevista se não me impusessem os limites da imprensa. Então vamos fechar à moda tradicional, as tais considerações finais. Agora que experimentas a escrita descomprometida, digamos assim, da ficção. De que lado da história ficarias se houvesse um só lado?
Pergunta dificil. Eu quis escrever justamente para não estar num só lado. A literatura não tem lado. A literatura é o respeito pela diversidade que faz o nosso país e o nosso continente. Este Kwashala Blues é uma oportunidade para os moçambicanos conhecerem-se a si mesmos. Mas também para celebrar as dorres e alegrias das pessoas deste país e deste continente.
“Mutiladas” é um livro de contos de Eduardo Quive, lançado em Maputo em meados de Maio. Ele escreveu, em prólogo: Este livro é dividido em duas partes, a primeira, Cor de Sombra, composta pelos textos que deram destino a toda a obra, e a segunda, Outros Caminhos, escrita entre Agosto e Setembro de 2022, durante a Residência Literária em Lisboa… Nas suas pouco mais de noventa páginas, a prosa poética de Eduardo Quive delicia quem se dedique a ler estas histórias, sem que ela abale a dolorosa crueza de grande parte delas, como “Destina”, na minha opinião, o mais conseguido destes contos. Para pessoa que acreditava como Destina, certo é dizer que tinha os olhos incrédulos.Os peitos continuavam hirtos como mangas maduras. As mãos esticadas estavam com os punhos cerrados como se ainda lutassem contra os dois homens, com a valentia dos heróis. Os que a viram não sabiam se se jubilavam pela sua coragem de fechar os punhos contra os agressores ou choravam a morte de uma mulher que sucumbiu na noite de luar, na festa dos lobos. Destina acreditou em tudo, só não acreditou que aquele era o dia em que tudo teria um fim. As outras histórias da primeira parte do livro são: • “Decadência” – Vitorino, um trompetista de jazz, célebre na terra e no estrangeiro, arrasta uma grave tuberculose que, tirando-lhe o fôlego, lhe destruiu a carreira e o conduz para o inevitável fim; • “Uma história de família” – Uma família abastada e aparentemente feliz, casal com duas filhas, que entra em crise quando o casal se desentende, levando a um desfecho inesperado; • “Cláudia” – A história trágica da protagonista e dos três amigos do narrador, todos jovens, uma história que gostaríamos de não sentir como representativa de alguma da nossa juventude urbana. Em “Outros Caminhos”, segunda parte do livro, gostei de “O cheiro das flores”, evocativa da barbárie das nossa guerra civil, a “guerra dos 16 anos”. Também gostei de “Os passeios da vida”. “O comboio” contrasta o fascínio da primeira viagem de comboio feita pelo adolescente Mito na linha de Ressano Garcia e a dele, já adulto, vinte anos depois, em Algés. “A Punição” apresenta um retrato de um professor em particular, a ideia da generalização parece-me excessiva. As restantes histórias são “As pedras não adormecem” e “O silêncio”.
Enquanto mulher e activista social, ao ler “Mutiladas”, o que salta-me logo à vista é a representação visceral da violência, especialmente da violência de género, que atravessa vários contos. O feminicídio, tratado de forma repetida e brutal na obra, ecoa profundamente em mim, pois recorda as experiências de tantas mulheres que sofrem abusos, agressões e mortes, muitas vezes esquecidas, como as personagens “Destina” e “Cláudia”. Ao dar nomes próprios a estas mulheres, Quive devolve-lhes a identidade, algo que tantas vezes é-lhes negado na realidade. Esta abordagem faz-me pensar em como a nossa sociedade (não só em Moçambique, mas em tantos outros países) está mutilada, não só no corpo, mas também na alma.
Nós, mulheres, somos frequentemente reduzidas a meros objectos descartáveis. A banalização da violência sexual e do feminicídio que Quive descreve é uma crítica dolorosa à indiferença social e à impunidade que cercam esses crimes. Sinto que a obra obriga-me a confrontar essa realidade: a violência de género não é uma aberração, mas uma característica endémica de uma sociedade doente.
Conjugando a arte e o activismo, vejo “Mutiladas” como mais do que uma simples obra literária. Para mim, é uma denúncia, mas também um acto de resistência. Eduardo Quive, com uma linguagem poética e realista, revela a devastação que a violência e as desigualdades causam nas vidas das pessoas e na comunidade em volta. No entanto, a forma como ele usa a paródia e o exagero estilístico ajuda-me a processar essa violência sem perder-me completamente no desespero. Apesar de tudo, há ali uma luz, um convite à reflexão e à acção, um grito de socorro que ecoa nas páginas e pede uma resposta. Enquanto artista, sinto que a arte tem o poder de expor as profundezas da miséria humana e, ao mesmo tempo, questionar o “estado das coisas”. A arte em “Mutiladas” é uma ferramenta de contestação e transformação social, algo com o qual identifico-me profundamente enquanto activista. Na verdade, acredito que, na vida real, a arte tem o poder de mobilizar consciências, de gerar diálogos e de provocar mudanças.
A sociedade que Quive descreve, mutilada em todos os níveis, reflecte o estado interno de tantas pessoas que sobreviveram a traumas e que continuam a lutar para encontrar um espaço de cura, de voz.
Como sobrevivente de abuso infantil, muitos dos temas abordados em “Mutiladas” tocam-me de uma forma muito pessoal. A mutilação, tanto literal quanto metafórica, que se espalha pela obra, faz-me lembrar as feridas abertas que muitas de nós, sobreviventes de abuso, carregamos. O abuso infantil, tal como a mutilação genital feminina (uma prática que ainda persiste em algumas partes do mundo), e outras formas de violência, são maneiras de roubar-nos a autonomia e a dignidade. Estes actos deixam cicatrizes, não só no corpo, mas também na mente e na alma. E isso fica tão claro na descrição de personagens que são “sombras” do que um dia foram.
A introspeção do narrador-personagem, especialmente em contos como “Decadência”, faz-me reflectir sobre a maneira como nós, vítimas de abuso, muitas vezes procuramos reconstruir as nossas identidades fragmentadas. A sociedade que Quive descreve, mutilada em todos os níveis, reflecte o estado interno de tantas pessoas que sobreviveram a traumas e que continuam a lutar para encontrar um espaço de cura, de voz.
“Mutiladas” também faz-me pensar nas desigualdades sociais que afectam particularmente as mulheres. Nos contos em que se fala de famílias ricas e pobres, de meninos que têm acesso a educação e outros que não, vejo uma ligação clara entre essas desigualdades económicas e as desigualdades de género. Nós, mulheres, especialmente as mais pobres, somos frequentemente as primeiras a sofrer as consequências dessas exclusões. Ficamos presas em ciclos de pobreza e violência, sem os recursos necessários para escapar ou para lutar pelos nossos direitos.
Como activista, a crítica que Quive faz a essas desigualdades é um apelo à acção. O texto não só descreve a opressão, como também leva-me a questionar: o que podemos fazer para mudar esta realidade? Como podemos, através da arte, da literatura e do ativismo, lutar contra essas estruturas que perpetuam a violência e a exclusão?
Como sobrevivente de violência, a banalização da morte, especialmente a morte de mulheres, como ocorre em “Mutiladas”, é talvez o aspecto mais angustiante para mim. O silêncio que segue esses actos de violência (um silêncio que reflecte a indiferença da sociedade e a falta de justiça) é um tema recorrente na luta contra a violência de género.
No fundo, para mim, “Mutiladas” de Eduardo Quive é mais do que uma obra literária; é um manifesto contra a opressão e a violência que assolam a nossa sociedade. Quive usa a narrativa como um espelho, expondo as feridas abertas do mundo contemporâneo, especialmente no que diz respeito à violência de género e à desigualdade social. Sinto que a obra convida-me a reflectir e a agir, lembrando-me que a arte tem o poder de iluminar as sombras mais escuras da nossa existência.
Mutiladas é o título da última obra do escritor moçambicano Eduardo Quive, lançada em Maputo, em Maio do presente ano. A obra é composta por 12 contos, narrados em 101 páginas.
A miséria do mundo
Ler Mutiladas recordou-me o modo como a obra Angústia do escritor brasileiro Graciliano Ramos foi escrita: a temática, o tipo de narrador e o facto de abordar a época vivida pelo seu escritor. No seu livro, aquele autor conta os dramas do comportamento humano, através de um narrador-personagem que denuncia modos de agir de pessoas a viverem no seu limite de humanos. A critica a essa sua obra, tem, repetidamente, afirmado que o autor “narra a miséria de estar no mundo”.
Em Mutiladas, a miséria humana é analisada por um dos narradores introspectivo de Quive. O outro narrador, observa-a e relata-a minuciosamente. As acções têm lugar em espaços-representações de Moçambique (Maputo, Chokwe, Gaza e Matola), com reminiscências em Lisboa, por, a partir de lá, o narrador observar e abordar Moçambique. O comportamento das pessoas está na base dos contos. A época fabulada é contemporânea a do seu autor empírico, a julgar pela menção aos my love, aos grupos de WhatsApp, aos smarphones, aos memes, aos emojis, à verificação de status em redes sociais e a feminicídio. A temática do livro é focada no dia-a-dia, num género literário pós-modernista, marcado pela forma como o real e o imaginário são construídos, bem como o imediatismo e o pano de fundo de um texto com uma linguagem rente à dos médias electrónicos nos quais predomina a cultura de massas.
Devastação, desigualdades e dores do mundo
Logo a partir da cor da capa, que é negra, aliada ao seu título, somos avisados que a matéria abordada pode ter um teor pesado, fúnebre, triste. E é. Coadjuvado a isso e à sugestão de pano de fundo negro, os títulos dos contos, também, nos remetem à desgraça, nomeadamente: “Decadência”, “Três balas”, “A punição”, “Andar às voltas” e “silêncio”. Destaco este último título, pelo facto do silêncio ser sugestivo, tanto de dor, quanto de introspecção, quanto de desejo ou não de ficar sem dizer nada. Essa sugestão de fatalidade, na obra, é, entretanto, camuflada por um tom narrativo leve, de paródia e, por vezes, com recurso ao exagero – enquanto figura de estilo; o que torna a leitura menos dramática, embora acutilante. O título do conto “O cheiro das flores” foi apenas uma estratégia para poupar o coração do leitor; remete, à primeira, à ilusão da beleza, mas não é disso que fala. Trata-se de flores para abafar “o odor insuportável dos falecidos da casa de Sara”, cf. pg 64. A matéria é muito comovente.
O narrador-personagem, na maior parte das vezes, concentra as falas dos personagens na sua. Faz um monólogo interior, abordando o presente, com alguns recuos para o passado. Vive lembranças, percepções, e, pelo tom com que escreve, denuncia realidades sociais actuais, ignoradas, na vida real, por quem de direito e de dever. É um narrador psicologicamente ruidoso, embora afável nas suas palavras escritas.
A narrativa coloca o leitor perante dramas do quotidiano moçambicano e das suas misérias, vistos na perspectiva dos seus narradores. Critica aspectos aparentemente banais, que nos habituamos a viver, enquanto habitantes de países pobres, como se de problemas não se tratasse. Revela que há necessidade de se prestar atenção ou de se resolver dramas sociais, em contextos factuais. Mutiladas questiona a cidadania dos moçambicanos. A sua actuação enquanto humanos, na defesa da vida.
O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporênea.
Trata-se de dramas descritos com mestria. Aliás a descrição, a observação e a escuta, mostram-se fortes por parte dos narradores deste livro. No primeiro conto, intitulado “Decadência”, há um homem que não o é por inteiro, é sobra de homem, de tão doente que vive. A sua tosse é descrita ao pormenor. A sua esposa é uma sobra de um passado glorioso, portanto, também uma mutilação do que ela vivera, enquanto esposa. Há um cego que pergunta se os outros não têm olhos para ver. Há nisto um exagero, mas é para demonstrar o quão a sociedade narrada se encontra mutilada. Há, no segundo conto, intitulado “Três balas”, um bairro que vive o drama de tiroteios e de ladrões que roubam produtos básicos e de primeira necessidade. Um autêntico faroeste. E outra vez com recurso ao exagero, o narrador fala em alguém que foi morto três vezes. Trata-se de gente e de lugares devastados.
As desigualdades, no livro, são narradas de modo recorrente, por exemplo, no conto intitulado “Uma história de família”, fala-se numa família que tem whiskeys com imensos anos de velhice e que tem bastantes televisores que não utiliza (uma família abastada) e outra família pobre, na qual há membros que utilizam o mesmo telemóvel. Nesta última, vive-se sem amor, disputando bens e vivendo desentendimentos que levam à morte. As desigualdades são também referidas no conto “Passeios da vida”, num texto no qual há meninos com possibilidade de se deslocar a um museu e outros, não. Essa impossibilidade é comparada distância que se situa entre os objectos colocados nas prateleiras ou paredes de um museu, que não podem ser tocados, apenas “sentir-lhes os cheiros e […] observar, experimentar e vivenciá-los”, cf. p.89. A desigualdade de acesso, faz lembrar a mensagem que se pode ler no poema intitulado “Fábula”, de José Craveirinha, e cito-o, só para contextualizar o que digo, mas é preciso ler Mutiladas para se perceber a razão para a qual o poema é chamado.
Menino gordo comprou um balão / e assoprou / assoprou / assoprou com força o balão amarelo. // Menino gordo assoprou / assoprou / assoprou / o balão inchou / inchou / e rebentou! // Meninos magros apanharam os restos / e fizeram balõezinhos.
Craveirinha (1995a:14)
Angústia e o questionamento do status quo
A Angústia que mais comove ou desconcerta o leitor, nesta obra, é o feminicídio. “Destina” e “Cláudia”, mulheres cujos nomes são, também, títulos de contos, são vítimas das sagas desta época. Barbaramente assassinadas por violação sexual, crime que, tal como o narrador o aborda, é depois relatado, por alguns personagens, como se nada fosse. Temos visto, em contexto real, em Moçambique, depoimentos similares aos mencionados no livro, agressores a falarem sobre a violação sexual, quase que sem culpa, sem arrependimento; como se de uma brincadeira se tratasse. O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporênea.
O tipo de crime narrado, recorda-me um outro, o dos raptos, fabulado por Miguel Luís, outro escritor moçambicano, na sua obra O Desamparo das flores. Ambas as transgressões suplantam a capacidade de contenção por parte dos agentes policiais em Moçambique, em contexto real. Vivemos, portanto, uma sociedade mutilada e a pedir socorro! A resposta aos gritos tem sido quase silenciosa, quase muda e sem expressão, ante o agravamento dos acontecimentos diários. Quive convida-nos a reflectir sobre o país que hoje vivemos, cheio de atrocidades sociais, desde as que parecem menores, até às de grande vulto que acontecem à luz do dia.
O autor empírico de Mutiladas faz uma cartografia da dor e da miséria humana, com laivos de realismo. É inconformado com o “estado das coisas”. Nesta obra retoma o debate da sua anterior, intitulada Para onde foram os vivos, numa alusão ao abandono de corpos e de lugares, nos quais a violência, o silêncio ante a dor e o desespero tomam conta de todos. No conto já referido, o “Cheiro das flores”, do livro Mutiladas, o narrador mostra-se um bom ouvinte, a morte e a extirpação são o reflexo dos espaços nos quais se pode questionar onde é que andam os vivos, porque estes, vivem “mutilados no corpo e na alma” (cf. p. 63 de Mutiladas).
Eduardo Quive é este escritor, poeta, jornalista, activista social e “agitador” cultural que acredita na arte como possibilidade de diálogo com a sociedade, através de uma linguagem, que sendo a habitual à do dia-a-dia, talvez ajude a repor a “ordem natural das coisas”. Esta obra demonstra o observador atento que é o seu autor empírico.
A todos, desejo uma boa leitura. Esperando que o trabalho de Quive seja o grito que, juntando-se a outros que têm sido feitos, através de factos ou pela literatura, nos permitam viver uma sociedade livre da violência. Que a arte continue a iluminar a vida.
Sara Jona Laisse, docente na Universidade Católica de Moçambique, em Maputo. Membro do Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.
Maputo, Maio de 2024.
Fotos do evento de lançamento captadas por Adelium Castelo
Durante a sua estadia em Lisboa, onde participa da Residência Literária, o escritor Eduardo Quive foi convidado ao programa Escrever na água, conduzido pela jornalista Fernanda Almeida, na RDP África.
Eduardo Quive falou da experiência da residência, impacto e perspectivas para o seu trabalho futuro, do trabalho literário em Moçambique e das possibilidades de intercâmbios e mobilidade literárias no espaço da língua portuguesa.