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  • Encontro com Eduardo Quive na Feira do Livro de Lisboa

    Eduardo Quive, em residência literária em Lisboa, conversa com a escritora Joana Bértholo na Feira do Livro de Lisboa, no dia 11 de Setembro. A moderação esteve a cargo do escritor e jornalista brasileiro João Gabriel Lima. A conversa foi em torno das experiências e registos particulares do escritor e jornalista moçambicano durante os primeiros dias na capital portuguesa e do que a escritora portuguesa viveu e registou em Maputo onde esteve em resiência literária em 2019. O resumo fotográfico do evento está na página das Bibliotecas Municipais de Lisboa.

    A Residência Literária em Lisboa é um programa promovido pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa (CML)

  • As pedras não adormecem

    Vejo da janela como o mundo não para apesar das águas que vem do céu e tomam o chão, trazendo novos barulhos para o quotidiano, muitas vezes ocupado pelas conversas em várias línguas dos turistas. Os carros abrem caminhos no alcatrão coberto de água, as poucas pessoas que se fazem à rua, tem de inventar novos estilos enquanto caminham ou se esquivam das gotas que cada vez mais caiem grossas. A vida, tende a se adaptar a um dia cinzento, em que a chuva que vem se cogitando há vários dias, não se adiou. Chove em Belém, as águas correm pelo alcatrão e traçam-se novas rotas para Maputo.

    Há dias que não vejo notícias, não leio jornais, não consulto sítios de notícias na internet, muito menos entro em grupos de redes sociais em que a informação corre a velocidade maior que o tempo. Todos os vícios, as teorias sobre a importância de saber o que se passa a volta e no mundo esvaziaram-se desde que os ventos levaram-me para este lado do oceano. A morte da Rainha chegou-me de forma inevitável por comentários, muitos dos quais posicionamentos e afirmações e não propriamente um rescaldo do que aconteceu com a monarca. Então continuo desinformado.

    A chuva que cai leva-me de volta para casa. Os receios, a cada gota que se intensifica, só aumentam. Custa-me a sair da janela, procuro acompanhar o percurso das águas, vejo que correm com preguiça. Escuto cada gota que cai e se faz eco das chapas de zinco da velha casa do meu pai. Cada gota, como marteladas que furam o zinco com as ferrugens do tempo, deixando as águas passarem entre buracos que foram se abrindo, até ao chão onde temos de nos esquivar. Da correria para apontar a esses buracos baldes, bacias, tigelas, púcaros, e tudo a encher em segundos e depois a escorrer chão a dentro, e de repente todo o chão estava húmido, o desespero vem sem pânico, sabemos que, apesar de tudo, somos sortudos, a casa não inundará, os poucos bens, a mesa de madeira, a secretária onde sobra o orgulho de tempos de funcionário do meu pai, as cadeiras plásticas, a estante onde ainda há marcas do televisor avariado, não serão atingidos pelas águas. As gotas, apesar de teimarem a inventar novos buracos a cada chuva, sabiam o limite da desgraça. Não iam para além de só molhar o chão todo.

    Os dias de chuva são longos, parecem levar anos. E grande parte do tempo estamos acordados, até onde o susto souber espantar o cansaço e o sono. Quando as coisas parecem, finalmente, calmas, apesar das gotas ainda murmurarem sobre as chapas, vamos para os quartos, para outras batalhas enfrentar. As camas, que só nos lembramos delas mais tarde, tem algumas zonas molhadas. Os cobertores que julgávamos velhos são os únicos da casa e estão todos molhados. As gotas que dançam sobre o zinco, foram achando novos caminhos para dançar connosco dentro da casa. Então vêem-nos a inspiração e a improvisação. Dançando sobre a chuva. Com a força que sempre sobra para esses momentos de alta exigência criativa, carregamos as camas e ensaiamos posições que escapem das gotas que irrompem do céu até dentro da casa. É um vira-vira até que o quarto dê um jeito em si mesmo e, de repente, as coisas se ajustam. Acabamos por aprender sobre a anatomia de uma cama, sobre em quantas partes se divide uma cama e quais delas estão mais molhadas que as outras. E então ajustamos o corpo essa nova descoberta.

    Dormindo praticamente sobre a água, com os corpos esgotados de cansaço, somos pedras onde as águas da chuva batem e fazem as curvas até ao dia seguinte que chega com a nossa indiferença à passagem do tempo. As pedras não adormecem, então desconhecem o amanhecer. A vida corre lá fora. As mulheres há muito que preencheram as ruas organizando os seus quintais, saudando-se. As crianças já brincam nas águas que tomaram o lugar da arreia nos seus quintais e na rua. Os primeiros olhares do novo dia são sempre sobre os caminhos da chuva. E nas conversas logo se percebe que choveu para todos. Para uns, choveu tanto que fez-se um oceano dentro de casa, em breve vão navegar os maiores navios carregados de tralhas que eram objectos de luxo para os seus donos, rumo à lixeira ou vão secar pelo menos as madeiras, para depois serem lenha, e servirem para a cozinha. Para outros a chuva foi um bailado, dançou-se a noite inteira. Mas houve aqueles para quem a chuva foi uma canção, foi ópera, alento para suas almas, estava uma noite boa para relaxar, só não deu para ver um filme, porque a luz quando vai, vai para todos.

    12.09.22, Lisboa

  • O mundo dentro da boca

    Até antes de conhecer Lisboa, pensei que gostasse de caminhar, mas percebo que de caminhar, só conheço a beleza das planícies da minha terra. A areia leve, cinzenta, amolecendo o peso do corpo que vai com as suas intenções, o cheiro da poeira e o capim verde nas ruas do meu bairro. Conheço alguns solos íngremes e movediços da vida, mas os sobe-desces de Lisboa, confesso, estão além do carma da vida de distâncias que levamos desde a nascença. Cresci a ver as pessoas a caminhar. Aliás, já vi mulheres, dando parto em plena caminhada, na rua, no my love, o nosso salvador transporte público, no carro do tio Chico ou numa barraca, como aconteceu com Lúcia. A caminhar nós nascemos. Então penso na vida como um caminho. Nós nascemos caminhando e morremos em marcha.

    Vejo a vida a partir das nossas casas lá no bairro. Podemos percorrer quilómetros num dia, dentro dos quintais, dependendo do que o corpo necessita. Casa mesmo, para muitos de nós, é o quarto e a sala. O resto são complementos. A casa de banho, a cozinha, muitas vezes estão longe da casa. Dispensa-se a dispensa, o que deixar lá? Nas nossas vidas tudo é escasso, imediato e não envelhece. Nada a dispensar. Nada a guardar. A comida que, por hábito, os assalariados compram sempre em quantidades que mais ou menos cubram o mês, fica debaixo dos olhos e do nariz, não vá algum feiticeiro deitar as suas azas sobre o que vai alimentar os nossos corpos e deixar o espírito pronto para acolher as mazelas da vida.

    No parque que fica perto da casa onde moro, temporariamente, que nunca tinha ido, apesar de estar a dois passos de casa e de passar pelos meus olhos todos os dias, vejo a vida a correr devagar. Sinto por dentro a diferença por ter ido ao Jardim Vasco da Gama, um espaço para as famílias e para os solitários como me sinto nesta meia manhã de sábado quente de Belém.

    Todas as vezes que fui a um jardim foi porque ou a vida estava encalhada ou porque estava sem um tostão no bolso à hora do almoço ou porque, enfim, havia sempre um caos na cabeça, então precisava de um alento, um lugar em que, não estando sozinho, poderia tudo ser-me indiferente. É verdade que muitas dessas vezes, jamais consegui me abster. Nunca foi assim em Maputo, nunca é em Lisboa. É impossível abster-me dos afazeres de cada um naquele momento e de alguns contrastes. Do casal já com alguma idade, aos gritos, com palavrões que não chegam a ser insultos à moda portuguesa. Um espantoso e avulso “caralho” repetido várias vezes para a mulher que já se cala e só gesticula, para o homem que parece praticar uma coreografia de dança. Vocifera, pragueja, faz promessas, rasteira-se, cambaleia, quase cai, cospe aos pés da mulher, vai ao carro, abre a porta, quando a mulher vai também abrir a porta do passageiro, o homem grita ainda mais, uma coisa qualquer que não entendo, nem a mulher entende, fica de braços abertos, liga o carro, recua, a mulher vai atrás, então para, acena qualquer coisa, e então ela entra, finalmente, mas sem bater com a porta, com uma calma de quem vai sentar-se sobre pregos e vai ter de esquivar-se de agulhas em sua direcção. Tudo me ocorre em câmara lenta. O carro parte. Ao meu lado, dois adolescentes beijam-se, com desejo e a cegueira dos apaixonados. Observo com perícia o momento, com o espanto de quem se lembra dos melhores beijos só no escuro. Mas estão de olhos fechados, deve estar escuro, algures no seu agora. Beijam-se como se procurassem encontrar um lugar no mundo dentro das suas bocas, como se procurassem entrar num e no outro. A minha avó dizia, o coração de alguém é um país. Mas diante de mim, a boca é todo o mundo. Olho para as horas, são 11h33. Ninguém, em Maputo, beija a essa hora. Volto às crónicas de vida privada da Dulce que a vontade de as ler, foi a que me levou ao parque.

    10.09.22, Lisboa

    Foto: Jardim Vasco da Gama retirada do Guia da Cidade

  • Passeios da vida

    Não sei porque andar por estas ruas me leva para uma infância que não teve grandes epopeias. Gostaria de contar grandes histórias de quando miúdo. Talvez tivesse feito carrinhos de arames, mas não fiz, nunca soube, antes levava os arames em casa para ir dar um outro miúdo para fazê-los. E quase sempre ele é que ficava com o melhor carrinho e eu, apenas com o esqueleto. Se traduzisse isso na vida real, ele ficava com as obras e eu ficava com o sonho.

    Também não sabia jogar futebol. Nalgumas vezes, por compaixão, – era difícil sair de casa, os meus irmãos proibiam-me de ir aprender asneiras na rua – depois de se escolherem os melhores para entrarem no jogo, colocavam-me na baliza, com a ideia de que fariam de tudo para que a bola não chegasse até lá. Na certa se chegasse, ou eu esquivava e entrava o golo, ou punha-me a defender para os pés do adversário o que, na mesma, dava em derrota para a equipa. Então restava-me pouco para fazer nas saídas para a rua da infância.

    Enquanto caminho no Chiado, a caminho do Museu Nacional de Arte Contemporânea, sinto no corpo uma pequena brisa, que bate suavemente de frente, e massageia as orelhas. Escuto a voz da minha infância e suas memórias, como se estas ruas tivessem o chão que carregou os meus passos, quando aprendia a andar.

    Nunca fui a um Museu. Muitas crianças do meu bairro ou da minha escola também nunca foram. Então isso nunca foi problema. Não tenho traumas. Fiz outros passeios. Nas idas frequentes para o hospital, por exemplo. Não fui aos famosos passeios escolares. Só vi os outros meninos a encher os machimbombos, com tigelas fartas, com frango assado, batata frita, arroz refogado a cebola, castanho como deve ser e salada. Porque a ocasião exigia, no saco plástico que guardava a comida, uma fanta, para a felicidade da pequenada. Comer assim, era só em ocasiões especiais, nas festas de Natal e fim de ano, dia 01 de Junho e nesses passeios. Mas eu nunca fui para onde esses meninos iam. Fiquei sempre por terra quando o assunto eram os passeios escolares.

    Com alguma regularidade os professores inventavam passeios para os alunos, diziam que era parte complementar das aulas. Eram visitas às praias, aos museus ou ao jardim zoológico. Nunca conheci o jardim zoológico. E não vou a tempo, todos os animais estão quase mortos, resultado de anos à míngua de alimentos, dizem. Nunca entrei no Museu da História Natural, da Moeda ou da Geologia, por exemplo. Tudo acontece-me na virada para a juventude. Mesmo assim, sempre acelera-me o coração sempre que vou entrar num desses sítios.

    Quando o machimbombo partia, com os sortudos, era como se víssemos a vida a esvair-se. Para muitos meninos que ficavam, o dia era como se fosse uma sexta-feira santa, uma sensação de feriado, dia de tempestade e dia em que um homem muito importante ia ser morto e por isso não se podia comer carne nem pão. O céu sempre ficava cinzento sobre as nossas cabeças e as aulas eram uma chuva de granizos sobre os nossos corpos.

    Andando pelo Chiado e dentro do Museu, apreciando as obras, lembrei-me então da alegria que me dava ouvir dos meninos que foram lá, sobre o ambiente dos museus. Os poucos meninos da escola que iam aos passeios contavam à maioria nós que ficava como eram os lugares, solidariamente, ou não.

    As visitas eram divertidas. No autocarro, um machimbombo dos TPM, a empresa pública de transportes, que era alugado graças às contribuições dos pais das crianças, o ambiente era de uma festa. Cantavam, batiam palmas, conversavam em voz alta, contando piadas, rindo, apreciando as paisagens. O professor ia apontando algumas coisas que terá falado ou que falaria nas próximas aulas. Um dos meninos, chegou a dizer-me que as coisas lhes passavam pelo rosto enquanto o machimbombo andava, as árvores gigantes, os prédios, as pessoas bem vestidas da cidade, como “flashes” da máquina fotográfica do tio Horácio. Mas era difícil captar o momento, mesmo assim tinham certeza do que viram.

    Mas quando chegassem ao museu onde iam fazer a visita, era como se a luz apagasse na hora do corte de bolo na festa. Aliás, era frequente na altura, que justamente ao anoitecer a luz fosse cortada. Mas essa é uma outra história.

    Dentro do museu os meninos tinham uma forma própria em que deviam se comportar. Quase tudo era proibido de fazer. O professor sempre gritava, meninos não toquem nisso. Quando um se deslocava para distante dos outros, maravilhado com o que via, o professor já ia dando ordens, volta pra aqui. E quando um menino repetia a “indisciplina”, o professor determinava: tu não vais mais ao passeio.

    Tudo tinha de ser direitinho, como deve ser. Aos passos e às ordens do professor. De repente ele perguntava aos meninos, o que é isto? E os meninos já com medo, ficavam calados. Então o professor respondia, é uma zebra, então não conhecem a zebra? E eles se calavam de ombros encolhidos e olhos molhados. E ele gritava novamente, não conhecem a zebra? O que estudamos nas ciências naturais? Aí eles respondiam, conhecemos!

    Acabada a visita, ficavam num espaço aberto e comiam. Aí a luz era restabelecida. A festa estava de volta. Até ao regresso à escola, era aos cânticos, sorrisos e cheios de energia. E vinham logo a contar-nos as novidades. E nós celebrávamos com eles, como se tivéssemos participado do passeio. E comíamos os restos da comida.

    Entrando agora no museu, tenho todas essas ideias, essas imagens que os meninos contavam. As obras de arte é que mostram-me o caminho. Mandam-me calar, dizem-me para me sentar ou então sentir-lhes os cheiros. O ambiente, o trabalho do curador, vão fazendo-me parar, observar, experimentar e vivenciar a obra. Não sei se os outros meninos visitavam as obras ou o museu. 

    06.09.22, Lisboa

    Foto: Exposição de Nelson Ferreira “a pintura sublimou o espírito, patente no MNAC.

  • Andar às voltas

    Na infância, andei com o meu pai, em muitas idas e voltas pela cidade, ora às regulares consultas ao hospital, ora para visitar familiares ou ainda para alguns hábitos que ficam para a reserva individual da memória. Saber guardar também é uma dádiva. Falo de guardar de verdade, reter para a minha exclusiva propriedade, já que o homem de que vos falo não vos pode contar esta parte da história. Nem esta nem outra. Ele morreu.

    Muito cedo nos levantávamos para apanhar o 59 que ia do terminal do nosso bairro, Patrice Lumumba, até ao Museu, no centro da cidade de Maputo. A viagem tinha várias etapas.

    Uma delas, dava-se ao sairmos de casa até à paragem. Às vezes deixava que ele saísse primeiro, quando estava obrigado a ir com ele e sem paciência para suportar a lentidão dos seus passos. Quase andando nada. O corpo não obedecia a cabeça. Ele andava quilómetros no mesmo lugar. Outras vezes, saíamos juntos. Lado a lado. Apenas com breves palavras mesmo à saída do quintal. Mas o resto do percurso de cerca de um quilómetro, multiplicado por 20, era mesmo em silêncio. Só as pessoas na rua iam quebrando a ausência de palavras entre nós. Um bom dia ali, um para onde vais acolá, um vão ao hospital, por aí a diante. Mas sempre havia uma saudação longa à moda moçambicana, pelo menos do Sul.

    Uma saudação é como contar uma história, sobre como a pessoa dormiu, como toda a sua família dormiu; como acordou, como a família toda acordou; se houve sonhos maus ou bons, se alguém está doente, se chegou algum visitante em casa, se os animais, patos, galinhas, estão na sua rotina normal, se ouviu alguma coisa estranha, por aí em diante. E vai se fazendo o diálogo musicado, com gestos de aceitação, espanto, pesar, risos, sempre demonstrando interesse no que outro diz. Se estiver alguém ao lado, entre os dois que se saúdam, será dada a palavra, mas só mesmo no fim, para que reaja à tudo o que ouviu, com uma simples resposta intraduzível para a língua em que vos escrevo.

    Essa pausa chateava-me. E era sempre no mesmo lugar. Sempre com as mesmas pessoas. É como se advinhassem os dias e as horas em que íamos passar por ali. As três velhinhas, uma boa imagem matinal das comadres, duas delas na varanda do seu quintal e outra, varrendo sempre o lado de fora, conversando entre si e, de repente, concentradas em saudar o meu velho. Tudo ensaiado e repetido, todos os dias. Apenas as novidades eram diferentes. Vivendo na entrada da rua, ao pé da estrada, não lhes faltava o que contar. E não vou repetir o que diziam para não me aborrecer já em adulto.

    Não me esqueço das poucas vezes em que mexia na mão do velho enquanto dava uns passos para frente, e a velhinha que fazia questão de ficar muito próximo do meu pai para que não lhe escape nenhuma palavra que de imediato traduzia – sempre dizia o contrário – para as outras comadres um pouco mais distantes, na varanda aberta do seu quintal. Nessas vezes que interrompia a conversa que sempre se faz demorada e detalhista, era um cala a boca, na hora. Mesmo se fosse para avisar que o machimbombo, o autocarro que nos levará de viagem, vai partir…

    Feito o percurso até à paragem, chegava a hora de subir ao machimbombo, uma outra etapa, quase uma outra fase da vida, pela leveza do momento. Primeiro segurava a porta com a mão esquerda e depois colocava o pé do mesmo lado sobre o primeiro degrau. De seguida levantava o resto do corpo com toda a força que pode. Muitas vezes sentia-se já com os dois pés por cima do primeiro degrau, e só quando relaxava o corpo percebia que o pé direito está ainda no chão. Passavam-se minutos nesse exercício até que o corpo se levantasse.

    Dentro do machimbombo, sempre abarrotado de gente, sentados quase corpo sobre corpo, respirando no rosto do outro, colados uns aos outros, trocando-se os suores, os cheiros e, mesmo assim, conversando, rindo, contando-se histórias que não se sabia por onde começavam ou terminavam, trocando-se as vidas, um ânimo que não entendia de onde vinha naquele emaranhado.

    As pessoas iam fazendo o caminho, mesmo assim, para que o meu pai ocupasse uma cadeira, muitas vezes mais à frente, ao lado do motorista. Aí eu gostava. Porque depois punham-me a sentar nas costas do condutor. Ou mesmo por cima de onde trocam-se as mudanças. Era muito quente, estava com as nádegas praticamente sobre o motor. Mas estava com o coração sobre as nuvens. Então me arrefecia de contente.

    Ouvia as conversas todas, mas sobretudo, tinha uma vista privilegiada sobre o caminho que se faz desde o bairro até onde descíamos, ou no Hospital Santa Filomena, agora chamado Alto-Maé ou no Hospital Central, em plena avenida Eduardo Mondlane, onde a cidade se faz mágica, com prédios, lojas iluminadas com variedades nas montras, entre as quais mais apreciava os manequins.

    A andar por Lisboa, no machimbombo, palavra que tenho sempre de traduzir para autocarro, vejo sentado o meu pai. Mas agora num lugar reservado para deficientes. Escuto as conversas em várias línguas. Mas várias vezes, é com o silêncio que falam as pessoas. Na paragem do Jardim de São Bento, por ali onde fica a residência do primeiro-ministro de Portugal, vêm a correr duas senhoras, com os dedos a acenar, intercetando o autocarro. Entram suspirando, e rindo às gargalhadas, mas sem fôlego, sentando-se sobre o balanço do arranque do machimbombo. E elas riem-se, comentando uma com outra sobre o esforço feito. Falam em crioulo. E volto ao meu pai, sobre todo o exercício que para si significava apanhar o machimbombo.

    Dou por mim perdido. Dou por mim com as horas perdidas. Em lugares desconhecidos. Ligado ao google maps que só aqui aprendi a usar, que me informa que já estou fora do percurso. Desço desesperado. 15 minutos a pé, promete-me a tecnologia. E vai apontando, vai gritando no meu ouvido, repreende, vira agora para a esquerda, vira para a direita, a 95 metros vira para a direita. E passa o tempo, atraso-me ao encontro, peço desculpas à Mirna, que está a uma hora a minha espera e não sabe da guerra que travo com a senhora do google maps. E volta-me o meu pai, devoto de Santo António de Lisboa, e lembro-me da avenida Eduardo Mondlane, lembro-me da paragem do hospital, lembro-me, lembro-me, lembro-me e as horas passam-se entre as ruas estreitas da grande metrópole que é Lisboa, com o telemóvel na cara, com a voz que fala e não entendo, com o lugar onde devia estar passam horas e nem tenho noção que está apenas a dois paços, atravessando a rua. Agora entendo o sentido da frase, andar às voltas.

    02.09.22, Lisboa

    Foto: @pikist, ilustrativa.

  • A arte continua a ser o que é

    São Jorge fica longe, no topo de uma colina, mas a fé move montanhas. Se faltam pés e pulmões que suportem a subida, vai um táxi.  

    O carro move-se para cima acompanhando as pessoas em romaria. Aos poucos e poucos, à entrada do Castelo, acomula-se o público, que troca cumprimentos, sorrindo, conversando, trocando ideias, saudações e piadas à moda portuguesa, se a vida oferece limões faça-se uma limonada. Se os guardas não permitem a entrada de álcool, tome-se os gelados. Riem-se se na mesma.

    Não tarda nada e vai se descobrir que santos da casa fazem milagres. Afinal há vinho lá dentro. E uns salgados. E uns doces.

    No quintal de São Jorge, várias cadeiras se espalham. Uma a uma, as pessoas vão se acomodando, deitadas. Ajustam-se os cobertores para espantar o ar frio que vai soprando com a noite. Já são 22h. Vai iniciar o Fuso. O festival de vídeo arte.

    Filmes curtos vão passando, um após outro, sem intervalo, mas com os devidos aplausos da plateia que na hora de contemplar tem um silêncio entusiasmante.

    Cada filme denuncia a seriedade que toma o trabalho artístico. A arte é uma ciência experimental. O seu entendimento vai para além da razão. Quanto menos entende-se, parece-se no caminho certo.

    Enquanto seguem os filmes, a mistura de imagens, de sons, de movimentos, da performance, da poeticidade das intervenções, do silêncio que faz parte do acto. A acção contrariando a dinâmica. Agir é não agir. Uns vão se repetindo nas acções, como se o realizador quisesse testar a paciência do mundo. O público não se importa, entra no jogo.

    E penso na arte, como matéria. A arte que transporta-nos para outros silêncios. É como se, naquele momento, o corpo partisse para uma outra dimensão. É o espectador sendo o objecto artístico. Maleável. Desafiado a dar sentido e justificação às obras apresentadas. A arte pode ser força bruta. Um vazio. Os papéis se invertem. O público é desafiado a dar sentido à obra. E o artista contempla. Ouve. Vê. E não se justifica.

    Deitado, como toda a gente, vagueia a minha mente. Penso na situação em que nos encontramos. Na condição frágil, de submissão perante o que se vê. Uma imagem que me leva a pensar no trabalho da arte. Que diferença faz no mundo a arte? Não será a arte um capricho humano, dos incapazes, dos excluídos do mundo normal e formal, dos preguiçosos e presunçosos? Quem é o artista? Qual é o trabalho do artista?

    Num mundo em que todo o sujeito procura resolver problemas, os políticos a baterem-se na façanha de servir ao povo, os médicos que curam as dores da carne, os polícias a manter a ordem, os funcionários públicos a cuidarem que não nos falte a espera, a demora, os empreendedores tão aclamados hoje em dia, a procura de soluções para um mudo melhor, de forma pragmática, que problemas resolvem os artistas? 

    Os filmes a preto e branco levaram-me de volta para a casa do meu pai. O televisor pequeno, preto e branco, cujos últimos anos de vida foram de um tratamento brutal da nossa parte. Embrutecidos pelas imagens que se negavam a fixar-se, os actores das novelas e dos filmes, quais bailarinos aos nossos olhos, ora pulando para cima, ora para baixo, com os corpos metamorfoseando-se em escala, de cima para baixo, impossível reconhece-los, não ser pela imaginação. E a hora do telejornal, sagrada para o meu pai, a missão era ainda de elevado grau de perigo com a chacina que se impunha sobre o aparelho. Ou o televisor punha-se a jeito, dando-nos as vozes sem ruidosos ou era à pancada que se resolvia o assunto. E quando as bolas brancas e as manchas pretas ressurgiam, de imediato vinham gritos de ordem: acerta o televisor. E lá na luta titânica, movendo a antena de um lado para outro, íamos procurando a posição milagrosa, que acabam sendo os nossos corpos a sofrer, minutos a fio em pé, exactamente por onde o sinal melhorou, muitas vezes, sendo com os braços suspensos.

    E as pessoas não piscam. Não falam. Não mexem nos telemóveis. Não abanam sequer, se não for para reagir a uma cena inusitada que foge do meu entendimento. A Catarina, vai morrendo-se de rir. Também me rio. Mas por dentro me desespero. As cenas do filme que o título já por si é um vazio, Enigma, parecem desesperadoras. E penso na minha condição. Nas noites que não dormi porque faltava-me o ar. E penso naquela colina até ao São Jorge, que minutos antes exigiu-me que multiplicasse os pulmões, a ver se suportava a subida. Os filmes remetem para a repetição, para a vontade de invadir-se, para o mistério da voz, das paredes e de um mundo onde as relações humanas, embora exigem acções colectivas, o individualismo é uma condição dominante. Porque o todo é um conjunto de particularidades.

    É a arte a desafiar a estética. A ir para além da estética que define a própria arte. O que passará pela cabeça desses artistas, ao trazer obras de tamanha complexidade, mas com uma suavidade intrigante, que instiga a ir ao encontro do que não se sabe. A arte continua a ser o que é, um dilema.

    Foto: Facebook Fuso

    29.08.22, Lisboa

  • Cachupa e uma lei do amor

    Todas as palavras já foram ditas sobre o amor. Tudo já foi dito, incluindo esta frase. Mas o amor como direito e dever, vou ainda ouvir dizer. Vou ouvir e ver que se diga e se faça, em público, com música, megafone, comida e bebida.

    O amor como uma questão de sobrevivência, como o direito à vida, o direito à existência. O amor como saúde e o desamor como doença fatal e degradante. O amor como cidadania e o desamor como o desrespeito e desconsideração. O amor que não é nada romântico. Que é sim uma experiência do corpo, mas é uma condição social. Nada dramático, antes e necessariamente prático. O amor como lei que há de salvar, curar e libertar. Mas não como bem adquirido, oferecido, largado no caixote de lixo para que alguém o apanhe, aqueles que vivem no lado negro da lua, no lado negro dos mercados, no lado negro das noites, no lado negro da cor e da vida.

    O amor como sustentabilidade. Como um direito básico e legislado, até. Como um decreto, escrito a tinta indelével. Porque não basta ao coração a capacidade de amar. Essa oportunidade já lhe foi dado e ele fracassou, sempre foi selectivo, abusivo, traiçoeiro, manipulador, violento, opressor e irracional, quase extinguindo o próprio amor.

    Haverá na humanidade espaço para tão exigente tarefa? O mundo é grande, disse Drummond, e o amor seria da dimensão desse mundo. Deixa-lo que viva nos corações seria assumir que o mundo cabe num só corpo. E não, o corpo todo não suporta o peso do mundo. A capacidade de partilhar ao invés de dar. Não resistimos à tentação de reter, de possuir, de apropriar-se. Seguro mesmo, é ter um seguro de vida, um título de propriedade, um atestado de alguma coisa. É o “eu” às vezes pluralisado, estratégicamente.

    Um amor que ninguém estende a mão para ter e ninguém anda à procura. Um amor que não seja carência nem excesso. Que seja equilíbrio.

    Sim, amamos quando cozinhamos e damos de comer e de beber; ama a mulher que dá o peito a um bebé, amam os que convivem com o outro, os que abraçam, beijam, vê a nudez do outro e a desejam; amam os que curam, dão seu sangue para a vida do outro; mas esse é o amor dado, dependente, condicional e refém dos desejos e da boa vontade, da disponibilidade.

    O amor que vale é o que não se dá. É o que é. É o que deve ser. Um direito natural. As paixões que sejam temperamentais, temporais. Mas o amor, não, que seja essência. E isso não é romântico, poético ou subjectivo.

    Pensa-se o amor depois de uma cachupa preparada por uma mulher aplaudida as vezes todas em que seu nome foi dito, glorificado, para bem dizer. É o Cachupão nos becos de Alfama. Enquanto ali na esquina tem o Museu do Fado, um grupo de negros, mulatos e brancos, escutam atentos, ora rompendo em aplausos de aceitação, a um homem e quatro mulheres que fazem pensar o amor. Cinco psicólogos foram colocados em frente para falarem das dores invisíveis, que transcendem a alma, mas que afectam o estado do espírito e todo o tecido social. As propostas são de uma conjugação difícil de assimilar. O que é amor? Essa foi pergunta de base. Antes, o que não é o amor, foram todos unânimes na resposta que fica como uma pergunta. O que não é o amor?

    O amor, as dores da alma e do corpo. O amor que não é uma questão de sentimento. Da disponibilidade para sentir e demostrar sentimentos, emoções e acções. É uma questão do ser. E fico a pensar na frase dita por alguém de quem não nos lembramos, mas que Miriam, digo, Miriam Pires dos Santos e para que conste nos anais de quem tem memória, o nome tem de ser dito completo, como exige a própria: os peixes nadam juntos, não se descriminam. A descriminação está na água. As pessoas não são racistas, os sistemas, o mundo é que é racista. E completou Shenia Karlsson, como quem determina, que o mundo precisa de leis para o amor, que permitam a não coisificação do outro, a desvalorização da dor do outro, da fome do outro, da guerra do outro. E, não, não se trata de solidariedade ou de um gesto humanitário, dos poucos sensíveis, bondosos, que dão esmola aos miseráveis do mundo. É uma questão de princípios, de leis, que incluem a criminalização do desamor.

    Antes que toda a cachupa se desfizesse no meu estômago, levantei-me e despedi a Sílvia. Enquanto caminhava pelas ruas estreitas, cheias de pessoas, uma multidão em romaria pelas paredes que contam várias histórias, pelas tascas apertadas de onde soltam-se gargalhadas e uma trilha sonora de talheres, percorro os rostos, como se a lei do amor se tivesse decretado. E, penso, mergulhado na metamorfose das aparências, quem entre nós, diante da lei, será o inocente e o criminoso. Quem investigará os crimes cometidos, quem acusará, quem defenderá, quem será o juiz e carcereiro? E o que será o amor?

    28.08.22, Lisboa

  • O acompanhante

    Dá para ouvir de longe a voz que vem leve como se imitasse o vento. Vai se fazendo ouvir puxando a alma para um lugar desconhecido, por aí, algures nas esquinas da vida. É a Elis Regina a fazer-me serenatas.

    Ao entrar no espaço vazio do boteco, um cantinho carioca entre as ruas apertadas da Graça, o vazio me recebe. Seria das poucas vezes que entraria num lugar onde come-se e bebe-se sem ouvir a orquestra de talheres e vozes exaltadas, ora se engasgando entre arroz e vinho, entre um peixe e um gole de cerveja. Não faz mal, há ali uma voz que preenche todos os vazios.

    E canta. E toca. Canta a voz miúda como se deixasse a tristeza para lá. Vai esboçando um sorriso enquanto afoga-se numa distante alegria de viver e de cantar. Quem canta males dos outros espanta, enquanto os seus se desconhecem. É como se dissesse que é feliz lá para onde olha de olhos fechados, como se visse no seu lugar, todos os rostos que eternizaram os hinos que canta. Algo que só ela pode sentir.

    Não ia tardar que, uma a uma, grupo a grupo, chegassem as pessoas. É tarde de sábado. Dia de feijoada brasileira. A música é um acompanhante. O resto da humanidade, que preenche o lugar, vai se ocupando em tornar o mundo num lugar sem fome. Justamente. E há ainda quem peça que nos tirem tudo, mas que nos deixem a música, penso comigo, enquanto desespero pelo prato que viria alegre, recheado de simpatias. Afinal não é a música que nos move!

    Toda a constelação de clássicos brasileiros é invocada com uma espiritualidade da viola e da voz que parece reverenciar a grandeza dos astros. Sem que esta voz se cale, comer é um sacrifício. Mas convém que não se cale. Preciso ouvi-la. Preciso. Então espero, venero o canto. Vou acenando. Em jeito de quem assume toda a sua fragilidade, a sua ingenuidade, a sua reverência. Saravá! Isto é mais do que música. É um segredo. Preciso ouvir e guardar. Apesar de toda a presença, só eu ficarei a saber aonde fica pasárgada. Lá onde os grandes nomes da arte, artistas de verdade, dos quais não me assemelho, são amigos do rei, quase reis. Penso em Manuel Bandeira. A impertinente vontade de pensar nos mortos quando se está feliz. Como se nos culpássemos por sorrir sobre a memória de quem deste mundo passou.

    Vendo aquela voz dando o melhor de si, fazendo levitar clássicos brasileiros e contemporâneos marcantes sem que lhe mereça um único grito ou aplauso, fez-me percorrer as ruas da angústia literária. Penso nos poetas, verdadeiros artistas da vida, que podem esmerar-se em sangrias criativas, podem inventar quanto palavreado, quantos versos que lhes sejam a si próprios marcantes e lhes encha o ego, que lhes preenchem os sonhos da consagração, de serem reconhecidos na esquina, num bar, ou mesmo pelos vizinhos, que ninguém saberá dos seus veros, tampouco da dor que deveras sentem. A verdade é que, por fim, definimos a escrita como viver em constante estado de solitude. Como se a solidão fosse a catarse dos poetas. Ilustres somos, mas até que se nos enxergue o lustre, estaremos algures, de onde não poderemos voltar a ser o que éramos, quando escrevíamos os primeiros textos, o primeiro verso, as paixonetas que nunca esqueceremos, porque nunca nos foram correspondidas. Dos amores que amamos em segredo para que durassem no tempo. Nascemos sob o signo da insignificância. Da invisibilidade. Da inexistência. É a apoteose do nada, ou da angústia como vaticinou um outro poeta maldito.

    De vedetas mal concebidos, terminamos lembrados apenas duas vezes aniversariamente, como disse o poeta que ninguém se lembra quando nasceu e quando morreu. Ainda que recitem incompletamente os seus versos e sem que os compreendam. O poeta é um fingidor. Mas, não, aquela voz a cantar no boteco não finge. Levita. Invocando o santo nome dos compositores imortais da música do mundo. Mas prioridade mesmo, é o feijão para alimentar a fome do mundo. A fome que nos tira tudo, tudo, incluindo a música. 

    27.08.22, Lisboa