Etiqueta: escritores moçambicanos

  • A Nação existe

    Vamos obrigar-vos a perceber o ridículo que foi vocês todos a agitarem a bandeira e a cantarem o hino nacional. Vamos provar-vos que vocês não são mais do que corpos sujos e fétidos. Que valem tanto como carcaças de animais esfomeados.

    Han Kang, Atos Humanos

    Manifestantes, em Maputo, em cima de um “chapa” Anjo Voador – Preça dos Combatentes. Fotografia de Ildefonso Colaço

    A estação de Infulene está à vista. Luís Cabral também. Um coro de apitos vem acompanhado de vozes roucas, mas sem cessar a sua tarefa: desçam, desçam, xikani, ordenam. Três homens, dois deles adolescentes. Corpos a suar aos cântaros; de chinelos nos pés que crescem a cada passo. O comboio era uma jiboia morta. 

    — O comboio é nosso,  saiam, afinal porque não ouvem? 

    Infulene

    Desci os altos degraus até às pedras que me receberam com hostilidade; dentro das sapatilhas castanhas, velhas, mas resistentes e complacentes com a economia necessária dos dias, os pedregulhos anunciavam a sua “insistente presença”, pelos próximos 30 km que alguns de nós irá percorrer de volta para casa.  Alguns passos dados de volta à procedência, olhei para trás e me convenci, o monstro que anda nas linhas férreas, estava tomado. Assim o corpo iniciava uma experiência do poder popular dos invisíveis que decidiram ganhar uma voz.

    Trevo

    Uma multidão ocupava os trilhos em substituição do fluxo de comboios habitual à hora matinal das 7. A “cobra metálica” — assim o apelidaram os da estação de Nkobe  — cuspiu-nos quando sucumbiu nas malhas dos manifestantes. Nas bermas onde mora boa parte desses invisíveis, porquem os dias se definem pelo ruído das carruagens em velocidade, outra multidão assistia à procissão dos descrentes das ordens de paralisação. 

     — É também por vocês, pela melhoria dos vossos salários, das vossas condições de trabalho, pela dignidade, que fazemos essa luta.

    Machava-Sede

    E as pedras cresciam no meio do caminho. Isso não é uma metáfora drummoniana. Éramos muitos a caminhar como almas doentes em processo de purificação; tinha ser feito o caminho, quanto mais longo e dolorido que se revelou, melhor, assim se aprende a amar de novo o país, numa cidadania que já não é do futuro; a verdade não podia estar mais escancarada; a Nação existe e exala o cheiro dos invisíveis; a Nação existe e ressurge em cada grito de ordem dos inaudíveis do quotidiano nada equitativo — olá Craveirinha.

    Esta é a marcha que a verdade nos impõe; a verdade que dói, e sinto-a em cada passo, em cada gota de suor que cai entre as pedras que vou pensando enquanto conto as estações.  

    Liberdade

    Um amontoado de areia. Uma camiseta vermelha balança em pedaços de paus cruzados em sinal de cruz. Uma vênia se nos é cobrada. Gotas de águas se nos deitam nas palmas das mãos até que atravessam os dedos para irrigar as folhas secas sobre a areia, numa imagem nos lembra as sepulturas abandonadas do cemitério de Lhanguene, lá dos lados de Xinhambanine, onde os vivos se recusam a render-se aos falecidos.

    Daniel

    O cheiro forte das mangas podres lembra o ciclos da vida; os pés já não obedecem o desejo autoritário de chegar à casa, onde a lamúria de todas as desgraças espera; o corpo encontrou as próprias razões de ser; sinto a crescer a pátria nas veias e no coração que se comove, quando no meio da caminhada que vai longa, um homem interrompe o silêncio dos peregrinos.

    — Eles também exageram. Anos e anos de exagero. Foi demais.

    Pela primeira vez, os meus pés duvidaram do percurso. O que nos espera o destino?

     — Toma uma manga, mano, isto tudo é nisso  — saboreei com apetite o fruto da época.

    Matola-Gare

    Homens, mulheres e crianças, com garrafas de refrigerantes nas mãos, uma ideia de ostentação que só não alcança o luxo que desfila à solo, dos mercedes-benz’s, kias, e outros bichos de quatro rodas, antes imagináveis em sagas como Transformers; quando olhei nos rostos de cada um dos showfistas, iam se parecendo todos aos outros que tomaram o comboio em Infulene, mesma alegria, mesmo sentido de pertença; vieram-me os dezembros da infância, que se resumiam em duas datas, 25 e 31, na alegria mais sincera que já vivi por um fim de ano, cuja fantasia residia numa fatia de bolo, arroz de cebola, salada de tomate, frango assado e uma fanta, apenas possíveis nessas duas datas do ano, como recompensa pelos dias de água, trigo, sal, açúcar e algumas verduras; tinha a imagem nítida do quintal da casa do meu pai, quando um homem disse.

    — Tudo isto para depois… nada!

    Quando ele disse “tudo”, voltei aonde tudo começou. E dei-me conta que não foi quando o comboio parou.

    Eduardo Mondlane

    Sexta-feira, Avenida Eduardo Mondlane. Meio-dia. Uma a uma, as pessoas foram se dando as mãos, a eles se juntou um grupo trajado de batas brancas, fardas verdes e azuis; um cordão formou-se a atravessar o alcatrão de margem à margem, e as vozes se elevaram em coro, a entoar o hino nacional; a pátria crescia-lhes por dentro até nas terminações das palavras audíveis em todos os cantos. 

    Num instante que não se viu a chegar, surgiram homens armados de farda castanha que fizeram cantar o coro das armas. As mãos da multidão se desfizeram, como um tecido que se rasga; o coro celestial substituiu-se com gritos e grunhidos de uma dor que só podia vir dos confins do inferno.

    Mesmo assim, podes te orgulhar, poeta, vieste de qualquer parte, de uma nação que ainda não existia. Agora ela emerge e cresce como um “canto de amor natural”.

    Eduardo Quive

    Matola, 12. 12. 24

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    Texto inspirado nos acontecimentos vivenciados a 9 de Dezembro de 2024 e escrito para a fanzine do movimento L.U.T.O.

  • “A vida é um mar de perguntas sem respostas” – Jessemusse Cacinda

    Em 2023 dias antes de Jessemusse Cacinda publicar seu primeiro livro de ficção, Kwashala Blues, entrevistei-o para que ele desse o panorama geral da obra. Eu já havia lido o livro e surpreendi-me com o seu formato. São pequenas histórias que se juntaram num corpo maior e deram sentido a um livro de escrita simples, veloz, com personagens que na sua complexidade procuravam simplificar as suas experiências. A paisagem em que ela foi construída, desde Maputo, até e sobretudo Nampula, fazem com que ela pareça, de imediato, uma obra diferente aos olhos de leitores da literatura moçambicana, onde os lugares muitas vezes se transformam entre o rural e urbano.

    Fica claro em Kwashala Blues que Jessemusse Cacinda é um escritor que se fez em processos, por etapas, ciente de que é um contador de histórias, mas sem a pressão de se revelar. Felizmente fê-lo através de uma obra que se justifica por si, sem ser refém do futuro.

    Conhecemo-nos a mais de 15 anos. E foi pela literatura que se foi fazendo a nossa amizade, até escalar outros patamares. A sua primeira viagem para Maputo, qual caçador de sonhos, caminhando nas estradas do país desde Nampula, para um percurso que diz da sua personalidade e do lugar onde quer chegar. E para onde vai Jessemusse Cacinda? De volta ao lugar onde nasceu. A vida dá tantas voltas. Conheci Nampula a seu convite, em 2016. Eram o fim do caminho, o festival que criou. Era o princípio da utopia, uma editora de livros “africanos”, é o que é a editora Ethale Publishing, sobre a qual falaremos numa outra vez. Foram horas e horas de serão. Conversas que ao tempo não enganaram. Já lhe havia reconhecido a incaracterística forma de fazer o jornalismo, saindo da sua voz na rádio, estórias de despertar. Hoje, entre tantas coisas, filósofo, editor e escritor. Era um caminho incontornável. As tantas estórias que a vida dá. E aí chegamos a este Kwashala Blues que nos confunde “não sei que género é este”, afirma o próprio autor que se estreia no que podemos chamar de novela.

    O que é a vida? perguntou Antônio Abujamra aos seus entrevistados e no final ele descobriu: a vida é um abismo, onde ele próprio caiu no final. Veio-me um pouco de tudo depois de ler Kwashala Blues. E esta entrevista é a única forma que encontramos de desanuviar em meio ao frenesim dos enredos.

    Sempre soube-o como escritor, repito. Faltava o livro. E o livro chegou. O que fizemos com ele? Lemos. E depois de ler? Conversamos. Porque algumas estórias levam a isso…

    Vamos começar do começo do “Kwashala Blues”, a chamada que o narrador recebe sobre a morte do pai. É o começo de um romance ou apenas a viagem de um personagem?

    Na verdade, é mesmo uma chamada que o narrador recebe para reavivar suas memórias. Um acontecimento trágico como a morte de um pai é uma oportunidade que um ser humano tem de questionar-se sobre tudo. Questionar-se sobre a vida, sobre as decisões que tomou, sobre os erros por si cometidos, e sobre o amor, o futuro. Quem nunca filosofou na vida, seguramente, o faz quando um entequerido seu morre.

    Ao falar dessa personagem, a que recebe a chamada, não se identifica. Isto porque quase todas as estórias do livro estão na primeira pessoa. Não resisto a fazer esta pergunta, é uma autobiografia?

    Veja, eu tenho dito que vivi e vivo a vida. Neste exercício também conheço pessoas que vivem. Viver a vida é em toda a sua plenitude, assumir os momentos tanto bons como ruis. E a vida é feita disso. O Kwashala Blues é um ponto de encontro, onde através da música e do rítmo, as histórias de vários moçambicanos se cruzam.

    Um livro triste, este. Mas uma tristeza estranha, que dá vontade de dançar, dá vontade de sorrir com o rosto cheio de lágrimas e o peito apertado. Que angústia é essa?

    A vida é uma constante angústia. Veja que em nenhum momento de nossas vidas nos sentimos satisfeitos. A vida é como a filosofia, é um mar de perguntas sem respostas. Se esperarmos que os nossos problemas sejam completamente resolvidos, nunca vamos esperimentar a felicidade. Por isso devemos sorrir enquanto dá, dançar enquanto podemos e quando for necessário, chorar acreditando que ninguém tenha lágrimas suficientes para provocar uma inundação. Este livro é sobre a vida e a vida é isso mesmo.

    Não posso deixar de percorrer o Este de África lendo estas estórias. Vou confessar que de lá li poucas estórias e o ápice seria Ngugi. Mas veio-me de repente a África Ocidental, numa estrenha sensação das linguagens, da música e até da dinâmica territorial. A pergunta que me ocorre é sobre as viagens do escritor até chegarmos a este Kwashala Blues.

    Todo mundo que nasceu e cresceu no norte de Moçambique na década 90 do século passado sabe que Dar-es-salam era mais perto que Maputo. E isso se notou pela influencia que a África Oriental e Ocidental tinham no nosso estilo de vida. Quando cheguei a Maputo notei pouca ligação com aquela África com a qual eu havia crescido e como um bom cidadão, senti necessidade de trazer essas todas áfricas para a nossa capital. O Kwashala é uma moçambicanização da rumba congolesa.

    Deve ser um caminho pouco feito pelos escritores. A forte ligação da narrativa com o seu lugar de origem. Escrever o lugar, as paisagens, as gentes, os sons e até, estranhamente, dá pra sentir os cheiros. Para a tua vida no todo, Nampula é o teu lugar de partida ou de chegada?

    Nampula é o meu ponto de partida e o lugar de chegada é o infinito. Uma das coisas que tento fazer é mostrar as pessoas que todos nós conhecemos um pouco de Nampula, mesmo sem ter lá estado e sem ter ouvido nada a respeito da província e da cidade.

    Voltemos ao livro. Os processos de escrita. Nota-se que são estórias escritas em momentos separados. Mas elas têm um fio condutor. A figura do pai quase que é a linha que cose a narrativa. O que aconteceu aos textos para terem essa linhagem que roça o romance?

    Os textos foram escritos em momentos diferentes, mas havia um fio condutor. Cronicar os acontecimentos contemporâneos de Moçambique com um pendor filosófico. E precisava de uma imagem para nos levar a este exercício, a morte de um pai. O pai é aquele nosso amigo e inimigo ao mesmo tempo. O amamos e, às vezes, o adiamos. E na vida somos assim. Mas a ideia de fazer este quase romance ou quase novela (na verdade nem sei que género de livro é este) veio das conversas e discussões que tive com o Sérgio Raimundo que disse-me que estes textos não eram contos quaisquer, eram capítulos de uma novela.

    E, já agora, em que momentos da sua vida se reescreveram essas estórias? Num acto de reflexão, releitura de um percurso (não podemos ignorar que Jessemusse tem a vida toda quase feita em Nampula e parte para Maputo já formado e até a trabalhar) ou terá sido a bendita inspiração isoladamente?

    Wow. Existem sim, alguns episódios que podem ser ligados a minha vida e outros que podem ser ligados a vida de amigos e pessoas que conheço. Não vou denunciar-lhes. Preciso que me contem suas histórias para próximos livros. Mas posso partilhar consigo que meu pai faleceu e senti-me de certa forma culpado por não ter aproveitado quando ele estava vivo. Na minha própria vida já também agarrei-me a coisas que me impediam de ser feliz em nome de um conforto. E a filosofia, este exercicio de questionar-se, reflectir, tentar encontrar as várias respostas sobre um problema, tem me ajudado a encarar a vida com sabor. E provavelmente, há pessoas que tem todas ferramentas para ser feliz, mas falta-lhes esta vontade de filosofar em torno da sua própria experiência.

    A música, Jessemusse, não queria me referir a ela porque já é óbvio pelo título do livro. Mas é inevitável. Fala-me dela, como ela roubou protagonismo à literatura?

    A música é o bálsamo da alma. Há uma música do Murara Jazz, banda de Kwashala de Cabo Delgado, com o título Adelina, em que o poeta fica desapontado porque a Adelina não conseguiu guardar-lhe os seus segredos mais intimos enquanto foram namorados. E quantas vezes na vida não nos desapontamos quando nossa intimidade é exposta? No a música começa um pouco lenta e chega uma altura em que o rítmo aumenta. Nesssa parte, chamada “Okoroxeliya”, mesmo que a música fale de coisas tristes, é mesmo para dançar. E voce sabe que na África, a dança é nossa vida e quando a gente dança, é  como se expíritos nos estivessem a puxar de um lado para outro. E a literatura é um registo da vida. Logo, um protagonista que vive a vida, vai seguramente ter a musica consigo. Se alguém me dizer que nunca ouviu música eu lhe diria que está morto.

    De certa forma encontramos muito de memorial e da cultura popular, digamos assim. Conheço um pouco Nampula, é certo, mas bastava-me ler o teu livro para entrar por dentro dos ambientes. O que me leva a querer saber da tua infância, os chãos que você pisou em pequeno, as pessoas que fizeram parte desse momento que parece descobrirmos já adulto, que é a infância? Quero que me fale da tua casa, dos teus parentes, da tua rua, do teu bairro…

    Cresci entre Cuamba, Nampula e Memba. Este nomadismo é normal no norte de Moçambique. Em Cuamba vivia no bairro do aeroporto e via os aviões a cairem todos todos, em Memba vivia no bairro do Muaco, há 1Km da praia da Costa do Sol e do campo de futebol da vila e em Nampula, no bairro de Muatala, mais conhecido por Matadouro. No Matadouro vivia com os meus pais, e quando se divorciaram, passei a partilhar entre Cuamba (onde estava o meu pai) e Memba (para onde foi a minha mãe).

    Conhecemo-nos há vários anos e nunca perguntei-te sobre os teus pais. Nesse sentido também é interessante para mim ler o Kwashala, porque parte do desconhecimento. Sei, porém, que a tua mãe é uma professora, e o teu pai?

    Sim, a minha mãe professora e meu pai, chefe de cozinha. Hoje o meu pai faleceu e a minha mãe é funcionária administrativa. Cada um deles exerceu determinada influencia em mim, talvez seja por isso que enquanto gosto de aprender, gosto também de comer. 

    Trabalhou na rádio Moçambique a partir de uma adolescência. Já te ouvia nos programas infantis e juvenis da Rádio com uma forte expressão na palavra. O que significou esse parte da tua vida?

    Eu tenho dito que não tenho motivos para não ser feliz. Meu sonho era falar na rádio e consegui. Isso significou tudo para mim. Sai da rádio porque tive vontade de experimentar muitas coisas. Foi para preencher uma série de curiosidades, mas voltaria a trabalhar na rádio sem nenhum problema. Um radialista é um artista e um artista nunca abandona a sua arte.

    Os primeiros livros que leste, as primeiras estórias, a primeira ficção onde foi que encontraste?

    Os livros apanhei com a minha mãe e na escola. Primeiro foram os textos do livro de Português do ensino primário (tenho comigo o livro de Português da Sétima Clásse, onde leio e releio Crónica de Carteira de N. Marimbique que fui descobrir mais tarde que era Nelson Saúte) e depois vieram os poemas, Os Lusiadas de Camões foi o primeiro livro que livro.

    E hoje o livro virou um trabalho, com a Ethale Publishing. Recordo-me das conversas em Nampula a volta deste projecto, como se fosse uma miram. E hoje, aonde estamos?

    Hoje estamos onde a vida nos leva. Essa curiosidade está a levar-me a Coimbra para fazer o meu doutoramento e continuar nessa coisa de trabalhar como investigador, autor e editor.

    Jessemusse, tens leituras de invejar. Deves conhecer as narrativas deste vasto continente como poucos de nós conhecemos. Fico a pensar, o que efectivamente andaste por aí a ler e a conhecer. Mas sobretudo, que caminhos para chegarmos à essa literatura mais próxima da nossa realidade, mas tão distante em termos de acesso?

    Como sabes, sempre fui um “puto curioso”. A minha ligação com a África Oriental e Ocidental veio da musica que escutamos no norte de Moçambique, depois, quando aprendi a ler, fui eu mesmo procurar. Aproveitei-me bastante da evolução tecnológica e viajei pelo continente africano de carro. Para teres uma ideia, eu sai de Harare a Nampula, via Lusaka e Blantyre. Vamos ser mais aventureiros e curtir este continente sem chiliques.

    Quantas rumbas e kwashalas dançaste para te atormentarem e até decidirem o destino do teu primeiro livro de ficção?

    Cresci com muita rumba e kwashala. Tenho várias no meu computador e toco nos fim-de-semana para dançar. Eu, o Gércio Alexandre da Rádio Moçambique e o Peter, apresentador da TVM, somos amigos e temos dançado essas coisas nos fim-de-semana. Quero que as pessoas que leiam o livro tenham vontade também de dançar.

    Acho que não pararia esta entrevista se não me impusessem os limites da imprensa. Então vamos fechar à moda tradicional, as tais considerações finais. Agora que experimentas a escrita descomprometida, digamos assim, da ficção. De que lado da história ficarias se houvesse um só lado?

    Pergunta dificil. Eu quis escrever justamente para não estar num só lado. A literatura não tem lado. A literatura é o respeito pela diversidade que faz o nosso país e o nosso continente. Este Kwashala Blues é uma oportunidade para os moçambicanos conhecerem-se a si mesmos. Mas também para celebrar as dorres e alegrias das pessoas deste país e deste continente.

  • Cartografia da miséria: “o desamparo das flores”

    Mutiladas é o título da última obra do escritor moçambicano Eduardo Quive, lançada em Maputo, em Maio do presente ano. A obra é composta por 12 contos, narrados em 101 páginas.

    A miséria do mundo

    Ler Mutiladas recordou-me o modo como a obra Angústia do escritor brasileiro Graciliano Ramos foi escrita: a temática, o tipo de narrador e o facto de abordar a época vivida pelo seu escritor. No seu livro, aquele autor conta os dramas do comportamento humano, através de um narrador-personagem que denuncia modos de agir de pessoas a viverem no seu limite de humanos. A critica a essa sua obra, tem, repetidamente, afirmado que o autor “narra a miséria de estar no mundo”.

    Em Mutiladas, a miséria humana é analisada por um dos narradores introspectivo de Quive. O outro narrador, observa-a e relata-a minuciosamente. As acções têm lugar em espaços-representações de Moçambique (Maputo, Chokwe, Gaza e Matola), com reminiscências em Lisboa, por, a partir de lá, o narrador observar e abordar Moçambique. O comportamento das pessoas está na base dos contos. A época fabulada é contemporânea a do seu autor empírico, a julgar pela menção aos my love, aos grupos de WhatsApp, aos smarphones, aos memes, aos emojis, à verificação de status em redes sociais e a feminicídio. A temática do livro é focada no dia-a-dia, num género literário pós-modernista, marcado pela forma como o real e o imaginário são construídos, bem como o imediatismo e o pano de fundo de um texto com uma linguagem rente à dos médias electrónicos nos quais predomina a cultura de massas.

    Devastação, desigualdades e dores do mundo

    Logo a partir da cor da capa, que é negra, aliada ao seu título, somos avisados que a matéria abordada pode ter um teor pesado, fúnebre, triste. E é. Coadjuvado a isso e à sugestão de pano de fundo negro, os títulos dos contos, também, nos remetem à desgraça, nomeadamente: “Decadência”, “Três balas”, “A punição”, “Andar às voltas” e “silêncio”. Destaco este último título, pelo facto do silêncio ser sugestivo, tanto de dor, quanto de introspecção, quanto de desejo ou não de ficar sem dizer nada. Essa sugestão de fatalidade, na obra, é, entretanto, camuflada por um tom narrativo leve, de paródia e, por vezes, com recurso ao exagero – enquanto figura de estilo; o que torna a leitura menos dramática, embora acutilante. O título do conto “O cheiro das flores” foi apenas uma estratégia para poupar o coração do leitor; remete, à primeira, à ilusão da beleza, mas não é disso que fala. Trata-se de flores para abafar “o odor insuportável dos falecidos da casa de Sara”, cf. pg 64. A matéria é muito comovente.

    O narrador-personagem, na maior parte das vezes, concentra as falas dos personagens na sua. Faz um monólogo interior, abordando o presente, com alguns recuos para o passado. Vive lembranças, percepções, e, pelo tom com que escreve, denuncia realidades sociais actuais, ignoradas, na vida real, por quem de direito e de dever. É um narrador psicologicamente ruidoso, embora afável nas suas palavras escritas.

    A narrativa coloca o leitor perante dramas do quotidiano moçambicano e das suas misérias, vistos na perspectiva dos seus narradores. Critica aspectos aparentemente banais, que nos habituamos a viver, enquanto habitantes de países pobres, como se de problemas não se tratasse. Revela que há necessidade de se prestar atenção ou de se resolver dramas sociais, em contextos factuais. Mutiladas questiona a cidadania dos moçambicanos. A sua actuação enquanto humanos, na defesa da vida.

    O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporênea.

    Trata-se de dramas descritos com mestria. Aliás a descrição, a observação e a escuta, mostram-se fortes por parte dos narradores deste livro. No primeiro conto, intitulado “Decadência”, há um homem que não o é por inteiro, é sobra de homem, de tão doente que vive. A sua tosse é descrita ao pormenor. A sua esposa é uma sobra de um passado glorioso, portanto, também uma mutilação do que ela vivera, enquanto esposa. Há um cego que pergunta se os outros não têm olhos para ver. Há nisto um exagero, mas é para demonstrar o quão a sociedade narrada se encontra mutilada. Há, no segundo conto, intitulado “Três balas”, um bairro que vive o drama de tiroteios e de ladrões que roubam produtos básicos e de primeira necessidade. Um autêntico faroeste. E outra vez com recurso ao exagero, o narrador fala em alguém que foi morto três vezes. Trata-se de gente e de lugares devastados.

    As desigualdades, no livro, são narradas de modo recorrente, por exemplo, no conto intitulado “Uma história de família”, fala-se numa família que tem whiskeys com imensos anos de velhice e que tem bastantes televisores que não utiliza (uma família abastada) e outra família pobre, na qual há membros que utilizam o mesmo telemóvel. Nesta última, vive-se sem amor, disputando bens e vivendo desentendimentos que levam à morte. As desigualdades são também referidas no conto “Passeios da vida”, num texto no qual há meninos com possibilidade de se deslocar a um museu e outros, não. Essa impossibilidade é comparada distância que se situa entre os objectos colocados nas prateleiras ou paredes de um museu, que não podem ser tocados, apenas “sentir-lhes os cheiros e […] observar, experimentar e vivenciá-los”, cf. p.89. A desigualdade de acesso, faz lembrar a mensagem que se pode ler no poema intitulado “Fábula”, de José Craveirinha, e cito-o, só para contextualizar o que digo, mas é preciso ler Mutiladas para se perceber a razão para a qual o poema é chamado.

    Menino gordo comprou um balão / e assoprou / assoprou / assoprou com força o balão amarelo. // Menino gordo assoprou / assoprou / assoprou / o balão inchou / inchou / e rebentou! // Meninos magros apanharam os restos / e fizeram balõezinhos.

    Craveirinha (1995a:14)

    Angústia e o questionamento do status quo

    A Angústia que mais comove ou desconcerta o leitor, nesta obra, é o feminicídio. “Destina” e “Cláudia”, mulheres cujos nomes são, também, títulos de contos, são vítimas das sagas desta época. Barbaramente assassinadas por violação sexual, crime que, tal como o narrador o aborda, é depois relatado, por alguns personagens, como se nada fosse. Temos visto, em contexto real, em Moçambique, depoimentos similares aos mencionados no livro, agressores a falarem sobre a violação sexual, quase que sem culpa, sem arrependimento; como se de uma brincadeira se tratasse. O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporênea.

    O tipo de crime narrado, recorda-me um outro, o dos raptos, fabulado por Miguel Luís, outro escritor moçambicano, na sua obra O Desamparo das flores. Ambas as transgressões suplantam a capacidade de contenção por parte dos agentes policiais em Moçambique, em contexto real. Vivemos, portanto, uma sociedade mutilada e a pedir socorro! A resposta aos gritos tem sido quase silenciosa, quase muda e sem expressão, ante o agravamento dos acontecimentos diários. Quive convida-nos a reflectir sobre o país que hoje vivemos, cheio de atrocidades sociais, desde as que parecem menores, até às de grande vulto que acontecem à luz do dia.

    O autor empírico de Mutiladas faz uma cartografia da dor e da miséria humana, com laivos de realismo. É inconformado com o “estado das coisas”. Nesta obra retoma o debate da sua anterior, intitulada Para onde foram os vivos, numa alusão ao abandono de corpos e de lugares, nos quais a violência, o silêncio ante a dor e o desespero tomam conta de todos. No conto já referido, o “Cheiro das flores”, do livro Mutiladas, o narrador mostra-se um bom ouvinte, a morte e a extirpação são o reflexo dos espaços nos quais se pode questionar onde é que andam os vivos, porque estes, vivem “mutilados no corpo e na alma” (cf. p. 63 de Mutiladas).

    Eduardo Quive é este escritor, poeta, jornalista, activista social e “agitador” cultural que acredita na arte como possibilidade de diálogo com a sociedade, através de uma linguagem, que sendo a habitual à do dia-a-dia, talvez ajude a repor a “ordem natural das coisas”. Esta obra demonstra o observador atento que é o seu autor empírico.

    A todos, desejo uma boa leitura. Esperando que o trabalho de Quive seja o grito que, juntando-se a outros que têm sido feitos, através de factos ou pela literatura, nos permitam viver uma sociedade livre da violência. Que a arte continue a iluminar a vida.

    • Sara Jona Laisse, docente na Universidade Católica de Moçambique, em Maputo. Membro do Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

    Maputo, Maio de 2024.

    Fotos do evento de lançamento captadas por Adelium Castelo

  • Para Onde Foram os Vivos

    Neste livro, Eduardo Quive explora as cidades físicas e imaginárias, através da prosa poética.

    Ana Mafalda Leite, prefaciadora do livro,  “Para onde foram os vivos”,  é um livro que partilha vários tipos de registo discursivo, lírico e confessional, bem como faz o uso da linguagem do diário ou da notação jornalística e uma ténue linha narrativa, por vezes criando cenários de ambiente cinematográfico ou fotográfico. 

    “É o retrato do mundo em decadência, estilhaçado, as cidades em ruínas com o silêncio ensurdecedor das almas que ainda habitam o lugar com a esperança no exercício do amor. A quem amamos quando estamos sós, isolados num lugar de silêncios e ausências, retratos de egoísmo, violência e tensões que levam que o mundo como o conhecemos se desfaça sob o nosso olhar indiferente? Uma outra imagem das grandes cidades repletas de gente, ostentando o seu mais elevado amor material, mas ausentes em afetos. Nesta obra, a cidade e o corpo se confundem. Assim como o amor e o ódio se fundem para gerar tensões e violências”.

    O livro editado pela Alcance Editores, encontra-se dividido em duas partes, nomeadamente, “Cidades” e “Corpos”. Em “Cidades” o autor apresenta 24 fragmentos onde expõe as cidades físicas e imaginárias por si percorridas. E em “Corpos”, Eduardo Quive  reúne 19 textos em prosa poética.

    Livro disponível à venda em todas as livrarias em Moçambique