Etiqueta: eduardo quive

  • Eduardo Quive publica romance “A cor da tua sombra” em Portugal

    Eduardo Quive publica romance “A cor da tua sombra” em Portugal

    O escritor e jornalista moçambicano Eduardo Quive publica em Portugal o seu romance A cor da tua sombra, sob a chancela da Desmuro editora.

    A narrativa que se ambienta num Moçambique contemporâneo cruzando os dilemas identitários, as memórias fragmentadas, desafios sociais no meio urbano o que torna ainda mais complexas as relações humanas. A história é contada sob o ponto de vista de uma família desestruturada por várias tragédias desde a Zambézia e a capital Maputo.

    Com uma escrita sensível e incisiva, Eduardo Quive constrói uma narrativa que atravessa dimensões íntimas e sociais, explorando as tensões entre o passado e o presente, o indivíduo e a coletividade. A cor da tua sombra propõe ao leitor uma viagem literária marcada por personagens densas, conflitos morais e uma atmosfera que dialoga com os desafios sociais e políticos destes tempos num país em que o futuro é uma eterna promessa.

    “Neste livro de estreia em prosa Eduardo Quive conseguiu aquilo que muitos prosadores procuram durante a vida inteira: uma escrita ao mesmo tempo sensível e acutilante, encantada sem nunca se desamarrar de um quotidiano que exclui e anula a nossa partilhada humanidade.” – Mia Couto

    A narrativa, marcada por um lirismo sombrio e fragmentado, ecoa as memórias estilhaçadas de seus protagonistas, expondo sem filtros a fragilidade humana e os traumas que moldam identidades. Eduardo Quive escreve com o pulso de um poeta atento às tensões entre o íntimo e o coletivo, construindo um romance que revela a perseguição aos albinos, a desintegração familiar e o espetáculo da dor no espaço público das redes sociais. 

    A cor da tua sombra é uma obra que confronta os silêncios herdados e denuncia as crenças violentas que ainda moldam tantas infâncias.

    Para o lançamento do livro o escritor moçambicano participará em eventos no Porto e em Lisboa, de 18 a 25 de Abril.

    O primeiro evento será no festival LEV – Literatura em Viagem, em Matosinhos, onde estará à conversa com Dino d’Santiago e Mia Couto.

    No dia 20 estará na Livraria Flâneur, no Porto para conversa e apresentação do livro A cor da tua sombra com o escritor João Zamith.

    Dia 23 de Abril às 18h30 será a vez da apresentação em Lisboa, na livraria Snob, numa conversa com Ana Bárbara Pedrosa e Mia Couto.

    Eduardo Quive é escritor e jornalista moçambicano. Com um percurso marcado pelo envolvimento em projectos culturais e literários, tem vindo a afirmar-se como uma voz emergente na literatura moçambicana, apostando em obras que cruzam ficção e reflexão social. A cor da tua sombra é o seu quarto livro, o primeiro editado em Portugal, uma estreia no romance, depois de ter publicado entre outros, «Para onde foram os vivos» (Poesia, 2022), finalista do Prémio Literário Mia Couto para melhor livro do ano em Moçambique, e «Mutiladas» (contos, 2024), indicado para leitura no ensino secundário nos países da CPLP pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa – IILP.

  • O livro em Moçambique: uma leitura ao relatório da UNESCO sobre a indústria editorial africana

    A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO – divulgou na quarta-feira, 18 de Junho, uma publicação intitulada “A indústria editorial africana: tendências, desafios e oportunidades de crescimento”. Um documento que se mostra importante para percebermos como vai a vida literária nos 54 países do continente. Uma leitura genérica ao documento e a olhar para Moçambique, faz soar o alerta sobre o que está por ser feito e sobre o “estranho” rumo que a produção de livros que o meu país tomou”.

    A começar, o relatório fala da indústria editorial no seu todo, do livro escolar à ficção, leis e políticas culturais para a área do livro, iniciativas de promoção e estímulo ao mercado editorial. A informação foi obtida a partir de fontes governamentais do sector, organizações e através de entrevistas aos que estão envolvidos na indústria. Em Moçambique, não podemos deixar de assinalar a busca de informação que se fez na plataforma cultural independente Catalogus, que tem se dedicado a divulgação de conteúdos sobre eventos e iniciativas literárias em Moçambique.

    Segundo os dados recolhidos pela UNESCO, em 2023 Moçambique contava com 61 editoras registadas, com 300 títulos publicados, 14 livrarias em funcionamento, 37 bibliotecas públicas e 1.600 empregos gerados pelo sector editorial. Segundo a publicação, há uma livraria por cerca de 900 mil habitantes, numa população total de cerca de 33 milhões.

    O relatório alerta para a ausência de políticas públicas que estimulem o crescimento da indústria editorial. No caso de Moçambique, menciona a Política Cultural e a sua Estratégia de Implementação aprovada em 1997, que estabelece os procedimentos básicos para a produção e comercialização de livros em Moçambique. Este instrumento apela à comercialização de livros a preços reduzidos, a fim de permitir um leque mais alargado de leitores e estimular o interesse pela leitura e pela literatura.

    Sai mais barato imprimir livros fora do país que dentro e é ainda possível imprimir pequenas quantidades, com qualidade gráfica e rapidez. E os dados não enganam. A pesquisa da UNESCO indica que em 2023, o valor total das importações no sector editorial, abrangendo livros impressos, brochuras, folhetos e materiais impressos semelhantes, atingiu aproximadamente US$ 31 milhões, dinheiro canalizado para as gráficas de África do Sul, Índia, Portugal, seguidos pela China e Hong Kong.

    Refere-se igualmente à Lei do Mecenato, de 1999 que estabelece os princípios básicos que permitem às pessoas singulares ou coletivas, públicas ou privadas, desenvolver atividades ou apoiar financeira e materialmente atividades no domínio das artes, da literatura, da ciência, da cultura e da ação social.

    Importa referir que estes instrumentos, a Política Cultural, a Lei do Mecenato e ainda a Política Nacional do Livro, esta última aprovada em 2011, não surtem o devido efeito para contribuir para mudança do cenário cultural moçambicano, pois, pese embora a idade da sua aprovação, não estão regulamentos, por forma que o seu peso se consubstancie na prática.

    Adicionalmente, os dois primeiros instrumentos genéricos, referem-se ao sector cultural no seu todo, ignorando as especificidades que o sector do livro tem. O mais próximo que se tem de específico para o livro é a Lei n.º 32/2007 (de 2007) que isenta o pagamento de imposto sobre o valor acrescentado (IVA) à importação e exportação de livros. Na verdade, tem sido muito devido a essa lei que se tem observado a uma dinâmica acelerada de edição e publicação de livros em Moçambique, incluindo o surgimento e sobrevivência de pequenas editoras, que têm sido responsáveis por trazer ao mercado grande parte de obras que hoje circulam no país. É que os custos de impressão de livros em Moçambique são demasiado elevados e levaria a que o “apelo” feito pelo governo através da política cultural de 1997, não fosse tido em conta. Outra verdade é que sequer ocorre às editoras essa lei, já que ela não é seguida de acções concretas que influenciem maior produtividade e baixo custo, seja na produção e também na venda.

    Resumindo, sai mais barato imprimir livros fora do país que dentro e é ainda possível imprimir pequenas quantidades, com qualidade gráfica e rapidez. E os dados não enganam. A pesquisa da UNESCO que provoca esta reflexão indica que em 2023, o valor total das importações no sector editorial, abrangendo livros impressos, brochuras, folhetos e materiais impressos semelhantes, atingiu aproximadamente US$ 31 milhões, dinheiro canalizado para as gráficas de África do Sul, Índia, Portugal, seguidos pela China e Hong Kong.

    Se aos escritores, poetas e editores a preocupação centra-se nas questões relativos à publicação e venda de livros, aos leitores o custo e a qualidade, há actores que podem ver nisto outro um sinal de alerta, como fazer com que tanto dinheiro que provém da produção de livros seja canalizado à indústria gráfica nacional?

    Outro dado que não deixa de ser intrigante é o facto de o financiamento para a edição de livros, segundo o relatório, vir apenas do Fundo Nacional de Investigação (FNI), com um orçamento estimado em dois milhões de meticais. Ou seja, esses recursos vão para obras científicas. A ficção essa muitas vezes fica por ser patrocinada por empresas, sendo de destacar, a banca. Do Estado, distante está o tempo do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural a quem se deve a publicação de vários autores que são referência na literatura moçambicana. Mas hoje pouco se sabe sobre o papel desta instituição, se tem dinheiro e a quem se destina esse dinheiro. Aliás, o relatório sequer menciona o FUNDAC quando se refere ao dinheiro que financia a actividade editorial.

    Podemos ir mais longe, a partir do momento que foi extinto o Instituto Nacional do Livro e do Disco (INLD) deixou de haver uma instituição pública dedicada exclusivamente ao livro, pois as atribuições do Instituto Nacional das Indústrias Culturais (INICC) são generalistas. Por um lado, a tutela ao livro escolar está com o Ministério da Educação (que tem de lidar sempre com as indefinições identitárias, de Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano à altura do relatório, 2023, para Ministério da Educação e Cultura, em 2025), os livros doutras categorias, nomeadamente a ficção, estão incluídos num pacote que se resume só ao registo pela instituição tutelada pelo Ministério da Cultura (outra instituição que varia de tempos em tempos, de Ministério da Cultura e Turismo, em 2023, para Ministério da Educação e Cultura em 2025), através do INICC. Esta instituição pelas suas atribuições e competências, devia ser o braço público que atribui recursos para impulsionar o sector editorial, incluindo o financiamento, como aliás faz com o cinema. O INICC devia ser mais actuante nas propostas de leis de incentivo, bem como captação de recursos para iniciativas de promoção e divulgação da literatura nacional, que neste momento, a acontecer, é de visibilidade nula, até para os que actuam activamente no sector.

    Seguindo ainda a linha de instituições que poderiam ser relevantes no sector editorial, está uma AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos) que embora seja mencionada como promotora de eventos (debates, prémios, etc), quanto à advocacia ou mesmo iniciativas para a melhoria do campo de produção literária não se faz sentir. Mais concretamente, a “pressão” junto do Governo para que a Política Nacional do Livro e outras leis, sejam implementados, a busca de recursos e meios para financiar a actividade literária, seja na componente de escrita ou na publicação, são alguns exemplos. Tudo isto é sobre o trabalho do escritor, que pela sua natureza seria membro da AEMO.

    No meio disto tudo, é de notar o trabalho que grupos e instituições independentes tem desenvolvido e que dinamizam a indústria editorial no país. O relatório, no capítulo dedicado as instituições, menciona a Fundação Fernando Leite Couto, a Associação Moçambicana de Autores (SOMAS), a Federação Moçambicana das Indústrias Culturais e Criativas e a Associação Moçambicana de Médicos, Escritores e Artistas, como organizações que promovem o livro e protegem os direitos do autor.

    Mas maior mérito do cenário dinâmico, ainda que pouco sustentável, que o país vive, está para as pequenas editoras que não sendo capaz de mencionar todas, facilmente se destacam, Fundza, Ethale Publishing, Trinta Zero Nove, Gala-Gala Edições, Kulera, a editora da Fundação Fernando Leite Couto (que promove um prémio literário para novos autores), a Associação Kulemba (que promove feiras de livros e dois prémios literários importantes, um para livros infanto-juvenis e outro para os melhores livros do ano), a Xitende (que promove festivais literários), a Fundação Carlos Morgado (que através de um prémio literário publica novos autores) e a Catalogus, que além de plataforma de informação, também edita. Escusado será afirmar o papel importante da Alcance Editores que publica grandes nomes da literatura moçambicana e outras entidades que, não sendo moçambicanas têm contribuído para a literatura nacional, a Escola Portuguesa (com vários títulos de infanto-juvenis) e o Camões – Centro Cultural Português em Maputo (com residências literárias para escritores moçambicanos).

    Após a leitura deste relatório fica patente o desafio que os actores do sector livreiros estão sujeitos em Mocambique, o mesmo país que nos anos 80 publicava livros com tiragens acima de 3000 exemplares (actualmente a média é de 500) e, passados mais de 40 anos, num contexto aparentemente favorável, o Estado demitiu-se das suas funções, citando o escritor Rogério Manjate, qual “Coelho que fugiu da história”.

  • O que dignifica?

    — Mãe, porque é que as pessoas dizem povo no poder?

    A mãe descansa as mãos na cintura fina que acompanha a forma do seu corpo sem grandes nuances, uma mulher de 30 anos, que deu-se ao luxo de ter duas filhas, e que agora não sabe mais o que fazer com elas; a mais velha, de seis anos, está na idade dos insuportáveis porquês da vida; a mais nova, aos três anos, dorme como se não se importasse com o mundo, indiferente aos 34 graus celsius que se multiplicam ao triplo na casa de madeira e zinco e os mosquitos celebram a liberdade de circulação e livre manifestação. Deu agora para que a mais velha, justamente à esta hora da noite, com o jantar dos mil e um sacrifícios posto à mesa, querer saber os porquês destes tempos: porque gritam as pessoas lá fora pelo poder popular — povo no poder, rectifica-se. 

    — Mamã — insiste a criança ameaçadora, enquanto bate-lhe na malha da anca — o que dignifica povo no poder? 

    Ela quis dizer significa. Deu-lhe, já há uns dias, trocar os significados às coisas; se bem que dignidade é também pelo que gritam as vozes imponentes que cada vez se aproximam na rua e um fumo negro ganha espaço pelos ares, em direcção às nuvens dispersas, que parecem mover-se com a força dos homens, mulheres e crianças, e mais os outros a quem a dignidade sempre lhes fez falta.

    — Mamã, mamã…

    — Diz…

    — Quem são as pessoas que estão a gritar lá fora?

    São os invisíveis e inaudíveis, assim chama-lhes a mãe. Mas evita dizê-lo na voz que a criança possa escutar e originar outros porquês. Por exemplo, continuar a falar dentro da sua cabeça onde se passam todos os problemas do mundo, perguntaria a criança a seguir, porque são eles invisíveis? A isso ela podia responder, porque sempre existiram, mas ninguém se deu conta, porque não estavam vestidos de forma «adequada», eles não cheiram aos aromas de Paris, nem à moda milanesa, antes à contrafcção chinesa ou nigeriana; eles sempre andaram aos gritos que só arrepiava eles mesmos, porque quem devia os escutar, cercou-se de vozes semelhantes, de igual poder, iguais cheiros, cantando todos em uníssono as canções de embalar os saciados. O que ficou para estes, são resquícios de uma solidão e angústia que só se sufocava nas promessas e nos sonhos vistos aos ecrãs dos smartphones, de segunda mão, tal como as roupas, vindas de contentores para o descarte. Os pensamentos da mãe podiam continuar a escalar, não fosse que a criança ia se tornando incômoda, impaciente, um tormento para quem também tem os seus porquês da vida. Está na hora de responder à criança que não se cala, já num corro como os inaudíveis.

    — Mãe, lá foram estão a cantar porquê?

    Manifestações pós-eleitorais em Maputo com a mensagem “Povo no Poder” | Fotografia: Adelium Castelo

    Esta pergunta será inevitável que responda; a mãe não se pode recolher nos seus silêncios habituais, fadados por ser mulher e mãe solteira; a mãe não se pode contentar mais com os silêncios irritantes do mundo; pesa-lhe a consciência não responder à estas simples perguntas de um ser que procura compreender o mundo sem fazer juízos de valor; sem escolher os lados; sem cobranças, sem reivindicações, a não ser os porquês.

    — Mãe… 

    — É uma manifestação, filha. Esses são os manifestantes.

    Quando a mãe disse manifestantes, soo-lhe o que diria a um adulto como ela sobre esses tais; são os invisíveis, os desconhecidos, os inaudíveis que, hoje, estranhamente se lhes escutam as vozes já roucas de gritar por toda e pela vida; são os que metem medo; os que fazem encarar a vida com a certeza de que nem tudo anda bem, apesar do futuro que sempre se anunciou próspero; são os que agora cobram a sua parte da riqueza que todos os dias faz manchete nos jornais; são os que lavam os carros dos aspirantes à classe média, no centro da cidade; a mãe tem a idade da constatação e do pânico, distópico, como diria nas palavras que vem praticando na língua que procura afiar, a ver se arruma um emprego de jeito, por isso poderia continuar a caracterizar, mas faria de tudo para não tratá-los por vândalos, como nos noticiários.

    Abre a janela e rouba o olhar à rua; a filha imita-lhe os gestos. 

    — Eles estão a dizer povo no poder, mãe.

    — Sim.

    — O que dignifica isso?

    — Significa, filha.

    — Isso mesmo, mãe.

    — O quê?

    — Povo no poder.

    E esta, agora, pior é que se não respondo ela não se cala. Devo agora traduzir o que diz a letra da música, ou o que sai da boca dos manifestantes; nem eu sei muito bem o que dizem. Postos os instantes de reflexão e discussão com os seus sentidos, disse-lhe que é letra de uma música que agora é usada por manifestantes que reclamam o poder. Um tal de Azagaia é que a cantou, dando uma outra vida às palavras de Samora Machel. A mãe não podia dizer esses nomes à criança que ia perguntar a seguir sobre esses homens. Não há tempo para biografias, nem verificação dos factos. Factos, essa palavra é outra que traz consigo problemas, rima com a verdade, é parece que ela agora só vem de uma só voz, o que a mãe também acha um perigo. O perigo de uma história única que tanto ela aprende agora a combater no final do seu curso superior; agora que ela aprendeu que a verdade não virá de uma só boca. A mãe também está confusa, é o que pelo menos acha, ela pelo menos não tem certeza de nada, talvez por isso é que lhe custa dar certas respostas.

    — Mãe, o que digni…

    — Significa, sig-ni-fi-ca. sig, sig…

    — O que são manifestantes?

    Manifestantes são pessoas nas ruas que não estando felizes com alguma situação decidem mostrar a sua insatisfação. Por outras palavras, os que não se conformam com a ordem estabelecida. Apesar do esforço, a mãe sempre se complica, afinal, não é todos os dias que se vê essa gente, nem se debruçam sobre esses termos. Manifestantes, protestatários, protestantes, vândalos, indignados, revoltantes, revoltosos, rima com faltosos, mas estes estão presentes e não são uma pedra no sapato, eles até lançam pedras contra balas e o caos semeiam. 

    — Por exemplo, aqueles ali — apontou para a rua — querem justiça eleitoral, verdade eleitoral e dizem que o candidato no qual votaram é que ganhou eleições.

    — Eleições é que aquilo de ir pintar o dedo que mãe disse está ir escolher o presidente?

    — É isso mesmo — ela sabe que não é bem assim, mas quer sair de uma vez da encruzilhada. 

    Afinal, agora já não sabe bem se votou ou não, se escolheu um presidente ou não. Certa mesmo, está que pintou o dedo, recebeu três boletins de votos em que marcou-lhes com um xix num símbolo e num rosto e que esse acto significava quatro escolhas, a escolha de um presidente da República, deputados da Assembleia da República e da Assembleia provincial e daí um governador da província. Mas hoje já não está muito certa disso. É que já passou tanto tempo que se esqueceu até das opções que tomou.

    A mãe dá uma pausa quando apercebe-se que a filha tem a cara desfeita em rugas, a boca virada para um lado em estranheza do que a mãe diz. Mas o que está para aí a dizer a mãe? Cogita a criança; outros vários porquês devem estar a reproduzir-se na sua mente e logo se vão deitar para fora, para a consciência da mãe.

    — Mãe, porque não estamos lá fora nós também?

    — Porque estaríamos lá fora?

    — A mãe não quer justiça?

    Esta não vai parar de fazer perguntas, diz a mãe, já com sinais visíveis de intriga e cansaço. A pergunta faz o inevitável eco por dentro. Mas convém ser honesta, perante a insistência.

    — Não sei, filha. Eu não sei.

    — Mas a mãe diz que sempre sabe.

    — É para dizer-te o quê?

    — A verdade?

    Verdade. O que virá a ser isso? Tenho 30 anos, boa parte dos quais como aluna e estudante, já sonhei com uma carreira, um projecto, tenho duas filhas e tenho-lhes na mão e no peito como um sonho a se colocar em prática, com os respectivos orçamentos em constante ajustamento; que lhes posso sonhar? A cabeça da mãe gira. A mesa está posta. Três fatias de pão, três rodelas de palone comprado na rua nestes dias — não terá sido daquele camião que vinha da África do Sul, atacado no meio da rua? —, três chávenas, um pacote de five rose, três colherinhas de açúcar, e várias penumbras. Quanto tempo se vai aguentar dentro de casa, com estas crianças a fazerem perguntas. 

    — Mãe, nós já não vamos à escola porquê?

    — Porque será? —  devolve-lhe a pergunta a sorrir.

    — A professora diz que é por causa da manifestação.

    — Sim.

    — Não vamos voltar mais à escola?

    — Não sei.

    — Assim é bom, mãe?

    A mãe afasta a chávena de chá em direcção à criança. E o pão com o palone frito. A criança recebe e dá uma mordida gulosa. A mãe hoje tem orgulho do jantar que parece um alento no meio da incerteza. Não se lembra de quando comeu um palone. São as realizações deste tempo que vem com o som dos apitos e vuvuzelas. O coração da mãe bate descontrolado, como se um sino tivesse tocado a recordar-lhe as perguntas que ficou sem responder. Lá fora parece que os inaudíveis ganham mais voz e parecem terem se decidido parar à sua porta. Os invisíveis estão cada vez em maior número e parecem exigir as mesmas respostas que a sua filha. Até quando isto vai durar?, pergunta-se a mãe.

    — Mãe, o que eles estão a cantar agora lá fora?

    Com que palavras poderá ela traduzir a canção dos invisíveis? Como dizer a filha tudo o que gritam aqueles homens e mulheres que enfim acharam o seu lugar no mundo e a sua voz já se escuta; abrem finalmente os noticiários, dedicam-lhes horas e horas de emissão na televisão, páginas inteiras de jornais, estudiosos de todo o tipo procuram compreender o refrão dos seus cânticos; como dizer para a filha tudo, palavra à palavra, o que cantam, na língua do povo, com todas as suas metáforas e inúmeros significados? E depois de dizer cada palavra, como responder os porquês que virão à seguir? Como se a criança imaginasse o tormento da mãe, volta aonde tudo começou.

    — Eles dizem povo no poder, de novo.

    — Sim filha, isso quer dizer que nós votamos, nós decidimos o nosso destino…

    — E o que dignifica destino?

    Manifestantes a tocar panelas e outros utencílios num prédio em Maputo | Fotografia: Adelium Castelo

    Decidiu não trocar-lhe as voltas com a palavra “dignifica”. E se realmente fizer sentido, o que dignifica o destino? O que dignifica o povo no poder? Nunca essas perguntas chegaram a fazer sentido como agora fazem, no emaranhado de sensações em que se encontra. No final, pensa como se respondesse à filha, dignidade, é o que cantam os invisíveis. Concluindo seu pensamento, levantou-se, pegou na panela e bateu-lhe com uma colher de pão. A filha bateu na mesa com as próprias mãos e fez tremer as chávenas, as colherinhas, a tigelinha de açúcar, o pão, o palone; e como se a mesa também reivindicasse a dignidade, foi-se abaixo, deitando tudo que havia sobre isso no chão de cimento queimado; a mãe bateu na panela com mais força; o colher de pau partiu-se em protesto; a filha dançou no frenesim, lá fora os homens e mulheres, expandiram os gritos em como se tratassem de uma plateia em êxtase com aquele espectáculo familiar.  

    Maputo, dezembro de 2024

  • A Nação existe

    Vamos obrigar-vos a perceber o ridículo que foi vocês todos a agitarem a bandeira e a cantarem o hino nacional. Vamos provar-vos que vocês não são mais do que corpos sujos e fétidos. Que valem tanto como carcaças de animais esfomeados.

    Han Kang, Atos Humanos

    Manifestantes, em Maputo, em cima de um “chapa” Anjo Voador – Preça dos Combatentes. Fotografia de Ildefonso Colaço

    A estação de Infulene está à vista. Luís Cabral também. Um coro de apitos vem acompanhado de vozes roucas, mas sem cessar a sua tarefa: desçam, desçam, xikani, ordenam. Três homens, dois deles adolescentes. Corpos a suar aos cântaros; de chinelos nos pés que crescem a cada passo. O comboio era uma jiboia morta. 

    — O comboio é nosso,  saiam, afinal porque não ouvem? 

    Infulene

    Desci os altos degraus até às pedras que me receberam com hostilidade; dentro das sapatilhas castanhas, velhas, mas resistentes e complacentes com a economia necessária dos dias, os pedregulhos anunciavam a sua “insistente presença”, pelos próximos 30 km que alguns de nós irá percorrer de volta para casa.  Alguns passos dados de volta à procedência, olhei para trás e me convenci, o monstro que anda nas linhas férreas, estava tomado. Assim o corpo iniciava uma experiência do poder popular dos invisíveis que decidiram ganhar uma voz.

    Trevo

    Uma multidão ocupava os trilhos em substituição do fluxo de comboios habitual à hora matinal das 7. A “cobra metálica” — assim o apelidaram os da estação de Nkobe  — cuspiu-nos quando sucumbiu nas malhas dos manifestantes. Nas bermas onde mora boa parte desses invisíveis, porquem os dias se definem pelo ruído das carruagens em velocidade, outra multidão assistia à procissão dos descrentes das ordens de paralisação. 

     — É também por vocês, pela melhoria dos vossos salários, das vossas condições de trabalho, pela dignidade, que fazemos essa luta.

    Machava-Sede

    E as pedras cresciam no meio do caminho. Isso não é uma metáfora drummoniana. Éramos muitos a caminhar como almas doentes em processo de purificação; tinha ser feito o caminho, quanto mais longo e dolorido que se revelou, melhor, assim se aprende a amar de novo o país, numa cidadania que já não é do futuro; a verdade não podia estar mais escancarada; a Nação existe e exala o cheiro dos invisíveis; a Nação existe e ressurge em cada grito de ordem dos inaudíveis do quotidiano nada equitativo — olá Craveirinha.

    Esta é a marcha que a verdade nos impõe; a verdade que dói, e sinto-a em cada passo, em cada gota de suor que cai entre as pedras que vou pensando enquanto conto as estações.  

    Liberdade

    Um amontoado de areia. Uma camiseta vermelha balança em pedaços de paus cruzados em sinal de cruz. Uma vênia se nos é cobrada. Gotas de águas se nos deitam nas palmas das mãos até que atravessam os dedos para irrigar as folhas secas sobre a areia, numa imagem nos lembra as sepulturas abandonadas do cemitério de Lhanguene, lá dos lados de Xinhambanine, onde os vivos se recusam a render-se aos falecidos.

    Daniel

    O cheiro forte das mangas podres lembra o ciclos da vida; os pés já não obedecem o desejo autoritário de chegar à casa, onde a lamúria de todas as desgraças espera; o corpo encontrou as próprias razões de ser; sinto a crescer a pátria nas veias e no coração que se comove, quando no meio da caminhada que vai longa, um homem interrompe o silêncio dos peregrinos.

    — Eles também exageram. Anos e anos de exagero. Foi demais.

    Pela primeira vez, os meus pés duvidaram do percurso. O que nos espera o destino?

     — Toma uma manga, mano, isto tudo é nisso  — saboreei com apetite o fruto da época.

    Matola-Gare

    Homens, mulheres e crianças, com garrafas de refrigerantes nas mãos, uma ideia de ostentação que só não alcança o luxo que desfila à solo, dos mercedes-benz’s, kias, e outros bichos de quatro rodas, antes imagináveis em sagas como Transformers; quando olhei nos rostos de cada um dos showfistas, iam se parecendo todos aos outros que tomaram o comboio em Infulene, mesma alegria, mesmo sentido de pertença; vieram-me os dezembros da infância, que se resumiam em duas datas, 25 e 31, na alegria mais sincera que já vivi por um fim de ano, cuja fantasia residia numa fatia de bolo, arroz de cebola, salada de tomate, frango assado e uma fanta, apenas possíveis nessas duas datas do ano, como recompensa pelos dias de água, trigo, sal, açúcar e algumas verduras; tinha a imagem nítida do quintal da casa do meu pai, quando um homem disse.

    — Tudo isto para depois… nada!

    Quando ele disse “tudo”, voltei aonde tudo começou. E dei-me conta que não foi quando o comboio parou.

    Eduardo Mondlane

    Sexta-feira, Avenida Eduardo Mondlane. Meio-dia. Uma a uma, as pessoas foram se dando as mãos, a eles se juntou um grupo trajado de batas brancas, fardas verdes e azuis; um cordão formou-se a atravessar o alcatrão de margem à margem, e as vozes se elevaram em coro, a entoar o hino nacional; a pátria crescia-lhes por dentro até nas terminações das palavras audíveis em todos os cantos. 

    Num instante que não se viu a chegar, surgiram homens armados de farda castanha que fizeram cantar o coro das armas. As mãos da multidão se desfizeram, como um tecido que se rasga; o coro celestial substituiu-se com gritos e grunhidos de uma dor que só podia vir dos confins do inferno.

    Mesmo assim, podes te orgulhar, poeta, vieste de qualquer parte, de uma nação que ainda não existia. Agora ela emerge e cresce como um “canto de amor natural”.

    Eduardo Quive

    Matola, 12. 12. 24

    ___________________

    Texto inspirado nos acontecimentos vivenciados a 9 de Dezembro de 2024 e escrito para a fanzine do movimento L.U.T.O.

  • “A arte tem poder de iluminar as sombras mais escuras da nossa existência” – Dora Chipande lê “Mutiladas”

    Enquanto mulher e activista social, ao ler “Mutiladas”, o que salta-me logo à vista é a representação visceral da violência, especialmente da violência de género, que atravessa vários contos. O feminicídio, tratado de forma repetida e brutal na obra, ecoa profundamente em mim, pois recorda as experiências de tantas mulheres que sofrem abusos, agressões e mortes, muitas vezes esquecidas, como as personagens “Destina” e “Cláudia”. Ao dar nomes próprios a estas mulheres, Quive devolve-lhes a identidade, algo que tantas vezes é-lhes negado na realidade. Esta abordagem faz-me pensar em como a nossa sociedade (não só em Moçambique, mas em tantos outros países) está mutilada, não só no corpo, mas também na alma.

    Nós, mulheres, somos frequentemente reduzidas a meros objectos descartáveis. A banalização da violência sexual e do feminicídio que Quive descreve é uma crítica dolorosa à indiferença social e à impunidade que cercam esses crimes. Sinto que a obra obriga-me a confrontar essa realidade: a violência de género não é uma aberração, mas uma característica endémica de uma sociedade doente.

    Conjugando a arte e o activismo, vejo “Mutiladas” como mais do que uma simples obra literária. Para mim, é uma denúncia, mas também um acto de resistência. Eduardo Quive, com uma linguagem poética e realista, revela a devastação que a violência e as desigualdades causam nas vidas das pessoas e na comunidade em volta. No entanto, a forma como ele usa a paródia e o exagero estilístico ajuda-me a processar essa violência sem perder-me completamente no desespero. Apesar de tudo, há ali uma luz, um convite à reflexão e à acção, um grito de socorro que ecoa nas páginas e pede uma resposta. Enquanto artista, sinto que a arte tem o poder de expor as profundezas da miséria humana e, ao mesmo tempo, questionar o “estado das coisas”. A arte em “Mutiladas” é uma ferramenta de contestação e transformação social, algo com o qual identifico-me profundamente enquanto activista. Na verdade, acredito que, na vida real, a arte tem o poder de mobilizar consciências, de gerar diálogos e de provocar mudanças.

    A sociedade que Quive descreve, mutilada em todos os níveis, reflecte o estado interno de tantas pessoas que sobreviveram a traumas e que continuam a lutar para encontrar um espaço de cura, de voz.

    Como sobrevivente de abuso infantil, muitos dos temas abordados em “Mutiladas” tocam-me de uma forma muito pessoal. A mutilação, tanto literal quanto metafórica, que se espalha pela obra, faz-me lembrar as feridas abertas que muitas de nós, sobreviventes de abuso, carregamos. O abuso infantil, tal como a mutilação genital feminina (uma prática que ainda persiste em algumas partes do mundo), e outras formas de violência, são maneiras de roubar-nos a autonomia e a dignidade. Estes actos deixam cicatrizes, não só no corpo, mas também na mente e na alma. E isso fica tão claro na descrição de personagens que são “sombras” do que um dia foram.

    A introspeção do narrador-personagem, especialmente em contos como “Decadência”, faz-me reflectir sobre a maneira como nós, vítimas de abuso, muitas vezes procuramos reconstruir as nossas identidades fragmentadas. A sociedade que Quive descreve, mutilada em todos os níveis, reflecte o estado interno de tantas pessoas que sobreviveram a traumas e que continuam a lutar para encontrar um espaço de cura, de voz.

    “Mutiladas” também faz-me pensar nas desigualdades sociais que afectam particularmente as mulheres. Nos contos em que se fala de famílias ricas e pobres, de meninos que têm acesso a educação e outros que não, vejo uma ligação clara entre essas desigualdades económicas e as desigualdades de género. Nós, mulheres, especialmente as mais pobres, somos frequentemente as primeiras a sofrer as consequências dessas exclusões. Ficamos presas em ciclos de pobreza e violência, sem os recursos necessários para escapar ou para lutar pelos nossos direitos.

    Como activista, a crítica que Quive faz a essas desigualdades é um apelo à acção. O texto não só descreve a opressão, como também leva-me a questionar: o que podemos fazer para mudar esta realidade? Como podemos, através da arte, da literatura e do ativismo, lutar contra essas estruturas que perpetuam a violência e a exclusão?

    Como sobrevivente de violência, a banalização da morte, especialmente a morte de mulheres, como ocorre em “Mutiladas”, é talvez o aspecto mais angustiante para mim. O silêncio que segue esses actos de violência (um silêncio que reflecte a indiferença da sociedade e a falta de justiça) é um tema recorrente na luta contra a violência de género.

    No fundo, para mim, “Mutiladas” de Eduardo Quive é mais do que uma obra literária; é um manifesto contra a opressão e a violência que assolam a nossa sociedade. Quive usa a narrativa como um espelho, expondo as feridas abertas do mundo contemporâneo, especialmente no que diz respeito à violência de género e à desigualdade social. Sinto que a obra convida-me a reflectir e a agir, lembrando-me que a arte tem o poder de iluminar as sombras mais escuras da nossa existência.

    Por Dora Chipande

  • Mário Macilau revela a alma dos explorados

    Na nova exposição intitulada “imediatismo”, o fotógrafo Mário Macilau, coloca nos seus retratos à preto e branco, a alma dos ignorados na exploração desenfreada dos recursos.

    Os rostos e os corpos “gastos”, pálidos, mostram na perfeição das rugas de quem vêem a idade e a vida a avançar, tudo à sua volta a transformar-se em pó e num abismo onde cabem todas as ambições e a ganância do Homem. A olhar pelos rostos que nos são apresentados, constata-se a pobreza das gentes dos lugares ricos em recursos minerais, por exemplo. Lugares em que a riqueza se expõe no meio de uma pobreza estrema. E o lixo dos ricos é o luxo dos pobres, como pode-se perceber pelas imagens extraídas da maior lixeira da capital moçambicana, em Hulene.

    No olhar, nas feições simples, inocentes até, das crianças e dos idosos, nota-se toda uma cadeia de desesperanças no trabalho que Macilau apresenta. São os corpos que sobram e resistem da degradação. O fotógrafo procura expor mais do que as evidências de que esses corpos se recompõem todos os dias à margem. Leva-nos para dentro da alma das personagens, instigando o espetador a uma leitura da narrativa das vidas representadas, “preto no branco”. Ele que já explicou a escolha desse caminho à duas cores, “o preto e branco proporcionam uma conexão mais forte(…). Torna uma imagem atemporal, quase como uma memória.

    O conjunto de fotografias percorre ao consumismo e as vítimas de um sistema que já vem a controlar os estilos de vida e as sociedades há anos. Os rostos de gentes carregadas e revestidas de silêncios e o que representa a força bruta de trabalho, não são propriamente de denúncia, são sobretudo o escancarar da dura realidade que se sobrepõe toda voracidade do capitalismo que avança e arrasta consigo as pessoas, os lugares, a qualidade de vida, as expectativas e o futuro, uma vez afectar a abundância doutros recursos vitais, como a água, a qualidade dos solos para agricultura e o ar.

    recebe-me actualizações no seu e-mail

    Macilau tornou-se numa referência enquanto fotógrafo que vai ao encontro dos “invisíveis”. Os homens, as mulheres e as crianças das periferias do mundo, marginalizados e vendidos ao preço da ilusão, procura mais uma vez fazer uma abordagem provocadora, instigante. Em “imediatismo” talvez se volte à questão ambiental, mais no modo reconfigurado, como as pessoas nos lugares de abundância de recursos são insignificantes e invisíveis diante do carvão, do gás, do petróleo ou outros minérios que realmente importam para a sociedade de consumo e grandes corporações. Nesse sentido, o que se expõe é também a outra face dos negócios dos recursos e os contratos que desvalorizam as populações. O próprio fotógrafo já assumiu usar a lente como “ferramenta de intervenção social”.

    Embora fotografe esses marginalizados, mas também de condição de vida precária, Macilau procura dar-lhes dignidade, personalidade e carácter. Vai ser por isso, que algumas dessas personagens, se nos apresenta com os seus utensílios, outros estilosos, com adereços e acessórios de estilo. Mesmo os rostos mais enrugados, não são de grito nem desespero, são sobretudo almas vivas, pertencentes a um lugar e que assistem às mudanças, em meio a promessas e expectativas de um melhor futuro, que contrasta com o que vislumbram.

    A exposição esteve patente de 10 de abril a 10 de maio, no Centro Cultural Franco Moçambicano, em Maputo. Texto originalmente publicador no RADAR – MAPUTO FAST FORWARD

  • Evento de lançamento do livro “Para onde foram os vivos” de Eduardo Quive

    Foi um momento de festa, encontros, reencontros, abraços e afectos, para receber o mais recente livro, “Para onde foram os vivos” do escritor e jornalista @eduardoquive.

    O evento que teve lugar no Camões – Centro Cultural Português em Maputo contou com a apresentação do livro pela professora doutora Teresa Manjate, que afirmou, em análise à obra, que tal como não se pode julgar o livro pela capa, não se pode julgar este “Para onde foram os vivos” pelo volume. “É um livro com poucas páginas, mas muito denso e profundo”.

    Mais do que palavras, deixamos aqui o registo fotográfico feito por Adelium Castelo.

    Pode adquirir quantos exemplares quiser do livro entrando em contacto: +258 270 6548 ou pelo e-mail: viceversaideias@gmail.com

  • Para Onde Foram os Vivos

    Neste livro, Eduardo Quive explora as cidades físicas e imaginárias, através da prosa poética.

    Ana Mafalda Leite, prefaciadora do livro,  “Para onde foram os vivos”,  é um livro que partilha vários tipos de registo discursivo, lírico e confessional, bem como faz o uso da linguagem do diário ou da notação jornalística e uma ténue linha narrativa, por vezes criando cenários de ambiente cinematográfico ou fotográfico. 

    “É o retrato do mundo em decadência, estilhaçado, as cidades em ruínas com o silêncio ensurdecedor das almas que ainda habitam o lugar com a esperança no exercício do amor. A quem amamos quando estamos sós, isolados num lugar de silêncios e ausências, retratos de egoísmo, violência e tensões que levam que o mundo como o conhecemos se desfaça sob o nosso olhar indiferente? Uma outra imagem das grandes cidades repletas de gente, ostentando o seu mais elevado amor material, mas ausentes em afetos. Nesta obra, a cidade e o corpo se confundem. Assim como o amor e o ódio se fundem para gerar tensões e violências”.

    O livro editado pela Alcance Editores, encontra-se dividido em duas partes, nomeadamente, “Cidades” e “Corpos”. Em “Cidades” o autor apresenta 24 fragmentos onde expõe as cidades físicas e imaginárias por si percorridas. E em “Corpos”, Eduardo Quive  reúne 19 textos em prosa poética.

    Livro disponível à venda em todas as livrarias em Moçambique

  • “Há bondade no meio do caos” – Eduardo Quive ao fala ao “Domingo” sobre a sua nova aventura literária “Para onde foram os vivos”

    Onze anos depois o escritor Eduardo Quive embarca na sua segunda aventura literária intitulada “Para onde foram os vivos”, o livro, que chega ao p+ublico no dia 04 de Abril sob a chancela da Alcance Editores. Desconfiado, perfeccionista, dedicado e delicado, no poema, Quive, mergulhou nos aspectos mais sensíveis da humanidade, através da noite olhou para os movimentos das cidades e das suas gentes vazias e chegou a conclusão que a vida tende a ser caótica enquanto os seres homanos negligenciarem as relações afectivas para se dedicarem aos bens materiais. Domingo entrevistou o autor. Haja fólego para as próximas linhas.

  • Para ti, Isabel, esta carta que queria cantar-te

    Isabel, deixares assim que na tua voz nasça a flor enquanto os instrumentos fazem-nos viver a alegria do mistério é de uma maldade que só tu podes fazer com elegância. Podem ouvir-te pessoas várias, nações dispersas, tirando cada um para hidratar o corpo e alimentar a alma, com o néctar do teu ritmo. 

    Foto de Ouri Pota

    Isabel, 

    escrevo-te estas palavras que não saberia dizê-las, na minha indesejada timidez, olhando-te nos olhos. Ainda bem que me posso revelar pela escrita.

    Hoje, Isabel, tu vieste-me, sentado na segunda carruagem do comboio das 17h45. Ia de Maputo para os confins da terra, lá onde as pessoas andam apressadas, descem do alto degrau do comboio como se atiram dos saltos para voltar a usar as botas ou chinelos que levam ao sair de casa pela virgem manhã, a caminho do trabalho. Sabes onde é, é outro lado da Matola onde tu pertences. Lá onde quando o nome do bairro, causo susto e espanto, ao mesmo tempo pesar e compaixão, dos que mesmo sem saber onde, compreendem a distância e sobretudo, o estar além.

    Hoje, Isabel, voltaste a adentrar para lugares irreconhecíveis do meu corpo, e a fazer-me festinhas neste meu coração que tu conheces como pouquíssimos, os seus dilemas para palpitar com a força da vida. Tu, Isabel, apenas tu e mais somente alguns, sabes a sinuosa rotação das válvulas deste meu coração, pois estiveste comigo nesses tempos outros, logo depois que a Francine se ia… 

    Escutei-te, novamente hoje, enquanto viajava entre carris e o baloiço da locomotiva. Eras tu, por completo, e as tuas Metamorfoses. Ouvi-te a cantar, a contar segredos, para bem dizer, a sussurrar nos meus ouvidos, a fazer-me sentir a ternura que me acompanhou nos dias que tu conheces, no lar dos enfermos. Nesse tempo, para lá de homens e mulheres que conhecem a anatomia dos corpos a esvair-se de dores, de almas em desesperos e angústias, de corações dilacerados e dilatados como o meu, tu eras o meu alento. Tu e as outras vozes que ousarei dizer-lhes também a verdade, neste meu sentimentalismo exacerbado e ridículo, como estas palavras que te escrevo diante de vários olhares.

    Comecemos pela Oração. Talvez porque nunca rezei na vida a não ser diante da vida e da morte, os sinos tocaram quando ouvi-te a cantar naquela língua que não sei dizer. Os batuques especiais, habituados a ouvi-los no nosso tufo insular, a mística das vozes, o rítmo que pareciam-me a tua mão a bater-me suavemente nas costas, a tua voz a chamar-me para ver o pôr do sol na Ilha de Moçambique, e a fazer-me querer ver o mundo pela “Janela do Oriente”, como ousou escrever o poeta maldito, Eduardo White, quem ainda dedico memórias. Ouvir-te é provar as especiarias únicas e os cheiros a mar, naquelas casas gigantes, onde as janelas são vias abertas para contemplar todo o mundo.

    Fico a pensar, Isabel, como nos dias em que enfermo e incrédulo escutei-te, como és capaz de mandar-me aliviar o coração para que esse ser que tu evocas, entre meu corpo e dê-me sossego, quando é a tua voz a fazer-me navegar lento pelos caminhos da esperança.  

    Isabel, escuto-te  a falar da paz, do olhar que te faz feliz, do sorriso, como se desenhasses um retrato com a tua voz, na lírica do amor, como quem fala de um acto completo, puro e simples. É a tua alma a deixar que a voz percorra os caminhos sempre subjectivos do silêncio, essa insustentável leveza do ser, como tão belo escreveu Milan Kundera. Fico a pensar em cada palavra tua, como se procurasse razões para ouvir-te na próxima música. E como te oiço aleatoriamente, sem pré requisitos, és como o pássaro a assobiar para a certeza do Amanhecer, como também cantaste lá naquele primeiro álbum. 

    Então procuro seguir a leve e suave viagem da playlist. E levas-me para mais um lugar que me é difícil de revisitar, poupando palavras para uma mística do afecto em For My Father. Isabel, deixares assim que na tua voz nasça a flor enquanto os instrumentos fazem-nos viver a alegria do mistério é de uma maldade que só tu podes fazer com elegância.

    Mesmo quando não falas de amor e dos afectos do teu íntimo, consegues surpreender na forma como dizes certas coisas. Como quando afirmas I’m not a colour, i’m not a religion, im just you like you are e ainda dizes let ‘s stop the hate, como se soubesses o valor das palavras determinadas, é tudo à tua medida, como disse-te noutras linhas. Ou ainda quando unes a tua voz a outras, para o “We Shall Sing” e ainda afirmam nesse som, we shall fight for the freedom, sinceramente, foquei a lembrar, assim, inusitadamente, o som que me ficou do que vi do “Hotel Ruanda”, que só mais tarde soube que é um som feito por Andrea Guerra. Sobre a liberdade de cantar já nos havias “cantado” em Unanga lá do teu primeiro álbum, sobre a universalidade da música, sobre a alegria que também sente-se quando te agarras ao microfone para deixar voar as borboletas dentro do teu corpo. Fazes isso, Isabel, como se nada fosse, transformas o difícil e o complexo numa rotina. 

    Gosto, Isabel, da liberdade de te cantares usando só a tua voz, como ví-te a fazer naquele espectáculo nos tempos do fica em casa. Se poeta como White eu fosse, dedicava-te este verso, o peso da vida gostaria de senti-lo à tua medida. Assim, ia-me leve a alma deambular no universo das jornadas mundanas.     

    E como se a música fosse uma missão que não se pode viver a sós, ainda consegues levar-me para coros que me fazem viver dias e tempos que não me vem à memória. Fazes-me viver lugares que não conheci, fazes-me ter a fé que sempre me foi escassa, justamente eu que era ateu e vi milagres, como vaticinou Caetano das terras do Quincas Berro d’Água. Eu sei que há muito de ritos tradicionais que te movem. Eu sei que bebes da fonte dos teus, há toda uma espiritualidade no que cantas, há uma tradição de coros das nossas canções dos rituais que te movem, coisas que não se podem dizer, que dão-nos vontade de ser grandes, de levitar e caminhar de passos firmes, batendo o chão como no nosso makwayela. És, Isabel, como só um poeta como Craveirinha podia inventar, uma moçambicaníssima voz aberta ao mundo. Podem ouvir-te pessoas várias, nações dispersas, tirando cada um para hidratar o corpo e alimentar a alma, com o néctar do teu ritmo. 

    Tu sabes, Isabel, como pouquíssimos, que foi no teu ritmo que dei os primeiros passos quando precisava me levantar no leito do da restauração.

    E voltas a visitar-me hoje, assim, sem que te esperasse e me afazeres reviver a minha intimidade mais submersa, aquela que não queria revelar a ninguém. 

    E fazes-me querer dizer-te aos outros, querer questionar a tua ausência entre outros ouvidos, como se toda a beleza da tua música, sem mais adjectivos possíveis, fosse a música absoluta, no meio de tanto caos e ruído. Este teu Metamorfoses é capaz de vaguear no nosso interior, de arrumar a desordem das almas que correm apressadas nos caminhos da vida, vivendo apenas mais um dia depois do dia anterior que será como o dia seguinte. 

    Fico apensar por tua causa, Isabel, na beleza das coisas insignificantes, as nuvens cinzentas a se desenharem no céu onde o sol persiste em sobressar, na saudade discreta dos nossos amores, no beijo suave no rosto ou no abraço desinteressado das pessoas que parecem comuns no nosso dia-a-dia, mas que de repente, ganham a dimensão de deuses quando se vão ou quando estão distantes de nós. 

    Ai se pudessem as gentes apressadas pararem para ouvir-te no meio de tanto barulho. Se pudessem sentir a voz como a mão passar nos ombros, como eu senti, se pudessem dançar ao teu ritmo, tudo era mais leve e possível.

    Agora que me vou terminar, digo-te para que não seja memória, deves ser da tua geração, Isabel, das vozes mais afinadas, das pouquíssimas, incapaz de dizer uma palavra que não carregue sentimento. Há um certo encanto, em andar devagar e nos detalhes que se perdem na retina das coisas dolorosas da vida.

    Agora, Isabel Novella, despeço-me. Ou como ainda diria aquele que venho chamando em meu auxílio nesta carta que te escrevo, até amanhã, coração.