Etiqueta: crónicas de eduardo quive

  • O acompanhante

    Dá para ouvir de longe a voz que vem leve como se imitasse o vento. Vai se fazendo ouvir puxando a alma para um lugar desconhecido, por aí, algures nas esquinas da vida. É a Elis Regina a fazer-me serenatas.

    Ao entrar no espaço vazio do boteco, um cantinho carioca entre as ruas apertadas da Graça, o vazio me recebe. Seria das poucas vezes que entraria num lugar onde come-se e bebe-se sem ouvir a orquestra de talheres e vozes exaltadas, ora se engasgando entre arroz e vinho, entre um peixe e um gole de cerveja. Não faz mal, há ali uma voz que preenche todos os vazios.

    E canta. E toca. Canta a voz miúda como se deixasse a tristeza para lá. Vai esboçando um sorriso enquanto afoga-se numa distante alegria de viver e de cantar. Quem canta males dos outros espanta, enquanto os seus se desconhecem. É como se dissesse que é feliz lá para onde olha de olhos fechados, como se visse no seu lugar, todos os rostos que eternizaram os hinos que canta. Algo que só ela pode sentir.

    Não ia tardar que, uma a uma, grupo a grupo, chegassem as pessoas. É tarde de sábado. Dia de feijoada brasileira. A música é um acompanhante. O resto da humanidade, que preenche o lugar, vai se ocupando em tornar o mundo num lugar sem fome. Justamente. E há ainda quem peça que nos tirem tudo, mas que nos deixem a música, penso comigo, enquanto desespero pelo prato que viria alegre, recheado de simpatias. Afinal não é a música que nos move!

    Toda a constelação de clássicos brasileiros é invocada com uma espiritualidade da viola e da voz que parece reverenciar a grandeza dos astros. Sem que esta voz se cale, comer é um sacrifício. Mas convém que não se cale. Preciso ouvi-la. Preciso. Então espero, venero o canto. Vou acenando. Em jeito de quem assume toda a sua fragilidade, a sua ingenuidade, a sua reverência. Saravá! Isto é mais do que música. É um segredo. Preciso ouvir e guardar. Apesar de toda a presença, só eu ficarei a saber aonde fica pasárgada. Lá onde os grandes nomes da arte, artistas de verdade, dos quais não me assemelho, são amigos do rei, quase reis. Penso em Manuel Bandeira. A impertinente vontade de pensar nos mortos quando se está feliz. Como se nos culpássemos por sorrir sobre a memória de quem deste mundo passou.

    Vendo aquela voz dando o melhor de si, fazendo levitar clássicos brasileiros e contemporâneos marcantes sem que lhe mereça um único grito ou aplauso, fez-me percorrer as ruas da angústia literária. Penso nos poetas, verdadeiros artistas da vida, que podem esmerar-se em sangrias criativas, podem inventar quanto palavreado, quantos versos que lhes sejam a si próprios marcantes e lhes encha o ego, que lhes preenchem os sonhos da consagração, de serem reconhecidos na esquina, num bar, ou mesmo pelos vizinhos, que ninguém saberá dos seus veros, tampouco da dor que deveras sentem. A verdade é que, por fim, definimos a escrita como viver em constante estado de solitude. Como se a solidão fosse a catarse dos poetas. Ilustres somos, mas até que se nos enxergue o lustre, estaremos algures, de onde não poderemos voltar a ser o que éramos, quando escrevíamos os primeiros textos, o primeiro verso, as paixonetas que nunca esqueceremos, porque nunca nos foram correspondidas. Dos amores que amamos em segredo para que durassem no tempo. Nascemos sob o signo da insignificância. Da invisibilidade. Da inexistência. É a apoteose do nada, ou da angústia como vaticinou um outro poeta maldito.

    De vedetas mal concebidos, terminamos lembrados apenas duas vezes aniversariamente, como disse o poeta que ninguém se lembra quando nasceu e quando morreu. Ainda que recitem incompletamente os seus versos e sem que os compreendam. O poeta é um fingidor. Mas, não, aquela voz a cantar no boteco não finge. Levita. Invocando o santo nome dos compositores imortais da música do mundo. Mas prioridade mesmo, é o feijão para alimentar a fome do mundo. A fome que nos tira tudo, tudo, incluindo a música. 

    27.08.22, Lisboa

  • My Love que te quero e que te odeio

    Num ano desses de que já não me lembro agora, e não me quero dar ao trabalho de ir ao Google para resolver essa lembrança, com a Patrícia Reis em Maputo, assim, numa daquelas perguntas de praxe no jornalismo, perguntei se se lembraria de Maputo e o que lembraria. Minto (agora lembrei-me, afinal
    publiquei essa conversa em algum lugar), perguntei exactamente “qual é o “extraordinário” no my love”? Respondeu-me com um autêntico “não sei” (que não escrevi no tal texto). E deu-se tempo para pensar um instante, suspirou, depois de voltar os olhos para o planeta terra, “o extraordinário é dar um nome a
    um transporte colectivo, não organizado, que implica afecto”. Calei-me. E fui a correr para fechar o texto para a revista onde me conferiam algum espacito para fazer algumas coisas de vez em quando.
    Penso hoje no my love. Certamente, um tema desinteressante para se falar e escrever. É mais fácil gozar e memizar, os memes não têm azar, toda gente gosta de algum gozo, de gozação. A Malika, minha filha, por exemplo, às vezes faz-me perguntas de gozar, só para testar-me a atenção. Mas outra vez, a mãe mesmo é que lhe venceu nesse perguntar sem azar, “barriga da mamã faz o quê?” e respondeu-lhe ela sem pensar (essa até eu não pensava, só não teria palavras certas) “faz hõi hõi hõi…” foi para a gargalhada infinita. E até hoje vejo-me a rir sozinho recordando a resposta enquanto abraço no my love.
    Encontrar uma expressão para nomear a precariedade, o perigo, a insegurança, o desespero e a única esperança que nos resta perante a falta, merece mais do que criatividade, é imaginação. A vida é feita por dois extremos, entre aqueles que andam de my love e aqueles que não andam de my love. Podia ainda incluir a classe daqueles que já andaram de my love e se esqueceram e daqueles que só os pais, irmãos e outros familiares andam de my love e simplesmente isso não os atinge. Há ainda as classes dos políticos/governantes, esses são os piores.
    Inventaram um my love de luxo que dizem dar “dignidade” a quem sobe e quem os vê a subir. Sobretudo, a quem interesse falar de dignidade enquanto passa do outro lado da vida, onde Deus já passou e deve ter uma Maria…
    Voltando ao meu bairro, onde dá-me imenso gozo – façamos de conta, pois bem – ser o que anda de my love e olha de cima do camião os que nos olham sempre perplexos com nosso balancear, ora de frente para traz, ora de esquerda para a direita, em danças em círculos, torneando a cintura, enquanto nos abraçamos no vão do medo de cair. Oiço sempre as notícias de uma pickup que abriu o taipal e “despejou” gente enquanto andava a uma velocidade ilusória de 120km/h – não imagino como uma camioneta na sétima vida andaria nessa velocidade numa estrada sem asfalto e cheio de lombas artificiais, para não dizer covas e lagoas. A mim mesmo, como provo em estar vivo e caminhando nas ruas urbaníssimas de Maputo, em alguns eventos de luxo – ai que saudade dos cocktails de lançamentos de livros ou saraus culturais – e vou saindo na televisão falando de problemas que não são os problemas da maioria da minha gente… nunca aconteceu que caísse vítima de um my love desgovernado ou saturado de gente que já não suporta o abraço.
    Na terra onde se faz amor abraçados em público, cambaleando, quais embriagados da nossa orfandade incompreensível, quando compradores de sonhos daqueles que andam de Mercedes e D4Ds, Rangers e uma nova classe de burgueses, os mahindrados sem casta. (este parágrafo não existe).
    Dito isto e aquilo que não disse e que só experimentando o my love nosso de cada dia poderá alguém compreender, não direi mais nada. Mas quero mesmo ler, um dia, o romance de Patrícia Reis sobre my love, mesmo que seja somente para encontrar um personagem, alguém, pelo menos deverá humanizar o my love, que de resto, nós agradecemos que se aumente o número no meu bairro.

  • Para não dizer que não falei das mulheres

    Podia escrever sobre Cabo Delgado. Mas custa-me falar assim das minhas dores, das minhas incompreensões e das imprecisões de quem não devia calar. Já a minha mãe contou-me da guerra civil, do que aconteceu em Gaza, do meu avó que quando todo mundo corria para o mato, ele se sentava com o seu neto pequeno, um dos meus irmãos, aquecidos por uma lareira dentro da palhota, como se esperasse a inevitável morte chegar, sem que tentasse em vão fugir de quem não se sabe porque mata e fere; porque é difícil compreender a morte de crianças, de mulheres e de homens à catanada, mesmo com uma AK47 às costas cheia de balas; já é de todo impossível aceitar a morte de inocentes que jamais compreenderão as guerras que muitas vezes são anunciadas ou recusadas na televisão, na rádio ou ainda em jornais que não chegarão a ter acesso, porque há lá fora e dentro de casa a insegurança a roçar a já intranquila vida dos dias.

    Em tempos de guerra quem mata e quem defende tem quase o mesmo rosto. Quem está na guerra não sabe porquê morre ou porquê vive. Sobre Cabo Delgado só nos chegam ambiguidades, os famintos, os assustados e aterrorizados, os refugiados, desabrigados do seu próprio solo e da sua esperança. Chegam-nos imagens incompreensíveis das armas em punhos entre os que deliberam sobre a morte e o medo e os que estão para a espantar. Só que em ambos os casos causam o mesmo medo de quem só compreende as leis da vida onde ela é normal.

    Hoje, excepcionalmente, escrevo à quarta-feira, mais um dia do nosso orgulho nacionalista, agora pretexto para a alegria das mulheres que sobem cada vez mais na hierarquia das agendas. São muitos os milhões em nome da igualdade e da equidade, difícil mesmo é escrever sobre porquê há convenções e códigos para se identificar um machista, podíamos falar de palavras-chaves, hoje fáceis de se detectar num simples “search”, sem se quer ler o pensamento ou a humanidade no meio das palavras; que, na verdade, hoje em muitas residências, em muitos conjuntos e conglomerados de residências, é mais um dia de festa, de capulanas, camisetas, lenços, algumas pingas para desanuviar o tédio do quotidiano do quase mesma coisa, as mulheres no bairro que são batalhadoras que muitas vezes são as maiores referências dos filhos e até dos maridos, para a prosperidade que se assiste numa sociedade “amarga” como vaticinara o poeta M.P. Bonde, não terão voz nem para falar do seu feminismo ou do seu chefismo de uma economia doméstica improvável. Não se pode prometer rebuçados a uma sociedade amarga, diz-nos o poeta manso. Justamente nos últimos tempos que tento compreender o que nos ensinam os poetas, provavelmente só a chorar as nossas dores, as nossas cicatrizes, nossas lembranças, quais mentes repetidoras de tormentos, iguais à nação que não sabe suspirar de alívio, igual às acácias de Maputo que tem de sobreviver ao mijo, igual às águas de Pemba, que se salgam à custa das lágrimas de muitos sobreviventes, quais órfãos da sua terra e dos seus ente queridos que não serão lembrados. Os nomes não os temos na memória, não os podemos dizer em voz alta, nem em voz de quem sussurra a dor que não sente. Aquelas águas promovidas em revistas de turismo, como das mais lindas do mundo, estão banhadas de silêncios de almas que vaguearão como espíritos se quer esquecidos, porque jamais existiram na nossa memória colectiva, antes as imagens das mulheres que choram enquanto renovam a vida na terra, nascendo em plena fuga para a incerteza. Hoje há quem pensa naqueles bebés que rasgam os ventres das mães, certamente com um sem vontade contrário com que emergiram no seu ventre. Serão frutos do amor? Hoje queria falar das flores, como das mulheres, mas como Vandré, surge-me a revolta dos tempos que vivo. Vem-me o nome do território ensanguentado, onde são muitos os nossos mortos e desconhecidos, onde são muitos os sobreviventes e quase irreconhecíveis de onde os vemos. Penso nas mulheres de Cabo Delgado, hoje as declarações de amor devem ser com uma flor ou uma arma na mão?

  • Monólogos da ausência

    Hoje é quarta-feira. Quase podia escrever sobre o silêncio, da surdez dos esquecidos ou das flores lá fora desamparadas, dos pássaros confinados no peso da noite que vai leve para os ventos, da janela descortinada quase que desconseguindo separar a rua de cá dentro, das couves que crescem excluídas do olhar de quem as quer comer, ali, caladas, impacientes do seu crescimento, do comboio que buzina lá do longe, como se nada tivesse imposto o recolher desobrigado da noite que manda as almas silenciarem, da vitória dos grilos ou do andar livre dos dispensados do dia; mas não, não calam os barulhos de cá de dentro, a alma é um mundo obscuro, que desconheço, por isso escuto todos os movimentos da mente, como se as vozes às vezes interrompidas pelos mosquitos, nesta mesa plástica que acolhe a escrita, com a garrafa de água caída, denunciando, uma garrafa de coca-cola vazia, o copo que tapa a metade do limão cortado, resquícios de um chá da manhã de ontem, uns quantos copos e chávenas vazios, nuns jazem as sementes do limão do chá da manhã de ontem, noutros a memória do sorvete cujo sabor nunca me havia lembrado, umas cascas de bananas que vão dessecando no limiar da vida, um brinco e um lenço…

    …Ia falar dos movimentos da mente, como se as vozes às vezes interrompidas pelos mosquitos, na sala silenciosa, quisessem falar-me de si, mas só de mim, e por isso precisassem mais do que nunca tirar-me a cama ao corpo. Mas agora que estou sentado não posso ouvir-me falar, porque desce pelos dedos a fúria da escrita que não deixa o silêncio falar-me do que desconheço, como por exemplo, a sinfonia harmónica que toca lá fora sem ouvintes nem espectadores. Apetecia-me assisti-la, apesar de triste é encantador, o encanto da tristeza, do choro, da lágrima, da dor, da fúria, mas também da saudade e da ausência que nunca sabemos do que realmente se trata.

    Ocorre-me agora também a angústia do silêncio, mas também a sua ternura, o sorriso com que nos acompanha a esquisita lágrima brilhante que teima em cair, quanto nascente de um rio que o tempo não secou. Agora não sei porque escrevo isto, deve ser porque me anima falar assim do que não me lembro.   

    Podia falar das almas que se deitam, mas este cenário, entre livros empoeirados e esquecidos, o televisor desligado, com a luz vermelha acesa, único sinal de vida, igual ao contador que vai gritando de tempos em tempos, igual as formigas que passam pela mesa, os mosquitos que cantam o som sempre incómodo quanto despertador; ao fundo um CD de Ana Carolina “ao vivo” ainda empacotado e uma lanterna comprada no chinês e que avariou sem nenhuma explicação, deixando saudade e de vez em quando, a angústia do que ainda podia ter servido, ainda a pouco havia lido no jornal, uma entrevista a Pilar Del Rio, revivendo as reminiscências da vida do seu Saramago, Nobel faz 10 anos e ainda havia lido a entrevista a João de Melo que vem aí com um novo romance. Os romances, mesmo quando em tempos de silêncios, não deixam de ser um alerta para a vida. Lá fora a noite faz a festa sem silenciar os sobreviventes, resistentes de uma luta entre a luz e as trevas da escuridão, às vezes anoitecidos de dia noutras amanhecidos de noite, quantos lá do outro lado das casas, não dormem como eu e o que lhes permite o desassossego do não descanso? A ausência ou a presença? A ansiedade ou a certeza? A lágrima ou o riso? A insónia simples e injustificada ou a incerteza do sono? Perguntar nunca havia sido uma forma de resposta, de quem tenta sem saber, falar da ausência.