Crónica publicada na revista Sábado, de Portugal, onde descrevo os mais recentes acontecimentos da crise pós-eleitoral que resvala para cenários de vandalismo, saque e mortes.
“Ainda não havia passado a depressão da ausência da festa de natal e já se anunciava o terror: homens com catanas andam à solta no bairro, com sede de sangue e dispostos a cometer todo o tipo de crimes. Passa da uma da madrugada e o telemóvel não pára de tocar com gente de outros lugares, familiares, amigos e vizinhos, preocupados em dar-nos a notícia, as nossas vidas correm perigo.” Leia a crónica na íntegra aqui
— Mãe, porque é que as pessoas dizem povo no poder?
A mãe descansa as mãos na cintura fina que acompanha a forma do seu corpo sem grandes nuances, uma mulher de 30 anos, que deu-se ao luxo de ter duas filhas, e que agora não sabe mais o que fazer com elas; a mais velha, de seis anos, está na idade dos insuportáveis porquês da vida; a mais nova, aos três anos, dorme como se não se importasse com o mundo, indiferente aos 34 graus celsius que se multiplicam ao triplo na casa de madeira e zinco e os mosquitos celebram a liberdade de circulação e livre manifestação. Deu agora para que a mais velha, justamente à esta hora da noite, com o jantar dos mil e um sacrifícios posto à mesa, querer saber os porquês destes tempos: porque gritam as pessoas lá fora pelo poder popular — povo no poder, rectifica-se.
— Mamã — insiste a criança ameaçadora, enquanto bate-lhe na malha da anca — o que dignifica povo no poder?
Ela quis dizer significa. Deu-lhe, já há uns dias, trocar os significados às coisas; se bem que dignidade é também pelo que gritam as vozes imponentes que cada vez se aproximam na rua e um fumo negro ganha espaço pelos ares, em direcção às nuvens dispersas, que parecem mover-se com a força dos homens, mulheres e crianças, e mais os outros a quem a dignidade sempre lhes fez falta.
— Mamã, mamã…
— Diz…
— Quem são as pessoas que estão a gritar lá fora?
São os invisíveis e inaudíveis, assim chama-lhes a mãe. Mas evita dizê-lo na voz que a criança possa escutar e originar outros porquês. Por exemplo, continuar a falar dentro da sua cabeça onde se passam todos os problemas do mundo, perguntaria a criança a seguir, porque são eles invisíveis? A isso ela podia responder, porque sempre existiram, mas ninguém se deu conta, porque não estavam vestidos de forma «adequada», eles não cheiram aos aromas de Paris, nem à moda milanesa, antes à contrafcção chinesa ou nigeriana; eles sempre andaram aos gritos que só arrepiava eles mesmos, porque quem devia os escutar, cercou-se de vozes semelhantes, de igual poder, iguais cheiros, cantando todos em uníssono as canções de embalar os saciados. O que ficou para estes, são resquícios de uma solidão e angústia que só se sufocava nas promessas e nos sonhos vistos aos ecrãs dos smartphones, de segunda mão, tal como as roupas, vindas de contentores para o descarte. Os pensamentos da mãe podiam continuar a escalar, não fosse que a criança ia se tornando incômoda, impaciente, um tormento para quem também tem os seus porquês da vida. Está na hora de responder à criança que não se cala, já num corro como os inaudíveis.
— Mãe, lá foram estão a cantar porquê?
Manifestações pós-eleitorais em Maputo com a mensagem “Povo no Poder” | Fotografia: Adelium Castelo
Esta pergunta será inevitável que responda; a mãe não se pode recolher nos seus silêncios habituais, fadados por ser mulher e mãe solteira; a mãe não se pode contentar mais com os silêncios irritantes do mundo; pesa-lhe a consciência não responder à estas simples perguntas de um ser que procura compreender o mundo sem fazer juízos de valor; sem escolher os lados; sem cobranças, sem reivindicações, a não ser os porquês.
— Mãe…
— É uma manifestação, filha. Esses são os manifestantes.
Quando a mãe disse manifestantes, soo-lhe o que diria a um adulto como ela sobre esses tais; são os invisíveis, os desconhecidos, os inaudíveis que, hoje, estranhamente se lhes escutam as vozes já roucas de gritar por toda e pela vida; são os que metem medo; os que fazem encarar a vida com a certeza de que nem tudo anda bem, apesar do futuro que sempre se anunciou próspero; são os que agora cobram a sua parte da riqueza que todos os dias faz manchete nos jornais; são os que lavam os carros dos aspirantes à classe média, no centro da cidade; a mãe tem a idade da constatação e do pânico, distópico, como diria nas palavras que vem praticando na língua que procura afiar, a ver se arruma um emprego de jeito, por isso poderia continuar a caracterizar, mas faria de tudo para não tratá-los por vândalos, como nos noticiários.
Abre a janela e rouba o olhar à rua; a filha imita-lhe os gestos.
— Eles estão a dizer povo no poder, mãe.
— Sim.
— O que dignifica isso?
— Significa, filha.
— Isso mesmo, mãe.
— O quê?
— Povo no poder.
E esta, agora, pior é que se não respondo ela não se cala. Devo agora traduzir o que diz a letra da música, ou o que sai da boca dos manifestantes; nem eu sei muito bem o que dizem. Postos os instantes de reflexão e discussão com os seus sentidos, disse-lhe que é letra de uma música que agora é usada por manifestantes que reclamam o poder. Um tal de Azagaia é que a cantou, dando uma outra vida às palavras de Samora Machel. A mãe não podia dizer esses nomes à criança que ia perguntar a seguir sobre esses homens. Não há tempo para biografias, nem verificação dos factos. Factos, essa palavra é outra que traz consigo problemas, rima com a verdade, é parece que ela agora só vem de uma só voz, o que a mãe também acha um perigo. O perigo de uma história única que tanto ela aprende agora a combater no final do seu curso superior; agora que ela aprendeu que a verdade não virá de uma só boca. A mãe também está confusa, é o que pelo menos acha, ela pelo menos não tem certeza de nada, talvez por isso é que lhe custa dar certas respostas.
— Mãe, o que digni…
— Significa, sig-ni-fi-ca. sig, sig…
— O que são manifestantes?
Manifestantes são pessoas nas ruas que não estando felizes com alguma situação decidem mostrar a sua insatisfação. Por outras palavras, os que não se conformam com a ordem estabelecida. Apesar do esforço, a mãe sempre se complica, afinal, não é todos os dias que se vê essa gente, nem se debruçam sobre esses termos. Manifestantes, protestatários, protestantes, vândalos, indignados, revoltantes, revoltosos, rima com faltosos, mas estes estão presentes e não são uma pedra no sapato, eles até lançam pedras contra balas e o caos semeiam.
— Por exemplo, aqueles ali — apontou para a rua — querem justiça eleitoral, verdade eleitoral e dizem que o candidato no qual votaram é que ganhou eleições.
— Eleições é que aquilo de ir pintar o dedo que mãe disse está ir escolher o presidente?
— É isso mesmo — ela sabe que não é bem assim, mas quer sair de uma vez da encruzilhada.
Afinal, agora já não sabe bem se votou ou não, se escolheu um presidente ou não. Certa mesmo, está que pintou o dedo, recebeu três boletins de votos em que marcou-lhes com um xix num símbolo e num rosto e que esse acto significava quatro escolhas, a escolha de um presidente da República, deputados da Assembleia da República e da Assembleia provincial e daí um governador da província. Mas hoje já não está muito certa disso. É que já passou tanto tempo que se esqueceu até das opções que tomou.
A mãe dá uma pausa quando apercebe-se que a filha tem a cara desfeita em rugas, a boca virada para um lado em estranheza do que a mãe diz. Mas o que está para aí a dizer a mãe? Cogita a criança; outros vários porquês devem estar a reproduzir-se na sua mente e logo se vão deitar para fora, para a consciência da mãe.
— Mãe, porque não estamos lá fora nós também?
— Porque estaríamos lá fora?
— A mãe não quer justiça?
Esta não vai parar de fazer perguntas, diz a mãe, já com sinais visíveis de intriga e cansaço. A pergunta faz o inevitável eco por dentro. Mas convém ser honesta, perante a insistência.
— Não sei, filha. Eu não sei.
— Mas a mãe diz que sempre sabe.
— É para dizer-te o quê?
— A verdade?
Verdade. O que virá a ser isso? Tenho 30 anos, boa parte dos quais como aluna e estudante, já sonhei com uma carreira, um projecto, tenho duas filhas e tenho-lhes na mão e no peito como um sonho a se colocar em prática, com os respectivos orçamentos em constante ajustamento; que lhes posso sonhar? A cabeça da mãe gira. A mesa está posta. Três fatias de pão, três rodelas de palone comprado na rua nestes dias — não terá sido daquele camião que vinha da África do Sul, atacado no meio da rua? —, três chávenas, um pacote de five rose, três colherinhas de açúcar, e várias penumbras. Quanto tempo se vai aguentar dentro de casa, com estas crianças a fazerem perguntas.
— Mãe, nós já não vamos à escola porquê?
— Porque será? — devolve-lhe a pergunta a sorrir.
— A professora diz que é por causa da manifestação.
— Sim.
— Não vamos voltar mais à escola?
— Não sei.
— Assim é bom, mãe?
A mãe afasta a chávena de chá em direcção à criança. E o pão com o palone frito. A criança recebe e dá uma mordida gulosa. A mãe hoje tem orgulho do jantar que parece um alento no meio da incerteza. Não se lembra de quando comeu um palone. São as realizações deste tempo que vem com o som dos apitos e vuvuzelas. O coração da mãe bate descontrolado, como se um sino tivesse tocado a recordar-lhe as perguntas que ficou sem responder. Lá fora parece que os inaudíveis ganham mais voz e parecem terem se decidido parar à sua porta. Os invisíveis estão cada vez em maior número e parecem exigir as mesmas respostas que a sua filha. Até quando isto vai durar?, pergunta-se a mãe.
— Mãe, o que eles estão a cantar agora lá fora?
Com que palavras poderá ela traduzir a canção dos invisíveis? Como dizer a filha tudo o que gritam aqueles homens e mulheres que enfim acharam o seu lugar no mundo e a sua voz já se escuta; abrem finalmente os noticiários, dedicam-lhes horas e horas de emissão na televisão, páginas inteiras de jornais, estudiosos de todo o tipo procuram compreender o refrão dos seus cânticos; como dizer para a filha tudo, palavra à palavra, o que cantam, na língua do povo, com todas as suas metáforas e inúmeros significados? E depois de dizer cada palavra, como responder os porquês que virão à seguir? Como se a criança imaginasse o tormento da mãe, volta aonde tudo começou.
— Eles dizem povo no poder, de novo.
— Sim filha, isso quer dizer que nós votamos, nós decidimos o nosso destino…
— E o que dignifica destino?
Manifestantes a tocar panelas e outros utencílios num prédio em Maputo | Fotografia: Adelium Castelo
Decidiu não trocar-lhe as voltas com a palavra “dignifica”. E se realmente fizer sentido, o que dignifica o destino? O que dignifica o povo no poder? Nunca essas perguntas chegaram a fazer sentido como agora fazem, no emaranhado de sensações em que se encontra. No final, pensa como se respondesse à filha, dignidade, é o que cantam os invisíveis. Concluindo seu pensamento, levantou-se, pegou na panela e bateu-lhe com uma colher de pão. A filha bateu na mesa com as próprias mãos e fez tremer as chávenas, as colherinhas, a tigelinha de açúcar, o pão, o palone; e como se a mesa também reivindicasse a dignidade, foi-se abaixo, deitando tudo que havia sobre isso no chão de cimento queimado; a mãe bateu na panela com mais força; o colher de pau partiu-se em protesto; a filha dançou no frenesim, lá fora os homens e mulheres, expandiram os gritos em como se tratassem de uma plateia em êxtase com aquele espectáculo familiar.
Vamos obrigar-vos a perceber o ridículo que foi vocês todos a agitarem a bandeira e a cantarem o hino nacional. Vamos provar-vos que vocês não são mais do que corpos sujos e fétidos. Que valem tanto como carcaças de animais esfomeados.
Han Kang, Atos Humanos
Manifestantes, em Maputo, em cima de um “chapa” Anjo Voador – Preça dos Combatentes. Fotografia de Ildefonso Colaço
A estação de Infulene está à vista. Luís Cabral também. Um coro de apitos vem acompanhado de vozes roucas, mas sem cessar a sua tarefa: desçam, desçam, xikani, ordenam. Três homens, dois deles adolescentes. Corpos a suar aos cântaros; de chinelos nos pés que crescem a cada passo. O comboio era uma jiboia morta.
— O comboio é nosso, saiam, afinal porque não ouvem?
Infulene
Desci os altos degraus até às pedras que me receberam com hostilidade; dentro das sapatilhas castanhas, velhas, mas resistentes e complacentes com a economia necessária dos dias, os pedregulhos anunciavam a sua “insistente presença”, pelos próximos 30 km que alguns de nós irá percorrer de volta para casa. Alguns passos dados de volta à procedência, olhei para trás e me convenci, o monstro que anda nas linhas férreas, estava tomado. Assim o corpo iniciava uma experiência do poder popular dos invisíveis que decidiram ganhar uma voz.
Trevo
Uma multidão ocupava os trilhos em substituição do fluxo de comboios habitual à hora matinal das 7. A “cobra metálica” — assim o apelidaram os da estação de Nkobe — cuspiu-nos quando sucumbiu nas malhas dos manifestantes. Nas bermas onde mora boa parte desses invisíveis, porquem os dias se definem pelo ruído das carruagens em velocidade, outra multidão assistia à procissão dos descrentes das ordens de paralisação.
— É também por vocês, pela melhoria dos vossos salários, das vossas condições de trabalho, pela dignidade, que fazemos essa luta.
Machava-Sede
E as pedras cresciam no meio do caminho. Isso não é uma metáfora drummoniana. Éramos muitos a caminhar como almas doentes em processo de purificação; tinha ser feito o caminho, quanto mais longo e dolorido que se revelou, melhor, assim se aprende a amar de novo o país, numa cidadania que já não é do futuro; a verdade não podia estar mais escancarada; a Nação existe e exala o cheiro dos invisíveis; a Nação existe e ressurge em cada grito de ordem dos inaudíveis do quotidiano nada equitativo — olá Craveirinha.
Esta é a marcha que a verdade nos impõe; a verdade que dói, e sinto-a em cada passo, em cada gota de suor que cai entre as pedras que vou pensando enquanto conto as estações.
Liberdade
Um amontoado de areia. Uma camiseta vermelha balança em pedaços de paus cruzados em sinal de cruz. Uma vênia se nos é cobrada. Gotas de águas se nos deitam nas palmas das mãos até que atravessam os dedos para irrigar as folhas secas sobre a areia, numa imagem nos lembra as sepulturas abandonadas do cemitério de Lhanguene, lá dos lados de Xinhambanine, onde os vivos se recusam a render-se aos falecidos.
Daniel
O cheiro forte das mangas podres lembra o ciclos da vida; os pés já não obedecem o desejo autoritário de chegar à casa, onde a lamúria de todas as desgraças espera; o corpo encontrou as próprias razões de ser; sinto a crescer a pátria nas veias e no coração que se comove, quando no meio da caminhada que vai longa, um homem interrompe o silêncio dos peregrinos.
— Eles também exageram. Anos e anos de exagero. Foi demais.
Pela primeira vez, os meus pés duvidaram do percurso. O que nos espera o destino?
— Toma uma manga, mano, isto tudo é nisso — saboreei com apetite o fruto da época.
Matola-Gare
Homens, mulheres e crianças, com garrafas de refrigerantes nas mãos, uma ideia de ostentação que só não alcança o luxo que desfila à solo, dos mercedes-benz’s, kias, e outros bichos de quatro rodas, antes imagináveis em sagas como Transformers; quando olhei nos rostos de cada um dos showfistas, iam se parecendo todos aos outros que tomaram o comboio em Infulene, mesma alegria, mesmo sentido de pertença; vieram-me os dezembros da infância, que se resumiam em duas datas, 25 e 31, na alegria mais sincera que já vivi por um fim de ano, cuja fantasia residia numa fatia de bolo, arroz de cebola, salada de tomate, frango assado e uma fanta, apenas possíveis nessas duas datas do ano, como recompensa pelos dias de água, trigo, sal, açúcar e algumas verduras; tinha a imagem nítida do quintal da casa do meu pai, quando um homem disse.
— Tudo isto para depois… nada!
Quando ele disse “tudo”, voltei aonde tudo começou. E dei-me conta que não foi quando o comboio parou.
Eduardo Mondlane
Sexta-feira, Avenida Eduardo Mondlane. Meio-dia. Uma a uma, as pessoas foram se dando as mãos, a eles se juntou um grupo trajado de batas brancas, fardas verdes e azuis; um cordão formou-se a atravessar o alcatrão de margem à margem, e as vozes se elevaram em coro, a entoar o hino nacional; a pátria crescia-lhes por dentro até nas terminações das palavras audíveis em todos os cantos.
Num instante que não se viu a chegar, surgiram homens armados de farda castanha que fizeram cantar o coro das armas. As mãos da multidão se desfizeram, como um tecido que se rasga; o coro celestial substituiu-se com gritos e grunhidos de uma dor que só podia vir dos confins do inferno.
Mesmo assim, podes te orgulhar, poeta, vieste de qualquer parte, de uma nação que ainda não existia. Agora ela emerge e cresce como um “canto de amor natural”.
Eduardo Quive
Matola, 12. 12. 24
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Texto inspirado nos acontecimentos vivenciados a 9 de Dezembro de 2024e escrito para a fanzine do movimento L.U.T.O.
Hoje é quarta-feira. Quase podia escrever sobre o silêncio, da surdez dos esquecidos ou das flores lá fora desamparadas, dos pássaros confinados no peso da noite que vai leve para os ventos, da janela descortinada quase que desconseguindo separar a rua de cá dentro, das couves que crescem excluídas do olhar de quem as quer comer, ali, caladas, impacientes do seu crescimento, do comboio que buzina lá do longe, como se nada tivesse imposto o recolher desobrigado da noite que manda as almas silenciarem, da vitória dos grilos ou do andar livre dos dispensados do dia; mas não, não calam os barulhos de cá de dentro, a alma é um mundo obscuro, que desconheço, por isso escuto todos os movimentos da mente, como se as vozes às vezes interrompidas pelos mosquitos, nesta mesa plástica que acolhe a escrita, com a garrafa de água caída, denunciando, uma garrafa de coca-cola vazia, o copo que tapa a metade do limão cortado, resquícios de um chá da manhã de ontem, uns quantos copos e chávenas vazios, nuns jazem as sementes do limão do chá da manhã de ontem, noutros a memória do sorvete cujo sabor nunca me havia lembrado, umas cascas de bananas que vão dessecando no limiar da vida, um brinco e um lenço…
…Ia falar dos movimentos da mente, como se as vozes às vezes interrompidas pelos mosquitos, na sala silenciosa, quisessem falar-me de si, mas só de mim, e por isso precisassem mais do que nunca tirar-me a cama ao corpo. Mas agora que estou sentado não posso ouvir-me falar, porque desce pelos dedos a fúria da escrita que não deixa o silêncio falar-me do que desconheço, como por exemplo, a sinfonia harmónica que toca lá fora sem ouvintes nem espectadores. Apetecia-me assisti-la, apesar de triste é encantador, o encanto da tristeza, do choro, da lágrima, da dor, da fúria, mas também da saudade e da ausência que nunca sabemos do que realmente se trata.
Ocorre-me agora também a angústia do silêncio, mas também a sua ternura, o sorriso com que nos acompanha a esquisita lágrima brilhante que teima em cair, quanto nascente de um rio que o tempo não secou. Agora não sei porque escrevo isto, deve ser porque me anima falar assim do que não me lembro.
Podia falar das almas que se deitam, mas este cenário, entre livros empoeirados e esquecidos, o televisor desligado, com a luz vermelha acesa, único sinal de vida, igual ao contador que vai gritando de tempos em tempos, igual as formigas que passam pela mesa, os mosquitos que cantam o som sempre incómodo quanto despertador; ao fundo um CD de Ana Carolina “ao vivo” ainda empacotado e uma lanterna comprada no chinês e que avariou sem nenhuma explicação, deixando saudade e de vez em quando, a angústia do que ainda podia ter servido, ainda a pouco havia lido no jornal, uma entrevista a Pilar Del Rio, revivendo as reminiscências da vida do seu Saramago, Nobel faz 10 anos e ainda havia lido a entrevista a João de Melo que vem aí com um novo romance. Os romances, mesmo quando em tempos de silêncios, não deixam de ser um alerta para a vida. Lá fora a noite faz a festa sem silenciar os sobreviventes, resistentes de uma luta entre a luz e as trevas da escuridão, às vezes anoitecidos de dia noutras amanhecidos de noite, quantos lá do outro lado das casas, não dormem como eu e o que lhes permite o desassossego do não descanso? A ausência ou a presença? A ansiedade ou a certeza? A lágrima ou o riso? A insónia simples e injustificada ou a incerteza do sono? Perguntar nunca havia sido uma forma de resposta, de quem tenta sem saber, falar da ausência.