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  • Isto é, portanto, você e tu

    Desde pequeno fui ensinado que a língua portuguesa é a língua de “gente”, a língua que nos vai tirar da miséria, nos vai permitir a inserção numa imaginária aldeia global, um mar de oportunidades. Com essa crença e com toda a convicção, os meus pais e os meus irmãos mais velhos, proibiam-me de expressar-me noutra língua, a língua dos meus avós, a língua dos meus pais, das outras crianças da rua e até dos meus irmãos.

    O português era a língua oficial em casa, assim como era na escola. Mas é da minha relação com ela em casa que já mais me esquecerei. Era um mundo a parte. Não me esquecerei do trabalho árduo do papá e da mamã e dos manos, para garantir que não falássemos a língua de cão. O xi-changana que, entretanto, eles falavam entre si, com as visitas, os muitos primos de sangue e de afinidade que vinham visitar de Gaza, terra natal dos meus pais. Todos eles não sabiam falar português. Eram ma-changanas autênticos. Nem imigrados e nem com instrução escolar básica, como os meus pais. Então não poderiam comunicar-se noutra língua senão a sua língua rural, sem valor e sem oportunidades na cidade.

    Ocorrem-me essas memórias enquanto vagueio pela Lisboa, dirigindo-me para uma conversa com o tema Língua Portuguesa: o pilar que nos une, na Biblioteca Palácio Galveias, na sala José Saramago, cujos convidados, apesar de ilustres, não dispensam a apresentação: Vítor Ramalho, secretário-geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), João Ima-Panzo, Diretor de Ação Cultural e Língua Portuguesa da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP), Ana Paula Laborinho, Diretora em Portugal da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura (OEI), Rui Vaz, Diretor de Serviços de Língua do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., Gustavo Barboza, Conselheiro da Embaixada do Brasil em Portugal, Sérgio Letria, director da Fundação José Saramago, Clara Riso, directora da Casa Fernando Pessoa, o moderador, um homem de cultura, Carlos Moura-Carvalho, director Municipal da Cultura da Câmara Municipal e, eu, cuja profissão é a escrita.

    Perguntava-me durante todo o dia, que falarei eu que seja bonito de se ouvir e compreensível num painel com figuras de tão elevada importância e com influência nos processos mais formais da instituição língua portuguesa e de organizações de imenso prestígio nos nossos países.

    Porque a sorte também cabe aos incautos, atrasei-me ao evento e não houve espaço para ambientar-me ou deixar-me instruir pelas questões prévias, embora involuntárias e desinteressadas, mas sempre fazendo o seu efeito no subconsciente. E mais, o moderador que já há uns anos tem sido uma figura que admiro o seu trabalho, e noutros contextos trocamos correspondência, colocou-me como último a falar, o que deu-me uma enorme vantagem: não ter de dizer nada. O seja, apenas precisava contar uma história qualquer e então saiu-me pela boca o passado que ainda me assombra, um presente incerto e um futuro que é uma invenção, dependente da criatividade individual dos cidadãos dos países de língua portuguesa.

    A primeira interveniente a falar, Ana Paula Laborinho, abriu os caminhos para o descaminho, ao tirar a afirmação que marcou a conversa: falemos do que nos divide, da desunião da língua portuguesa.

    E penso na minha relação desde pequeno com a língua portuguesa, da promessa que me foi feita, essa é a língua de oportunidades, da inclusão, de um futuro melhor. E até a minha adolescência, só podia me expressar através dela. Essa língua tornou-se a minha casa, a minha varinha mágica, o meu futuro e o futuro dos que dependessem de mim.

    Os vaticínios e o esforço não foram em vão, talvez. Hoje vivo, trabalho, viajo, conheço pessoas de várias partes do mundo, leio, escrevo, discuto ideias, tenho acesso a culturas e conhecimento, compro coisas, desloco-me, até amo nessa língua portuguesa. Só não a poderei chamar de minha pátria, nos moldes que a querem me dar. Não, a minha pátria não é a língua portuguesa. A língua portuguesa como único território não existe. E ainda que sejam vários os territórios, como actualmente é, erguemos ainda mais alto, os muros sobre as fronteiras que se parecem ténues ou mesmo inexistentes.

    Nesta condição, neste estágio das coisas que nunca foi melhor e nem pior, a língua portuguesa só pode ser a pátria dos poetas, dos escritores, pelo menos assim, ainda fica a honra a quem tantas delícias nos faz com ela, como é Fernando Pessoa, Machado de Assis, Luandino Vieira, Conceição Lima, Odete Semedo, Arménio Vieira ou Ungulani Ba Ka Khosa. Mas desde que os deixem circular, que os permitam chegar ao seu povo comum, no melhor da sua criatividade e complexidade.

    Quanto a mim, a língua portuguesa é o meu destino. Para já, o presente não é bom e não agouro um futuro melhor, nem para mim, nem para os que virão depois de mim, até perfazermos os famosos 500 milhões do nosso ego, num tal de 2100. Não é de uma língua do futuro que quero. Quero uma língua do presente. Uma língua que não se permite traduzir no mercado editorial. Que não se permita legendar sobre si mesma. Uma língua em que posso escrever e publicar e ter os actuais 290 milhões de falantes como os meus leitores. E, não, não quer um intérprete da minha língua. Se for para fazer compreender a minha língua, que seja a quem não a fale.

    A promessa dos meus pais provavelmente não se cumpra, embora tudo o que sei, tenha sido esta língua que me permitiu. Infelizmente, sou péssimo em todas outras línguas, incluindo em português que é todos os dias mais difícil do que antes. Talvez por isso prefira ou só saiba escrever. Porque a escrita pode ser uma forma de viver a liberdade da língua, embora não tão livres como os músicos, os cineastas ou actores e os artistas plásticos, porque podem usar a língua a seu bel-prazer. Aos poetas, não. Só lhes é permitido escrever numa língua portuguesa que seja dos mercados, a língua de quem tem o poder de decidir se é certa ou não. Esta é a língua das suas carreiras, das suas vidas, até para se fazerem conhecer noutras línguas. Nisso os meus pais estavam certos, era preciso falar, e só falar, português desde a esteira que me viu nascer e crescer.

    01. 09. 22, Lisboa

    Foto: facebook Bibliotecas Municipais de Lisboa

  • Dois Corpos

    Pela estrada onde as pessoas passam falando em línguas estranhas, trajadas de várias cores, como de resto são os seus corpos, duas pessoas se destacam indiferentes e alheias a tudo que se passam ao seu redor. As damas que, de pé, iguais à estátua que se esconde do seu olhar, fazem honras ao Museu da Presidência da República.

    Seus corpos esculturais, numa semiótica do tempo indeciso, mais ou menos intemporal, enquanto um casal com duas crianças, únicos naquele lado do passeio, entusiasma-se com toda aquela aparatosa ao mesmo tempo estranha ausência de movimento, em duas almas que certamente sentem o que sentem e pensam o que pensam; que movem-se, certamente no invisível e indecifrável território interior. Pára, o casal, contempla as damas imóveis que continuam alheias ao admirar de quem está de passagem e fala numa língua que não é de Camões. As crianças fazem perguntas. Os dois adultos perguntam-se também entre si coisas que não saberei dizer. E ficam ali numa zona da indecisão ou de ruptura, entre a contemplação e o apoderamento. Decidem-se por captar o momento, levar consigo nos seus aparelhos. Mas não disfarçam a estranheza que sentem com tamanha indiferença, quase desumana daquelas duas figuras. Estranham também o andar do resto de gente que não se comove com a indiferença, com a ausência de movimento em corpos que, apesar da farda e do chapéu a endurecer a paisagem, tem um certo charme, um certo ar de elegância e ao mesmo tempo de uma rigidez.

    E sai a mão da bolsa com um telemóvel. A decisão demorou alguns segundos. Foi se levantando o braço como se pedisse permissão. Permissão concedida com uma silenciosa unanimidade das esculturas expostas, trajadas de botas pretas, calças brancas ajustadas ao corpo, traçando o caminho entre as pernas e a cintura, as luvas brancas nas mãos fazem o traçado sobre essa cintura por onde está suspensa uma espada e um cinto, segurando o casaco azul, com um chapéu com os pelos que se parecem cabelos loiros a descair sobre os obras.  

    E tiram a selfie. Vêem que não acontece nada. Os dois corpos continuam ali, imóveis, com os olhos mirando o horizonte. E tiram outra selfie. Agora sorrindo. Acenando. Com as cabeças intrometidas no intervalo que separa os dois corpos, ali, presentes na ausência. Olham para o resultado no telemóvel. Passam o dedo no ecrã. Uma vez. E outra vez. Mais outra. E outra. Não gostam. Seus corpos de mistura asiática e tropical não se vêem como deve ser na foto, só pode ser. Então aproximam-se mais das guardas. Agora os corpos estáticos quase entre olham-se, como se espreitando na selfie. E crac! Foi só uma vez. Visualizam a foto. Riem-se, contentam-se com o resultado. Viram-se para as esculturas humanas e acenam um provável agradecimento. Ou um adeus possível, para dois corpos que chamam a atenção dos transeuntes de todas as origens, mas querendo-se insignificantes. Será um adeus Leonor e Ester? Um adeus Maria ou Celeste ou adeus Mariana e Catarina? Quem se importa? O que dizem os nomes?
    E as duas mulheres acabam de consentir com o mundo a passar diante dos seus olhos, a fazer poses, a selfar, a falar numa estranha língua, a esboçar sentimentos, quase bailando sob o seu nariz, iguais as moscas inocentes na sua inconveniência. A lei da vida fazendo sentido. Parados o mundo avança.  Enquanto isso, seus olhos estão sobre as costas de um tal Afonso de Albuquerque. Penso enquanto espero o 728 que me vai levar para Cais do Sodré. Quem deverá ser o senhor que dá as costas àqueles corpos, preferindo olhar para o rio, para os comboios que de vez enquanto quebram a monotonia dos ritmos dos peões e de ciclistas que passam além?

    25.08.22, Belém