Etiqueta: artes visuais

  • Mulheres “visíveis e invisíveis”: a desconstrução do sagrado

    Enquanto Índia celebra o Dia da República uma exposição no Museu de Arte e Fotografia (MAP) guia-nos para as dimensões e compreensões da feminilidade e do género, com um discurso que se transforma no tempo, enquanto o país também assiste a mudanças. 

    Percorrer as cerca de 130 obras de arte expostas na galeria do quarto andar, pode revelar o que está no consciente e subconsciente,  nas montras sociais, por dentro e fora das famílias na Índia, desde o século X à actualidade, através de esculturas, tecidos, pôsteres, pinturas e fotografias do acervo do MAP que foi inaugurado em 2023, em pleno centro da cidade de Bangalore (Bengaluru), na província de Karnataka, região sul.  

    MAP – Museum of Art and Photography, Bengaluru, Índia

    Ter ido visitar a mostra horas antes da celebração do Republic Day foi mera coincidência — pertinente coincidência —, uma vez que a exposição Visível/Invisível: Representação da Mulher na Arte através da Colecção MAP, está patente desde Fevereiro de 2023 e vai até 1 de Dezembro de 2025. Isso permitiu fazer uma leitura, ainda que sempre relativa, da nação, através da arte e da abordagem feita à vida das mulheres. A maioria das obras pertence a artistas masculinos e desde logo vai saltar à vista a mulher enquanto sexo oposto (ao homem), que significa, primeiro, de  presença, porque ela existe é a musa, e suscita o interesse por parte de quem a vê, e também está sob o domínio desse outro (homem); em segundo, própria representação nas artes, como ela é relegada ao anonimato por várias razões, sobretudo as culturais (sempre muito complexas, entre grupos sociais, castas, religiões, etc).

    A exposição enquadra perfeitamente toda a complexidade do país, ao subdividir-se entre temas baseados em narrativas e contra-narrativas: Deusa e Mortal, Sexualidade e Desejo, Poder e Violência, Luta e Resistência.

    “Naag” (1986), obra de Mrinalini Mukherjee

    A arte permite-nos conhecer o outro, perceber as complexidades humanas e o meio; a arte é humana ao mesmo tempo que política, religiosa, além do interesse de reflectir a própria arte. Contra a ideia da nação conservadora, ficou-me a secção Sexualidade e Desejo e Luta e Resistência. Além da própria feminilidade, a mulher na sociedade ou o discurso político de género, questiona-se a história, as crenças, as tradições, de forma provocadora ao mesmo tempo que sensual. As obras contemporâneas reflectem as crises identitárias, levantam uma outra narrativa sobre a mistificação e sacralização do corpo feminino  como forma de controlar as mulheres ou relegá-las a um utilitarismo. Isso inclui a sua própria sexualidade, os direitos e as liberdades.

    Nessa linha de pensamento, a obra de Mrinalini Mukherjee (1949–2015) intitulada “Naag”, de 1986, feita de fibras entrelaçadas, plissadas e pregadas com alfinetes, tingidas de roxo e marrom, com dimensões humanas, chama atenção. Numa ligação título-obra, desvenda-se a ideia da artista, ao fazer uma invocação ao sagrado, às crenças religiosas, aos deuses e às figuras patentes nos templos hindus. Ao levar-nos a uma dimensão em que o objecto (obra) confronta-nos com o seu tamanho e forma, facilmente procuramos associá-la ao corpo ou as partes dele. Ao retirar do campo espiritual (deuses) a mulher, e expô-la na sua sexualidade, formula um discurso poderoso sobre o corpo, associado a sentimentos e defeitos. Tornar a mulher “santa” para controlar o seu pensamento e atitudes. “Nagg” (acredita-se ser uma raça divina, ou semi-divina, de seres meio-humanos, meio-cobra), é uma outra narrativa sobre a intimidade feminina colocada à nu e em dimensões que não pode ser ignorada ou passar despercebida.

    Como se dialogasse com as ideias de Mrinalini está o quadro de Mithu Sen (n. 1971), em aguarela sobre papel artesanal. A obra apresenta um ser em forma de serpente que também remete aos intestinos, com uma imagem minúscula de um tigre colado, uma cabeça de mulher com uma língua comprida e uma flor cor-de-rosa. Continua assim o pensamento crítico sobre a imagem feminina, num discurso que roça o grotesco e o sensual. O rosa sobre branco acende sobre os olhos, revela essa suave rebeldia, o perigoso desejo. As narrativas sobre o mal e as origens da humanidade pintam uma cor cinzenta sobre a mulher, conforme convém aos narradores, sendo que só se recorre a ela — já num olhar aos hábitos e costumes locais — para fins de procriação, por exemplo. Portanto, ela por si, é a encarnação do pecado, mas associando-se o desejo do homem e as suas necessidades de “consumo”, torna-se essa luz, uma flor. 

    Na abordagem à luta e resistência na história da Índia, uma crítica à organização social, aos sistemas de castas, está a instalação “Tríptico Mukta Salve” de Rahee Punyashloka (n.1993) com o contundente manifesto da jovem estudante Mukta Salve baseado no texto “About the grief of the mangs and the mahars” (Sobre o luto dos Mangs e Mahars), considerado uma das primeiras obras de literatura feminista dalit. Aqui se concretiza a ideia da sociedade complexa indiana que referi-me na introdução deste artigo. É a literatura a ser chamada para o campo visual, em jeito de homenagem a uma figura que abordou num contexto delicado a vida da classe dos renegados do sistema de castas. A instalação contempla um retrato da página original da publicação denominada Dnyanodaya de 15 de Fevereiro de 1855, onde foi publicado pela primeira vez o manifesto com o título “Condição dos Mangs e Mahars – Ensaio de uma rapariga Mang em Poona”, publicada em inglês, hindi e marathi.

    “Tríptico Mukta Salve” de Rahee Punyashloka

    A fechar deixo um excerto do manifesto de Mukta Salve que pode ser lido na íntegra aqui.   

    Ó sábios eruditos, dobrem seu sacerdócio egoísta e parem com a tagarelice de sua sabedoria vazia e ouçam o que tenho a dizer. Quando nossas mulheres dão à luz bebês, elas não têm nem mesmo um teto sobre suas cabeças. Como elas sofrem na chuva e no frio! Por favor, tente entender isso por experiência própria. Se elas pegarem alguma doença durante o parto, onde elas vão conseguir dinheiro para médicos ou remédios? Já houve algum médico entre vocês que fosse humano o suficiente para tratar essas pessoas de graça?

    Obra Hidden Trails de Chitra Ganesh
    Fachada do MAP

  • Suzy Bila: “nua e crua”

    Suzy Bila é uma artista complexa, que consegue unir o conceptual e o devaneio, a lembrança e o sonho, que faz confundir a saudade e a nostalgia, ou a crítica e a constatação. É uma artista existencialista.


    Suzy Bila é um nome que circula distante do horizonte comum das galerias de Maputo, a cidade que a viu nascer, crescer como pessoa e a despontar nos anos da paixão ilusória pela arte de pintar. Foi às espreitadelas que viu o pincel a compor o seu universo imaginário, pela mão de mestre Noel Langa, lá no bairro Indígena, hoje Munhuana, com quem mais tarde, mas ainda moça, viria a “aprender” a pintar, a encontrar nas cores, estórias, sensações, gentes e lugares e a dar asa à sua realidade imaginária.

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    Parece complexo compreender o embrião artístico assim, uma realidade imaginária, ou a magia das realidades que exigem da autora, mais do que uma simples contemplação, o questionamento. Essencialmente, é disso que é feita a artista Suzy Bila, pode se notar na exposição “nua e crua”, um projecto que começou por ser “as flores que nunca murcham”, que teria sido no Museu Nacional da Arte, mas que veio a cair no CCBM – Centro Cultural Brasil-Moçambique, em Maputo, que é dirigido pelo conhecido homem das artes Jorge Dias que, sem dúvidas, foi motor para esse desfecho.

    Um conjunto de obras que nos faz viajar pelas raízes da autora, pelo percurso artístico e suas experiências de vida, mas também pelo seu pensamento e suas insónias. Suzy Bila é uma artista complexa, que consegue unir o conceptual e o devaneio, a lembrança e o sonho, que faz confundir a saudade e a nostalgia, ou a crítica e a constatação. É uma artista existencialista.

    “Num olhar às suas telas, vem a poesia, o devaneio, naquelas imagens em que não dizem, sussuram coisas que habitam à nossa volta, mas são como pedaços de inexistências.

    Aliás, enquanto pausa-se o olhar pelas telas enormes, frases, inspirações poéticas, dão mensagem a uma mensagem que já vem densa pelas cores que compõem os seus quadros.

    O nascimento de um novo ser, as dores do parto, o alívio de quem vê as lágrimas desse ritual de povoar o mundo, ou a alegria, de quem sabe que o mundo é assim, os homens e as mulheres, vem do ventre, essa sina que, ora fortalece, ora fragiliza quem gera, alí está, em obras que querem dizer mais do que se pode ver, é essa a impressão que fica na sua expressão.

    O vermelho que escorre como uma lágrima num vale em que escorrem todas as angústias, vermelho, ora que nos pode enganar com o erotismo ora como uma marca indelével das feridas que não podem mais sarar, nem na memória da criadora, nem da criança que cresceu no bairro de Maxaquene, ao pé do Posto de saúde 1º de Maio e assistiu a cenas de mulheres no (des)espero do parto, pelo corredor do hospital, aos gritos, aos prantos, aos gemidos de quem espera e desespera.

    Um conjunto de obras que remete ao silêncio que grita por dentro, é a arte a despir a podridão que se esconde entre quatro paredes, a paixão ardente, o ciúme doentio ou uma tal masculidade que fere e mata. Um quarto em que se guardam todos os segredos de uma sociedade em que os seres acreditam-se puros. É a mulher e os dilemas de que já foram retratados, mas tampouco com essa realidade em que a sua “sensibilidade” reclama a atenção.

    Resumir, por isso, a obra de Suzy Bila, ao mundo controverso e intrigante da mulher seria reduzir uma artista de mão cheia, que já não tem mais nada a provar. A sua obra vai para além do limite do normal. É a poesia em todas as línguas e linguagens ou o silêncio que canta, ou o decanto do medo e ainda um hino à memória, afinal, “nua e crua”, é, sobretudo, um presente do tempo aos olhos de ver…    

  • Emília Duarte reflecte as relações humanas… ou o que sobra delas

    É o primeiro passo pelos próprios pés e sem companhia. Emília Duarte, na sua primeira exposição no CCBM – Centro Cultural Brasil-Moçambique (Abril, 2020) intitulada “Desconexão através da conexão”, coloca-se para o olhar do público sobre aquilo que se “vê” todos os dias, mas que os olhos, que estão preocupados com seus próprios egos e vaidades, não permitem tactear a realidade.


    Desde a natureza… a forma das coisas, as cores, as paisagens, mas, sobretudo, as pessoas e dos seus utensílios, ou como diria Mia Couto, quase resumindo a ideia desta artista, inutensílios. O pincel e a tela de Emília são uma fotografia que nos leva ao foco do que várias vezes nos retira esse foco. A nossa relação com os espaços, os acontecimentos e os momentos e como pretendemos conservar essas memórias.

    Não será o Homem, hoje, um corpo sem vida, uma caixa vazia, sem função nenhuma, quando desligado a aparelhos. O que acontece se se desliga o telemóvel involuntariamente, seja por descarga, ou por perda ou roubo. Quão desconcertados ficamos quando desligados esses aparelhos que nos retiram a espontaneidade natural dos sentidos, com os gestos e a memória humana já desconfigurada para captar e guardar esses momentos.

    É a isso que nos convida a pintura de Emília Duarte, que com simples gestos de pincel, vai intrometendo-se nos hábitos que podem tirar a escassa liberdade que tanto a humanidade reclama todos os dias e que, diga-se até, as tecnologias de comunicação até são aliadas. E a artista não procura olhar para estes problemas de longe, como um corpo estranho e apático, antes pelo contrário.

    “Tenho amor pela introspecção, estou sempre a reflectir sobre a minha vida e principalmente sobre o que eu vejo e porque não retratar isso, o que vejo, o que sinto?”

    Também faço parte do problema, também fico ao celular, perco tempo, também comparo, então achei importante reflectir, como é que nos comportamos quando estamos com os outros. É como se quiséssemos sempre fugir da realidade”. Portanto, uma exposição que para além da contemplação do “belo” é um chamamento à reflexão, justamente nestes tempos em que as coisas primeiro acontecem, depois é que é pensadas.

    Pensar nas sociedades contemporâneas, nos dilemas da modernidade, do conflito entre a ostentação e a inocente intenção de não perder no esquecimento da nossa cada vez mais frágil memória, daquele episódio que enquanto ocorria se quer nos demos conta do detalhe e da importância, porque procurávamos o telemóvel, preocupados na forma como os outros irão ver e como irão reagir, com quantos “gostos” e “partilhas” até à “viralização” dos mais bizarros acontecimentos e de imediatos analisados fenómenos sociais.

    Em conversa na Galeria Portinari do CCBM, fez questão de afirmar que, de todo, os telemóveis e as redes sociais não são uma catástrofe para as gerações actuais. “Os medias sociais e os celulares não são um diabo. Podem ser muito úteis, tem coisas muito boas, tal como a comunicação rápida, partilha de informação importante”, considera para depois chamar atenção ao perigo “quando nos fixamos a coisas que não devemos, quando perdemos tempo, invés de cuidar das nossas vidas, o nosso trabalho, quando perdemos o controlo”.

    Emília Duarte teve sempre na arte a essência para a sua formação, enquanto pessoa e com relevância para a profissional que se tornou. É formada em psicologia e não consegue encontrar distâncias com o que forma a sua personalidade.

    “Comecei com o desenho muito mais nova. Amava desenhos animados japoneses, ‘manga’, o meu primeiro plano era ser desenhadora da animação japonesa. O tempo foi passando e comecei a envolver-me com a moda, enquanto vivia na Itália. A influência da moda foi muito grande. Prossegui enquanto estilista até a minha chegada a Maputo onde fiz trabalhos com moda e cheguei a participar no Mozambique Fashion Week.”

    O direccionamento da sua alma artística para o mundo do desenho de modo não matou a artista de pincel e tela.

    O bichinho do desenho, de criar estórias, a pintura começou a bater mais forte. E decidi voltar para trás, voltei a pintar, sempre tive essa veia, do desenho, sempre gostei.” Conta a artista que teve nas irmãs Nelly e Nelsa Guambe amizade necessária para despertar o monstro das telas que agora vemos nas paredes do CCBM, substituindo, não completamente, porém destacadamente, o papel e o lápis.

    Nas suas telas, há um encontro para lá da provocação da reflexão em torno do material e dessa ausência humana provocada pelos aparelhos. A substituição das sensações, da contemplação e do prazer pelo contacto, pelo virtualismo que chegam a afectar as relações humanas, contrariando até a ideia conceitual de “rede social”.

    Tenho amor pela introspecção, estou sempre a reflectir sobre a minha vida e principalmente sobre o que eu vejo e porque não retratar isso, o que vejo, o que sinto? Às vezes tinha questões na cabeça, coisas que sempre procuro entender. E o desafio está aí, colocar a ansiedade no papel, colocar tudo, pintar, porque não”, explica a artista quando questionada sobre o que move a sua pintura.