Etiqueta: arte contemporânea

  • Filhos do Oceano, de Ruth Bañón e as paisagens da memória

    Na exposição “Filhos do Oceano” a artista Ruth Bañón devolve-nos os despojos dos antepassados africanos levados para terras distantes como escravos. Voltam-nos essas pessoas como personagens de uma história que não escolheram fazer parte do enredo, mas voltam com os semblantes e aparências menos tristes e sombrias como os imaginamos descontentes por estarem longe de casa e das suas gentes. Menos tristes e sombrios é o que nos salta a vista no meio daqueles trages elegantes, mas as fotografias dizem mais do que o momento captado.

    EN LO PROFUNDO ME PERDI | Ruth Bañón, 2024
    Tamanho: 40 cm x 50 cm
    Técnica: Colagem, fotografia e ilustração

    Ruth Bañón, esteve de regresso a Moçambique onde chegou a residir para trazer-nos uma mostra de arte digital, em exposição patente no mês de Junho na Galeria da Fundação Fernando Leite Couto

    Trabalhando retratos e imagens de um tempo em que não vivemos, coloca-nos o desafio de visualizar as pessoas e através delas as sociedades, os sentimentos e uma ideia sobre estilos de vida. Ao olharmos para as imagens, muitas são as perguntas que nos podem surgir: Quem são essas pessoas? Que nomes elas carregam? Qual é a história por detrás delas? Porque é que elas, sobretudo elas, despertaram o interesse da artista? Será por isso que Ruth decidiu que os Filhos de Oceano chegassem até nós?

    Na verdade Ruth Bañón tem o destino ligado entre vários mundos, das realidades passadas e futuras, do real ao surreal, essa última que vai para além do irreal, pois ela recria e até subverte o estabelecido. Antropóloga, escritora, artista plástica, ilustradora, sempre atraída pelo colectivismo, pelas actividades que envolvem o outro. A sua arte é também resultado desse seu estilo de vida e dos caminhos que escolheu seguir profissionalmente. Correr atrás da vida antiga, como se as vidas presentes não bastassem para perspectivar o futuro. 

    Ir ao passado é a forma que a artista encontrou de combater os esquecimentos, mas sobretudo de conferir história e voz a homens e mulheres africanos levados do continente como escravos.

    São exemplo disso, retratos que a artista foi achando em espaços improváveis. Africanos anónimos que moldaram as culturas dos lugares onde foram parar, na tentativa de se manterem ligados aos seus ancestrais, hábitos e costumes das suas tradições. 

    É essa a ideia que originou este projecto: “questionar, investigar e tornar visível através da arte a vida destas pessoas anónimas que deixaram para trás uma terra natal e que se tornaram seres despojados das suas raízes para sobreviverem à força (aqueles que o conseguiram fazer) a essa traumática viagem de ida, é a forma em que me imergi para tornar visível e (re)criar a sua ancestralidade,” justifica Ruth Beñón.

    Hoje, com esta mostra, reconectamo-nos aos nossos, procurando nos seus traços familiares, reinventar-lhes vidas possíveis. É como se dos escombros, dos prováveis esquecimentos, as pessoas regressassem com o mesmo à vontade que sentiram ao posar para as fotografias.

     LA LATITUD DE LA TARDE | Ruth Bañón, 2024
    Tamanho: 40 cm x 50 cm
    Técnica: Colagem, fotografia e ilustração

    Essas pessoas, que são do tempo em que a captura de um retrato equiparava-se a um ritual, com planificação, com orçamentação e, de certa forma, representava um status quo, a não ser que, um acontecimento, colocasse as pessoas simples no centro das atenções, como estar no palco. Tirar uma fotografia era um gesto para o qual as pessoas se entregavam para pausar o tempo, fixar memórias. 

    Nos quadros, as imagens revelam-nos autênticas personagens, se pensarmos sob o ponto de vista de história (estórias, talvez), ou ainda no campo da moda e estilos de vida, diríamos modelos.

    As colagens das fotografias nas ilustrações são ambientadas por paisagens naturais que nos dizem um pouco da atmosfera do lugar e das suas geografias e com isso, o estado da alma das pessoas, esse que já sofre a influência da paisagem em que estão envolvidas. 

    Chamará atenção a postura diferente entre homens e mulheres. Todos belíssimos à sua maneira, os homens mais altivos, com a pose de determinação e um certo poder; as mulheres, com os semblantes ténues, as roupas que lhes cobria praticamente o corpo todo, mas sempre com elegância e estilo. 

    Tudo isso faz destes Filhos do Oceano gentes misteriosas, norteadas de desejos e ambições que se definem pelo nível das águas e o tamanho da imaginação sobre o horizonte de possibilidades. A natureza acolhe-os na sua plenitude enquanto nós os contemplamos ainda cheios de perguntas, mas com uma certa sensação de saber quem são e que notícias nos trazem ou, talvez ainda, se a arte pode nos ensinar a redefinir o tempo e a recriar memórias.

    Fotografias originais utilizadas para criação de obras, achada durante as pesquisas de Ruth Bañón

  • Quando o belo se rende à natureza

    Eis a arte que esboça uma narrativa diferente e desafia os ciclos existenciais ao mesmo tempo que confronta o utilitarismo humano. Eis que da extinção, ressurgem os bichos e do descarte, os materiais que lhes dão vida. Tchalata recusa-se a aceitar os finais trágicos, conduz-nos para a metáfora do belo. Tudo que nos mostra vem da angústia, da desolação e das marcas dos actos humanos. Quem contemplar esta arte, terá de se confrontar com as várias possibilidades a que os materiais teriam sido votados, se não fosse o talento de um artista, de dar sentido às coisas, conferir estética ao acaso e a sua tentativa, por mais ínfima que seja num oceano em devastação, de fazer com que a nossa acção cause males menores.


    Eis aos nossos olhos a arte de Tchalata, que transforma o feio em belo, o sujo em limpo, o trágico em renascença. Há quem chame de materiais, as “coisas” que tornam possível estas obras de arte. Mas são, em princípio, a pegada negativa do Homem na natureza. Contra si mesmo, é verdade, pois embora se equivoque e até se esqueça por vezes, as pessoas fazem parte do ecossistema. Afinal, o meio ambiente é formado por elementos, como a água, o ar, o solo, a energia, a flora, a fauna e pela cultura humana, seus valores sociais, políticos, econômicos, científicos, morais, religiosos e outros. Esta exposição, em última instância ou por consequência, lembra-nos isso. A extinção de um, é um alerta sobre a qualidade de vida do outro.


    Vistas assim as coisas, não se pode ignorar o meio onde o artista vive e concebe as suas obras, Katembe, esse lugar onde o mar molda e define a vida dos habitantes. O artista sentirá mais próximo de si, tudo o que os cientistas, ambientalistas e as pessoas mais sensíveis, alertam sobre o meio ambiente e a acção humana. Movido por uma espécie de indignação e fascínio, talvez, o artista restaura o que foi decomposto e destruído, recriando os animais, devolvendo-os, ainda que de forma imaginária, para o seu habitat; porque essa restauração e recriação é possível a partir dos materiais produzidos pelo Homem, descartados sem o cuidado de evitar que sejam nocivos aos outros seres. Ao levá-los de volta ao mar, à floresta, ambientes e paisagens que se criam nas suas assemblages, a colagem e a pintura, é como se tivesse acontecido a reconciliação. A tartaruga feita de chinelos, cordas, tecidos e conchas; o peixe também feito de chinelos, tecidos e plástico, ganham uma nova vida, ainda que a partir daquilo que lhes tirou a outra vida. Esse é o fascínio do artista, inventar outros caminhos, outras possibilidades.


    Tudo é matéria para arte, em Tchalata. As folhas, pedaços de madeira, redes de pesca, as cordas, os tecidos, os chinelos, os arames, o papel, e outras coisas. Da fauna aos habitantes do mar, do pássaro ao xibedjana, o rinoceronte vítima de morte brutal com as armas da ambição dos homens. Apesar da angústia da destruição, o belo é que nos salta aos olhos, talvez para recordar-nos que novas histórias, uma nova relação, pode se iniciar a qualquer momento para uma coabitação menos hostil. O artista utiliza a arte para educar, para dar um outro sentido à vida na natureza e, por fim, chamar atenção para os desequilíbrios que a ausência de diversidade, da biodiversidade, causa.
    Tudo o que se mostra nesta exposição “Guardião da Natureza – educar para ser” é o talento, a criatividade e a sensibilidade ao serviço do colectivo, da qualidade de vida e de um planeta A, porque até que se prove, não existe um planeta B.

    Exposição “Guardião da Natureza”, de assemblagem, com obras do artista plástico moçambicano Tchalata, na Fundação Fernando Leite Couto durante o mês de Junho de 2025

  • A arte dos afetos de Tizta Berhanu

    Quando entramos na galeria Addis Fine Art, situada no coração da capital da Etiópia, chama-nos a atenção a tranquilidade do espaço e o impacto visual causado pelas cores fortes e nas figuras que preenchem os quadros. As personagens parecem indiferentes a tudo e a todos, apenas entregues a si, numa interdependência e leveza que contrasta com a luz das cores. Ocorre-nos o silêncio e a quietude, em primeira instância, de seguida despertamos nos detemos na forma como se preenchem os vazios. 

    A artista é Tizta Berhanu (n.1991) e os quadros monocromáticos vão contra o frenesim destes tempos. Desafia-nos a esquecer os ponteiros do tempo, a abstração das coisas ao redor e dedicar toda a atenção às pessoas, assumir o amor como um ofício em que temos de nos esmerar, deixar que ele seja a casa (revisitando as palavras de Eduardo White), onde as almas se multiplicam na generosidade do gesto, dos sentimentos, na poesia do afeto.

    Nos dias em que temos os olhos voltados para os outros, como se disso dependesse o rumo das nossas vidas, a pintura de Tizta traz figuras que estão voltadas para si ao mesmo tempo em que se abraçam e formam uma comunidade dos afectos. As obras sugerem a unicidade da alma, os corpos, esses, são de propriedade indivudal, mas eles vivem entrelaçados uns nos outros. Por causa dessa necessidade que se tem pelo outro, no sentido do “nós” a que nos desafia o amor, não se distingue as divisões, os limites, onde começa o corpo de uma mulher e começa de um homem, onde habita a criança e até onde vão as mãos que a acolhem. É cada um é mim, como bem o disse o poeta Nelson Lineu. Esse olhar para o outro como a si mesmo. O amor é sobretudo dar-se antes de receber. Não é uma troca, não é uma transação, com impostos, juros ou bónus. É a natureza humana no seu ponto mais alto, quando olhar para nós significa pouco. É estranho como uma certa angústia se nos vem daquela ternura, a melancolia e a serenidade que provém da segurança em estarmos tão juntos que não se conhecem os limites. Em tempos de “likes” e “shares” e “hashtags” que nos simulam estarmos em vida comunitária, em vidas partilhadas. 

    Ao intitular “Agape” à exposição, como rebuscado da palavra grega antiga que designa a forma mais elevada de amor, um amor divino que transcende e resiste a todos os obstáculos, Tizta mostra o que lhe interessa na complexidade humana. Os sentimentos que não se assentam nas coisas, mas no calor que o outro transmite, na confiança que nos põe a dormir no côlo do outro, nesse gesto genuíno de experimentar o sossego e a confiança.

    Addis Abeba que está a transformar a olhos vistos, bem distante daquela que conheci em 2019, que parecia morfar, podre, sem sinais de alegria e aquela frustração de se estar na capital da diplomacia africana, na altura praticamente apenas a sede da União Africana a ser um dos edifícios mais vistosos.  A actual cidade tem um certo brilho, edifícios novos, estradas, jardins e as pessoas num baile de um “à vontade”. A cidade está numa transformação na arquitectura, nos estilos de vida e na organização social.

    As artes plásticas na Etiópia tem revelado artistas que facilmente conquistam o circuito artístico internacional. Para isso também contribuem galerias como a Addis Fine Art, fundada em 2016 por Rakeb Sile e Mesai Haileleul, com foco em artistas etíopes, do Corno de África e das suas diásporas e que funciona como uma importante ponte para o alcance aos mercados internacionais. O caso de Tizta Berhanu é um exemplo, tendo exibido o seu trabalho em outros países africanos e na Europa, por exemplo.

    De volta à exposição “Agape”, a aposta nas cores que se associam à natureza, castanho e cinzento de terra, o preto, o marrom, o azul e o amarelo, não terão sido escolhidos por acaso. O amor que se experimenta no corpo, passa para a natureza, a água, a terra, as plantas, mas também o sonho. É como se a artista nos desafiasse a partilhar a intimidade com o que nos mantém vivos, o vento, o sol, a chuva, a areia e o intangível sentimento que é, afinal, a força do individual e do colectivo.

    Em algumas obras é como se a artista quisesse que o espectador experimentasse a atração física, assim como o confronto, a verdade, a empatia e a honestidade. Parece controverso, mas não é assim, às vezes, o campo dos sentidos? Os olhos não tem segredos, nem enganações. 

    A própria artista tem uma percepção que vai para além do tato, do tangível ou do mensurável. Não se trata apenas de uma abstração flutuante, mas de algo real e vivido. Não está longe, mas perto, por vezes à distância de um braço. Além disso, se olharmos para ele de um ponto de vista teórico, é suposto ser o todo final; um concreto onde todos os pequenos detalhes se juntam num grande todo; como o conceito de Deus, por exemplo.  Por isso, não o posso evitar, mesmo que o tente fazer intencionalmente. explica Tizta Berhanu.

    Se a temática do amor já foi explorada até a exaustão, ao decidir abordá-lo, o artista tem de estar muito certo do que faz. E isso Tizta conseguiu, desde o conceito, a técnica e a empatia que transmite, fazendo com que o espectador seja parte do conjunto da obra. A forma como aplica a tinta sobre tela, preenchendo os espaços deixando os vazios necessários, colocando cada elemento no seu devido lugar onde a preocupação não é no valor utilitário, é sobretudo a humildade de deixar um lugar para os outros enxergar com os sentidos o que pretende transmitir. Ou seja, cada observador terá de intervir para a constituição do cosmos e dessa energia infinita da empatia.

    Tizta Berhanu nasceu em Addis Ababa, Etiópia, onde vive e trabalha. Licenciou-se em 2013 na Universidade de Adis Abeba, em Belas Artes e Design. Aos 34 anos tem todo um caminho a percorrer, experimentando, confrontando, mas não há dúvidas sobre o seu instinto e técnicas apuradas. 

    E porque a sorte anda com os peregrinos, enquanto fazia a visita à Addis Fine Arte, Mesai Haleileleul, o fundador da galeria, falou sobre a plataforma que tem a ambição de revelar artistas emergentes, ao mesmo tempo que procura projectar o melhor das artes plásticas etíopes pelo mundo. A ideia também, segundo Mesai, em conversa informal e que por isso não cito na primeira pessoa, a ideia é criar condições para que a arte possa ter o seu próprio tempo, que o caminho seja feito em harmonia com a natureza e com os princípios que cada artista persegue. Enquanto isso, ser um centro onde a arte africana possa se afirmar.

    A exposição “Agape”, foi inaugurada a 6 de Janeiro e pode ser vista até 8 de Março na Addis Fine Art, na capital etíope.

  • A estranha voz que fala no barulho do mundo

    “Voz, já te oiço”, revela Suzy Bila, na exposição que inaugurou no sábado, 11 de Maio, na Galeria Arte de Gema em Maputo. Uma afirmação corajosa que só pode vir de quem caminhou sobre pedras até encontrar esse lugar que de tão remoto, várias são às vezes que não se chega ou tarda-se a chegar. Mas onde será e o que caracteriza esse lugar? Que voz é essa que finalmente se fez ouvir?

    Desde logo, uma confissão, uma constatação perante a “Voz” que Suzy Bila faz para chamar a nossa atenção. Uma proposta para a pausa no caos, possível apenas se aos olhos emprestarmos o discernimento. Mas também, essa forma vocativa, é a chegada a um destino, como quem enxerga a luz no fundo do túnel, após caminhadas longas na penumbra.

    Para ouvir é preciso o silêncio. Há muito por se dizer e escrever sobre esse silêncio necessário para entrar nas profundezas da alma, na imersão pelo território remoto do corpo que, de natureza, está ligado ao exterior. Talvez, por isso, a vida nos passa despercebida, efémera. Somos uma espécie que se move pelo ruído. Pressionados a ignorar os sinais do interior, quando nos chama para o invisível, o abstrato. Num contexto social de disputa pelos espaços e protagonismo, falamos ao mesmo tempo, em línguas diferentes, em palavras divergentes, não há espaço para a escuta; tentados a se sobrepor ao outro ainda gritamos, nos exaltamos e, mesmo assim, custa escutar essa voz serena, prudente, brisa, calmaria e constatação, o lugar de chegada, por isso, próprio para a contemplação, compreensão.

    Exposição patente na Galeria Arte d´´´Gema, com a curadoria de Élia Gemusse, até dia 30 de Junho.

    Exemplo desse lugar encontra-se nas telas que expressam, de novo a inocência, caminhos feitos sem pretensões, nem ideias preconcebidas, a negação ou os sortilégios da sorte ou azar.

    Quando se observa o conjunto de obras em exposição, não se pode ignorar o trabalho que Suzy Bila desenvolve na área da arte-educação, que se foca nas crianças e jovens “problemáticos”, regenerando as suas vindas, ajudando-os a encontrar um caminho através de um espaço que é por excelência, de liberdade, questionamento e humanização, que é a arte. Esses jovens tidos na sociedade como indisciplinados, rebeldes, sem interesse nem “cabeça” para os estudos, encontram na arte as suas “vozes” e os seus “eus” que os sistemas formais sequer se deram a paciência de achar. Esse tem sido seu foco, quer na formação académica – doutoranda em Educação Artística – ou profissionalmente – trabalha como Educadora de Infância numa Equipa de Intervenção e Capacitação Familiar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

    Por tudo isso, a artista dedica tempo e suor a compreender o outro. E esse trabalho em muito implica a ouvir as histórias de vida e compreender a complexidade de quem as conta.

    Espectadora contemplando a obra “Criança que mora em mim” | Técnica: acrílico e tinta da china sobre papel.

    A forma como concebe as suas obras já denuncia uma alma comprometida em compreender a essência da condição humana e toda a sua complexidade. Esse processo é também sobre si. Quando a artista lança a tinta sobre tela já aí se estabeleceu um processo endógeno de busca, encontros e reencontros. A forma como compõe as telas vai carregar esse desejo de encontrar outros caminhos, finalmente, o outro, respeitando o processo e o tempo. Por isso, deitar os olhos sobre a pintura de Suzy Bila é um processo de autorreconhecimento. Porque a artista não se distancia da obra, pelo contrário.

    Suzy é introspectiva. A sua vocação sempre foi para o interior, para o âmago, para os lugares obscuros e inacessíveis para os que temem a realidade do corpo. Que é líquido, frágil e matéria-prima de um plano maior do que está ao alcance dos olhos desprovidos de coragem. Olhar para dentro requer coragem, mas antes de tudo, requer disponibilidade e consciência para os ciclos. Corremos em direcção ao nada, ao vazio. Não se trata de um abismo iminente, não; no lugar de uma infinita escuridão, há o vazio, o silêncio, a recolha. Estacionados nesse lugar de dentro onde somos “nus”, um outro portal se abre. É aí onde habita a voz. A voz que já podemos ouvir com todos os seus ecos, com a simplicidade que não se lhe compara a nada, com a verdade imaterial e inconclusa. Sem amarras, senão com nós mesmos.

    Nos tempos que correm a escuta é um elemento precioso e raro. O tempo de escuta, esse que ainda não está à venda no bazar da ambição e da ganância, esse que não exige nada para além da nossa total e completa disponibilidade, é uma raridade que anda à nossa volta, vai dando sinais ao corpo e à mente de quando em vez, mas quem se dará ao tempo?

    Suzy Bila ao lado do seu mestre Noel Langa, na inauguração da exposição

    Num mundo em frenesim constante, pressionados a realizações com a agilidade dos mágicos, haverá espaço para a mera contemplação? Haverá sequer, espaço para estar e ser com os outros? Não será a falta de tempo em si, uma perca de tempo para o que realmente importa, o que não se exalta e nem pode disputar o protagonismo com o material da nossa loucura colectiva? Não é o outro esse espelho indiscreto, do que somos, mas sequer nos reconhecemos, na cegueira do ego? Esses são alguns dos questionamentos dessa afirmação: “Voz, já te oiço”.

    Texto e fotos: Eduardo Quive

    Maputo, 14/05/2024