Categoria: Residência Literária Lisboa

  • Eduardo Quive em entrevista ao programa Escrever na água, da RDP África

    Durante a sua estadia em Lisboa, onde participa da Residência Literária, o escritor Eduardo Quive foi convidado ao programa Escrever na água, conduzido pela jornalista Fernanda Almeida, na RDP África.

    Eduardo Quive falou da experiência da residência, impacto e perspectivas para o seu trabalho futuro, do trabalho literário em Moçambique e das possibilidades de intercâmbios e mobilidade literárias no espaço da língua portuguesa.

    Escute a entrevista na íntegra o episódio: ESCREVER NA ÁGUA EMITIDO A 14 DE SETEMBRO, DE 2022

  • Encontro com Eduardo Quive na Feira do Livro de Lisboa

    Eduardo Quive, em residência literária em Lisboa, conversa com a escritora Joana Bértholo na Feira do Livro de Lisboa, no dia 11 de Setembro. A moderação esteve a cargo do escritor e jornalista brasileiro João Gabriel Lima. A conversa foi em torno das experiências e registos particulares do escritor e jornalista moçambicano durante os primeiros dias na capital portuguesa e do que a escritora portuguesa viveu e registou em Maputo onde esteve em resiência literária em 2019. O resumo fotográfico do evento está na página das Bibliotecas Municipais de Lisboa.

    A Residência Literária em Lisboa é um programa promovido pelo Camões – Centro Cultural Português em Maputo em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa (CML)

  • A vida como o ar que escasseia

    O corpo estendido na cama sobre um lençol branco, o quarto escuro, em silêncio apenas interrompido subitamente por grilos ou gala-galas, as lagartixas brancas, coladas às paredes, a namorar, dão vida a uma noite húmida. Mais uma em que passará tentando não encostar-se às extremidades da existência. As noites trazem-no sempre a difícil tarefa de ter de compreender a vida que tem e que não teve, o apego à essa vida presente e indefinida e uma provável morte, que também já lhe traçou os cenários.

    O corpo suado, uma respiração quase encenada, para não se deixar ferir pela ânsia de um ar puro a preencher o peito e os pulmões que parecem cada vez desorientados da sua função. De olhos fechados, mas a pensar na dor que o pouco ar que respira causa no peito, e os pulmões que tem de dar vida a um homem que já não acredita, mas mantém-se entre o mundo material e carnal.

    A morte, que sempre pensou nela como um acto de vingança de deus, quase de forma inevitável para si, diante de todos os infortúnios numa vida que se anuncia curta perante os seus 30 anos. Essa partida que paira sempre nas suas noites mal dormidas, parece que não chegará mandatada por algum diabo, não será por nenhum acidente, tão pouco se chamará fatalidade, antes se chamará alívio.

    Nada é novo nas aflições que sente. Nesta noite as dores são as mesmas, o peito a sufocar, o corpo suado quase a inundar a cama, o dilúvio ameaça afogar o que resta do homem e das suas dores. Virá a morte de forma tão traiçoeira, com o corpo a afogar-se no próprio suor? Pensa enquanto tenta entender o estado em que se encontra, como num barco inundado e a deriva, ou como na vida que não se define, nem dormindo nem acordado.

    Pensa no sono dos outros, o mundo está agora calado. E pergunta-se sobre as horas, sobre o dia, se virá o mais tardar ou de imediato. São 3h.42. madrugada a escancarar-se no seu desespero. Vira-se, deita-se de lado, com o braço direito sob o travesseiro e a cabeça sob o braço. Tem de haver ali um intermediário em busca de um conforto possível.

    Olha para a mulher que dorme mesmo a sua frente. Na condição de desacordado à força, não a sente a presença da sua amada. Dorme serena, como se lhe tivesse roubado o sossego de que tanto precisa e procura. Ressona e vai fazendo gestos suaves, como se flutuasse no espaço, às vezes como uma bailarina, balançado ao ritmo do barco que navega a favor do vento.

    Contempla-a. Cobiça-a. Seus lábios entreabertos, os dentes brancos fingindo uma luz.

    Volta a pensar na morte, em como para si não é inesperada. Em cada suspiro o peito parece sufocar-se, falta-lhe ar, doem-lhe os pulmões que tem de se esforçar para dar-lhes mais algum tempo enquanto percorre as melhores memórias. Diz-se que a morte, antes de chegar, anuncia-se pelo riso, faz vênias aos espectadores e discursa. E o que quer este homem é antes envolver-se no corpo quente da mulher, que dorme, alheia a sua triste e dolorosa arte de partida.

    Então revive a sua jornada no mundo. Em como nunca a viu assim, como no corpo da mulher ao seu lado, de tronco descoberto, com um sorriso que sai de uma boca com dentes desarrumados, porém brilhantes como diamantes que nunca viu. Mas esta boca ele beijou, saboreou, mergulhou a sua alma adentrando pela garganta até à nascente, onde vê a luz. A vida como o ar que escasseia, a esvair-se suavemente, mas indecisa e inconclusa.

    Sente pontadas pelas costas, tenta deitar-se de trás. O suor já se alastra por quase todo o quarto, como se traçasse uma rota de fuga, para quem vê a morte tão perto, mas sem saber chamar-lhe pelo nome, reconhecer-lhe o rosto, abraça-la, sentar-se com ela à mesa e tomar os últimos copos de cerveja gelada. Sempre acreditou que o inferno é quente. Então fará falta a sensação da cevada fria descendo goela abaixo, espalhando-se entre as veias, refrescando a alma, como sempre fez questão de descrever em noites de baladas com amigos.

  • As pedras não adormecem

    Vejo da janela como o mundo não para apesar das águas que vem do céu e tomam o chão, trazendo novos barulhos para o quotidiano, muitas vezes ocupado pelas conversas em várias línguas dos turistas. Os carros abrem caminhos no alcatrão coberto de água, as poucas pessoas que se fazem à rua, tem de inventar novos estilos enquanto caminham ou se esquivam das gotas que cada vez mais caiem grossas. A vida, tende a se adaptar a um dia cinzento, em que a chuva que vem se cogitando há vários dias, não se adiou. Chove em Belém, as águas correm pelo alcatrão e traçam-se novas rotas para Maputo.

    Há dias que não vejo notícias, não leio jornais, não consulto sítios de notícias na internet, muito menos entro em grupos de redes sociais em que a informação corre a velocidade maior que o tempo. Todos os vícios, as teorias sobre a importância de saber o que se passa a volta e no mundo esvaziaram-se desde que os ventos levaram-me para este lado do oceano. A morte da Rainha chegou-me de forma inevitável por comentários, muitos dos quais posicionamentos e afirmações e não propriamente um rescaldo do que aconteceu com a monarca. Então continuo desinformado.

    A chuva que cai leva-me de volta para casa. Os receios, a cada gota que se intensifica, só aumentam. Custa-me a sair da janela, procuro acompanhar o percurso das águas, vejo que correm com preguiça. Escuto cada gota que cai e se faz eco das chapas de zinco da velha casa do meu pai. Cada gota, como marteladas que furam o zinco com as ferrugens do tempo, deixando as águas passarem entre buracos que foram se abrindo, até ao chão onde temos de nos esquivar. Da correria para apontar a esses buracos baldes, bacias, tigelas, púcaros, e tudo a encher em segundos e depois a escorrer chão a dentro, e de repente todo o chão estava húmido, o desespero vem sem pânico, sabemos que, apesar de tudo, somos sortudos, a casa não inundará, os poucos bens, a mesa de madeira, a secretária onde sobra o orgulho de tempos de funcionário do meu pai, as cadeiras plásticas, a estante onde ainda há marcas do televisor avariado, não serão atingidos pelas águas. As gotas, apesar de teimarem a inventar novos buracos a cada chuva, sabiam o limite da desgraça. Não iam para além de só molhar o chão todo.

    Os dias de chuva são longos, parecem levar anos. E grande parte do tempo estamos acordados, até onde o susto souber espantar o cansaço e o sono. Quando as coisas parecem, finalmente, calmas, apesar das gotas ainda murmurarem sobre as chapas, vamos para os quartos, para outras batalhas enfrentar. As camas, que só nos lembramos delas mais tarde, tem algumas zonas molhadas. Os cobertores que julgávamos velhos são os únicos da casa e estão todos molhados. As gotas que dançam sobre o zinco, foram achando novos caminhos para dançar connosco dentro da casa. Então vêem-nos a inspiração e a improvisação. Dançando sobre a chuva. Com a força que sempre sobra para esses momentos de alta exigência criativa, carregamos as camas e ensaiamos posições que escapem das gotas que irrompem do céu até dentro da casa. É um vira-vira até que o quarto dê um jeito em si mesmo e, de repente, as coisas se ajustam. Acabamos por aprender sobre a anatomia de uma cama, sobre em quantas partes se divide uma cama e quais delas estão mais molhadas que as outras. E então ajustamos o corpo essa nova descoberta.

    Dormindo praticamente sobre a água, com os corpos esgotados de cansaço, somos pedras onde as águas da chuva batem e fazem as curvas até ao dia seguinte que chega com a nossa indiferença à passagem do tempo. As pedras não adormecem, então desconhecem o amanhecer. A vida corre lá fora. As mulheres há muito que preencheram as ruas organizando os seus quintais, saudando-se. As crianças já brincam nas águas que tomaram o lugar da arreia nos seus quintais e na rua. Os primeiros olhares do novo dia são sempre sobre os caminhos da chuva. E nas conversas logo se percebe que choveu para todos. Para uns, choveu tanto que fez-se um oceano dentro de casa, em breve vão navegar os maiores navios carregados de tralhas que eram objectos de luxo para os seus donos, rumo à lixeira ou vão secar pelo menos as madeiras, para depois serem lenha, e servirem para a cozinha. Para outros a chuva foi um bailado, dançou-se a noite inteira. Mas houve aqueles para quem a chuva foi uma canção, foi ópera, alento para suas almas, estava uma noite boa para relaxar, só não deu para ver um filme, porque a luz quando vai, vai para todos.

    12.09.22, Lisboa

  • O mundo dentro da boca

    Até antes de conhecer Lisboa, pensei que gostasse de caminhar, mas percebo que de caminhar, só conheço a beleza das planícies da minha terra. A areia leve, cinzenta, amolecendo o peso do corpo que vai com as suas intenções, o cheiro da poeira e o capim verde nas ruas do meu bairro. Conheço alguns solos íngremes e movediços da vida, mas os sobe-desces de Lisboa, confesso, estão além do carma da vida de distâncias que levamos desde a nascença. Cresci a ver as pessoas a caminhar. Aliás, já vi mulheres, dando parto em plena caminhada, na rua, no my love, o nosso salvador transporte público, no carro do tio Chico ou numa barraca, como aconteceu com Lúcia. A caminhar nós nascemos. Então penso na vida como um caminho. Nós nascemos caminhando e morremos em marcha.

    Vejo a vida a partir das nossas casas lá no bairro. Podemos percorrer quilómetros num dia, dentro dos quintais, dependendo do que o corpo necessita. Casa mesmo, para muitos de nós, é o quarto e a sala. O resto são complementos. A casa de banho, a cozinha, muitas vezes estão longe da casa. Dispensa-se a dispensa, o que deixar lá? Nas nossas vidas tudo é escasso, imediato e não envelhece. Nada a dispensar. Nada a guardar. A comida que, por hábito, os assalariados compram sempre em quantidades que mais ou menos cubram o mês, fica debaixo dos olhos e do nariz, não vá algum feiticeiro deitar as suas azas sobre o que vai alimentar os nossos corpos e deixar o espírito pronto para acolher as mazelas da vida.

    No parque que fica perto da casa onde moro, temporariamente, que nunca tinha ido, apesar de estar a dois passos de casa e de passar pelos meus olhos todos os dias, vejo a vida a correr devagar. Sinto por dentro a diferença por ter ido ao Jardim Vasco da Gama, um espaço para as famílias e para os solitários como me sinto nesta meia manhã de sábado quente de Belém.

    Todas as vezes que fui a um jardim foi porque ou a vida estava encalhada ou porque estava sem um tostão no bolso à hora do almoço ou porque, enfim, havia sempre um caos na cabeça, então precisava de um alento, um lugar em que, não estando sozinho, poderia tudo ser-me indiferente. É verdade que muitas dessas vezes, jamais consegui me abster. Nunca foi assim em Maputo, nunca é em Lisboa. É impossível abster-me dos afazeres de cada um naquele momento e de alguns contrastes. Do casal já com alguma idade, aos gritos, com palavrões que não chegam a ser insultos à moda portuguesa. Um espantoso e avulso “caralho” repetido várias vezes para a mulher que já se cala e só gesticula, para o homem que parece praticar uma coreografia de dança. Vocifera, pragueja, faz promessas, rasteira-se, cambaleia, quase cai, cospe aos pés da mulher, vai ao carro, abre a porta, quando a mulher vai também abrir a porta do passageiro, o homem grita ainda mais, uma coisa qualquer que não entendo, nem a mulher entende, fica de braços abertos, liga o carro, recua, a mulher vai atrás, então para, acena qualquer coisa, e então ela entra, finalmente, mas sem bater com a porta, com uma calma de quem vai sentar-se sobre pregos e vai ter de esquivar-se de agulhas em sua direcção. Tudo me ocorre em câmara lenta. O carro parte. Ao meu lado, dois adolescentes beijam-se, com desejo e a cegueira dos apaixonados. Observo com perícia o momento, com o espanto de quem se lembra dos melhores beijos só no escuro. Mas estão de olhos fechados, deve estar escuro, algures no seu agora. Beijam-se como se procurassem encontrar um lugar no mundo dentro das suas bocas, como se procurassem entrar num e no outro. A minha avó dizia, o coração de alguém é um país. Mas diante de mim, a boca é todo o mundo. Olho para as horas, são 11h33. Ninguém, em Maputo, beija a essa hora. Volto às crónicas de vida privada da Dulce que a vontade de as ler, foi a que me levou ao parque.

    10.09.22, Lisboa

    Foto: Jardim Vasco da Gama retirada do Guia da Cidade

  • Marcados pela violência

    Não cheguei a ver o que os meus pais, meus irmãos, familiares, conhecidos e desconhecidos, viram. Os horrores da guerra, o medo, o sangue, os mortos com expressões faciais distintas, as mulheres violadas diante dos seus maridos e filhos, outras forçadas ao parto por um canivete ou catana, os homens com os membros amputados, alguns sequestrados para servirem a guerra, o fogo a devorar paredes e torrando a carne viva dos bichos ou de gente. Não ouvi os gritos nem os rostos dos mortos. Mas vi as feridas dos sobreviventes sem glória, com a vida que lhes sobrou a se transformar num peso insuportável.

    Tudo o que sei são histórias contadas, algumas de forma mais ficcionada quanto é possível dissolver os factos cuja crueldade, assumem os vivos, é indescritível. Sei das marcas ainda visíveis nas pessoas e nos lugares, dos edifícios em ruínas e de corpos, ainda vivos, mas com lesões de uma vida.

    Não me esquecerei do pesar, do cheiro das rainhas da noite, do arrepio que passei toda infância sentido, sempre que olhava para a Sara, cuja mãe, conta-se em voz baixa para não despertar os fantasmas, teve de meter o seu bebé no pilão, tritura-lo como um grão de milho que transformado em pó mata a fome. O irmão da Sara foi farinha de milho para alimentar a fome de homens cujo terror só dava apetites insaciáveis. E depois do último grito do bebé, enquanto Sara gemia algures no quintal, a mãe foi levada para servir a outra fome dos homens, durante dias que não se conhecem. A casa até hoje é para toda a zona um cemitério onde os que ainda vivem, por mais que nos esquivemos, sentem o nosso olhar de luto e consternação, sempre que tem de ir à rua.   

    Toda a infância passei fazendo uma viagem, por ano, para a casa dos meus avós em Gaza. Todo esse percurso pela estrada, as marcas da guerra, as cantinas abandonadas e destruídas, as cruzes a marcar os mortos que pouco são lembrados ou estudados, a ausência de vida nos lugares era visível e ruidosa. Todo o encanto da viagem, com as pessoas no machimbombo conversando numa língua que só os meus pais falavam em casa e que iria encontrar meus avós, tios e primos a falar em Chicumbane ou 3 de Fevereiro, pareciam sinos a tocar em honra aos espíritos que vagueiam pelas terras de Maluana.

    E a guerra não acabou, os vivos ainda convalescem, numa existência inútil e degradada. São almas soterradas e agarradas a uma vida de sobras. Cães sarnentos a lamber as suas feridas.

    Na Matola, onde morro, há uma zona que se define pelos que viveram o campo de horror, as catanas afiadas, as balas, as bazucas, o fogo, o grito, o fumo de gente, animais, casas e vegetações carbonizadas. A essa gente ficou-lhes o nome simbólico quanto realístico de “mutilados”. Mutilados no corpo e na alma. Sobreviventes de uma guerra sem “vencedores e nem vencidos”, diria Sophia de Mello Breyner Andresen.

    Os mutilados são apenas uma face, a visibilidade do acto brutal que é o desejo de carnificina que possui a alma humana. Hoje as crianças temem esses homens, como se de monstros se tratassem. Suas conversas são a continuidade dos seus actos no espaço do conflito. Esses são os filhos da guerra. Nós somos os filhos da violência, as reminiscências, de vários conflitos. Uma violência generalizada, institucionalizada e até moralizada. Violentar é um acto moral. Se os pais não batem nos filhos, são maus quanto aquele que gerou e não criou. Um homem que não bate na sua esposa, não merecerá o respeito, nem da mulher e dos filhos que vivem consigo, nem da sociedade. Um professor que não bate no aluno, é fraco, gerou um bando de mal-educados. O professor bom é professor que bate, pune, humilha. Esse terá respeito e vai gerar bons cidadãos. Serão poucos, sim, mas serão bons. Terão sido melhores no corpo e na mente. O que é preciso para se estar preparado na vida?

    Ainda me vêem os nomes, rostos aleijados e almas perdidas, de crianças e adolescentes que tiveram de tomar decisões quase na insanidade, como desistir de ir à escola, depois de violentados. Paus enormes a partirem-se pelos seus corpos duros, como as suas cabeças que não apanhavam nada das lições. Espancados, aos gritos sem socorro, com uma plateia de 50 crianças, impávida, com o coração a bater como um relógio apressado, gemendo-se de dor gratuita, outros enchendo e molhando as calças de diarreias instantâneas e mijo. E o professor com o suor a escorrer-lhe pelo corpo todo, ofegante como se o peito fosse sair pelas costelas, as mãos quase ensanguentadas de tanta força que empregaram sobre um adolescente de 13 anos, com a boca a escorrer-lhe saliva de fúria, olhar vibrante e cheio de fome de matar.

    Algumas crianças, com o passar do tempo, já se riam quando uma outra caia na desgraça do professor, já saiam a correr como numa competição de atletismo, para tirar ramos maiores que a sua altura, preparando a varra da boa educação, como um escultor talha a madeira. Eles riam-se como cães, como alguém cantou.

    E os anos passam…

    Roberto morreu achado numa machamba onde roubava cana-doce. Estava de uniforme escolar mas há muito que não entrava na sala, nem cruzava o recinto da escola. Paulo foi para África do Sul, voltou mais tarde deportado, mais tarde morrera de overdose. Hélder até foi para a tropa, desmobilizou e passou a cafetão e vendedor de droga, agora transformado apenas em fumador e bebedor com a perna amputada, depois de ter levado um tiro em mais uma das suas fugas da polícia… ossos do ofício. Angélica, tão cedo quanto pode, andou nas barracas, teve um número desconhecido de filhos e de lares, até que foi para a África do Sul de onde nunca voltou e nem se tem notícias, com a tonelada de filhos a viverem com os avôs. Marcolino, esse até deu-se bem, tem casa própria, paga muito bem as suas contas, é alfandegário, ganha balúrdios, tem as mulheres que quer, a que escolheu para guardar em casa, espanca-a sempre que lhe apetece.

    Abrir parenteses No jardim do Museu de Arte Antiga onde acabo de conhecer Ronaldo e Eltânia que também me apresentam a Kátia. A guerra e a violência chegaram na nossa conversa como chegam os convites para o café. O Homem é um animal irracional, atira Eltânia. Como é que alguém pode gastar seu tempo e inteligência criando uma arma mais perfeita que a outra para destruir? Pergunta a Kátia, com o espanto próprio de quem cria personagens de outro mundo. No nosso caso, somos filhos da guerra, afirmo. E depois do silêncio, disse ainda, a violência passou para um nível natural nas nossas vidas. Nascemos e crescemos sobre ela, superar isso é um desafio muitas vezes solitário, e os países estão ocupados com dores mais visíveis. Fechar parenteses

    09.09.22, Lisboa

  • O ritual

    Há momentos em que só queremos lembrar. Estar sentados, calados e deixar que a vida rode o seu filme, à sua maneira, ora para frente ora para trás. Numa tarde cinzenta como desta quarta-feira, a vida ficou neutra. E fico então a querer que a voz se insinue entre os atalhos da mente.

    No quintal que agora jaz o silêncio, há ainda reminiscências da vida que se fez entre suor e dor, azares e fintas ao destino. Ainda me lembro, com vozes e cheiros, do dia em que suas lágrimas e gemidos se confundiam com o descer do precipício que já não era escuro.

    Primeiro eram as mulheres que murmuravam e preenchiam os cantos da casa, de rostos mal feitos, espantando qualquer animo que se desejasse. As cabeças que não paravam de abanar em sinal de procura de alguma esperança que a cada segundo esvaia-se, nas paredes que viam um homem a sucumbir de dores, com a alma perdida nos algures da vida.

    Ao fundo, desvenda-se a imagem de uma mulher, de boca trémula, lábios secos, com a gravidade dos gestos apenas aliviada pelo laranja da mulala, entre os cantos escurecidos, de onde de vez em quando vê-se o que resta dos dentes que vão ensaiando alguns cânticos. Olho para as suas mãos atarefadas, com folhas de mafurreira, braços esticados espalhando pelos ares, e batendo nas paredes, com águas cujas origens foram adulteradas pela oração. Ali se pronunciavam palavras que não sei e jamais me lembrei, sussurros que determinavam a expulsão de algum mau espírito.

    Dentro da casa, onde entrei sob olhar impávido das mulheres que enchiam cada vez mais o quintal, quase perdidas nas suas lamentações sem voz, estava o homem deitado no pilão, de costas para a boca daquele objecto, contorcendo-se, de olhos fechados, revirados, com o rosto a maldizer os vivos, sob o coro de cânticos que invocavam o satanás que seria vencido, segurado pelos cornos por quem não perdoa os cobardes. Ali, quase jazia o homem já sem nome, sem pai nem mãe, apenas apegado ao que sobra entre a vida e a morte, com as mãos da mulher de branco que não parava de travar uma guerra que não sei dizer o nome. E os cânticos entre orações e gritos de ordem, aos poucos, iam dando espaço ao silêncio mais barulhento que já ouvi na vida.

    Regresso ao quintal. Tomado pelo suor gelado, ainda com o cheiro dos fumos que saíam negros da sala da casa do meu pai, tomada por aquele povo de mulheres ferozes, quais combatentes de uma causa que se perde, entre a fé e a certeza de seres que disputam a alma de um homem só, já despido de escolhas.

    O corpo do meu pai quase jazia, teimando em não falecer, cambaleando, deitado sobre o pilão, com os olhos embebedados, a boca entre aberta, ora franzindo os lábios, ora mostrando os dentes incompletos e enferrujados, qual aparência original de quem parece que nasceu para comer os frutos decorando os caroços com restos que escapam entre as gengivas desprotegidas. 

    Entra pelo portão a quase viúva e desperta a atenção da audiência, com o barulho das dobradiças enferrujadas. Mais se parece a tradução do grito que parou as hossanas que se faziam sentir por dentro da casa. Foi entrando cambaleando, com o rosto feito o Limpopo a transbordar, arrastando consigo, gente, gado, e levando crocodilos para dentro das casas de palhas onde só sobram utensílios envelhecidos.

    Tentam as mãos das mulheres acolhê-la com ordens de silêncio e calma. Que não vá o ser que ainda se espera que venha a operar milagres, aperceber-se que se chora a alma de um homem que ainda sobram sinais de vida. Mas, em vão, os olhos da mulher, estavam já derretidos, cansados de não saber como vai o dia terminar.

  • Passeios da vida

    Não sei porque andar por estas ruas me leva para uma infância que não teve grandes epopeias. Gostaria de contar grandes histórias de quando miúdo. Talvez tivesse feito carrinhos de arames, mas não fiz, nunca soube, antes levava os arames em casa para ir dar um outro miúdo para fazê-los. E quase sempre ele é que ficava com o melhor carrinho e eu, apenas com o esqueleto. Se traduzisse isso na vida real, ele ficava com as obras e eu ficava com o sonho.

    Também não sabia jogar futebol. Nalgumas vezes, por compaixão, – era difícil sair de casa, os meus irmãos proibiam-me de ir aprender asneiras na rua – depois de se escolherem os melhores para entrarem no jogo, colocavam-me na baliza, com a ideia de que fariam de tudo para que a bola não chegasse até lá. Na certa se chegasse, ou eu esquivava e entrava o golo, ou punha-me a defender para os pés do adversário o que, na mesma, dava em derrota para a equipa. Então restava-me pouco para fazer nas saídas para a rua da infância.

    Enquanto caminho no Chiado, a caminho do Museu Nacional de Arte Contemporânea, sinto no corpo uma pequena brisa, que bate suavemente de frente, e massageia as orelhas. Escuto a voz da minha infância e suas memórias, como se estas ruas tivessem o chão que carregou os meus passos, quando aprendia a andar.

    Nunca fui a um Museu. Muitas crianças do meu bairro ou da minha escola também nunca foram. Então isso nunca foi problema. Não tenho traumas. Fiz outros passeios. Nas idas frequentes para o hospital, por exemplo. Não fui aos famosos passeios escolares. Só vi os outros meninos a encher os machimbombos, com tigelas fartas, com frango assado, batata frita, arroz refogado a cebola, castanho como deve ser e salada. Porque a ocasião exigia, no saco plástico que guardava a comida, uma fanta, para a felicidade da pequenada. Comer assim, era só em ocasiões especiais, nas festas de Natal e fim de ano, dia 01 de Junho e nesses passeios. Mas eu nunca fui para onde esses meninos iam. Fiquei sempre por terra quando o assunto eram os passeios escolares.

    Com alguma regularidade os professores inventavam passeios para os alunos, diziam que era parte complementar das aulas. Eram visitas às praias, aos museus ou ao jardim zoológico. Nunca conheci o jardim zoológico. E não vou a tempo, todos os animais estão quase mortos, resultado de anos à míngua de alimentos, dizem. Nunca entrei no Museu da História Natural, da Moeda ou da Geologia, por exemplo. Tudo acontece-me na virada para a juventude. Mesmo assim, sempre acelera-me o coração sempre que vou entrar num desses sítios.

    Quando o machimbombo partia, com os sortudos, era como se víssemos a vida a esvair-se. Para muitos meninos que ficavam, o dia era como se fosse uma sexta-feira santa, uma sensação de feriado, dia de tempestade e dia em que um homem muito importante ia ser morto e por isso não se podia comer carne nem pão. O céu sempre ficava cinzento sobre as nossas cabeças e as aulas eram uma chuva de granizos sobre os nossos corpos.

    Andando pelo Chiado e dentro do Museu, apreciando as obras, lembrei-me então da alegria que me dava ouvir dos meninos que foram lá, sobre o ambiente dos museus. Os poucos meninos da escola que iam aos passeios contavam à maioria nós que ficava como eram os lugares, solidariamente, ou não.

    As visitas eram divertidas. No autocarro, um machimbombo dos TPM, a empresa pública de transportes, que era alugado graças às contribuições dos pais das crianças, o ambiente era de uma festa. Cantavam, batiam palmas, conversavam em voz alta, contando piadas, rindo, apreciando as paisagens. O professor ia apontando algumas coisas que terá falado ou que falaria nas próximas aulas. Um dos meninos, chegou a dizer-me que as coisas lhes passavam pelo rosto enquanto o machimbombo andava, as árvores gigantes, os prédios, as pessoas bem vestidas da cidade, como “flashes” da máquina fotográfica do tio Horácio. Mas era difícil captar o momento, mesmo assim tinham certeza do que viram.

    Mas quando chegassem ao museu onde iam fazer a visita, era como se a luz apagasse na hora do corte de bolo na festa. Aliás, era frequente na altura, que justamente ao anoitecer a luz fosse cortada. Mas essa é uma outra história.

    Dentro do museu os meninos tinham uma forma própria em que deviam se comportar. Quase tudo era proibido de fazer. O professor sempre gritava, meninos não toquem nisso. Quando um se deslocava para distante dos outros, maravilhado com o que via, o professor já ia dando ordens, volta pra aqui. E quando um menino repetia a “indisciplina”, o professor determinava: tu não vais mais ao passeio.

    Tudo tinha de ser direitinho, como deve ser. Aos passos e às ordens do professor. De repente ele perguntava aos meninos, o que é isto? E os meninos já com medo, ficavam calados. Então o professor respondia, é uma zebra, então não conhecem a zebra? E eles se calavam de ombros encolhidos e olhos molhados. E ele gritava novamente, não conhecem a zebra? O que estudamos nas ciências naturais? Aí eles respondiam, conhecemos!

    Acabada a visita, ficavam num espaço aberto e comiam. Aí a luz era restabelecida. A festa estava de volta. Até ao regresso à escola, era aos cânticos, sorrisos e cheios de energia. E vinham logo a contar-nos as novidades. E nós celebrávamos com eles, como se tivéssemos participado do passeio. E comíamos os restos da comida.

    Entrando agora no museu, tenho todas essas ideias, essas imagens que os meninos contavam. As obras de arte é que mostram-me o caminho. Mandam-me calar, dizem-me para me sentar ou então sentir-lhes os cheiros. O ambiente, o trabalho do curador, vão fazendo-me parar, observar, experimentar e vivenciar a obra. Não sei se os outros meninos visitavam as obras ou o museu. 

    06.09.22, Lisboa

    Foto: Exposição de Nelson Ferreira “a pintura sublimou o espírito, patente no MNAC.

  • O homem que canta na janela

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. Quase todos os dias, excepto aqueles que não estou. E tem vezes que mesmo de tarde o homem canta, também faz parte daqueles dias em que raramente encontro-me na residência nessa parte do dia. Ele chega com sua estrutura, uma aparelhagem de som, pega na sua viola, e toca a cantar, na maioria das vezes, música brasileira. Por vezes alguns clássicos numa língua que deve ser derivada do inglês. E no final, alguns discursos enquanto faz a percussão, e sempre, quase sempre, aplausos dos que comem e bebem no restaurante para onde ele está virado. Certamente aceitando os votos e desejos de bom apetite.

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. E quase em todas essas vezes, não sou indiferente à sua presença. Só não me vou à janela para apreciar o espectáculo porque sempre calha demasiado ocupado em mexer no computador. Mas tem quase sempre a minha atenção, minha reverência, meu respeito, até quando a vontade é que, por uma avaria qualquer, as colunas se desliguem e fique apenas a sua voz e viola. E não se trata de maldades. É mesmo no espírito de interajuda e solidariedade artística. As colunas só fazem barulho. Ouvi-lo só a si seria melhor, porque os sinais de que há ali um bom artista são claros.

    As interpretações que faz e a coragem que tem em fazê-lo em público, valem o crédito. Canta Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Tom Jobim, Vanessa da Mata, Ivete Sangalo, Ana Carolina, até Seu Jorge, Roberta Miranda, Alcione e outros que de tanto terem sido interpretados por outros, chegamos a pensar que ele deve ser o verdadeiro autor.

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. Canções de amor, da boémia, das aventuras, música de puro prazer pela vida, ou de desgostos, mas sempre para rir. No topo do seu repertório, Martinho da Vila, e não falta Reginaldo Rossi, com o seu garçom, para o cúmulo das emoções.

    Desde que sou hóspede nesta cidade que o homem faz-me serenatas. Na última noite repetiu por três vezes a música Esperando na janela de Gilberto Gil. E nas três vezes, não variou nem uma vez o tom e o ritmo. Foi mesmo a cópia do seu próprio original. Três infalíveis vezes. De certeza a ideia era só cantar por uma vez. Mas faltaram aplausos. O restaurante estava apenas com alguns clientes que não parece terem se comovido com o cancioneiro. Antes cantara uma música na variante inglesa, testando a língua dos clientes, acho. Não reagiram.

    Veio Martinho da Vila, canta canta minha gente, deixa a tristeza pra lá, mas sem correspondência. Os poucos que já eram nenhuns se foram embora. Ficou apenas um casal. Devem ser italianos, pensei. Ou franceses. Devem não entender a língua em que canta o artista. Quase desci para o sugerir que interpretasse um Pavarotti, ou Andrea Bocelli, por exemplo, num estilo mais pop, ah, não me ocorreu nenhum músico francês. Daquela língua mesmo apenas Awilo Longomba, me aparece assim, das memórias distantes de uma adolescência em que só contemplei os outros a dançar.

    Mas não acabaria assim a noite. Há ainda um casal por convencer entre as dezenas de cadeiras vazias. A música não tem uma língua. Então chamou o Gil. Gil é Gil, quem resiste ao Gil! Eu mesmo nesse domingo o escutei três vezes. Três vezes. É o Gil. O senhor da música brasileira em toda sua glória e majestade. Ainda me lembrarei de quando o vi em palco em Fortaleza, num concerto intimista, encerrando a Bienal do Livro do Ceará.

    Quase todas as noites há um homem que canta na minha janela. Quase todas as noites o seu cantar não me passa despercebido. E desta vez, cantou a mesma música três vezes seguidas. Três vezes repetindo com a perfeição aquela que foi a sua primeira interpretação de Gilberto Gil. Na verdade, a intenção era só cantar uma vez. Mas viu-me a espreitar, finalmente, pela janela. Então decidiu fazer um bis, e mais uma, um tris. E no fim acenou com o braço e com palavras.

    – Quero pedir uma salva de palmas especiais para o amigo ali, oh! – disse o homem.

    E o garçom, sozinho no restaurante, aplaudiu efusivamente em minha direcção.

    04.09.22

  • Andar às voltas

    Na infância, andei com o meu pai, em muitas idas e voltas pela cidade, ora às regulares consultas ao hospital, ora para visitar familiares ou ainda para alguns hábitos que ficam para a reserva individual da memória. Saber guardar também é uma dádiva. Falo de guardar de verdade, reter para a minha exclusiva propriedade, já que o homem de que vos falo não vos pode contar esta parte da história. Nem esta nem outra. Ele morreu.

    Muito cedo nos levantávamos para apanhar o 59 que ia do terminal do nosso bairro, Patrice Lumumba, até ao Museu, no centro da cidade de Maputo. A viagem tinha várias etapas.

    Uma delas, dava-se ao sairmos de casa até à paragem. Às vezes deixava que ele saísse primeiro, quando estava obrigado a ir com ele e sem paciência para suportar a lentidão dos seus passos. Quase andando nada. O corpo não obedecia a cabeça. Ele andava quilómetros no mesmo lugar. Outras vezes, saíamos juntos. Lado a lado. Apenas com breves palavras mesmo à saída do quintal. Mas o resto do percurso de cerca de um quilómetro, multiplicado por 20, era mesmo em silêncio. Só as pessoas na rua iam quebrando a ausência de palavras entre nós. Um bom dia ali, um para onde vais acolá, um vão ao hospital, por aí a diante. Mas sempre havia uma saudação longa à moda moçambicana, pelo menos do Sul.

    Uma saudação é como contar uma história, sobre como a pessoa dormiu, como toda a sua família dormiu; como acordou, como a família toda acordou; se houve sonhos maus ou bons, se alguém está doente, se chegou algum visitante em casa, se os animais, patos, galinhas, estão na sua rotina normal, se ouviu alguma coisa estranha, por aí em diante. E vai se fazendo o diálogo musicado, com gestos de aceitação, espanto, pesar, risos, sempre demonstrando interesse no que outro diz. Se estiver alguém ao lado, entre os dois que se saúdam, será dada a palavra, mas só mesmo no fim, para que reaja à tudo o que ouviu, com uma simples resposta intraduzível para a língua em que vos escrevo.

    Essa pausa chateava-me. E era sempre no mesmo lugar. Sempre com as mesmas pessoas. É como se advinhassem os dias e as horas em que íamos passar por ali. As três velhinhas, uma boa imagem matinal das comadres, duas delas na varanda do seu quintal e outra, varrendo sempre o lado de fora, conversando entre si e, de repente, concentradas em saudar o meu velho. Tudo ensaiado e repetido, todos os dias. Apenas as novidades eram diferentes. Vivendo na entrada da rua, ao pé da estrada, não lhes faltava o que contar. E não vou repetir o que diziam para não me aborrecer já em adulto.

    Não me esqueço das poucas vezes em que mexia na mão do velho enquanto dava uns passos para frente, e a velhinha que fazia questão de ficar muito próximo do meu pai para que não lhe escape nenhuma palavra que de imediato traduzia – sempre dizia o contrário – para as outras comadres um pouco mais distantes, na varanda aberta do seu quintal. Nessas vezes que interrompia a conversa que sempre se faz demorada e detalhista, era um cala a boca, na hora. Mesmo se fosse para avisar que o machimbombo, o autocarro que nos levará de viagem, vai partir…

    Feito o percurso até à paragem, chegava a hora de subir ao machimbombo, uma outra etapa, quase uma outra fase da vida, pela leveza do momento. Primeiro segurava a porta com a mão esquerda e depois colocava o pé do mesmo lado sobre o primeiro degrau. De seguida levantava o resto do corpo com toda a força que pode. Muitas vezes sentia-se já com os dois pés por cima do primeiro degrau, e só quando relaxava o corpo percebia que o pé direito está ainda no chão. Passavam-se minutos nesse exercício até que o corpo se levantasse.

    Dentro do machimbombo, sempre abarrotado de gente, sentados quase corpo sobre corpo, respirando no rosto do outro, colados uns aos outros, trocando-se os suores, os cheiros e, mesmo assim, conversando, rindo, contando-se histórias que não se sabia por onde começavam ou terminavam, trocando-se as vidas, um ânimo que não entendia de onde vinha naquele emaranhado.

    As pessoas iam fazendo o caminho, mesmo assim, para que o meu pai ocupasse uma cadeira, muitas vezes mais à frente, ao lado do motorista. Aí eu gostava. Porque depois punham-me a sentar nas costas do condutor. Ou mesmo por cima de onde trocam-se as mudanças. Era muito quente, estava com as nádegas praticamente sobre o motor. Mas estava com o coração sobre as nuvens. Então me arrefecia de contente.

    Ouvia as conversas todas, mas sobretudo, tinha uma vista privilegiada sobre o caminho que se faz desde o bairro até onde descíamos, ou no Hospital Santa Filomena, agora chamado Alto-Maé ou no Hospital Central, em plena avenida Eduardo Mondlane, onde a cidade se faz mágica, com prédios, lojas iluminadas com variedades nas montras, entre as quais mais apreciava os manequins.

    A andar por Lisboa, no machimbombo, palavra que tenho sempre de traduzir para autocarro, vejo sentado o meu pai. Mas agora num lugar reservado para deficientes. Escuto as conversas em várias línguas. Mas várias vezes, é com o silêncio que falam as pessoas. Na paragem do Jardim de São Bento, por ali onde fica a residência do primeiro-ministro de Portugal, vêm a correr duas senhoras, com os dedos a acenar, intercetando o autocarro. Entram suspirando, e rindo às gargalhadas, mas sem fôlego, sentando-se sobre o balanço do arranque do machimbombo. E elas riem-se, comentando uma com outra sobre o esforço feito. Falam em crioulo. E volto ao meu pai, sobre todo o exercício que para si significava apanhar o machimbombo.

    Dou por mim perdido. Dou por mim com as horas perdidas. Em lugares desconhecidos. Ligado ao google maps que só aqui aprendi a usar, que me informa que já estou fora do percurso. Desço desesperado. 15 minutos a pé, promete-me a tecnologia. E vai apontando, vai gritando no meu ouvido, repreende, vira agora para a esquerda, vira para a direita, a 95 metros vira para a direita. E passa o tempo, atraso-me ao encontro, peço desculpas à Mirna, que está a uma hora a minha espera e não sabe da guerra que travo com a senhora do google maps. E volta-me o meu pai, devoto de Santo António de Lisboa, e lembro-me da avenida Eduardo Mondlane, lembro-me da paragem do hospital, lembro-me, lembro-me, lembro-me e as horas passam-se entre as ruas estreitas da grande metrópole que é Lisboa, com o telemóvel na cara, com a voz que fala e não entendo, com o lugar onde devia estar passam horas e nem tenho noção que está apenas a dois paços, atravessando a rua. Agora entendo o sentido da frase, andar às voltas.

    02.09.22, Lisboa

    Foto: @pikist, ilustrativa.