O escritor e jornalista moçambicano Eduardo Quive publica em Portugal o seu romance A cor da tua sombra, sob a chancela da Desmuro editora.
A narrativa que se ambienta num Moçambique contemporâneo cruzando os dilemas identitários, as memórias fragmentadas, desafios sociais no meio urbano o que torna ainda mais complexas as relações humanas. A história é contada sob o ponto de vista de uma família desestruturada por várias tragédias desde a Zambézia e a capital Maputo.
Com uma escrita sensível e incisiva, Eduardo Quive constrói uma narrativa que atravessa dimensões íntimas e sociais, explorando as tensões entre o passado e o presente, o indivíduo e a coletividade. A cor da tua sombra propõe ao leitor uma viagem literária marcada por personagens densas, conflitos morais e uma atmosfera que dialoga com os desafios sociais e políticos destes tempos num país em que o futuro é uma eterna promessa.
“Neste livro de estreia em prosa Eduardo Quive conseguiu aquilo que muitos prosadores procuram durante a vida inteira: uma escrita ao mesmo tempo sensível e acutilante, encantada sem nunca se desamarrar de um quotidiano que exclui e anula a nossa partilhada humanidade.” – Mia Couto
A narrativa, marcada por um lirismo sombrio e fragmentado, ecoa as memórias estilhaçadas de seus protagonistas, expondo sem filtros a fragilidade humana e os traumas que moldam identidades. Eduardo Quive escreve com o pulso de um poeta atento às tensões entre o íntimo e o coletivo, construindo um romance que revela a perseguição aos albinos, a desintegração familiar e o espetáculo da dor no espaço público das redes sociais.
A cor da tua sombra é uma obra que confronta os silêncios herdados e denuncia as crenças violentas que ainda moldam tantas infâncias.
Para o lançamento do livro o escritor moçambicano participará em eventos no Porto e em Lisboa, de 18 a 25 de Abril.
O primeiro evento será no festival LEV – Literatura em Viagem, em Matosinhos, onde estará à conversa com Dino d’Santiago e Mia Couto.
No dia 20 estará na Livraria Flâneur, no Porto para conversa e apresentação do livro A cor da tua sombra com o escritor João Zamith.
Dia 23 de Abril às 18h30 será a vez da apresentação em Lisboa, na livraria Snob, numa conversa com Ana Bárbara Pedrosa e Mia Couto.
Eduardo Quive é escritor e jornalista moçambicano. Com um percurso marcado pelo envolvimento em projectos culturais e literários, tem vindo a afirmar-se como uma voz emergente na literatura moçambicana, apostando em obras que cruzam ficção e reflexão social. A cor da tua sombra é o seu quarto livro, o primeiro editado em Portugal, uma estreia no romance, depois de ter publicado entre outros, «Para onde foram os vivos» (Poesia, 2022), finalista do Prémio Literário Mia Couto para melhor livro do ano em Moçambique, e «Mutiladas» (contos, 2024), indicado para leitura no ensino secundário nos países da CPLP pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa – IILP.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO – divulgou na quarta-feira, 18 de Junho, uma publicação intitulada “A indústria editorial africana: tendências, desafios e oportunidades de crescimento”. Um documento que se mostra importante para percebermos como vai a vida literária nos 54 países do continente. Uma leitura genérica ao documento e a olhar para Moçambique, faz soar o alerta sobre o que está por ser feito e sobre o “estranho” rumo que a produção de livros que o meu país tomou”.
A começar, o relatório fala da indústria editorial no seu todo, do livro escolar à ficção, leis e políticas culturais para a área do livro, iniciativas de promoção e estímulo ao mercado editorial. A informação foi obtida a partir de fontes governamentais do sector, organizações e através de entrevistas aos que estão envolvidos na indústria. Em Moçambique, não podemos deixar de assinalar a busca de informação que se fez na plataforma cultural independente Catalogus, que tem se dedicado a divulgação de conteúdos sobre eventos e iniciativas literárias em Moçambique.
Segundo os dados recolhidos pela UNESCO, em 2023 Moçambique contava com 61 editoras registadas, com 300 títulos publicados, 14 livrarias em funcionamento, 37 bibliotecas públicas e 1.600 empregos gerados pelo sector editorial. Segundo a publicação, há uma livraria por cerca de 900 mil habitantes, numa população total de cerca de 33 milhões.
O relatório alerta para a ausência de políticas públicas que estimulem o crescimento da indústria editorial. No caso de Moçambique, menciona a Política Cultural e a sua Estratégia de Implementação aprovada em 1997, que estabelece os procedimentos básicos para a produção e comercialização de livros em Moçambique. Este instrumento apela à comercialização de livros a preços reduzidos, a fim de permitir um leque mais alargado de leitores e estimular o interesse pela leitura e pela literatura.
Sai mais barato imprimir livros fora do país que dentro e é ainda possível imprimir pequenas quantidades, com qualidade gráfica e rapidez. E os dados não enganam. A pesquisa da UNESCO indica que em 2023, o valor total das importações no sector editorial, abrangendo livros impressos, brochuras, folhetos e materiais impressos semelhantes, atingiu aproximadamente US$ 31 milhões, dinheiro canalizado para as gráficas de África do Sul, Índia, Portugal, seguidos pela China e Hong Kong.
Refere-se igualmente à Lei do Mecenato, de 1999 que estabelece os princípios básicos que permitem às pessoas singulares ou coletivas, públicas ou privadas, desenvolver atividades ou apoiar financeira e materialmente atividades no domínio das artes, da literatura, da ciência, da cultura e da ação social.
Importa referir que estes instrumentos, a Política Cultural, a Lei do Mecenato e ainda a Política Nacional do Livro, esta última aprovada em 2011, não surtem o devido efeito para contribuir para mudança do cenário cultural moçambicano, pois, pese embora a idade da sua aprovação, não estão regulamentos, por forma que o seu peso se consubstancie na prática.
Adicionalmente, os dois primeiros instrumentos genéricos, referem-se ao sector cultural no seu todo, ignorando as especificidades que o sector do livro tem. O mais próximo que se tem de específico para o livro é a Lei n.º 32/2007 (de 2007) que isenta o pagamento de imposto sobre o valor acrescentado (IVA) à importação e exportação de livros. Na verdade, tem sido muito devido a essa lei que se tem observado a uma dinâmica acelerada de edição e publicação de livros em Moçambique, incluindo o surgimento e sobrevivência de pequenas editoras, que têm sido responsáveis por trazer ao mercado grande parte de obras que hoje circulam no país. É que os custos de impressão de livros em Moçambique são demasiado elevados e levaria a que o “apelo” feito pelo governo através da política cultural de 1997, não fosse tido em conta. Outra verdade é que sequer ocorre às editoras essa lei, já que ela não é seguida de acções concretas que influenciem maior produtividade e baixo custo, seja na produção e também na venda.
Resumindo, sai mais barato imprimir livros fora do país que dentro e é ainda possível imprimir pequenas quantidades, com qualidade gráfica e rapidez. E os dados não enganam. A pesquisa da UNESCO que provoca esta reflexão indica que em 2023, o valor total das importações no sector editorial, abrangendo livros impressos, brochuras, folhetos e materiais impressos semelhantes, atingiu aproximadamente US$ 31 milhões, dinheiro canalizado para as gráficas de África do Sul, Índia, Portugal, seguidos pela China e Hong Kong.
Se aos escritores, poetas e editores a preocupação centra-se nas questões relativos à publicação e venda de livros, aos leitores o custo e a qualidade, há actores que podem ver nisto outro um sinal de alerta, como fazer com que tanto dinheiro que provém da produção de livros seja canalizado à indústria gráfica nacional?
Outro dado que não deixa de ser intrigante é o facto de o financiamento para a edição de livros, segundo o relatório, vir apenas do Fundo Nacional de Investigação (FNI), com um orçamento estimado em dois milhões de meticais. Ou seja, esses recursos vão para obras científicas. A ficção essa muitas vezes fica por ser patrocinada por empresas, sendo de destacar, a banca. Do Estado, distante está o tempo do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural a quem se deve a publicação de vários autores que são referência na literatura moçambicana. Mas hoje pouco se sabe sobre o papel desta instituição, se tem dinheiro e a quem se destina esse dinheiro. Aliás, o relatório sequer menciona o FUNDAC quando se refere ao dinheiro que financia a actividade editorial.
Podemos ir mais longe, a partir do momento que foi extinto o Instituto Nacional do Livro e do Disco (INLD) deixou de haver uma instituição pública dedicada exclusivamente ao livro, pois as atribuições do Instituto Nacional das Indústrias Culturais (INICC) são generalistas. Por um lado, a tutela ao livro escolar está com o Ministério da Educação (que tem de lidar sempre com as indefinições identitárias, de Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano à altura do relatório, 2023, para Ministério da Educação e Cultura, em 2025), os livros doutras categorias, nomeadamente a ficção, estão incluídos num pacote que se resume só ao registo pela instituição tutelada pelo Ministério da Cultura (outra instituição que varia de tempos em tempos, de Ministério da Cultura e Turismo, em 2023, para Ministério da Educação e Cultura em 2025), através do INICC. Esta instituição pelas suas atribuições e competências, devia ser o braço público que atribui recursos para impulsionar o sector editorial, incluindo o financiamento, como aliás faz com o cinema. O INICC devia ser mais actuante nas propostas de leis de incentivo, bem como captação de recursos para iniciativas de promoção e divulgação da literatura nacional, que neste momento, a acontecer, é de visibilidade nula, até para os que actuam activamente no sector.
Seguindo ainda a linha de instituições que poderiam ser relevantes no sector editorial, está uma AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos) que embora seja mencionada como promotora de eventos (debates, prémios, etc), quanto à advocacia ou mesmo iniciativas para a melhoria do campo de produção literária não se faz sentir. Mais concretamente, a “pressão” junto do Governo para que a Política Nacional do Livro e outras leis, sejam implementados, a busca de recursos e meios para financiar a actividade literária, seja na componente de escrita ou na publicação, são alguns exemplos. Tudo isto é sobre o trabalho do escritor, que pela sua natureza seria membro da AEMO.
No meio disto tudo, é de notar o trabalho que grupos e instituições independentes tem desenvolvido e que dinamizam a indústria editorial no país. O relatório, no capítulo dedicado as instituições, menciona a Fundação Fernando Leite Couto, a Associação Moçambicana de Autores (SOMAS), a Federação Moçambicana das Indústrias Culturais e Criativas e a Associação Moçambicana de Médicos, Escritores e Artistas, como organizações que promovem o livro e protegem os direitos do autor.
Mas maior mérito do cenário dinâmico, ainda que pouco sustentável, que o país vive, está para as pequenas editoras que não sendo capaz de mencionar todas, facilmente se destacam, Fundza, Ethale Publishing, Trinta Zero Nove, Gala-Gala Edições, Kulera, a editora da Fundação Fernando Leite Couto (que promove um prémio literário para novos autores), a Associação Kulemba (que promove feiras de livros e dois prémios literários importantes, um para livros infanto-juvenis e outro para os melhores livros do ano), a Xitende (que promove festivais literários), a Fundação Carlos Morgado (que através de um prémio literário publica novos autores) e a Catalogus, que além de plataforma de informação, também edita. Escusado será afirmar o papel importante da Alcance Editores que publica grandes nomes da literatura moçambicana e outras entidades que, não sendo moçambicanas têm contribuído para a literatura nacional, a Escola Portuguesa (com vários títulos de infanto-juvenis) e o Camões – Centro Cultural Português em Maputo (com residências literárias para escritores moçambicanos).
Após a leitura deste relatório fica patente o desafio que os actores do sector livreiros estão sujeitos em Mocambique, o mesmo país que nos anos 80 publicava livros com tiragens acima de 3000 exemplares (actualmente a média é de 500) e, passados mais de 40 anos, num contexto aparentemente favorável, o Estado demitiu-se das suas funções, citando o escritor Rogério Manjate, qual “Coelho que fugiu da história”.
Desta vez Eduardo Quive apresenta-nos um livro de contos escritos em vários cenários e ambientes, mas muito virados ao existêncialismo, a degradação, a violência e os pequenos gestos de amor.
O autor leva-nos a estórias de mulheres, as periferias e o exercício de memórias, numa escrita breve, intensa e provocadora. O destino das personagens reflecte uma sociedade de tragédias diárias, onde a violência e a indiferença se transformaram num manifesto de desumanidade.
Em Mutiladas, a vida é líquida e se dilui sem que os protagonistas se dêem conta.
JÁ À VENDA NAS LIVRARIAS EM MAPUTO
Livraria Mabuku – av. Julius Nyerere, Maputo | Matola – Novare
Livraria Sequoia – Rua da Azurara N45, Maputo (Sommershield)
Livraria Ethale Publishing – R. Bento Mukhesswane Nr 98 R/C (Cruzamento com Rua da Resistência, Maputo)
Pode entrar em contacto com a editora Catalogus através do e-mail: info@catalogus.co.mz | www.catalogus.co.mz