Categoria: Jornalismo

  • O livro em Moçambique: uma leitura ao relatório da UNESCO sobre a indústria editorial africana

    A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO – divulgou na quarta-feira, 18 de Junho, uma publicação intitulada “A indústria editorial africana: tendências, desafios e oportunidades de crescimento”. Um documento que se mostra importante para percebermos como vai a vida literária nos 54 países do continente. Uma leitura genérica ao documento e a olhar para Moçambique, faz soar o alerta sobre o que está por ser feito e sobre o “estranho” rumo que a produção de livros que o meu país tomou”.

    A começar, o relatório fala da indústria editorial no seu todo, do livro escolar à ficção, leis e políticas culturais para a área do livro, iniciativas de promoção e estímulo ao mercado editorial. A informação foi obtida a partir de fontes governamentais do sector, organizações e através de entrevistas aos que estão envolvidos na indústria. Em Moçambique, não podemos deixar de assinalar a busca de informação que se fez na plataforma cultural independente Catalogus, que tem se dedicado a divulgação de conteúdos sobre eventos e iniciativas literárias em Moçambique.

    Segundo os dados recolhidos pela UNESCO, em 2023 Moçambique contava com 61 editoras registadas, com 300 títulos publicados, 14 livrarias em funcionamento, 37 bibliotecas públicas e 1.600 empregos gerados pelo sector editorial. Segundo a publicação, há uma livraria por cerca de 900 mil habitantes, numa população total de cerca de 33 milhões.

    O relatório alerta para a ausência de políticas públicas que estimulem o crescimento da indústria editorial. No caso de Moçambique, menciona a Política Cultural e a sua Estratégia de Implementação aprovada em 1997, que estabelece os procedimentos básicos para a produção e comercialização de livros em Moçambique. Este instrumento apela à comercialização de livros a preços reduzidos, a fim de permitir um leque mais alargado de leitores e estimular o interesse pela leitura e pela literatura.

    Sai mais barato imprimir livros fora do país que dentro e é ainda possível imprimir pequenas quantidades, com qualidade gráfica e rapidez. E os dados não enganam. A pesquisa da UNESCO indica que em 2023, o valor total das importações no sector editorial, abrangendo livros impressos, brochuras, folhetos e materiais impressos semelhantes, atingiu aproximadamente US$ 31 milhões, dinheiro canalizado para as gráficas de África do Sul, Índia, Portugal, seguidos pela China e Hong Kong.

    Refere-se igualmente à Lei do Mecenato, de 1999 que estabelece os princípios básicos que permitem às pessoas singulares ou coletivas, públicas ou privadas, desenvolver atividades ou apoiar financeira e materialmente atividades no domínio das artes, da literatura, da ciência, da cultura e da ação social.

    Importa referir que estes instrumentos, a Política Cultural, a Lei do Mecenato e ainda a Política Nacional do Livro, esta última aprovada em 2011, não surtem o devido efeito para contribuir para mudança do cenário cultural moçambicano, pois, pese embora a idade da sua aprovação, não estão regulamentos, por forma que o seu peso se consubstancie na prática.

    Adicionalmente, os dois primeiros instrumentos genéricos, referem-se ao sector cultural no seu todo, ignorando as especificidades que o sector do livro tem. O mais próximo que se tem de específico para o livro é a Lei n.º 32/2007 (de 2007) que isenta o pagamento de imposto sobre o valor acrescentado (IVA) à importação e exportação de livros. Na verdade, tem sido muito devido a essa lei que se tem observado a uma dinâmica acelerada de edição e publicação de livros em Moçambique, incluindo o surgimento e sobrevivência de pequenas editoras, que têm sido responsáveis por trazer ao mercado grande parte de obras que hoje circulam no país. É que os custos de impressão de livros em Moçambique são demasiado elevados e levaria a que o “apelo” feito pelo governo através da política cultural de 1997, não fosse tido em conta. Outra verdade é que sequer ocorre às editoras essa lei, já que ela não é seguida de acções concretas que influenciem maior produtividade e baixo custo, seja na produção e também na venda.

    Resumindo, sai mais barato imprimir livros fora do país que dentro e é ainda possível imprimir pequenas quantidades, com qualidade gráfica e rapidez. E os dados não enganam. A pesquisa da UNESCO que provoca esta reflexão indica que em 2023, o valor total das importações no sector editorial, abrangendo livros impressos, brochuras, folhetos e materiais impressos semelhantes, atingiu aproximadamente US$ 31 milhões, dinheiro canalizado para as gráficas de África do Sul, Índia, Portugal, seguidos pela China e Hong Kong.

    Se aos escritores, poetas e editores a preocupação centra-se nas questões relativos à publicação e venda de livros, aos leitores o custo e a qualidade, há actores que podem ver nisto outro um sinal de alerta, como fazer com que tanto dinheiro que provém da produção de livros seja canalizado à indústria gráfica nacional?

    Outro dado que não deixa de ser intrigante é o facto de o financiamento para a edição de livros, segundo o relatório, vir apenas do Fundo Nacional de Investigação (FNI), com um orçamento estimado em dois milhões de meticais. Ou seja, esses recursos vão para obras científicas. A ficção essa muitas vezes fica por ser patrocinada por empresas, sendo de destacar, a banca. Do Estado, distante está o tempo do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural a quem se deve a publicação de vários autores que são referência na literatura moçambicana. Mas hoje pouco se sabe sobre o papel desta instituição, se tem dinheiro e a quem se destina esse dinheiro. Aliás, o relatório sequer menciona o FUNDAC quando se refere ao dinheiro que financia a actividade editorial.

    Podemos ir mais longe, a partir do momento que foi extinto o Instituto Nacional do Livro e do Disco (INLD) deixou de haver uma instituição pública dedicada exclusivamente ao livro, pois as atribuições do Instituto Nacional das Indústrias Culturais (INICC) são generalistas. Por um lado, a tutela ao livro escolar está com o Ministério da Educação (que tem de lidar sempre com as indefinições identitárias, de Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano à altura do relatório, 2023, para Ministério da Educação e Cultura, em 2025), os livros doutras categorias, nomeadamente a ficção, estão incluídos num pacote que se resume só ao registo pela instituição tutelada pelo Ministério da Cultura (outra instituição que varia de tempos em tempos, de Ministério da Cultura e Turismo, em 2023, para Ministério da Educação e Cultura em 2025), através do INICC. Esta instituição pelas suas atribuições e competências, devia ser o braço público que atribui recursos para impulsionar o sector editorial, incluindo o financiamento, como aliás faz com o cinema. O INICC devia ser mais actuante nas propostas de leis de incentivo, bem como captação de recursos para iniciativas de promoção e divulgação da literatura nacional, que neste momento, a acontecer, é de visibilidade nula, até para os que actuam activamente no sector.

    Seguindo ainda a linha de instituições que poderiam ser relevantes no sector editorial, está uma AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos) que embora seja mencionada como promotora de eventos (debates, prémios, etc), quanto à advocacia ou mesmo iniciativas para a melhoria do campo de produção literária não se faz sentir. Mais concretamente, a “pressão” junto do Governo para que a Política Nacional do Livro e outras leis, sejam implementados, a busca de recursos e meios para financiar a actividade literária, seja na componente de escrita ou na publicação, são alguns exemplos. Tudo isto é sobre o trabalho do escritor, que pela sua natureza seria membro da AEMO.

    No meio disto tudo, é de notar o trabalho que grupos e instituições independentes tem desenvolvido e que dinamizam a indústria editorial no país. O relatório, no capítulo dedicado as instituições, menciona a Fundação Fernando Leite Couto, a Associação Moçambicana de Autores (SOMAS), a Federação Moçambicana das Indústrias Culturais e Criativas e a Associação Moçambicana de Médicos, Escritores e Artistas, como organizações que promovem o livro e protegem os direitos do autor.

    Mas maior mérito do cenário dinâmico, ainda que pouco sustentável, que o país vive, está para as pequenas editoras que não sendo capaz de mencionar todas, facilmente se destacam, Fundza, Ethale Publishing, Trinta Zero Nove, Gala-Gala Edições, Kulera, a editora da Fundação Fernando Leite Couto (que promove um prémio literário para novos autores), a Associação Kulemba (que promove feiras de livros e dois prémios literários importantes, um para livros infanto-juvenis e outro para os melhores livros do ano), a Xitende (que promove festivais literários), a Fundação Carlos Morgado (que através de um prémio literário publica novos autores) e a Catalogus, que além de plataforma de informação, também edita. Escusado será afirmar o papel importante da Alcance Editores que publica grandes nomes da literatura moçambicana e outras entidades que, não sendo moçambicanas têm contribuído para a literatura nacional, a Escola Portuguesa (com vários títulos de infanto-juvenis) e o Camões – Centro Cultural Português em Maputo (com residências literárias para escritores moçambicanos).

    Após a leitura deste relatório fica patente o desafio que os actores do sector livreiros estão sujeitos em Mocambique, o mesmo país que nos anos 80 publicava livros com tiragens acima de 3000 exemplares (actualmente a média é de 500) e, passados mais de 40 anos, num contexto aparentemente favorável, o Estado demitiu-se das suas funções, citando o escritor Rogério Manjate, qual “Coelho que fugiu da história”.

  • We apologise for the delay: o regresso aos palcos dos 340ml

    Em meio a ebulição social veio a música, regressaram ao recreio os rapazes sem se deixar enganar pelo tempo e os contextos. A banda 340 mil subiu ao palco do Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), em Maputo, para encontrar um público que desesperava, embora em êxtase, pela música que apela à uma estranha tranquilidade, a metáfora dos sentidos e vibração. E eles vieram só um pouco depois das 20 horas, hora marcada para o concerto, que antecipava o verdadeiro “show ao vivo”, que causou “amor e espanto” e uma correria desenfreada para a compra dos bilhetes, tendo esgotado em cerca de cinco dias. Bom para nós os que fomos por últimos. 

    Foi Rui Soeiro o primeiro a entrar no palco e pegou na sua guitarra-baixo. Seguiu-se Paulo Chibanga, o baterista que virou uma das pessoas mais influente da cena artista moçambicana, conectando artistas de Moçambique para o mundo e do mundo para Moçambique; depois entrou Tiago Correia-Paulo, o criativo da guitarra solo, acenando para a plateia, como quem vem encontrar-se com a ‘malta’. Os três prepararam o enredo para chegar Pedro da Silva Pinto, aquele que parece nada querer, para dar voz e sonoridades líricas. Era o começo do fim da secura.

    Paulo era o que emitia os sinais do fim da angústia. A alegria de estar no seu lugar. Qual maestro de uma orquestra, “gesticulava” para que todos se levantassem, para que a alegria de viver aquele momento não fosse contida, para que não se reprimisse a vontade de acenar, nem que seja com o abanar sereno do corpo, da cabeça, ao bom estilo dub. Rui dava o toque agudo necessário para o balanço. Tiago dava asas, o apelo aos sentidos e lá estava Pedro, a atribuir palavras a tudo o que se passava, a toda aquela vibração, a toda aquela apoteótica recepção. 

    “You knock me over with your kung fu smile”, cantaram, enquanto o público de várias gerações e origens, é que deixava-se, na verdade, derrubar-se com aquele modo ‘kung fu’ de fazer música, tal mestres, a deixar o ritmo ‘bater’. 

    Foto cedida por Pedro da Silva

    Tiago ia dedilhando a guitarra quando parou e atirou “vou ter que repetir isto, perdoem, já estou cota”. O público pareceu recusar-se a admiti-lo. Foi em razão de ser, a energia transmitida ia para além das idades. Os diálogos entre os três, Tiago, Paulo e Pedro – com os nomes a remeter-nos para um cenário bíblico – conferiram uma atmosfera intimista, humana e humanizada. Envolver o público no acto de criar e fazer a música. Mostrar a fragilidade, a temporalidade e essa coisa estranha que estar no palo, enquanto os outros olham com os olhos esbugalhados, cheios de magia e aquela saudade que ainda desvanece, na realidade instalada: são mesmo os 340ml ao vivo. Muitos, como eu, não se lembrarão de os ter visto em palco. 

    E a noite era de recreio. A sala grande do CCFM reduzia-se no calor humano e na alegria infantil daquele jeito de actuar dos já “cotas”. Paulo recordava-nos, incansavelmente, dos cerca de 15 anos de paragem e os desafios do restart, de tocar com o mistério dos anos 2000 naquela nada serena cidade sul-africana de Joanesburgo. Mas os quatro estavam para “as curvas”. E ninguém parou de cantar, com os coros a serem atribuídos a uma plateia que deixou de ser plateia, era uma companhia para Pedro, que se deliciava a dar voz à letra e nas folgas fazia o serviço extra, nas melodias, orada batendo nos teclados, ora soprando.

    Quando tocaram o sucesso “Midnight” a temperatura já estava óptima e gritar fez bem, como aliás, cantam: “Stars are out, the temperature is right / Hold my hand, it’s ok if you scream”. E ficamos todos a sorrir. E depois ficamos todos a pedir mais e mais, eles foram e voltaram. E depois foram e voltaram mais uma vez. E depois o Paulo veio buscar o que deixara atrás, sem sentar-se na bateria. Aí percebemos que sim, tínhamos de despertar do sono, e lembramos que eles pediram, “Sorry for the delay”, então fica a resposta, We apologise for the delay.

  • Os rostos de Nelsa Guambe

    Podemos deitar os outros sobre as obras e ver as estruturas frágeis em que se constroem os retratos. Enquanto vamos nos envolvendo os cenários se multiplicam sobre os olhos e vão se construindo narrativas, com personagens a discursar, seus sentimentos, suas intenções, do que se pode ver e do que se pode sentir. Eis a sensação ao entrar no universo de Nelsa Guambe na exposição “Memórias daqui”, patente na Fundação Fernando Leite Couto. Encontramos um conjunto de obras da mais recente criação de Nelsa Guambe, (2023 e 2024), utilizando na maioria das obras a técnica de carvão e pastel de óleo sobre papel e com dois trabalhos em acrílico sobre vela. 

    O estilo de Nelsa Guambe faz pensar na vida dos artistas. Embora tenham, estes, razões subjectivas, que passam sobretudo pelo seu interior, suas experiências associadas na concepção da obra, não se pode olhar para o trabalho artístico e isolá-lo das circunstâncias e contextos em que ele é feito. Não se pode olhar para estes corpos, estes rostos cujos tecidos se expõem para além da carne, não se-lhes procurar atribuir vidas, parecenças e um certo sentido de reconhecimento. Pode ser injusto para o artista, mas essa é a natureza humana. Buscar sempre referências do que vemos: o que lembra? Serão cheiros? Serão lugares? Um acontecimento? Uma pessoa? Um sabor? Qual é o estado de espírito das imagens que se nos apresentam? São várias as perguntas que a natureza humana impele-se a si mesma.

    Por isso a importância da abstração. A importância do tempo. A importância do exercício incansável e acutilante da observação. Olhar várias vezes. Repetir e repetir quantas vezes for preciso, até que tudo faça sentido, ou não. Às vezes, não compreender é compreender.  Esta última condição dificilmente se aplica em Nelsa Guambe. Da sua técnica, dos seus materiais, das suas representações e criações, alguma coisa, no meio de várias interpretações, se compreende. O corpo, o exótico, a fragilidade e a memória. Podemos construir uma narrativa. 

    Quando criança, os dias eram normais até que chegasse o tio Horácio. O fotógrafo andarilho com a sua lente Nikon analógica pendurada ao pescoço, e uma pasta no ombro direito. Tio eram todos nesse tempo, mas o Tio Horácio devia ser o mais famoso. Assim que se pressentia a sua chegada na rua, nós do 904 ainda tínhamos o privilégio do banho militar, e depois vestíamos as melhores roupas das nossas vidas; os de 49, as primeiras casas, iam directo à vaselina que os deixava a brilhar mais que o sol, pois era dali que entrava o fotógrafo sorridente. Um sorriso que era base das poses, com os dentes brancos a conflituar com as caras pretas, lisas e com um certo ar de bondade, com algumas gotas de suor de alegria. Chegado à nossa frente, posicionados no jardim, descalços porque não havia nem fotografia que nos convencesse de calçar, estávamos em grupo posicionados para a foto que só era captada num único clique. Quando olho para esses retratos hoje, todas as sensações retornam com as vozes, os sorrisos, a espontaneidade e a revolta dos que ficaram por fora, zangados por terem sidos excluídos da história. 

    Esta história não é sobre o tio Horácio nem sobre a fotografia, tampouco a rua “O”. É sobre a força de um retrato. É sobre a nostalgia que aqueles rostos, embora abstratos e numa tentativa estranha de irrelevância, mas próximos, familiares e sedentos de querer dizer coisas. Dizer-nos do seu passado, da relação desse tempo connosco, de como a memória é feita de matéria sensível, aos bocados de carvão que se podem apagar ou desanuviar num pequeno lapso.

    É fácil ficarmos pelas mulheres como o centro destas “memórias daqui”. Mas pensemos na natureza no seu todo. Vamos reparar que nas minas de carvão, no abate das árvores, no garimpo, nos matadouros, são os homens a força bruta. Eles é que estão na linha da frente para matar, abater, cortar, queimar, transformar. Hoje as consequências sentimos todos. Este carvão, também matéria para construir estes corpos apresentados por Nelsa Guambe, são produto da combustão, também nós somos feitos de processos de transformação até que voltemos ao pó. A partir daí, podemos reparar de novo nesses retratos que convocam uma certa consciência do clima, da natureza e dos ciclos da vida.

    Reparem nas flores que estas mulheres trazem, esse gesto de ternura, de tréguas, que representa a sensibilidade, mas também a sedução, a paixão até que voltemos aos ciclos existenciais. É nesse contraste que se faz a vida, da flor que nos acompanha em todos os ciclos da vida, do nascimento até à morte, do amor aos desamores, dos presságios e vaticínios.

    Reparem nos olhos dessas mulheres, como estão embaciados, envergonhados, distantes e até numa nostalgia do tempo. 

    E, de repente, como chamados para a dura realidade, somos lembrados da fragilidade do corpo. E não é da mulher o corpo frágil. É de todos nós. É o corpo planeta, é o corpo social. Como sociedade estamos doentes e precisando de cura urgente. Mas não com a pressão avassaladora que arrasta tudo consigo, antes com a subtileza dos sábios, ver, ouvir, meditar, reflectir, dormir, sonhar, respirar e só depois, mas em última instância mesmo, as palavras.

  • A arte dos afetos de Tizta Berhanu

    Quando entramos na galeria Addis Fine Art, situada no coração da capital da Etiópia, chama-nos a atenção a tranquilidade do espaço e o impacto visual causado pelas cores fortes e nas figuras que preenchem os quadros. As personagens parecem indiferentes a tudo e a todos, apenas entregues a si, numa interdependência e leveza que contrasta com a luz das cores. Ocorre-nos o silêncio e a quietude, em primeira instância, de seguida despertamos nos detemos na forma como se preenchem os vazios. 

    A artista é Tizta Berhanu (n.1991) e os quadros monocromáticos vão contra o frenesim destes tempos. Desafia-nos a esquecer os ponteiros do tempo, a abstração das coisas ao redor e dedicar toda a atenção às pessoas, assumir o amor como um ofício em que temos de nos esmerar, deixar que ele seja a casa (revisitando as palavras de Eduardo White), onde as almas se multiplicam na generosidade do gesto, dos sentimentos, na poesia do afeto.

    Nos dias em que temos os olhos voltados para os outros, como se disso dependesse o rumo das nossas vidas, a pintura de Tizta traz figuras que estão voltadas para si ao mesmo tempo em que se abraçam e formam uma comunidade dos afectos. As obras sugerem a unicidade da alma, os corpos, esses, são de propriedade indivudal, mas eles vivem entrelaçados uns nos outros. Por causa dessa necessidade que se tem pelo outro, no sentido do “nós” a que nos desafia o amor, não se distingue as divisões, os limites, onde começa o corpo de uma mulher e começa de um homem, onde habita a criança e até onde vão as mãos que a acolhem. É cada um é mim, como bem o disse o poeta Nelson Lineu. Esse olhar para o outro como a si mesmo. O amor é sobretudo dar-se antes de receber. Não é uma troca, não é uma transação, com impostos, juros ou bónus. É a natureza humana no seu ponto mais alto, quando olhar para nós significa pouco. É estranho como uma certa angústia se nos vem daquela ternura, a melancolia e a serenidade que provém da segurança em estarmos tão juntos que não se conhecem os limites. Em tempos de “likes” e “shares” e “hashtags” que nos simulam estarmos em vida comunitária, em vidas partilhadas. 

    Ao intitular “Agape” à exposição, como rebuscado da palavra grega antiga que designa a forma mais elevada de amor, um amor divino que transcende e resiste a todos os obstáculos, Tizta mostra o que lhe interessa na complexidade humana. Os sentimentos que não se assentam nas coisas, mas no calor que o outro transmite, na confiança que nos põe a dormir no côlo do outro, nesse gesto genuíno de experimentar o sossego e a confiança.

    Addis Abeba que está a transformar a olhos vistos, bem distante daquela que conheci em 2019, que parecia morfar, podre, sem sinais de alegria e aquela frustração de se estar na capital da diplomacia africana, na altura praticamente apenas a sede da União Africana a ser um dos edifícios mais vistosos.  A actual cidade tem um certo brilho, edifícios novos, estradas, jardins e as pessoas num baile de um “à vontade”. A cidade está numa transformação na arquitectura, nos estilos de vida e na organização social.

    As artes plásticas na Etiópia tem revelado artistas que facilmente conquistam o circuito artístico internacional. Para isso também contribuem galerias como a Addis Fine Art, fundada em 2016 por Rakeb Sile e Mesai Haileleul, com foco em artistas etíopes, do Corno de África e das suas diásporas e que funciona como uma importante ponte para o alcance aos mercados internacionais. O caso de Tizta Berhanu é um exemplo, tendo exibido o seu trabalho em outros países africanos e na Europa, por exemplo.

    De volta à exposição “Agape”, a aposta nas cores que se associam à natureza, castanho e cinzento de terra, o preto, o marrom, o azul e o amarelo, não terão sido escolhidos por acaso. O amor que se experimenta no corpo, passa para a natureza, a água, a terra, as plantas, mas também o sonho. É como se a artista nos desafiasse a partilhar a intimidade com o que nos mantém vivos, o vento, o sol, a chuva, a areia e o intangível sentimento que é, afinal, a força do individual e do colectivo.

    Em algumas obras é como se a artista quisesse que o espectador experimentasse a atração física, assim como o confronto, a verdade, a empatia e a honestidade. Parece controverso, mas não é assim, às vezes, o campo dos sentidos? Os olhos não tem segredos, nem enganações. 

    A própria artista tem uma percepção que vai para além do tato, do tangível ou do mensurável. Não se trata apenas de uma abstração flutuante, mas de algo real e vivido. Não está longe, mas perto, por vezes à distância de um braço. Além disso, se olharmos para ele de um ponto de vista teórico, é suposto ser o todo final; um concreto onde todos os pequenos detalhes se juntam num grande todo; como o conceito de Deus, por exemplo.  Por isso, não o posso evitar, mesmo que o tente fazer intencionalmente. explica Tizta Berhanu.

    Se a temática do amor já foi explorada até a exaustão, ao decidir abordá-lo, o artista tem de estar muito certo do que faz. E isso Tizta conseguiu, desde o conceito, a técnica e a empatia que transmite, fazendo com que o espectador seja parte do conjunto da obra. A forma como aplica a tinta sobre tela, preenchendo os espaços deixando os vazios necessários, colocando cada elemento no seu devido lugar onde a preocupação não é no valor utilitário, é sobretudo a humildade de deixar um lugar para os outros enxergar com os sentidos o que pretende transmitir. Ou seja, cada observador terá de intervir para a constituição do cosmos e dessa energia infinita da empatia.

    Tizta Berhanu nasceu em Addis Ababa, Etiópia, onde vive e trabalha. Licenciou-se em 2013 na Universidade de Adis Abeba, em Belas Artes e Design. Aos 34 anos tem todo um caminho a percorrer, experimentando, confrontando, mas não há dúvidas sobre o seu instinto e técnicas apuradas. 

    E porque a sorte anda com os peregrinos, enquanto fazia a visita à Addis Fine Arte, Mesai Haleileleul, o fundador da galeria, falou sobre a plataforma que tem a ambição de revelar artistas emergentes, ao mesmo tempo que procura projectar o melhor das artes plásticas etíopes pelo mundo. A ideia também, segundo Mesai, em conversa informal e que por isso não cito na primeira pessoa, a ideia é criar condições para que a arte possa ter o seu próprio tempo, que o caminho seja feito em harmonia com a natureza e com os princípios que cada artista persegue. Enquanto isso, ser um centro onde a arte africana possa se afirmar.

    A exposição “Agape”, foi inaugurada a 6 de Janeiro e pode ser vista até 8 de Março na Addis Fine Art, na capital etíope.

  • Mulheres “visíveis e invisíveis”: a desconstrução do sagrado

    Enquanto Índia celebra o Dia da República uma exposição no Museu de Arte e Fotografia (MAP) guia-nos para as dimensões e compreensões da feminilidade e do género, com um discurso que se transforma no tempo, enquanto o país também assiste a mudanças. 

    Percorrer as cerca de 130 obras de arte expostas na galeria do quarto andar, pode revelar o que está no consciente e subconsciente,  nas montras sociais, por dentro e fora das famílias na Índia, desde o século X à actualidade, através de esculturas, tecidos, pôsteres, pinturas e fotografias do acervo do MAP que foi inaugurado em 2023, em pleno centro da cidade de Bangalore (Bengaluru), na província de Karnataka, região sul.  

    MAP – Museum of Art and Photography, Bengaluru, Índia

    Ter ido visitar a mostra horas antes da celebração do Republic Day foi mera coincidência — pertinente coincidência —, uma vez que a exposição Visível/Invisível: Representação da Mulher na Arte através da Colecção MAP, está patente desde Fevereiro de 2023 e vai até 1 de Dezembro de 2025. Isso permitiu fazer uma leitura, ainda que sempre relativa, da nação, através da arte e da abordagem feita à vida das mulheres. A maioria das obras pertence a artistas masculinos e desde logo vai saltar à vista a mulher enquanto sexo oposto (ao homem), que significa, primeiro, de  presença, porque ela existe é a musa, e suscita o interesse por parte de quem a vê, e também está sob o domínio desse outro (homem); em segundo, própria representação nas artes, como ela é relegada ao anonimato por várias razões, sobretudo as culturais (sempre muito complexas, entre grupos sociais, castas, religiões, etc).

    A exposição enquadra perfeitamente toda a complexidade do país, ao subdividir-se entre temas baseados em narrativas e contra-narrativas: Deusa e Mortal, Sexualidade e Desejo, Poder e Violência, Luta e Resistência.

    “Naag” (1986), obra de Mrinalini Mukherjee

    A arte permite-nos conhecer o outro, perceber as complexidades humanas e o meio; a arte é humana ao mesmo tempo que política, religiosa, além do interesse de reflectir a própria arte. Contra a ideia da nação conservadora, ficou-me a secção Sexualidade e Desejo e Luta e Resistência. Além da própria feminilidade, a mulher na sociedade ou o discurso político de género, questiona-se a história, as crenças, as tradições, de forma provocadora ao mesmo tempo que sensual. As obras contemporâneas reflectem as crises identitárias, levantam uma outra narrativa sobre a mistificação e sacralização do corpo feminino  como forma de controlar as mulheres ou relegá-las a um utilitarismo. Isso inclui a sua própria sexualidade, os direitos e as liberdades.

    Nessa linha de pensamento, a obra de Mrinalini Mukherjee (1949–2015) intitulada “Naag”, de 1986, feita de fibras entrelaçadas, plissadas e pregadas com alfinetes, tingidas de roxo e marrom, com dimensões humanas, chama atenção. Numa ligação título-obra, desvenda-se a ideia da artista, ao fazer uma invocação ao sagrado, às crenças religiosas, aos deuses e às figuras patentes nos templos hindus. Ao levar-nos a uma dimensão em que o objecto (obra) confronta-nos com o seu tamanho e forma, facilmente procuramos associá-la ao corpo ou as partes dele. Ao retirar do campo espiritual (deuses) a mulher, e expô-la na sua sexualidade, formula um discurso poderoso sobre o corpo, associado a sentimentos e defeitos. Tornar a mulher “santa” para controlar o seu pensamento e atitudes. “Nagg” (acredita-se ser uma raça divina, ou semi-divina, de seres meio-humanos, meio-cobra), é uma outra narrativa sobre a intimidade feminina colocada à nu e em dimensões que não pode ser ignorada ou passar despercebida.

    Como se dialogasse com as ideias de Mrinalini está o quadro de Mithu Sen (n. 1971), em aguarela sobre papel artesanal. A obra apresenta um ser em forma de serpente que também remete aos intestinos, com uma imagem minúscula de um tigre colado, uma cabeça de mulher com uma língua comprida e uma flor cor-de-rosa. Continua assim o pensamento crítico sobre a imagem feminina, num discurso que roça o grotesco e o sensual. O rosa sobre branco acende sobre os olhos, revela essa suave rebeldia, o perigoso desejo. As narrativas sobre o mal e as origens da humanidade pintam uma cor cinzenta sobre a mulher, conforme convém aos narradores, sendo que só se recorre a ela — já num olhar aos hábitos e costumes locais — para fins de procriação, por exemplo. Portanto, ela por si, é a encarnação do pecado, mas associando-se o desejo do homem e as suas necessidades de “consumo”, torna-se essa luz, uma flor. 

    Na abordagem à luta e resistência na história da Índia, uma crítica à organização social, aos sistemas de castas, está a instalação “Tríptico Mukta Salve” de Rahee Punyashloka (n.1993) com o contundente manifesto da jovem estudante Mukta Salve baseado no texto “About the grief of the mangs and the mahars” (Sobre o luto dos Mangs e Mahars), considerado uma das primeiras obras de literatura feminista dalit. Aqui se concretiza a ideia da sociedade complexa indiana que referi-me na introdução deste artigo. É a literatura a ser chamada para o campo visual, em jeito de homenagem a uma figura que abordou num contexto delicado a vida da classe dos renegados do sistema de castas. A instalação contempla um retrato da página original da publicação denominada Dnyanodaya de 15 de Fevereiro de 1855, onde foi publicado pela primeira vez o manifesto com o título “Condição dos Mangs e Mahars – Ensaio de uma rapariga Mang em Poona”, publicada em inglês, hindi e marathi.

    “Tríptico Mukta Salve” de Rahee Punyashloka

    A fechar deixo um excerto do manifesto de Mukta Salve que pode ser lido na íntegra aqui.   

    Ó sábios eruditos, dobrem seu sacerdócio egoísta e parem com a tagarelice de sua sabedoria vazia e ouçam o que tenho a dizer. Quando nossas mulheres dão à luz bebês, elas não têm nem mesmo um teto sobre suas cabeças. Como elas sofrem na chuva e no frio! Por favor, tente entender isso por experiência própria. Se elas pegarem alguma doença durante o parto, onde elas vão conseguir dinheiro para médicos ou remédios? Já houve algum médico entre vocês que fosse humano o suficiente para tratar essas pessoas de graça?

    Obra Hidden Trails de Chitra Ganesh
    Fachada do MAP

  • Acordados e vigilantes: as horas de pânico na Matola 

    Crónica publicada na revista Sábado, de Portugal, onde descrevo os mais recentes acontecimentos da crise pós-eleitoral que resvala para cenários de vandalismo, saque e mortes.

    “Ainda não havia passado a depressão da ausência da festa de natal e já se anunciava o terror: homens com catanas andam à solta no bairro, com sede de sangue e dispostos a cometer todo o tipo de crimes. Passa da uma da madrugada e o telemóvel não pára de tocar com gente de outros lugares, familiares, amigos e vizinhos, preocupados em dar-nos a notícia, as nossas vidas correm perigo.” Leia a crónica na íntegra aqui

  • “A vida é um mar de perguntas sem respostas” – Jessemusse Cacinda

    Em 2023 dias antes de Jessemusse Cacinda publicar seu primeiro livro de ficção, Kwashala Blues, entrevistei-o para que ele desse o panorama geral da obra. Eu já havia lido o livro e surpreendi-me com o seu formato. São pequenas histórias que se juntaram num corpo maior e deram sentido a um livro de escrita simples, veloz, com personagens que na sua complexidade procuravam simplificar as suas experiências. A paisagem em que ela foi construída, desde Maputo, até e sobretudo Nampula, fazem com que ela pareça, de imediato, uma obra diferente aos olhos de leitores da literatura moçambicana, onde os lugares muitas vezes se transformam entre o rural e urbano.

    Fica claro em Kwashala Blues que Jessemusse Cacinda é um escritor que se fez em processos, por etapas, ciente de que é um contador de histórias, mas sem a pressão de se revelar. Felizmente fê-lo através de uma obra que se justifica por si, sem ser refém do futuro.

    Conhecemo-nos a mais de 15 anos. E foi pela literatura que se foi fazendo a nossa amizade, até escalar outros patamares. A sua primeira viagem para Maputo, qual caçador de sonhos, caminhando nas estradas do país desde Nampula, para um percurso que diz da sua personalidade e do lugar onde quer chegar. E para onde vai Jessemusse Cacinda? De volta ao lugar onde nasceu. A vida dá tantas voltas. Conheci Nampula a seu convite, em 2016. Eram o fim do caminho, o festival que criou. Era o princípio da utopia, uma editora de livros “africanos”, é o que é a editora Ethale Publishing, sobre a qual falaremos numa outra vez. Foram horas e horas de serão. Conversas que ao tempo não enganaram. Já lhe havia reconhecido a incaracterística forma de fazer o jornalismo, saindo da sua voz na rádio, estórias de despertar. Hoje, entre tantas coisas, filósofo, editor e escritor. Era um caminho incontornável. As tantas estórias que a vida dá. E aí chegamos a este Kwashala Blues que nos confunde “não sei que género é este”, afirma o próprio autor que se estreia no que podemos chamar de novela.

    O que é a vida? perguntou Antônio Abujamra aos seus entrevistados e no final ele descobriu: a vida é um abismo, onde ele próprio caiu no final. Veio-me um pouco de tudo depois de ler Kwashala Blues. E esta entrevista é a única forma que encontramos de desanuviar em meio ao frenesim dos enredos.

    Sempre soube-o como escritor, repito. Faltava o livro. E o livro chegou. O que fizemos com ele? Lemos. E depois de ler? Conversamos. Porque algumas estórias levam a isso…

    Vamos começar do começo do “Kwashala Blues”, a chamada que o narrador recebe sobre a morte do pai. É o começo de um romance ou apenas a viagem de um personagem?

    Na verdade, é mesmo uma chamada que o narrador recebe para reavivar suas memórias. Um acontecimento trágico como a morte de um pai é uma oportunidade que um ser humano tem de questionar-se sobre tudo. Questionar-se sobre a vida, sobre as decisões que tomou, sobre os erros por si cometidos, e sobre o amor, o futuro. Quem nunca filosofou na vida, seguramente, o faz quando um entequerido seu morre.

    Ao falar dessa personagem, a que recebe a chamada, não se identifica. Isto porque quase todas as estórias do livro estão na primeira pessoa. Não resisto a fazer esta pergunta, é uma autobiografia?

    Veja, eu tenho dito que vivi e vivo a vida. Neste exercício também conheço pessoas que vivem. Viver a vida é em toda a sua plenitude, assumir os momentos tanto bons como ruis. E a vida é feita disso. O Kwashala Blues é um ponto de encontro, onde através da música e do rítmo, as histórias de vários moçambicanos se cruzam.

    Um livro triste, este. Mas uma tristeza estranha, que dá vontade de dançar, dá vontade de sorrir com o rosto cheio de lágrimas e o peito apertado. Que angústia é essa?

    A vida é uma constante angústia. Veja que em nenhum momento de nossas vidas nos sentimos satisfeitos. A vida é como a filosofia, é um mar de perguntas sem respostas. Se esperarmos que os nossos problemas sejam completamente resolvidos, nunca vamos esperimentar a felicidade. Por isso devemos sorrir enquanto dá, dançar enquanto podemos e quando for necessário, chorar acreditando que ninguém tenha lágrimas suficientes para provocar uma inundação. Este livro é sobre a vida e a vida é isso mesmo.

    Não posso deixar de percorrer o Este de África lendo estas estórias. Vou confessar que de lá li poucas estórias e o ápice seria Ngugi. Mas veio-me de repente a África Ocidental, numa estrenha sensação das linguagens, da música e até da dinâmica territorial. A pergunta que me ocorre é sobre as viagens do escritor até chegarmos a este Kwashala Blues.

    Todo mundo que nasceu e cresceu no norte de Moçambique na década 90 do século passado sabe que Dar-es-salam era mais perto que Maputo. E isso se notou pela influencia que a África Oriental e Ocidental tinham no nosso estilo de vida. Quando cheguei a Maputo notei pouca ligação com aquela África com a qual eu havia crescido e como um bom cidadão, senti necessidade de trazer essas todas áfricas para a nossa capital. O Kwashala é uma moçambicanização da rumba congolesa.

    Deve ser um caminho pouco feito pelos escritores. A forte ligação da narrativa com o seu lugar de origem. Escrever o lugar, as paisagens, as gentes, os sons e até, estranhamente, dá pra sentir os cheiros. Para a tua vida no todo, Nampula é o teu lugar de partida ou de chegada?

    Nampula é o meu ponto de partida e o lugar de chegada é o infinito. Uma das coisas que tento fazer é mostrar as pessoas que todos nós conhecemos um pouco de Nampula, mesmo sem ter lá estado e sem ter ouvido nada a respeito da província e da cidade.

    Voltemos ao livro. Os processos de escrita. Nota-se que são estórias escritas em momentos separados. Mas elas têm um fio condutor. A figura do pai quase que é a linha que cose a narrativa. O que aconteceu aos textos para terem essa linhagem que roça o romance?

    Os textos foram escritos em momentos diferentes, mas havia um fio condutor. Cronicar os acontecimentos contemporâneos de Moçambique com um pendor filosófico. E precisava de uma imagem para nos levar a este exercício, a morte de um pai. O pai é aquele nosso amigo e inimigo ao mesmo tempo. O amamos e, às vezes, o adiamos. E na vida somos assim. Mas a ideia de fazer este quase romance ou quase novela (na verdade nem sei que género de livro é este) veio das conversas e discussões que tive com o Sérgio Raimundo que disse-me que estes textos não eram contos quaisquer, eram capítulos de uma novela.

    E, já agora, em que momentos da sua vida se reescreveram essas estórias? Num acto de reflexão, releitura de um percurso (não podemos ignorar que Jessemusse tem a vida toda quase feita em Nampula e parte para Maputo já formado e até a trabalhar) ou terá sido a bendita inspiração isoladamente?

    Wow. Existem sim, alguns episódios que podem ser ligados a minha vida e outros que podem ser ligados a vida de amigos e pessoas que conheço. Não vou denunciar-lhes. Preciso que me contem suas histórias para próximos livros. Mas posso partilhar consigo que meu pai faleceu e senti-me de certa forma culpado por não ter aproveitado quando ele estava vivo. Na minha própria vida já também agarrei-me a coisas que me impediam de ser feliz em nome de um conforto. E a filosofia, este exercicio de questionar-se, reflectir, tentar encontrar as várias respostas sobre um problema, tem me ajudado a encarar a vida com sabor. E provavelmente, há pessoas que tem todas ferramentas para ser feliz, mas falta-lhes esta vontade de filosofar em torno da sua própria experiência.

    A música, Jessemusse, não queria me referir a ela porque já é óbvio pelo título do livro. Mas é inevitável. Fala-me dela, como ela roubou protagonismo à literatura?

    A música é o bálsamo da alma. Há uma música do Murara Jazz, banda de Kwashala de Cabo Delgado, com o título Adelina, em que o poeta fica desapontado porque a Adelina não conseguiu guardar-lhe os seus segredos mais intimos enquanto foram namorados. E quantas vezes na vida não nos desapontamos quando nossa intimidade é exposta? No a música começa um pouco lenta e chega uma altura em que o rítmo aumenta. Nesssa parte, chamada “Okoroxeliya”, mesmo que a música fale de coisas tristes, é mesmo para dançar. E voce sabe que na África, a dança é nossa vida e quando a gente dança, é  como se expíritos nos estivessem a puxar de um lado para outro. E a literatura é um registo da vida. Logo, um protagonista que vive a vida, vai seguramente ter a musica consigo. Se alguém me dizer que nunca ouviu música eu lhe diria que está morto.

    De certa forma encontramos muito de memorial e da cultura popular, digamos assim. Conheço um pouco Nampula, é certo, mas bastava-me ler o teu livro para entrar por dentro dos ambientes. O que me leva a querer saber da tua infância, os chãos que você pisou em pequeno, as pessoas que fizeram parte desse momento que parece descobrirmos já adulto, que é a infância? Quero que me fale da tua casa, dos teus parentes, da tua rua, do teu bairro…

    Cresci entre Cuamba, Nampula e Memba. Este nomadismo é normal no norte de Moçambique. Em Cuamba vivia no bairro do aeroporto e via os aviões a cairem todos todos, em Memba vivia no bairro do Muaco, há 1Km da praia da Costa do Sol e do campo de futebol da vila e em Nampula, no bairro de Muatala, mais conhecido por Matadouro. No Matadouro vivia com os meus pais, e quando se divorciaram, passei a partilhar entre Cuamba (onde estava o meu pai) e Memba (para onde foi a minha mãe).

    Conhecemo-nos há vários anos e nunca perguntei-te sobre os teus pais. Nesse sentido também é interessante para mim ler o Kwashala, porque parte do desconhecimento. Sei, porém, que a tua mãe é uma professora, e o teu pai?

    Sim, a minha mãe professora e meu pai, chefe de cozinha. Hoje o meu pai faleceu e a minha mãe é funcionária administrativa. Cada um deles exerceu determinada influencia em mim, talvez seja por isso que enquanto gosto de aprender, gosto também de comer. 

    Trabalhou na rádio Moçambique a partir de uma adolescência. Já te ouvia nos programas infantis e juvenis da Rádio com uma forte expressão na palavra. O que significou esse parte da tua vida?

    Eu tenho dito que não tenho motivos para não ser feliz. Meu sonho era falar na rádio e consegui. Isso significou tudo para mim. Sai da rádio porque tive vontade de experimentar muitas coisas. Foi para preencher uma série de curiosidades, mas voltaria a trabalhar na rádio sem nenhum problema. Um radialista é um artista e um artista nunca abandona a sua arte.

    Os primeiros livros que leste, as primeiras estórias, a primeira ficção onde foi que encontraste?

    Os livros apanhei com a minha mãe e na escola. Primeiro foram os textos do livro de Português do ensino primário (tenho comigo o livro de Português da Sétima Clásse, onde leio e releio Crónica de Carteira de N. Marimbique que fui descobrir mais tarde que era Nelson Saúte) e depois vieram os poemas, Os Lusiadas de Camões foi o primeiro livro que livro.

    E hoje o livro virou um trabalho, com a Ethale Publishing. Recordo-me das conversas em Nampula a volta deste projecto, como se fosse uma miram. E hoje, aonde estamos?

    Hoje estamos onde a vida nos leva. Essa curiosidade está a levar-me a Coimbra para fazer o meu doutoramento e continuar nessa coisa de trabalhar como investigador, autor e editor.

    Jessemusse, tens leituras de invejar. Deves conhecer as narrativas deste vasto continente como poucos de nós conhecemos. Fico a pensar, o que efectivamente andaste por aí a ler e a conhecer. Mas sobretudo, que caminhos para chegarmos à essa literatura mais próxima da nossa realidade, mas tão distante em termos de acesso?

    Como sabes, sempre fui um “puto curioso”. A minha ligação com a África Oriental e Ocidental veio da musica que escutamos no norte de Moçambique, depois, quando aprendi a ler, fui eu mesmo procurar. Aproveitei-me bastante da evolução tecnológica e viajei pelo continente africano de carro. Para teres uma ideia, eu sai de Harare a Nampula, via Lusaka e Blantyre. Vamos ser mais aventureiros e curtir este continente sem chiliques.

    Quantas rumbas e kwashalas dançaste para te atormentarem e até decidirem o destino do teu primeiro livro de ficção?

    Cresci com muita rumba e kwashala. Tenho várias no meu computador e toco nos fim-de-semana para dançar. Eu, o Gércio Alexandre da Rádio Moçambique e o Peter, apresentador da TVM, somos amigos e temos dançado essas coisas nos fim-de-semana. Quero que as pessoas que leiam o livro tenham vontade também de dançar.

    Acho que não pararia esta entrevista se não me impusessem os limites da imprensa. Então vamos fechar à moda tradicional, as tais considerações finais. Agora que experimentas a escrita descomprometida, digamos assim, da ficção. De que lado da história ficarias se houvesse um só lado?

    Pergunta dificil. Eu quis escrever justamente para não estar num só lado. A literatura não tem lado. A literatura é o respeito pela diversidade que faz o nosso país e o nosso continente. Este Kwashala Blues é uma oportunidade para os moçambicanos conhecerem-se a si mesmos. Mas também para celebrar as dorres e alegrias das pessoas deste país e deste continente.

  • Pensar o teatro moçambicano

    A peça “O embondeiro que sonhava pássaros” exibida a 12 de Abril, no Centro Cultural Franco-Moçambicano, teve em palco os astros do teatro nacional, a contracenar as nossas esperanças e certezas. Uma obra escrita e encenada por Evaristo Abreu e inspirada num conto de Mia Couto.

    Esta peça fez mais do que dar teatro ao público, reabriu um drama da cultura moçambicana, o debate sempre adiado e o descortinar de um futuro cheio de incertezas. Muito tem se falado destes tempos como a grande dúvida, Lipovetsky (1983) chegou mesmo a escrever o ensaio “A era do vazio”, onde parecer é ser, tudo é efémero, passa tão rápido que sequer chegou a acontecer. Mas já lá vamos, primeiro, exaltemos o espectáculo que, de certeza, mostrou-nos que a alma do teatro moçambicano está em chamas e que todas as gerações dão-nos garantias.

    Ver em palco Adelino Branquinho, Yolanda Fumo e Elliot Alex, a contracenar com Horácio Guiamba — que já não tem mais nada a provar —, Fernando Macamo e Lucrécia Noronha, estes dois que já performaram em alguns espectáculos e a estudante Shércia Carolina que se mostrou à altura do desafio, é um acontecimento marcante. São actores de gerações diferentes, o que deixa à vista que o teatro vive, sobrevive e pode ganhar outras vidas, como por exemplo, o facto de as salas de teatro estarem em extinção ou a servir para outros fins, a falta do necessário apoio institucional e mecenas, tudo isto, curiosamente, quando já há um curso superior de teatro e muitos actores à disposição.

    Em palco estava o passado que facilmente se confunde com o presente e, se não houver “vigilância” —  os acontecimentos diários mostram isso — pode se repetir esse passado tenebroso: escravatura, exploração e segregação. O resto é actual, as personalidades feitas de ira – de fúria irracional —, a coisificação do outro, o racismo, a bajulação e o cumprimento de ordens sem questionar. Em meio a tudo isso há um belo que se não vê: o encanto na natureza, nas coisas simples como os pássaros de várias espécies a voar livremente e a cantar para os humanos tomados pela insanidade instalada, o tempo que nos falta para contemplar de forma desinteressada o belo, mas também a classificação dos seres. Como pode uma criança branca brincar com uma negra? Como se não bastasse, falarem a mesma língua, apreciarem a mesma natureza e ainda mergulharem nas realidades de cada sociedade. A partir do diálogo dessas duas personagens, a preta e cuidadora de pássaros — Yolanda Fumo — e a criança branca — Shércia Carolina — encontram-se dois mundos: no mundo dos brancos representado por Adelino Branquinho, sempre zangado, com o chicote e a esbracejar “igual a uma coruja”; e, por outro lado, estão os pretos, representados por Yolanda Fumo, que compreende o desejo e a essência dos humanos, igual aos pássaros, nascidos para serem livres.

    É uma família dominante, branca, vive amargurada e na encruzilhada do racismo, sobretudo por se julgar uma classe superior, que tem o direito à terra, os recursos, incluindo as pessoas pretas que são objectos de uso, força bruta, sem sequer capacidade de raciocinar — Elliot Alex, Fernando Macamo e Lucrécia Noronha —, que vai se ver desestruturada por uma criança que decidiu ignorar as diferenças, olhou com os olhos inocentes de uma criança o mundo à sua volta.

    É possível ler-se os papéis de Elliot, Fernando e Lucrécia, nas entrelinhas das personagens da vida real, capazes de aplaudir e executar tarefas sem questionar, por vezes, com danos sobre gente da mesma classe social que a sua. A ideia de estar com quem manda e que faz pensar que temos poder e por isso os outros seres humanos não valem nada, está muito bem representada.

    O narrador Horácio Guiamba conseguiu ser o pivô da trama, sem deixar que ela se transformasse numa história contada, antes, um elemento para conectar os acontecimentos que ocorrem num ritmo frenético. Escusado é dizer que começa a ser moda o narrador Horácio Guiamba em palco (o acor cumpriu quase o mesmo papel em “Aqueles dias da rádio”, musical dirigido por Zé Pires). O acompanhamento musical de Cheny wa Gune e Xixel Langa foi certeira por torná-los presente no espectáculo, preencheu as cenas.

    Foi, em suma, um trabalho ao nível do senhor de teatro que é Evaristo Abreu. O que nos leva à questão seguinte.

    1. As condições em que a peça foi exibida foram as melhores possíveis, é verdade. Aliás, não é em vão que o CCFM é dos melhores espaços culturais da cidade. Porém a sala grande não foi capaz de dar as condições que o teatro precisa: a acústica necessária para a projecção das vozes, para que as palavras sejam ouvidas e compreendidas. Apesar de todo empenho e esforço até, muitas foram as palavras que coube ao espectador mais atento tirar as certezas se foi dito. As falas de Adelino Branquinho, por exemplo, e até do Elliot Alex, foram disso exemplo. O Horácio cuja presença era sobretudo em discurso, não sei se não lhe sobraram dores pelo esforço para se fazer ouvir. E, aliado a tudo isso, como havia a voz no microfone e os instrumentos musicais, o desnível foi evidente. Ao contrário do que se viu e se vê com os especáculos do género quando acontecem no auditório. Esse, sim, era o sítio indicado.

    2. O cenário podia ser melhor, a sensação de um imenso vazio é inquietante. Sim, é a nossa realidade, fazer muito com pouco, mas foi notável o sofrimento dos actores naquele palco, ora à procura de prencher espaços ou a cuidarem para não se deixar derrubar nas poucas coisas ali presentes, porém de uma precariedade patente. Por outro lado, foi como se aqueles elementos fossem estranhos aos actores. Não será pelo tempo de ensaio com o cenário do espectáculo?

    3. Quando vai parar a sina de ver só uma vez os bons espectáculos de teatro, penso eu com os meus botões enquanto oiço os murmúrios dos espectadores. Compreendo as várias razões por detrás das instituições e do cenário artístico nacional, mas é um desperdício dos níveis de quem deixa uma torneira aberta com a água a escorrer pelas areias. Não é assim só com este espectáculo, foi assim com “Aqueles dias de rádio” (2023), por exemplo, uma das melhores obras de arte em palco que se produziu nos tempos actuais. Como é possível um elenco daquele nível, os ensaios de meses, a publicidade feita — a acrescer a que continua a ser feita por via de comentários positivos dos que viram o espectáculo — resultar em apenas uma apresentação? Será que o custo de uma repetição é maior que o de tudo o que se investiu para conceber o trabalho? Esta questão não é dirigida ao CCFM, é sobretudo uma reflexão que todo o sector cultural deve fazer. Um pouco por todos os centros culturais os espectáculos são exibidos só uma vez, nunca percebo as razões, mas se elas se prenderem com o factor “oportunidade para todos”, “cabimento orçamental” ou “público”, então é uma questão talvez mais fácil de resolver. Mas se a razão for do tipo fazer muito eventos e acolher a todos ou for por importar os hábitos da música para o teatro, então a situação é grave. Enquanto a música pode ser gravada e ouvida através de várias plataformas, a qualquer momento, o teatro precisa de palco para ser visto, e o bom teatro, ainda mais.

    Quando a arte é exposta desta maneira, incorre-se ao risco de banalizar-se o talento, o trabalho árduo e comprometer o profissionalismo nas artes, como analisa Mário Vargas Llosa em A Civilização do Espetáculo (2012).

    Pensar em tudo isto, na esteira de “o embondeiro que sonhava pássaros”, que instiga a memória colectiva, revisita a história, reflecte a contemporaneidade dos comportamentos, das trivialidades e desperta-nos para uma sociedade em modo loop — as diferenças entre classes, o medo de sonhar, os limites às liberdades —, é no mínimo exercer o próprio papel do teatro, despertar-nos para o drama da vida, dos indivíduos, das sociedades, enfim, levar ao palco os nossos dilemas e contextos.

    Um trabalho como o visto no dia 12 de Abril de 2024, deveria ser possível revisitá-lo, pelo menos, mais três vezes. Ao contrário disso, quando tudo é dado assim, aos bocados, honestamente, é fácil cair na banalidade, no vazio enfim, no esquecimento.

    Fotografias de Gillelio Cossa

    Artigo originalmente publicado no jornal O País a 16.04.24

  • Mário Macilau revela a alma dos explorados

    Na nova exposição intitulada “imediatismo”, o fotógrafo Mário Macilau, coloca nos seus retratos à preto e branco, a alma dos ignorados na exploração desenfreada dos recursos.

    Os rostos e os corpos “gastos”, pálidos, mostram na perfeição das rugas de quem vêem a idade e a vida a avançar, tudo à sua volta a transformar-se em pó e num abismo onde cabem todas as ambições e a ganância do Homem. A olhar pelos rostos que nos são apresentados, constata-se a pobreza das gentes dos lugares ricos em recursos minerais, por exemplo. Lugares em que a riqueza se expõe no meio de uma pobreza estrema. E o lixo dos ricos é o luxo dos pobres, como pode-se perceber pelas imagens extraídas da maior lixeira da capital moçambicana, em Hulene.

    No olhar, nas feições simples, inocentes até, das crianças e dos idosos, nota-se toda uma cadeia de desesperanças no trabalho que Macilau apresenta. São os corpos que sobram e resistem da degradação. O fotógrafo procura expor mais do que as evidências de que esses corpos se recompõem todos os dias à margem. Leva-nos para dentro da alma das personagens, instigando o espetador a uma leitura da narrativa das vidas representadas, “preto no branco”. Ele que já explicou a escolha desse caminho à duas cores, “o preto e branco proporcionam uma conexão mais forte(…). Torna uma imagem atemporal, quase como uma memória.

    O conjunto de fotografias percorre ao consumismo e as vítimas de um sistema que já vem a controlar os estilos de vida e as sociedades há anos. Os rostos de gentes carregadas e revestidas de silêncios e o que representa a força bruta de trabalho, não são propriamente de denúncia, são sobretudo o escancarar da dura realidade que se sobrepõe toda voracidade do capitalismo que avança e arrasta consigo as pessoas, os lugares, a qualidade de vida, as expectativas e o futuro, uma vez afectar a abundância doutros recursos vitais, como a água, a qualidade dos solos para agricultura e o ar.

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    Macilau tornou-se numa referência enquanto fotógrafo que vai ao encontro dos “invisíveis”. Os homens, as mulheres e as crianças das periferias do mundo, marginalizados e vendidos ao preço da ilusão, procura mais uma vez fazer uma abordagem provocadora, instigante. Em “imediatismo” talvez se volte à questão ambiental, mais no modo reconfigurado, como as pessoas nos lugares de abundância de recursos são insignificantes e invisíveis diante do carvão, do gás, do petróleo ou outros minérios que realmente importam para a sociedade de consumo e grandes corporações. Nesse sentido, o que se expõe é também a outra face dos negócios dos recursos e os contratos que desvalorizam as populações. O próprio fotógrafo já assumiu usar a lente como “ferramenta de intervenção social”.

    Embora fotografe esses marginalizados, mas também de condição de vida precária, Macilau procura dar-lhes dignidade, personalidade e carácter. Vai ser por isso, que algumas dessas personagens, se nos apresenta com os seus utensílios, outros estilosos, com adereços e acessórios de estilo. Mesmo os rostos mais enrugados, não são de grito nem desespero, são sobretudo almas vivas, pertencentes a um lugar e que assistem às mudanças, em meio a promessas e expectativas de um melhor futuro, que contrasta com o que vislumbram.

    A exposição esteve patente de 10 de abril a 10 de maio, no Centro Cultural Franco Moçambicano, em Maputo. Texto originalmente publicador no RADAR – MAPUTO FAST FORWARD

  • Suzy Bila: “nua e crua”

    Suzy Bila é uma artista complexa, que consegue unir o conceptual e o devaneio, a lembrança e o sonho, que faz confundir a saudade e a nostalgia, ou a crítica e a constatação. É uma artista existencialista.


    Suzy Bila é um nome que circula distante do horizonte comum das galerias de Maputo, a cidade que a viu nascer, crescer como pessoa e a despontar nos anos da paixão ilusória pela arte de pintar. Foi às espreitadelas que viu o pincel a compor o seu universo imaginário, pela mão de mestre Noel Langa, lá no bairro Indígena, hoje Munhuana, com quem mais tarde, mas ainda moça, viria a “aprender” a pintar, a encontrar nas cores, estórias, sensações, gentes e lugares e a dar asa à sua realidade imaginária.

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    Parece complexo compreender o embrião artístico assim, uma realidade imaginária, ou a magia das realidades que exigem da autora, mais do que uma simples contemplação, o questionamento. Essencialmente, é disso que é feita a artista Suzy Bila, pode se notar na exposição “nua e crua”, um projecto que começou por ser “as flores que nunca murcham”, que teria sido no Museu Nacional da Arte, mas que veio a cair no CCBM – Centro Cultural Brasil-Moçambique, em Maputo, que é dirigido pelo conhecido homem das artes Jorge Dias que, sem dúvidas, foi motor para esse desfecho.

    Um conjunto de obras que nos faz viajar pelas raízes da autora, pelo percurso artístico e suas experiências de vida, mas também pelo seu pensamento e suas insónias. Suzy Bila é uma artista complexa, que consegue unir o conceptual e o devaneio, a lembrança e o sonho, que faz confundir a saudade e a nostalgia, ou a crítica e a constatação. É uma artista existencialista.

    “Num olhar às suas telas, vem a poesia, o devaneio, naquelas imagens em que não dizem, sussuram coisas que habitam à nossa volta, mas são como pedaços de inexistências.

    Aliás, enquanto pausa-se o olhar pelas telas enormes, frases, inspirações poéticas, dão mensagem a uma mensagem que já vem densa pelas cores que compõem os seus quadros.

    O nascimento de um novo ser, as dores do parto, o alívio de quem vê as lágrimas desse ritual de povoar o mundo, ou a alegria, de quem sabe que o mundo é assim, os homens e as mulheres, vem do ventre, essa sina que, ora fortalece, ora fragiliza quem gera, alí está, em obras que querem dizer mais do que se pode ver, é essa a impressão que fica na sua expressão.

    O vermelho que escorre como uma lágrima num vale em que escorrem todas as angústias, vermelho, ora que nos pode enganar com o erotismo ora como uma marca indelével das feridas que não podem mais sarar, nem na memória da criadora, nem da criança que cresceu no bairro de Maxaquene, ao pé do Posto de saúde 1º de Maio e assistiu a cenas de mulheres no (des)espero do parto, pelo corredor do hospital, aos gritos, aos prantos, aos gemidos de quem espera e desespera.

    Um conjunto de obras que remete ao silêncio que grita por dentro, é a arte a despir a podridão que se esconde entre quatro paredes, a paixão ardente, o ciúme doentio ou uma tal masculidade que fere e mata. Um quarto em que se guardam todos os segredos de uma sociedade em que os seres acreditam-se puros. É a mulher e os dilemas de que já foram retratados, mas tampouco com essa realidade em que a sua “sensibilidade” reclama a atenção.

    Resumir, por isso, a obra de Suzy Bila, ao mundo controverso e intrigante da mulher seria reduzir uma artista de mão cheia, que já não tem mais nada a provar. A sua obra vai para além do limite do normal. É a poesia em todas as línguas e linguagens ou o silêncio que canta, ou o decanto do medo e ainda um hino à memória, afinal, “nua e crua”, é, sobretudo, um presente do tempo aos olhos de ver…