Categoria: Inesquecível

  • Nas ruas de Mysuru e uma carta a R.K. Narayan

    Guarda este momento. Vais te lembrar dele quando já nada houver para lembrar. Do materialismo ou da pressa para a afirmação, quando correr atrás não for mais do que uma metáfora para te manteres vivo, precisarás das coisas que se sustém no tempo, intemporais. Não creio que isso vá te acontecer tão depressa, pois és jovem, mas um dia sempre acontece. Não será na velhice, que a velhice é coisa preciosa para desperdiçar com memórias iguais a estas. Mas guarde. Guarde porque a tua mente precisa preencher-se de vazios, também. Não se pode passar os dias apenas com contas de somar na cabeça. E nem a vida pode passar, sem que se guardem momentos como estes, por mais vazios ou desprovidos de substância que se pareçam.

    Caro senhor R.K. Narayan, fomos a sua casa e não estava. Pior do que isso, a casa estava encerrada. Passava das cinco da tarde, mas essa não foi a principal razão para termos ficado à porta. Era terça-feira.

    Já que não o conheço, não vou meter-me em enganações. Só ouvi falar de si quando chegamos a Mysuru — aprendi a dizê-lo como os próprios indianos, desapeguei-me do inglês Mysore —, por volta das 12h40. Fomos ali ao Bean Stop Café. O aspecto intimista e o design minimalista são incríveis, mas o preço dos chás e cafés foi a martelada da decisão que nos fez entrar. Olhei para as paredes e estavam lá as marcas de pincel fino com traçados da cidade. Fiquei-me por wraps de carnes que pedi gentilmente «without spice», ao que o rapaz de cara lisa acenou com o típico abanar de cabeça dos indianos bem-educados, quando querem dizer, tu aguentas. Delicioso que estavam os wraps a que tenho por manias chamar shawarma, realmente aguentei o piri-piri. Serviço extra teve a Estelle com o seu petisco que para além dos temperos picantes tinha os graus de piri-piri espalhados. Escusado será dizer que ela comeu e lambeu os beiços. Não provei o café, mas o Thomas disse que estava bom. E se o Thomas, um alemão de Colônia, diz que está bom, está super para um subsahariano como eu. Passei a maior parte da minha pouca vida nos aromas de Ricoffy contrabandeado da África do Sul, quando descobri que há café e Café, já era tarde para ganhar o hábito. Fiquei-me pela água.

    Foi a Chiranthi que trouxe o seu nome à mesa. «Em Mysuru tem a casa de Narayan», foi como um espanto. A Estelle foi depressa acompanhada no delírio. Ambas olharam-se felizes com os olhos umedecidos de encanto. «Ele é um grande escritor», disseram. E Chiranthi confessou estar no topo das suas preferências. Complacentes, as duas pouparam-me e o Thomas dos títulos dos teus livros quando perceberam que não sabemos nada sobre si. Foi gentil da parte delas, como de resto, elas sempre foram: duas almas ávidas em tornar os dias, as horas e a vida, menos pesada do que parece. «Temos de ir à casa de Narayan, estamos na própria terra dele, não acredito» disseram quase partilhando as palavras, com a beleza da diferença de sotaques, Estelle num inglês afrancesado e Chiranthi, de Sri Lanka, gritaram um eufórico Oh my God! Soubesse o senhor das abreviaturas da moda, ficava-me fácil, pois escrevo em português e pode calhar-me o erro nas palavras de língua inglesa. O Thomas escreve em alemão, a propósito. Ele está sempre a escrever, com um bloco de notas e uma caneta de tinta azul, tens de vê-lo. Conto-te depois como ele se parece um grande escritor, preocupado sempre em registar os momentos, com a própria mão, assim as palavras têm corpo. Foi o Thomas, aliás, que mandou parar o Txopela quando chegamos na cidade, para que fosse rápida a nossa chegada ao Palácio de Mysuru, o principal objectivo da visita à sua cidade. 

    Vista frontal do Palácio de Mysuru

    Lamento pô-lo a par da verdade, através de uma carta que nem sequer inicia com as saudações de praxe. Contente-se, pois, em saber que não cheguei a ver como vivia a família real, não invadi a vida privada nem a intimidade dos Wodeyar. Quando fiquei a saber que a entrada custava 1000 rúpias indianas fui dar voltas à esquina, como diz-se na gíria, mas literalmente. Andei pelas ruas, às livrarias e aos museus onde só me custaram uns máximos 70 rúpias para a entrada. Tenho pena que não possa ter entrado no Palácio de Mysuru, admito, a vida privada dos outros faz a vida do escritor, não é verdade? Mas pensei comigo, antes vou conhecer Zimbábue e a campa da rainha Bibi Achivanjila, depois juntar algumas moedas para os despojos de Rei de Mysuru. Tudo isso, deve compreender, são desculpas de quem tem de contar as moedas no bolso. 

    As visitas à tua casa são gratuitas. Bem que pode. O senhor não é rei e não mora num palácio. Talvez, por isso, dá-se ao luxo de fechar as portas da sua casa na terça-feira. De certo não há uma romaria para visitá-lo, ainda que haja quem tenha bondade e possa dar alguma coisa para a casa. Os escritores ganham quase nada, coitados, uma ajudinha não faria mal. Mas como a espécie literária é estranha, eras capaz de não aceitar ajuda nenhuma, que não fosse lerem-te os livros. Guardo essa vergonha para mim, não ter lido ainda um livro da sua autoria.

    Antes de chegarmos à sua casa que estava fechada e por isso, mais uma vez, serei incapaz de descrever os interiores, caminhei durante três horas pela cidade. Deve ter sido um acesso de loucura, imagino que o senhor o diga, quem pode andar tanto tempo numa cidade onde o barulho vem de todas as coisas? Dos letreiros cheios de informações em inglês e nas línguas indianas, dos veículos motorizados que surgem de todo lado, pessoas de todas as idades e indumentárias, cavalos, ovelhas, bois de cor-amarela. Sou da Matola, a cidade das festas de família, bodegas, onde quase toda a gente vai para dormir e fazer amor. Nestes dias custa falar da minha cidade sem recordar a imagem cinzenta das lojas e o fumo de um denso cinzento a cobrir os céus, tudo ardido na famigerada fúria popular. 

    Fui à Galeria de Arte Sri Jayachamarajendra. Importava-me conhecer a cidade e o país através das obras de arte. Importava-me o diálogo, as estórias por detrás da história. A pintura, a escultura, disseram-me muito do que gostava de saber. Dei-me conta depois que não fiz uma fotografia sequer. Que foi o único lugar que não marquei na memória digital. Fiquei-me pela imersão. Fez-me bem ao coração e devo guardar para o futuro, se é que lá chegamos.

    Fui para a terminar dos machimbombos. Sou moçambicano — esqueci-me de dizê-lo —, é importante saber onde apanhar o chapa. E ver como se comportam as pessoas, os vendedores ambulantes, os viajantes de várias partidas e chegadas. Há uma certa pressa em tudo, um «deixa-me subir primeiro», que em nada me espanta. Gosto da música que vem da conversa, da chamada dos cobradores, do bater dos pés no alcatrão, dos carros a chegar e partir, dos apitos dos guardas e do cheiro de comida. 

    Andei pela Ashoka Road onde as joalherias alternam-se entre si, as lojas dos tecidos coloridos ombreiam com sapatarias, ferragens, lojas de utensílios e objectos metálicos do rico e sagrado artesanato; os deuses feitos de aço e bronze, a disputarem o lugar com as jóias de diamante e ouro; as motos que fazem filas nos passeios, a competir em superioridade numérica com os humanos, os chinelos aos montes nas portas, as ovelhas, as cabras e o céu azul, com os pombos em bailado ao deus sol. Ao fundo está a Catedral de São José e Santa Filomena, com os fiéis e devotos de pés descalços, homens, mulheres, jovens quase aos prantos numa via sacra mais de súplica que de paixão; olhei para o monstro que subia aos céus — não devia invocar as sombras ao falar da casa de Deus, eu sei, hábitos da minha terra em que dizemos «monstro sagrado» às coisas que tem dimensão divina —; um grupo de mulheres descia do autocarro com a lentidão dos peregrinos exaustos, mas firmes na fé, fizeram o sinal de cruz e tinham as cabeças e os ombros encurvadas, pude senti-los carregados de tormentos que pretendiam desanuviar. Tenho de dizer que me comovi ao vê-los, mais ainda quando pagaram o ingresso para falar com Deus dentro da catedral. Bem, as catedrais têm conversas que se paguem, diga-nos o mestre Vargas Llosa. 

    Chegou o fim da tarde. Era a vez de ir visitá-lo à sua casa. Antes tomamos um gelado no Indra Cafe’s Paras. Escolhi o de tâmaras que é de um sabor que nunca havia experimentado, os outros foram pelo sabor das manga e chocolate. Ninguém ficou decepcionado. Depois bebemos o café que quando não se tem o cuidado sempre virá com leite nas tascas tradicionais desta cidade, talvez por isso me tenha aguentado. Já antes tinha sido assim na Estação de Comboios em Bengaluru. Lá eu fui pelo Badam, o leite quente misturado com amêndoas, cardamomo, açafrão e açúcar — desculpe o aborrecimento com esses detalhes que o senhor certamente conhece, mas se não fosse a si, não contava a ninguém estas coisas. Foi no Indra Cafe’s Paras que o Thomas foi parar à porta, qual recepcionista louco ocidental, para o espanto dos sempre muitos transeuntes, clientes e os vendedores nos passeios de todas as idades à frente do Mercado Devaraja. Ele, dentro de si e no olhar às coisas à volta, tomava as devidas notas no seu caderno em alemão. Deve ter sido sobre a multidão que se abalroa entre si, na paleta de cores quentes, nas mulheres belas nos variados feitios, nos homens de lungi, que não sai da cabeça ser uma capulana, a atravessar a praça, os cheiros fortes das especiarias, as vozes dos vendedores ambulantes que chamam os clientes com os preços sempre possíveis de regatear. Se o senhor conhecesse Maputo podia simplificar as coisas, é o Xipamanine de Mysuru. O Thomas tem ares de bom escritor, como o senhor pode notar.

    Mulheres em procissão descalças
    Catedral de São José e Santa Filomena

    Fomos apanhar o Txopela, os quatro, como na primeira vez desde que chegamos nesta cidade, sentados quase um em cima do outro, juntos, efectivamente juntos, dei-me conta nesse instante que nunca tínhamos ficado teu próximos uns dos outros em cerca de 20 dias que vivemos na mesma casa, almoçamos à mesma mesa assim como partilhamos os jantares, além das várias cavaqueiras noturnas e matinais de pôr a conversa em dia, num estranho olhar aos processos históricos dos nossos países, e muito pouco sobre o texto literário, as cozeduras, os truques, as vias de construção que nos fariam chegar ao grande livro. Falamos da nossa relação com as coisas, com os lugares, com histórias oficiais e não oficiais, com os traumas e terapias colectivas que vão acontecendo, embora numa versão longe das nossas concepções ou cogitações. 

    Devaraj Mohalla é onde fica a sua casa, esse bairro feito de colinas, subidas e descidas, enormes árvores a disputar os céus com aves de várias espécies. Mais tarde me apercebi que está ao pé da linha férrea, fico a imaginá-lo a despertar na madrugada com o chiar dos comboios e o apito de levantar a alma. São também assim as minhas madrugadas, com os apitos dos comboios da linha de Ressano Garcia. Já era assim na casa dos meus pais, mas aí era tudo como um sonho. Agora posso sentir a vibração, o barulho do motor a acelerar e a nostalgia da buzina longa que se devance enquanto procuramos adivinhar a direcção da viagem.  

    O Txopela — tenho de chamar assim o vosso Tuk-Tuk —, ia passando quando avistamos a sua residência. Mandamo-lo parar ao que o motorista obedeceu com certa desconfiança: a casa pintada de branco estava envolto a escuridão. Agora que escrevo fico a imaginar o que se passou na cabeça do homem ao partir depois de deixar quatro jovens estrangeiros naquele lugar silencioso, quando a noite já era verdade.

    Ficamos parados no portão. Estelle e Chiranthi foram de imediato fazer a perícia na casa. Deviam imaginar o senhor R.K. Narayan sentado na mesa a tomar o seu Masala chai. O senhor não deve tomar uma coca-cola como o poeta Craveirinha. Tenho aqui vários dias e quase não vejo ninguém tomá-la. Então as duas admiradoras tuas ficaram a tirar fotos, com troca de palavras, memórias, atmosfera e mais alguma coisa. Há sempre alguma coisa que os leitores acérrimos tiram das obras e dos autores. Nunca tinha vivido um momento igual e não podia esperar que fosse subir e descer colinas, passar mais de duas horas no comboio, caminhar por várias horas, até chegar a casa de um escritor cuja alma habitava em silêncio na sombra. Fiquei a pensar, ainda que reconheça que foi um momento de tolice, como seria se algum leitor decidisse ir até à minha casa. Aquilo é andar por estradas com buracos assassinos, planícies, machambas, atravessar rios, e se fosse entre Fevereiro e Abril ainda teria de ir à nado, rezasse para que a mafurreira que é referência da paragem, não tenha sido cortada para pôr uma barraca. Imagina o senhor que isso não será possível, tal como eu, pois não?

    Queria continuar a escrever. Deu-me nestes instantes finais uma certa graça dizer o que disse. Mas a parte que viria daria-me uma certa angústia, refiro-me à exaustão de retorno ao ponto de partida, num comboio noturno, onde fomos numa cabine para os quatro, isolados de todo o mundo. Mas também, chegar ao final levanta outros princípios. Por exemplo, podia ter lido primeiro os livros, antes de fazer chegar esta carta. Vou começar por The Guide. Achei por aí na net. O senhor não se importará com a pirataria africana, não é? 

    A propósito, as palavras que abrem esta carta, foi o meu monólogo diante da sua residência. Na verdade foi por isso que decidi escrevê-lo, sem esperar que respondesse. 

    Bengaluru, 23.01.25

    E estou eu e o condutor do Txopela que nos recebeu em Mysuru, gentilmente.

    Durante Janeiro de 2025 estou em residência literária Sangam House, no The Jamun, que agradeço muito a hospitalidade.

  • O que dignifica?

    — Mãe, porque é que as pessoas dizem povo no poder?

    A mãe descansa as mãos na cintura fina que acompanha a forma do seu corpo sem grandes nuances, uma mulher de 30 anos, que deu-se ao luxo de ter duas filhas, e que agora não sabe mais o que fazer com elas; a mais velha, de seis anos, está na idade dos insuportáveis porquês da vida; a mais nova, aos três anos, dorme como se não se importasse com o mundo, indiferente aos 34 graus celsius que se multiplicam ao triplo na casa de madeira e zinco e os mosquitos celebram a liberdade de circulação e livre manifestação. Deu agora para que a mais velha, justamente à esta hora da noite, com o jantar dos mil e um sacrifícios posto à mesa, querer saber os porquês destes tempos: porque gritam as pessoas lá fora pelo poder popular — povo no poder, rectifica-se. 

    — Mamã — insiste a criança ameaçadora, enquanto bate-lhe na malha da anca — o que dignifica povo no poder? 

    Ela quis dizer significa. Deu-lhe, já há uns dias, trocar os significados às coisas; se bem que dignidade é também pelo que gritam as vozes imponentes que cada vez se aproximam na rua e um fumo negro ganha espaço pelos ares, em direcção às nuvens dispersas, que parecem mover-se com a força dos homens, mulheres e crianças, e mais os outros a quem a dignidade sempre lhes fez falta.

    — Mamã, mamã…

    — Diz…

    — Quem são as pessoas que estão a gritar lá fora?

    São os invisíveis e inaudíveis, assim chama-lhes a mãe. Mas evita dizê-lo na voz que a criança possa escutar e originar outros porquês. Por exemplo, continuar a falar dentro da sua cabeça onde se passam todos os problemas do mundo, perguntaria a criança a seguir, porque são eles invisíveis? A isso ela podia responder, porque sempre existiram, mas ninguém se deu conta, porque não estavam vestidos de forma «adequada», eles não cheiram aos aromas de Paris, nem à moda milanesa, antes à contrafcção chinesa ou nigeriana; eles sempre andaram aos gritos que só arrepiava eles mesmos, porque quem devia os escutar, cercou-se de vozes semelhantes, de igual poder, iguais cheiros, cantando todos em uníssono as canções de embalar os saciados. O que ficou para estes, são resquícios de uma solidão e angústia que só se sufocava nas promessas e nos sonhos vistos aos ecrãs dos smartphones, de segunda mão, tal como as roupas, vindas de contentores para o descarte. Os pensamentos da mãe podiam continuar a escalar, não fosse que a criança ia se tornando incômoda, impaciente, um tormento para quem também tem os seus porquês da vida. Está na hora de responder à criança que não se cala, já num corro como os inaudíveis.

    — Mãe, lá foram estão a cantar porquê?

    Manifestações pós-eleitorais em Maputo com a mensagem “Povo no Poder” | Fotografia: Adelium Castelo

    Esta pergunta será inevitável que responda; a mãe não se pode recolher nos seus silêncios habituais, fadados por ser mulher e mãe solteira; a mãe não se pode contentar mais com os silêncios irritantes do mundo; pesa-lhe a consciência não responder à estas simples perguntas de um ser que procura compreender o mundo sem fazer juízos de valor; sem escolher os lados; sem cobranças, sem reivindicações, a não ser os porquês.

    — Mãe… 

    — É uma manifestação, filha. Esses são os manifestantes.

    Quando a mãe disse manifestantes, soo-lhe o que diria a um adulto como ela sobre esses tais; são os invisíveis, os desconhecidos, os inaudíveis que, hoje, estranhamente se lhes escutam as vozes já roucas de gritar por toda e pela vida; são os que metem medo; os que fazem encarar a vida com a certeza de que nem tudo anda bem, apesar do futuro que sempre se anunciou próspero; são os que agora cobram a sua parte da riqueza que todos os dias faz manchete nos jornais; são os que lavam os carros dos aspirantes à classe média, no centro da cidade; a mãe tem a idade da constatação e do pânico, distópico, como diria nas palavras que vem praticando na língua que procura afiar, a ver se arruma um emprego de jeito, por isso poderia continuar a caracterizar, mas faria de tudo para não tratá-los por vândalos, como nos noticiários.

    Abre a janela e rouba o olhar à rua; a filha imita-lhe os gestos. 

    — Eles estão a dizer povo no poder, mãe.

    — Sim.

    — O que dignifica isso?

    — Significa, filha.

    — Isso mesmo, mãe.

    — O quê?

    — Povo no poder.

    E esta, agora, pior é que se não respondo ela não se cala. Devo agora traduzir o que diz a letra da música, ou o que sai da boca dos manifestantes; nem eu sei muito bem o que dizem. Postos os instantes de reflexão e discussão com os seus sentidos, disse-lhe que é letra de uma música que agora é usada por manifestantes que reclamam o poder. Um tal de Azagaia é que a cantou, dando uma outra vida às palavras de Samora Machel. A mãe não podia dizer esses nomes à criança que ia perguntar a seguir sobre esses homens. Não há tempo para biografias, nem verificação dos factos. Factos, essa palavra é outra que traz consigo problemas, rima com a verdade, é parece que ela agora só vem de uma só voz, o que a mãe também acha um perigo. O perigo de uma história única que tanto ela aprende agora a combater no final do seu curso superior; agora que ela aprendeu que a verdade não virá de uma só boca. A mãe também está confusa, é o que pelo menos acha, ela pelo menos não tem certeza de nada, talvez por isso é que lhe custa dar certas respostas.

    — Mãe, o que digni…

    — Significa, sig-ni-fi-ca. sig, sig…

    — O que são manifestantes?

    Manifestantes são pessoas nas ruas que não estando felizes com alguma situação decidem mostrar a sua insatisfação. Por outras palavras, os que não se conformam com a ordem estabelecida. Apesar do esforço, a mãe sempre se complica, afinal, não é todos os dias que se vê essa gente, nem se debruçam sobre esses termos. Manifestantes, protestatários, protestantes, vândalos, indignados, revoltantes, revoltosos, rima com faltosos, mas estes estão presentes e não são uma pedra no sapato, eles até lançam pedras contra balas e o caos semeiam. 

    — Por exemplo, aqueles ali — apontou para a rua — querem justiça eleitoral, verdade eleitoral e dizem que o candidato no qual votaram é que ganhou eleições.

    — Eleições é que aquilo de ir pintar o dedo que mãe disse está ir escolher o presidente?

    — É isso mesmo — ela sabe que não é bem assim, mas quer sair de uma vez da encruzilhada. 

    Afinal, agora já não sabe bem se votou ou não, se escolheu um presidente ou não. Certa mesmo, está que pintou o dedo, recebeu três boletins de votos em que marcou-lhes com um xix num símbolo e num rosto e que esse acto significava quatro escolhas, a escolha de um presidente da República, deputados da Assembleia da República e da Assembleia provincial e daí um governador da província. Mas hoje já não está muito certa disso. É que já passou tanto tempo que se esqueceu até das opções que tomou.

    A mãe dá uma pausa quando apercebe-se que a filha tem a cara desfeita em rugas, a boca virada para um lado em estranheza do que a mãe diz. Mas o que está para aí a dizer a mãe? Cogita a criança; outros vários porquês devem estar a reproduzir-se na sua mente e logo se vão deitar para fora, para a consciência da mãe.

    — Mãe, porque não estamos lá fora nós também?

    — Porque estaríamos lá fora?

    — A mãe não quer justiça?

    Esta não vai parar de fazer perguntas, diz a mãe, já com sinais visíveis de intriga e cansaço. A pergunta faz o inevitável eco por dentro. Mas convém ser honesta, perante a insistência.

    — Não sei, filha. Eu não sei.

    — Mas a mãe diz que sempre sabe.

    — É para dizer-te o quê?

    — A verdade?

    Verdade. O que virá a ser isso? Tenho 30 anos, boa parte dos quais como aluna e estudante, já sonhei com uma carreira, um projecto, tenho duas filhas e tenho-lhes na mão e no peito como um sonho a se colocar em prática, com os respectivos orçamentos em constante ajustamento; que lhes posso sonhar? A cabeça da mãe gira. A mesa está posta. Três fatias de pão, três rodelas de palone comprado na rua nestes dias — não terá sido daquele camião que vinha da África do Sul, atacado no meio da rua? —, três chávenas, um pacote de five rose, três colherinhas de açúcar, e várias penumbras. Quanto tempo se vai aguentar dentro de casa, com estas crianças a fazerem perguntas. 

    — Mãe, nós já não vamos à escola porquê?

    — Porque será? —  devolve-lhe a pergunta a sorrir.

    — A professora diz que é por causa da manifestação.

    — Sim.

    — Não vamos voltar mais à escola?

    — Não sei.

    — Assim é bom, mãe?

    A mãe afasta a chávena de chá em direcção à criança. E o pão com o palone frito. A criança recebe e dá uma mordida gulosa. A mãe hoje tem orgulho do jantar que parece um alento no meio da incerteza. Não se lembra de quando comeu um palone. São as realizações deste tempo que vem com o som dos apitos e vuvuzelas. O coração da mãe bate descontrolado, como se um sino tivesse tocado a recordar-lhe as perguntas que ficou sem responder. Lá fora parece que os inaudíveis ganham mais voz e parecem terem se decidido parar à sua porta. Os invisíveis estão cada vez em maior número e parecem exigir as mesmas respostas que a sua filha. Até quando isto vai durar?, pergunta-se a mãe.

    — Mãe, o que eles estão a cantar agora lá fora?

    Com que palavras poderá ela traduzir a canção dos invisíveis? Como dizer a filha tudo o que gritam aqueles homens e mulheres que enfim acharam o seu lugar no mundo e a sua voz já se escuta; abrem finalmente os noticiários, dedicam-lhes horas e horas de emissão na televisão, páginas inteiras de jornais, estudiosos de todo o tipo procuram compreender o refrão dos seus cânticos; como dizer para a filha tudo, palavra à palavra, o que cantam, na língua do povo, com todas as suas metáforas e inúmeros significados? E depois de dizer cada palavra, como responder os porquês que virão à seguir? Como se a criança imaginasse o tormento da mãe, volta aonde tudo começou.

    — Eles dizem povo no poder, de novo.

    — Sim filha, isso quer dizer que nós votamos, nós decidimos o nosso destino…

    — E o que dignifica destino?

    Manifestantes a tocar panelas e outros utencílios num prédio em Maputo | Fotografia: Adelium Castelo

    Decidiu não trocar-lhe as voltas com a palavra “dignifica”. E se realmente fizer sentido, o que dignifica o destino? O que dignifica o povo no poder? Nunca essas perguntas chegaram a fazer sentido como agora fazem, no emaranhado de sensações em que se encontra. No final, pensa como se respondesse à filha, dignidade, é o que cantam os invisíveis. Concluindo seu pensamento, levantou-se, pegou na panela e bateu-lhe com uma colher de pão. A filha bateu na mesa com as próprias mãos e fez tremer as chávenas, as colherinhas, a tigelinha de açúcar, o pão, o palone; e como se a mesa também reivindicasse a dignidade, foi-se abaixo, deitando tudo que havia sobre isso no chão de cimento queimado; a mãe bateu na panela com mais força; o colher de pau partiu-se em protesto; a filha dançou no frenesim, lá fora os homens e mulheres, expandiram os gritos em como se tratassem de uma plateia em êxtase com aquele espectáculo familiar.  

    Maputo, dezembro de 2024

  • A Nação existe

    Vamos obrigar-vos a perceber o ridículo que foi vocês todos a agitarem a bandeira e a cantarem o hino nacional. Vamos provar-vos que vocês não são mais do que corpos sujos e fétidos. Que valem tanto como carcaças de animais esfomeados.

    Han Kang, Atos Humanos

    Manifestantes, em Maputo, em cima de um “chapa” Anjo Voador – Preça dos Combatentes. Fotografia de Ildefonso Colaço

    A estação de Infulene está à vista. Luís Cabral também. Um coro de apitos vem acompanhado de vozes roucas, mas sem cessar a sua tarefa: desçam, desçam, xikani, ordenam. Três homens, dois deles adolescentes. Corpos a suar aos cântaros; de chinelos nos pés que crescem a cada passo. O comboio era uma jiboia morta. 

    — O comboio é nosso,  saiam, afinal porque não ouvem? 

    Infulene

    Desci os altos degraus até às pedras que me receberam com hostilidade; dentro das sapatilhas castanhas, velhas, mas resistentes e complacentes com a economia necessária dos dias, os pedregulhos anunciavam a sua “insistente presença”, pelos próximos 30 km que alguns de nós irá percorrer de volta para casa.  Alguns passos dados de volta à procedência, olhei para trás e me convenci, o monstro que anda nas linhas férreas, estava tomado. Assim o corpo iniciava uma experiência do poder popular dos invisíveis que decidiram ganhar uma voz.

    Trevo

    Uma multidão ocupava os trilhos em substituição do fluxo de comboios habitual à hora matinal das 7. A “cobra metálica” — assim o apelidaram os da estação de Nkobe  — cuspiu-nos quando sucumbiu nas malhas dos manifestantes. Nas bermas onde mora boa parte desses invisíveis, porquem os dias se definem pelo ruído das carruagens em velocidade, outra multidão assistia à procissão dos descrentes das ordens de paralisação. 

     — É também por vocês, pela melhoria dos vossos salários, das vossas condições de trabalho, pela dignidade, que fazemos essa luta.

    Machava-Sede

    E as pedras cresciam no meio do caminho. Isso não é uma metáfora drummoniana. Éramos muitos a caminhar como almas doentes em processo de purificação; tinha ser feito o caminho, quanto mais longo e dolorido que se revelou, melhor, assim se aprende a amar de novo o país, numa cidadania que já não é do futuro; a verdade não podia estar mais escancarada; a Nação existe e exala o cheiro dos invisíveis; a Nação existe e ressurge em cada grito de ordem dos inaudíveis do quotidiano nada equitativo — olá Craveirinha.

    Esta é a marcha que a verdade nos impõe; a verdade que dói, e sinto-a em cada passo, em cada gota de suor que cai entre as pedras que vou pensando enquanto conto as estações.  

    Liberdade

    Um amontoado de areia. Uma camiseta vermelha balança em pedaços de paus cruzados em sinal de cruz. Uma vênia se nos é cobrada. Gotas de águas se nos deitam nas palmas das mãos até que atravessam os dedos para irrigar as folhas secas sobre a areia, numa imagem nos lembra as sepulturas abandonadas do cemitério de Lhanguene, lá dos lados de Xinhambanine, onde os vivos se recusam a render-se aos falecidos.

    Daniel

    O cheiro forte das mangas podres lembra o ciclos da vida; os pés já não obedecem o desejo autoritário de chegar à casa, onde a lamúria de todas as desgraças espera; o corpo encontrou as próprias razões de ser; sinto a crescer a pátria nas veias e no coração que se comove, quando no meio da caminhada que vai longa, um homem interrompe o silêncio dos peregrinos.

    — Eles também exageram. Anos e anos de exagero. Foi demais.

    Pela primeira vez, os meus pés duvidaram do percurso. O que nos espera o destino?

     — Toma uma manga, mano, isto tudo é nisso  — saboreei com apetite o fruto da época.

    Matola-Gare

    Homens, mulheres e crianças, com garrafas de refrigerantes nas mãos, uma ideia de ostentação que só não alcança o luxo que desfila à solo, dos mercedes-benz’s, kias, e outros bichos de quatro rodas, antes imagináveis em sagas como Transformers; quando olhei nos rostos de cada um dos showfistas, iam se parecendo todos aos outros que tomaram o comboio em Infulene, mesma alegria, mesmo sentido de pertença; vieram-me os dezembros da infância, que se resumiam em duas datas, 25 e 31, na alegria mais sincera que já vivi por um fim de ano, cuja fantasia residia numa fatia de bolo, arroz de cebola, salada de tomate, frango assado e uma fanta, apenas possíveis nessas duas datas do ano, como recompensa pelos dias de água, trigo, sal, açúcar e algumas verduras; tinha a imagem nítida do quintal da casa do meu pai, quando um homem disse.

    — Tudo isto para depois… nada!

    Quando ele disse “tudo”, voltei aonde tudo começou. E dei-me conta que não foi quando o comboio parou.

    Eduardo Mondlane

    Sexta-feira, Avenida Eduardo Mondlane. Meio-dia. Uma a uma, as pessoas foram se dando as mãos, a eles se juntou um grupo trajado de batas brancas, fardas verdes e azuis; um cordão formou-se a atravessar o alcatrão de margem à margem, e as vozes se elevaram em coro, a entoar o hino nacional; a pátria crescia-lhes por dentro até nas terminações das palavras audíveis em todos os cantos. 

    Num instante que não se viu a chegar, surgiram homens armados de farda castanha que fizeram cantar o coro das armas. As mãos da multidão se desfizeram, como um tecido que se rasga; o coro celestial substituiu-se com gritos e grunhidos de uma dor que só podia vir dos confins do inferno.

    Mesmo assim, podes te orgulhar, poeta, vieste de qualquer parte, de uma nação que ainda não existia. Agora ela emerge e cresce como um “canto de amor natural”.

    Eduardo Quive

    Matola, 12. 12. 24

    ___________________

    Texto inspirado nos acontecimentos vivenciados a 9 de Dezembro de 2024 e escrito para a fanzine do movimento L.U.T.O.

  • Cartografia da miséria: “o desamparo das flores”

    Mutiladas é o título da última obra do escritor moçambicano Eduardo Quive, lançada em Maputo, em Maio do presente ano. A obra é composta por 12 contos, narrados em 101 páginas.

    A miséria do mundo

    Ler Mutiladas recordou-me o modo como a obra Angústia do escritor brasileiro Graciliano Ramos foi escrita: a temática, o tipo de narrador e o facto de abordar a época vivida pelo seu escritor. No seu livro, aquele autor conta os dramas do comportamento humano, através de um narrador-personagem que denuncia modos de agir de pessoas a viverem no seu limite de humanos. A critica a essa sua obra, tem, repetidamente, afirmado que o autor “narra a miséria de estar no mundo”.

    Em Mutiladas, a miséria humana é analisada por um dos narradores introspectivo de Quive. O outro narrador, observa-a e relata-a minuciosamente. As acções têm lugar em espaços-representações de Moçambique (Maputo, Chokwe, Gaza e Matola), com reminiscências em Lisboa, por, a partir de lá, o narrador observar e abordar Moçambique. O comportamento das pessoas está na base dos contos. A época fabulada é contemporânea a do seu autor empírico, a julgar pela menção aos my love, aos grupos de WhatsApp, aos smarphones, aos memes, aos emojis, à verificação de status em redes sociais e a feminicídio. A temática do livro é focada no dia-a-dia, num género literário pós-modernista, marcado pela forma como o real e o imaginário são construídos, bem como o imediatismo e o pano de fundo de um texto com uma linguagem rente à dos médias electrónicos nos quais predomina a cultura de massas.

    Devastação, desigualdades e dores do mundo

    Logo a partir da cor da capa, que é negra, aliada ao seu título, somos avisados que a matéria abordada pode ter um teor pesado, fúnebre, triste. E é. Coadjuvado a isso e à sugestão de pano de fundo negro, os títulos dos contos, também, nos remetem à desgraça, nomeadamente: “Decadência”, “Três balas”, “A punição”, “Andar às voltas” e “silêncio”. Destaco este último título, pelo facto do silêncio ser sugestivo, tanto de dor, quanto de introspecção, quanto de desejo ou não de ficar sem dizer nada. Essa sugestão de fatalidade, na obra, é, entretanto, camuflada por um tom narrativo leve, de paródia e, por vezes, com recurso ao exagero – enquanto figura de estilo; o que torna a leitura menos dramática, embora acutilante. O título do conto “O cheiro das flores” foi apenas uma estratégia para poupar o coração do leitor; remete, à primeira, à ilusão da beleza, mas não é disso que fala. Trata-se de flores para abafar “o odor insuportável dos falecidos da casa de Sara”, cf. pg 64. A matéria é muito comovente.

    O narrador-personagem, na maior parte das vezes, concentra as falas dos personagens na sua. Faz um monólogo interior, abordando o presente, com alguns recuos para o passado. Vive lembranças, percepções, e, pelo tom com que escreve, denuncia realidades sociais actuais, ignoradas, na vida real, por quem de direito e de dever. É um narrador psicologicamente ruidoso, embora afável nas suas palavras escritas.

    A narrativa coloca o leitor perante dramas do quotidiano moçambicano e das suas misérias, vistos na perspectiva dos seus narradores. Critica aspectos aparentemente banais, que nos habituamos a viver, enquanto habitantes de países pobres, como se de problemas não se tratasse. Revela que há necessidade de se prestar atenção ou de se resolver dramas sociais, em contextos factuais. Mutiladas questiona a cidadania dos moçambicanos. A sua actuação enquanto humanos, na defesa da vida.

    O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporênea.

    Trata-se de dramas descritos com mestria. Aliás a descrição, a observação e a escuta, mostram-se fortes por parte dos narradores deste livro. No primeiro conto, intitulado “Decadência”, há um homem que não o é por inteiro, é sobra de homem, de tão doente que vive. A sua tosse é descrita ao pormenor. A sua esposa é uma sobra de um passado glorioso, portanto, também uma mutilação do que ela vivera, enquanto esposa. Há um cego que pergunta se os outros não têm olhos para ver. Há nisto um exagero, mas é para demonstrar o quão a sociedade narrada se encontra mutilada. Há, no segundo conto, intitulado “Três balas”, um bairro que vive o drama de tiroteios e de ladrões que roubam produtos básicos e de primeira necessidade. Um autêntico faroeste. E outra vez com recurso ao exagero, o narrador fala em alguém que foi morto três vezes. Trata-se de gente e de lugares devastados.

    As desigualdades, no livro, são narradas de modo recorrente, por exemplo, no conto intitulado “Uma história de família”, fala-se numa família que tem whiskeys com imensos anos de velhice e que tem bastantes televisores que não utiliza (uma família abastada) e outra família pobre, na qual há membros que utilizam o mesmo telemóvel. Nesta última, vive-se sem amor, disputando bens e vivendo desentendimentos que levam à morte. As desigualdades são também referidas no conto “Passeios da vida”, num texto no qual há meninos com possibilidade de se deslocar a um museu e outros, não. Essa impossibilidade é comparada distância que se situa entre os objectos colocados nas prateleiras ou paredes de um museu, que não podem ser tocados, apenas “sentir-lhes os cheiros e […] observar, experimentar e vivenciá-los”, cf. p.89. A desigualdade de acesso, faz lembrar a mensagem que se pode ler no poema intitulado “Fábula”, de José Craveirinha, e cito-o, só para contextualizar o que digo, mas é preciso ler Mutiladas para se perceber a razão para a qual o poema é chamado.

    Menino gordo comprou um balão / e assoprou / assoprou / assoprou com força o balão amarelo. // Menino gordo assoprou / assoprou / assoprou / o balão inchou / inchou / e rebentou! // Meninos magros apanharam os restos / e fizeram balõezinhos.

    Craveirinha (1995a:14)

    Angústia e o questionamento do status quo

    A Angústia que mais comove ou desconcerta o leitor, nesta obra, é o feminicídio. “Destina” e “Cláudia”, mulheres cujos nomes são, também, títulos de contos, são vítimas das sagas desta época. Barbaramente assassinadas por violação sexual, crime que, tal como o narrador o aborda, é depois relatado, por alguns personagens, como se nada fosse. Temos visto, em contexto real, em Moçambique, depoimentos similares aos mencionados no livro, agressores a falarem sobre a violação sexual, quase que sem culpa, sem arrependimento; como se de uma brincadeira se tratasse. O leitor é, nesta obra, confrontado com a banalização da vida e da morte, num retrato da sociedade moçambicana contemporênea.

    O tipo de crime narrado, recorda-me um outro, o dos raptos, fabulado por Miguel Luís, outro escritor moçambicano, na sua obra O Desamparo das flores. Ambas as transgressões suplantam a capacidade de contenção por parte dos agentes policiais em Moçambique, em contexto real. Vivemos, portanto, uma sociedade mutilada e a pedir socorro! A resposta aos gritos tem sido quase silenciosa, quase muda e sem expressão, ante o agravamento dos acontecimentos diários. Quive convida-nos a reflectir sobre o país que hoje vivemos, cheio de atrocidades sociais, desde as que parecem menores, até às de grande vulto que acontecem à luz do dia.

    O autor empírico de Mutiladas faz uma cartografia da dor e da miséria humana, com laivos de realismo. É inconformado com o “estado das coisas”. Nesta obra retoma o debate da sua anterior, intitulada Para onde foram os vivos, numa alusão ao abandono de corpos e de lugares, nos quais a violência, o silêncio ante a dor e o desespero tomam conta de todos. No conto já referido, o “Cheiro das flores”, do livro Mutiladas, o narrador mostra-se um bom ouvinte, a morte e a extirpação são o reflexo dos espaços nos quais se pode questionar onde é que andam os vivos, porque estes, vivem “mutilados no corpo e na alma” (cf. p. 63 de Mutiladas).

    Eduardo Quive é este escritor, poeta, jornalista, activista social e “agitador” cultural que acredita na arte como possibilidade de diálogo com a sociedade, através de uma linguagem, que sendo a habitual à do dia-a-dia, talvez ajude a repor a “ordem natural das coisas”. Esta obra demonstra o observador atento que é o seu autor empírico.

    A todos, desejo uma boa leitura. Esperando que o trabalho de Quive seja o grito que, juntando-se a outros que têm sido feitos, através de factos ou pela literatura, nos permitam viver uma sociedade livre da violência. Que a arte continue a iluminar a vida.

    • Sara Jona Laisse, docente na Universidade Católica de Moçambique, em Maputo. Membro do Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

    Maputo, Maio de 2024.

    Fotos do evento de lançamento captadas por Adelium Castelo

  • Evento de lançamento do livro “Para onde foram os vivos” de Eduardo Quive

    Foi um momento de festa, encontros, reencontros, abraços e afectos, para receber o mais recente livro, “Para onde foram os vivos” do escritor e jornalista @eduardoquive.

    O evento que teve lugar no Camões – Centro Cultural Português em Maputo contou com a apresentação do livro pela professora doutora Teresa Manjate, que afirmou, em análise à obra, que tal como não se pode julgar o livro pela capa, não se pode julgar este “Para onde foram os vivos” pelo volume. “É um livro com poucas páginas, mas muito denso e profundo”.

    Mais do que palavras, deixamos aqui o registo fotográfico feito por Adelium Castelo.

    Pode adquirir quantos exemplares quiser do livro entrando em contacto: +258 270 6548 ou pelo e-mail: viceversaideias@gmail.com

  • Ou então amaremos a chuva

    Sempre que chove o passado visita-me. Delírios e traumas. A êxtase e a angústia. O sonho e a insónia. Infelizmente, em todos os casos, quando é de noite a chover, não consigo dormir. 

    Vêem-me as ruas de onde nasci e cresci. As poças de água que ficaram nossas praias, como a praia Landinha, por exemplo, ali nas zonas baixas entre Patrice e T3, onde também íamos pescar para depois chegarmos em casa, passados dias, vermos o que pareciam peixinhos a se transformar em bichos estranhos que nos atormentavam por longos dias de pesadelos e gozação dos mais velhos.

    Frequentei aquelas zonas baixas quase toda a adolescência, muitas vezes sem que os meus pais e meus irmãos soubessem, porque as consequências seriam dolorosas. Quando chegou a vez de ir ao pré-universitário na Zona Verde, entre colegas e amigos, cruzamos aquelas zonas todos os dias com os pés trocando os passos de cansaço e desespero, fome disfarçada enquanto ou íamos para a escola ou íamos passando em busca de histórias para reportar, quando já marcava passos para o jornalismo. Eram passos largos e cheios de certeza, sol a sal, como diria o poeta Léo Cote.



    Mas quando chovia ainda mais novo,  a vida se dividia. Em casa, anunciava-se a chuva e já apontávamos as tigelas,  baldes e bacias entre buracos das velhas chapas de zinco que faziam o teto. As camas, as poucas camas que tínhamos, eram encostadas nas esquinas onde provavelmente não caíssem as gotas de chuva. Ainda tínhamos algumas roupas velhas para sugar as águas que escorressem as paredes. Chagava a hora em que vamos dormir. Chovia. Chovia torrencialmente. Na cama ou na esteira onde muitas vezes foi onde pousei o meu corpo ossudo, vinham as gotas e depois se transformavam em torneiras descontroladas. Nos levantávamos para reposicionar as camas, as esteiras facilmente ficavam molhadas, então se tornavam inúteis. As tigelas enchiam logo, os baldes e bacias não cabiam para os buracos que pareciam aumentar de tamanho. 

    Nesse momento me recordava da frase motivacional dos velhinhos da zona, “aku neliwa niku pfuteliwa aswi fani”. Essa língua que pela infância afora falei só palavras algumas, percebia que o que diziam era, “vale a pena um teto a gotejar que estar sem teto” ou, por outra, “molhar na chuva ao relento não é o mesmo que por debaixo de um teto com buracos”. Na verdade, passei a vida sem compreender o sentido da expressão, fui compreendendo, porém,  que a chuva era um karma. Dentro da casa, angústia e desespero, lá fora, nas águas que se juntavam nos buracos e valetas, era uma festa. Nós que nunca ou raramente íamos à praia, tínhamos ali a nossa praia. Nós que nunca vimos um rio, para além do que mostravam os livros, tínhamos os rios, fartos de água a correr pelas extensas ruas até invadir as casas ou ir desaguar na zona baixa onde os campos agrícolas transformavam-se num mar cinzento com coisas a flutuar, as couves e alfaces arrancadas da terra, garrafas  e sacos plásticas, eram das coisas mais visíveis.

    Um dia a chover, como hoje, foi uma fotografia a decompor-se, enquanto andava pelo comboio em direção à Estação Central de Maputo. Fui vendo homens, mulheres e crianças mergulhando indiferentes nas águas.  Há semanas ainda andavam aos saltitos. Agora mergulham, passeiam e até se sentam e se deitam nas águas, procurando não deixar que a vida se turve no dilúvio. Sobretudo as mulheres, nota-se o seu ar de cansaço, certamente de dias de insónia e trabalhos de limpeza. Olhava tudo enquanto o comboio deixava fazíamos seguir em frente, como se abandonasse o passado. Porém as imagens se repetiam em câmara lenta. 

    Nesse retorno ao passado, veio-me à lembrança, o dia em que conheci o poeta Lopito Feijó. Era dia de quase chuva em Maputo, ano de 2011. Estávamos algures na baixa da cidade e o levamos até ao Jardim Tunduru onde fazíamos a exposição de poemas que chamamos “Poesia nas Acácias”. O poeta perguntou-nos, ao ver que os poemas estavam impressos em cartolina simples: e se chover, isto não molha? Respondi-lhe que contávamos com a sorte. E ele respondeu, ou então amarrem a chuva. Para o meu espanto, apesar de estar familiarizado com isso, justamente eu que apenas tenho diferença de um ano e cerca de três meses com a filha mais nova dos meus pais, fiquei apenas a contar as árvores e a mirar o céu que estava cada vez cinzento. Hoje penso mesmo, alguém terá de mudar o ditado dos velhinhos do bairro ou, então, amaremos a chuva.

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  • O Cine África e o sonho teatral

    Algures, numa das minhas vidas, fiz teatro. E sinceramente, cheguei a acreditar que era mesmo um actor, que era o senhor dos palcos, capaz de colocar em pé uma imensa plateia, aos aplausos e delírios depois de ver-me em êxtase a contracenar. E os passos que dei levaram-me a essa crença. Não era só uma questão religiosa era mesmo obra. Desde a minha quinta classe, na Escola Primária Patrice Lumumba, nos confis da Matola, até por aí, décima classe, na Escola Secundária São Dâmaso, andei em palcos e em grupos de teatro que realmente eram a principal atração nos eventos escolares. E mais, chegamos a granjear simpatias e a ganhar coisinhas interessantes, na altura, em eventos e festivais Matola a fora. Desde o festival Mogás que era uma referência na altura, aos eventos do dia do município, que muito me lembra a utopia e a forma apaixonada com que Carlos Tembe vivia a sua cidade, Matola no Coração. Chegámos a vencer a fase distrital para o festival nacional da cultura. Chegamos a fazer algumas viagens, inclusive, quando fomos conhecer as montanhas onde tombou o avião matando o papá Samora. Sinceramente, no sonho maravilhoso que vivi, acreditei mesmo que era no teatro que se fazia a vida. Cheguei a ir para um casting no Gungu, acreditem, a insanidade era tão grande, a ingenuidade é corajosa, contradizendo o meu amigo Matiangola que se referia nesses termos sobre a ignorância. Sim tenho uma ingenuidade corajosa. Ou talvez tinha, porque a dado momento e porque não passei ao casting, talvez seja, os tipos que eram encenadores foram ficando velhos para sonhar, precisavam ter certezas, ficaram polícias, professores, foram sumindo para lugares distantes, tão longe que hoje são memória. Antoninho, por exemplo, morreu poucos anos depois de ter sofrido um grave acidente de viação, uma camioneta o arrastou bem ao meu lado, enquanto falavamos de “pitas”. Os outros, outros ficaram funcionários públicos, para garantir a reforma.
    Nessa ingénua e corajosa infância e adolescência, sonho mesmo era que um dia actuassemos no Cine África, a Catedral das Artes moçambicanas. Todas as vezes que subia um palco por mais raso que fosse e estivesse quase de braços com a plateia, eu sentia-me bem lá, em cima, com uma imensa plateia de cabeças levantadas e olhos arregalados, viajando no meu espectáculo. Meu irmão chegou a apresentar-se ali no Cine África, lembro-me do dia, como não podia? Não fui convidado ao espectáculo. Fiquei em casa só a imaginar enquanto lavava loiça e cozinhava. Ainda fiz vénias quando tirei as panelas do lume para me servir e comer.
    Hoje passei do África, veio-me a saudade e o sonho, a angústia e a desilusão. O que o tempo e a vida fazem… o África está num silêncio sepulcral. Não dorme. Está simplesmente inerte. Indiferente. Ausente e diluido, como a outra vida que vivi… Não deixo de estar triste. Nunca, aliás, me dei conta da tristeza que me dá o Cine Teatro África, naquela ausência e Indiferença!

    memorias #historiadevida

  • Rui Trindade: O perfil de um homem à frente do seu tempo!

    Este é o artigo que anuncia o festival Maputo Fast Forward 2022 e que custou-me a escrever. Escrevi-o já em Lisboa, sobre um homem que desde que nos conhecemos, as nossas conversas e o trabalho que fizemos juntos, foi sempre a surpreender pela irreverência. Desde 2018 que trabalho com Rui Trindade, colaborando para o MFF e os projectos integrados, sempre na área de comunicação, fazendo oficinas de formação de jornalistas em novas métodos de jornalismo na área multimédia, produção de conteúdos e ainda por dentro da programação do próprio festival.

    Não me esquecerei que no próprio ano que nos conhecemos, 2018, primeiro o Rui fez-me uma entrevista que foi publicada na revista Índico, da LAM, onde ele colaborava. E de seguida, por sua iniciativa, o MFF financiou a impressão de uma edição especial da revista LITERATAS. Uma edição efectivamente especial para nós, pelos conteúdos de qualidade e atemporal que apresentams. Daí para frente foi sempre pé no acelerador, com coisas novas e diferentes.

    Não foi tudo pacífico, nem entre nós nem comigo próprio, na minha cabeça, onde não cabiam todas as suas ideias, que tive, muitas vezes, de perder horas e dias de leituras e pesquisas para tentar chegar perto do que ele pretendia. Em muito, ser jornalista muiltimédia e o trabalho que venho desenvolvendo como curador e programador literário, deveu-se a este homem.

    Não, não honraremos os mortos como pensamos, o Rui nem acreditava nisso, era de uma sensatez às vezes brutal com a vida e com os vivos. Mas seremos nós pessoas diferentes pelas experiências que vivemos, todos os dias, se nos permitirmos. Aproveitem para conhecer todas as ideias de curadoria e programação do festival Maputo Fast Forward 2022 que se introduz com este artigo. É uma dessas experiências que devemos nos permitir.

  • Dois Corpos

    Pela estrada onde as pessoas passam falando em línguas estranhas, trajadas de várias cores, como de resto são os seus corpos, duas pessoas se destacam indiferentes e alheias a tudo que se passam ao seu redor. As damas que, de pé, iguais à estátua que se esconde do seu olhar, fazem honras ao Museu da Presidência da República.

    Seus corpos esculturais, numa semiótica do tempo indeciso, mais ou menos intemporal, enquanto um casal com duas crianças, únicos naquele lado do passeio, entusiasma-se com toda aquela aparatosa ao mesmo tempo estranha ausência de movimento, em duas almas que certamente sentem o que sentem e pensam o que pensam; que movem-se, certamente no invisível e indecifrável território interior. Pára, o casal, contempla as damas imóveis que continuam alheias ao admirar de quem está de passagem e fala numa língua que não é de Camões. As crianças fazem perguntas. Os dois adultos perguntam-se também entre si coisas que não saberei dizer. E ficam ali numa zona da indecisão ou de ruptura, entre a contemplação e o apoderamento. Decidem-se por captar o momento, levar consigo nos seus aparelhos. Mas não disfarçam a estranheza que sentem com tamanha indiferença, quase desumana daquelas duas figuras. Estranham também o andar do resto de gente que não se comove com a indiferença, com a ausência de movimento em corpos que, apesar da farda e do chapéu a endurecer a paisagem, tem um certo charme, um certo ar de elegância e ao mesmo tempo de uma rigidez.

    E sai a mão da bolsa com um telemóvel. A decisão demorou alguns segundos. Foi se levantando o braço como se pedisse permissão. Permissão concedida com uma silenciosa unanimidade das esculturas expostas, trajadas de botas pretas, calças brancas ajustadas ao corpo, traçando o caminho entre as pernas e a cintura, as luvas brancas nas mãos fazem o traçado sobre essa cintura por onde está suspensa uma espada e um cinto, segurando o casaco azul, com um chapéu com os pelos que se parecem cabelos loiros a descair sobre os obras.  

    E tiram a selfie. Vêem que não acontece nada. Os dois corpos continuam ali, imóveis, com os olhos mirando o horizonte. E tiram outra selfie. Agora sorrindo. Acenando. Com as cabeças intrometidas no intervalo que separa os dois corpos, ali, presentes na ausência. Olham para o resultado no telemóvel. Passam o dedo no ecrã. Uma vez. E outra vez. Mais outra. E outra. Não gostam. Seus corpos de mistura asiática e tropical não se vêem como deve ser na foto, só pode ser. Então aproximam-se mais das guardas. Agora os corpos estáticos quase entre olham-se, como se espreitando na selfie. E crac! Foi só uma vez. Visualizam a foto. Riem-se, contentam-se com o resultado. Viram-se para as esculturas humanas e acenam um provável agradecimento. Ou um adeus possível, para dois corpos que chamam a atenção dos transeuntes de todas as origens, mas querendo-se insignificantes. Será um adeus Leonor e Ester? Um adeus Maria ou Celeste ou adeus Mariana e Catarina? Quem se importa? O que dizem os nomes?
    E as duas mulheres acabam de consentir com o mundo a passar diante dos seus olhos, a fazer poses, a selfar, a falar numa estranha língua, a esboçar sentimentos, quase bailando sob o seu nariz, iguais as moscas inocentes na sua inconveniência. A lei da vida fazendo sentido. Parados o mundo avança.  Enquanto isso, seus olhos estão sobre as costas de um tal Afonso de Albuquerque. Penso enquanto espero o 728 que me vai levar para Cais do Sodré. Quem deverá ser o senhor que dá as costas àqueles corpos, preferindo olhar para o rio, para os comboios que de vez enquanto quebram a monotonia dos ritmos dos peões e de ciclistas que passam além?

    25.08.22, Belém

  • Gabriel Chiau, tanto faz se falecer não é morrer!

    Estava de pé no pequeno murro que impede os transeuntes a cruzar a casa de madeira e zinco, num asfalto que quase pede licença ao quintal de areia, na Av. Marcelino dos Santos.

    De um chapéu na cabeça e um casaco axadrezado, com uma bengala na mão, vê-se o corpo de um homem que levanta a cabeça – quão rítmico é o seu gesto – para ver se vem aí alguém no meio de uma multidão que, por tradição e hábito, passa encostada pelo murro há anos.

    Um homem que quis o destino que se destacasse num bairro cheio de gente e que se torna difícil olhar para um único ser sem que outro chame atenção. Eis o conhecido Chamanculo que não se verga à grande capital com assuntos da nação por resolver.

    Via ali o Gabriel Chiau, com quem falei ao telefone, para um encontro em que se dariam dois acontecimentos apenas com sentido para nós dois. Conheceria em pessoa um músico que sempre intrigou-me ouvi-lo, teríamos uma conversa gravada em vídeo para publicar num canal de televisão.

    Enquanto percorria a longa avenida feita de pavês, quais ventos de mudança a levarem-nos para um Chamanculo asfaltado, como nunca imaginaram os nativos, ocorriam-me na cabeça as coisas que se passam quando oiço a música de Gabriel Chiau, o homem que, não muito longe, se encontra à minha espera para conversa.

    Chiau pode considerar-se um músico feliz. A sua obra era mais conhecida que o criador. As suas músicas são por aí cantadas e pouco se conhece o seu nome, uma justiça artística, que não permitiu que o autor vivesse grandes vaidades no mundo em que quem faz conta mais que o feito.

    Não seja por isso. Gabriel Chiau era um homem vaidoso, estiloso e de gostos apuradíssimos. Conhecê-lo pessoalmente permitiu-me concluir isso. Um músico fora do comum, um cultor da música erudita que se colocou na boca do povo, sem que gritasse o seu nome.

    As suas composições simples, escondem um estiloso compositor, um homem apaixonado por clássicos do blues e do jazz, que procurou traduzi-los para que povo compreendesse-os sem estranhar o erudito.

    E ia já perto o momento do nosso encontro. Aproximei-me ao portão pintado a verde que nem foi preciso esforço para abri-lo. Estava ali Chiau para receber-me, calmo, e sempre preocupado com as pessoas que passavam pela rua, saudando alguns e acenando para outros. Sentamo-nos na varanda e trocamos palavras. Palavras simples, buscadas de longe, mas sem esforço, quase obrigando-me a falar dos seus clássicos como se recusasse a autoria das suas obras.

    Entre perguntas e respostas, Chiau ia se permitindo fazer pausas para contar estórias, encenar alguns acontecimentos ou interpretar algumas músicas que definem a sua abordagem de vida. Enquanto falávamos a mente não evitava algumas ilações. Chiau canta para si, pela paixão e amor à boa música, pela alegria da vida e em poder tocar e cantar. A sua música era uma resposta à sua saudade, uma necessidade de partilhar essas todas sensações com quem lhe queira dar ouvidos. Por isso que se permite cantar com as influências do blues, mas intrometendo-se na marrabenta do povo. E as suas canções viraram hinos, sem envaidecê-lo, mas vaidoso já era. A sua satisfação vinha do que experimentava e percebia que resultava.

    Morreu cantando, mas não para o povo, era de se vaticinar esse fim, nestes tempos em que tudo se virou para as cantadas crises na arte. Onde já não há ouvintes para boa música e leitores para boa ficção. E então, decidiu manter o povo embalado nos seus clássicos, sem tirar a beleza ao seu sonho. O seu trompete, os seus coros, em fim a sua orquestra, quem se reunia apenas para partilhar alegria e a paixão pela música, a boa música. E a casa de madeira e zinco de Chamanculo ali continua. Talvez um dia vá ceder para a modernidade, mas ali viveu Gabriel Chiau e cantou para si mesmo o que se tornou popular. Ainda se repete, desde que soube da sua morte daqui da casa em que se transformou asilo, repetem-se as imagens e palavras do nosso encontro. O vídeo esse que gravamos partes da nossa conversa, não existe mais, foi-se com o tempo das cassetes.